21 setembro, 2009

O Brasil aposta na violência em Honduras.

Manuel Zelaya saúda apoiadores em frente è embaixada brasileira em Tegucigalpa. Foto: Reuters

A notícia pegou a todos de surpresa. O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, entrou clandestinamente no país e está sob a guarda da embaixada brasileira em Tegucigalpa, capital de Honduras. De lá, com o patrocínio explícito do governo brasileiro, insufla seus apoiadores a marcharem até a capital para uma manifestação a favor de seu retorno ao poder. Zelaya sabe que se a marcha acontecer - e vai, meus amigos, acreditem! - o confronto com o exército e as forças de segurança será inevitável.

Um banho de sangue! É isso que Zelaya, Chávez e o governo brasileiro estão a procurar Querem mortos para exibir. Querem mártires para a sua causa. Querem, como os terroristas do Hamas ou de Hezbolah, usar os civis inocentes como troféus. A prova está na declaração insultuosa que Zelaya deu dentro da embaixada do Brasil: "A partir de agora, ninguém voltará a nos tirar daqui. Por isso, nossa posição é pátria, restituição ou morte".

O presidente Micheletti, que foi eleito pelo congresso do país após a deposição de Zelaya, reagiu de forma polida, mas dura ao papelão do governo brasileiro. Lembrou ao governo do Brasil que Zelaya é uma fora da lei e que o Brasil tem a obrigação de entregá-lo à Justiça hondurenha. Micheletti lembra que ao dar abrigo a Zelaya e permitir que ele insufle a população contra o governo e as instituições hondurenhas, nosso país viola os acordos internacionais.

O protagonismo do Brasil nesse caso não é tão somente um vexame, digno de uma republiqueta de quinta categoria. É também uma violação à nossa Constituição que proíbe expressamente a interferência do Brasil nos assuntos de política interna de outros países. É também um desrespeito à vida humana. Lula, Celso Amorim e os bolivarianos terão que carregar em suas biografias as manchas de sangue que, assusta-me e envergonha-me afirmar - será derramado nas ruas de Tegucigalpa.

Nunca antes na história desse país tivemos uma diplomacia desse nível.

Leia mais aqui.

5 comentários:

Leticia disse...

Zé Costa, fora do assunto: ontem fui ao lançamento do Magnoli e, já que você perguntou lá no Flanela, perguntei a ele sobre os próximos lançamentos: vai ter em Brasília também. O dia eu não sei, e acho que nem ele tem de cor. Mas é pra você ficar com atenção aí.

Abraço,

Leticia

Carlos Fayad disse...

E não é que já houve uma morte mesmo? Acertou na predição!

Lelec disse...

Oi Zé,

Não sei se você leu a coluna de hoje do Hélio Schwartsman, na Folha Online.

Foi a melhor análise que li até agora da crise hondurenha.

Criticando duramente a postura diplomática do Itamaraty e sem condeceder com o chavismo, o colunista mostra porquê o que ocorreu em Honduras foi golpe.

Deixo aqui o link, com o desejo de que lhe seja uma boa reflexão e, quem sabe, tema de um texto seu.

Abraço

Lelec

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u631371.shtml

Zé Costa disse...

Obrigado pelo link, Lelec.

Acabei de ler a coluna, e continuo achando, desculpe, que não houve golpe em Honduras. Se em junho passado, só o Reinaldo Azevedo achava isso, atualmente até o petista Dalmo Dalari afirma que a deposição de Zelaya foi legítima.

O jornalista da Folha considera que houve um golpe porque o cidadão Zelaya foi mandado para fora do país com o uso da força, o que a Constituição hondurenha proíbe. Já escrevi que considerei a ação do exército uma trapalhada, mas essa trapalhada não configura golpe.

Zelaya descumpriu o artigo 239 da Constituição. Zelaya desrespeitou a lei que proibe que se faça uma consulta popular 180 dias antes ou depois de um pleito. Zelaya deu de ombros para a lei e a lei o colocou para fora.

Quando o exército açodado foi prendê-lo em casa de pijamas para deportá-lo não o fez a um presidente legítimo, mas a um cidadão que foi deposto do cargo de presidente pela Suprema Corte do país.

Repito. O exército se atrapalhou no caso. Mas essa ação não macula a legitimidade jurídica da deposição de Zelaya, portanto, veja como sou teimoso, continuo afirmando que não houve golpe.

É claro que hoje essa discussão pouco importa. O que importa é que o país centro-americano encontre uma saída o mais rápido possível para essa crise que o nosso governo reavivou.

Lelec disse...

Caro Zé,

A julgar pelo que leio nos jornais, a imensa maioria dos jornalistas e dos governos ainda considera que o afastamento de Zelaya, DA MANEIRA COMO ACONTECEU, configurou golpe.

O que realmente mudou com os últimos acontecimentos na embaixada brasileira é que alguns dos que tinham simpatia por Zelaya (entre os quais não me incluo) passaram a repudiar seu governo, como o tal petista que você citou.

Mas o caráter golpista do que houve em Honduras continua sendo consenso – ao menos para o EUA, a União Européia, a OEA, a ONU e parte importante da mídia mundial.

Você assume que os militares hondurenhos erraram ao não prender Zelaya e não julgá-lo pelos seus crimes. Você assume mesmo que isso não é constitucional.

Só que você concede a isso um aspecto de mero “detalhe” nessa história toda.

E não é.

Afastar um governante (seja ele criminoso ou não), colocá-lo para fora do país e não julgá-lo, não é normalidade constitucional. E o que foge da normalidade constitucional é golpe. Se não, explique-me por favor o que é golpe.

Em regimes constitucionais, quem infringe a lei é preso, julgado e, nos casos pertinentes, condenado. Isso não aconteceu em Honduras.

O que o artigo do Schwartsman faz muito bem é mostrar que o que se passa em Honduras não é um embate entre defensores e usurpadores da democracia. Os dois grupos em oposição são bandoleiros, algo que o maniqueísmo rastaqüera do tio Rei é incapaz de dizer. Porque a leitura dele é tão ideológica quanto a daqueles que defendem que Zelaya tinha razão em fazer tudo o que fez.

Se há alguma coisas em que estamos todos (eu, você, Schwartsman) de inteiro acordo é que o comportamento da diplomacia brasileira nesse caso é lamentável, para dizer o mínimo.

Abraço