12 agosto, 2009

Virgílio capitulou?

Quando o senador Renan Calheiros leu da tribuna do Senado a representação que fez contra o senador Arthur Virgílio do PSDB do Amazonas, evidenciando o clima de chantagem que se estabeleceu nessa casa a fim de igualar a todos na mesma lama, escrevi ao senador Virgílio nos seguintes termos:

Ilmo senhor Arthur Virgílio.

Não é de hoje, muito menos por causa dessa triste crise de degradação do senado da república que envergonha a todo brasileiro sério e decente, que acompanho os discursos de vossa excelência pela TV do Senado.

Assisti, não surpreso, mas incomodado, à leitura da representação que o PMDB, na pessoa do líder Renan Calheiros, fez contra o senhor e que pede a cassação de seu mandato de senador e de seus direitos políticos. É estarrecedor que alguém como o líder do PMDB do senado tenha a desfaçatez, o cinismo de, por espírito de vindita, retaliar com tais ameaças suas ações contundentes a favor do afastamento do presidente do senador, José Sarney; a fim de que as investigações sobre as denúncias que envolvem o senador pelo PMDB do Amapá sejam feitas sem tutela.

A coragem, senador, está cobrando o seu preço. O senhor errou. Desgraçadamente errou. Ficará sempre a dúvida se o reconhecimento do seu erro deveu-se, antes de tudo, a divulgação do mesmo. No entanto, num ambiente onde a mentira tem prevalecido; onde as desculpas esfarrapadas são pronunciadas sem constragimento;onde as responsabilidades são sempre terceirizadas, sua confissão pública de um erro e a decisão de ressarcir o erário público com o próprio dinheiro, merece aplauso.

Não se cale senador. Não se cale. Não o conheço pessoalmente. Nunca o encontrei pelas quadras de Brasília, como já encontrei o senador Cristovam, Demóstenes Torres, Tião Viana e outros. Mas, e ainda que o senhor não leia esse e-mail, quero transmitir-lhe meu apoio, solidariedade e confessar minha admiração pelo senhor.

Lamento não poder um dia ter votado num homem público como o senhor!

Recebi, há pouco, pelo e-mail, em forma de mala direta, a resposta do senador Arthur Virgílio. Sua resposta, a se confirmar o acordo espúrio que a oposição parece ter feito com a base aliada para ficar o dito pelo não dito, é um ultraje àqueles que esperavam ver os bandidos punidos. Espero estar errado, senador. Espero mesmo.

Se ao senhor fosse dado perder o mandato e salvar o Senado garantindo a punição ao senador Sarney e a outros canalhas da espécie, acho que o senhor, para o bem maior, deveria perder o mandato.

Abaixo, o e-mail do senador Virgílio.

Caros Internautas,

Emociono-me e sinto-me confortado ao ler a pilha de milhares de e-mails que chegam ao meu Gabinete todos os dias, a maioria esmagadora compreendendo minha conduta e condenando, com muita força, muita indignação, a retaliação de que fui alvo por ter, desde o início – e até como voz quase isolada – exigido a apuração de irregularidades e ilegalidades ocorridas no Senado e a punição dos culpados.

Quem acompanha minha atuação sabe que fui o primeiro, quando da eleição da Mesa da Casa, no início de fevereiro, a pedir a demissão do então diretor-geral, Sr. Agaciel Maia. Apoiamos, nós do PSDB, a candidatura do digno petista Senador Tião Viana porque ele firmou compromisso com a bancada tucana de fazer a necessária reforma administrativa no Senado, e porque sabíamos – disse isso em plenário – que o Senador José Sarney não mexeria na Diretoria-Geral. Só afastou o Sr. Agaciel depois das graves denúncias trazidas pela imprensa e das cobranças que fiz.

Passei a reclamar não somente seu afastamento do cargo, mas sua demissão a bem do serviço público, assim como a do outro ex-diretor (Recursos Humanos), Sr. João Carlos Zoghbi, o que montou empresas de fachada para intermediar empréstimos consignados na Casa.

Depois, quando começaram a surgir denúncias envolvendo o próprio presidente da Casa, Senador José Sarney, pedi, primeiro, que ele se afastasse temporariamente do cargo para permitir isenção nas apurações, e, depois, o denunciei ao Conselho de Ética, para que fossem tomadas as devidas providências.

Não me moveu nenhum motivo pessoal, mas simplesmente a necessidade de resguardar uma instituição tão importante para a Democracia quanto o Senado.

Com isso, despertei a ira de toda essa gente, dessa verdadeira máfia. Passei a ser alvo de tentativas de chantagem e de ameaças, que foram se corporificando na divulgação de erros e equívocos em que também incorri – porque fazia parte de uma não mais admissível “cultura” da Casa – e terminaram pela vingança de representarem contra mim no Conselho de Ética.

Muitos, sob o temor da chantagem e das ameaças, silenciaram. Eu não! Assumi a responsabilidade por ter autorizado um funcionário do meu Gabinete a fazer curso no exterior e, mesmo sem ser cobrado, estou, por ditame de consciência, ressarcindo o Senado dos valores a ele pagos. Disseram que, por ter admitido o erro, tornei-me réu confesso. Se é assim, sou réu confesso mesmo. Não faço parte do clube da mentira, não alego que não sabia nem passo a terceiros responsabilidade que é minha. Não roubei, não desviei recursos da Casa, não passei para o bolso nenhum centavo público. Por isso, não me calo sob essa ou outras ameaças. Continuo exigindo a punição de quem cometeu gravíssimas irregularidades, a reforma na administração e nos costumes do Senado, enfim, limpeza geral na Casa, custe o que custar, doa a quem doer. Estou ao lado da imensa maioria dos brasileiros que não aceita mais uma instituição parlamentar presa ao passado, a antigas oligarquias.

Li emocionado mesmo, como disse, as mensagens de apoio e incentivo que recebi. Vi que homens e mulheres de todo o Brasil compreenderam que, apesar de haver incorrido também numa prática não mais cabível no Senado de hoje, tive a hombridade de por ela me penitenciar e não me deixar abater pelas ameaças e vendetas de quem está do outro lado. A Nação sabe bem quem está de um lado e de outro.

Aos que me escrevem com críticas, as acato democraticamente e aos que me enviaram sugestões, agradeço e parabenizo a intenção cívica de colaborar com um Senado melhor, mais transparente movido pelo mais autêntico espírito público.

Gostaria de responder às mensagens, uma a uma, mas isso não é possível. Por isso, a todos o meu MUITO OBRIGADO!
Continuarei na luta!
Cordialmente,
Senador Arthur Virgílio


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