11 agosto, 2009

A história e os fatos depõem contra o PT ou a Ética do fingimento.

O historiador francês Paul Veyne numa entrevista à revista Sciences Humaines, reproduzida, em parte, pelo Caderno Mais! da Folha de São Paulo, respondeu de uma forma bastante provocativa à pergunta se, na ciência histórica, há lugar para a verdade. Antes de reproduzir a resposta do historiador francês, permitam-me uma longa digressão.

Não são poucos os que acreditam que a História é a ciência das versões. Não existindo, portanto, uma verdade objetiva na história. Outros tantos chegam a tachar a narrativa histórica simplesmente de mentirosa ou, no mínimo, de tendenciosa, porque atende, segundo eles, aos interesses dos mais fortes, dos vencedores, dos ricos, etc.

As várias interpretações que existem sobre o passado, antes de ser um problema de objetividade da ciência histórica, é uma de suas maiores riquezas. É o que faz a História atrativa e viva! Nada seria mais nefasto para a História do que ela ser definitiva.

A razão dessas várias interpretações sobre as realizações humanas no tempo é que o olhar sobre o passado é diferente a depender das fontes utilizadas, da crítica aos documentos levantados, e, até mesmo, da época em que a pesquisa foi realizada.

As novas interpretações não significam, necessariamente, que as anteriores estavam erradas ou eram mentirosas. Significam apenas que o historiador, dispondo de novos recursos, novas fontes, novas ferramentas teóricas, conseguiu analisar aquele passado de uma forma diferente, quase sempre desafiadora e, em muitos casos, enriquecedora.

Essas novas abordagens tornam a pesquisa histórica viva e interessante. É clichê, entre os historiadores, que a história não é uma ciência do passado, mas do presente. Isto é, o historiador está sempre preocupado com problemas atuais quando investiga o passado.

Devido a essas características intrínsecas da ciência histórica, o vulgo, o leigo, costuma dizer que NENHUM relato histórico é verdadeiro. No máximo, representa a visão de um grupo, de um partido, de uma ideologia. Estão errados! Por mais que um grupo, um partido, uma ideologia tente contar a história de acordo com os seus interesses, eles jamais conseguirão negar os fatos. Podem, é claro, dar a esses fatos uma interpretação que lhes convenham, mas quanto maior for o malabarismo para ajustar os fatos à suas interpretações, mais eles tenderão a modificá-los, ficando assim, patentes, suas tentativas de corromper a verdade histórica.

Finalmente, os fatos, de onde deve partir qualquer análise séria, constituem-se a matéria-prima do historiador, do pesquisador, daquele que ambiciona apenar chegar o mais próximo possível da verdade. Distorcer os fatos, inventá-los ou reelaborá-los é típico daqueles que querem confundir, nunca daqueles que querem esclarecer.

Num artigo ao jornal Correio Braziliense, o ex-senador e ex-ministro do STF, o senhor Paulo Brossard, assim definiu a importância do fato numa pesquisa: “O fato é intocável e, como tal, deve ser apurado e respeitado; em sua interpretação cada um tem o direito de errar, mas, quanto à sua objetiva realidade, há de ser sagrado.”

Qual foi, enfim, a resposta que Paul Valéry deu para a pergunta se há ou não uma verdade objetiva na história? Leiam-na abaixo.

“É evidente que a história séria não pode colocar em dúvida a existência dos campos de concentração ou o desaparecimento das famílias judias nas câmaras de gás. Existe uma verdade no passado.

Mas não existe uma vocação humana para ater-se à verdade. Com a exceção dos historiadores que exercem sua profissão seriamente, as pessoas são capazes de negar as câmaras de gás ou de zombar delas ou, ainda, de inventar outras que não existiram.


Toda essa digressão tem uma razão de ser. Daqui a não sei quantos anos, quando alguém fizer a história da Nova República, a partir da eleição direta para presidente, em 1989, alguém terá que dizer que o Partido dos Trabalhadores, o PT, que surgiu no cenário político brasileiro levantando de forma radical a bandeira da ética e da moralidade, que antes de chegar ao poder, recusava-se, inclusive, a fazer alianças com outros partidos acusados de fisiologismo e corrupção, formados que eram por homens cúpidos, desonestos e corruptos; Esse mesmo PT que não media palavras, muitas delas duras, contundentes, para atacar adversários políticos, quando chegou ao poder, não importando a esfera: se municipal, estadual ou federal, não só repetiu os crimes e as práticas que acusavam existir nos outros, como as aperfeiçoou e as aprofundou. O corolário dessa mudança pode ser resumido numa expressão muito acertada do jornalista Reinaldo Azevedo que escreveu certa feita que antes, o PT dizia que ninguém prestava, só ele. Agora, o PT diz que ninguém presta, nem ele. A diferença é que os petistas dão aos crimes que eles cometeram, quando no poder, uma aura romântica. Como se dissessem: “ erramos, fraudamos, mentimos, mas foi tudo em nome de uma ética nova, pura e bem-intencionada. Fizemos tudo isso em nome do povo.”

Essa interpretação cínica que o PT dá e que seus correligionários no partido e na Imprensa oferecem como verdade, não muda, nem mudará os fatos. Basta se apegar aos fatos para desconfiar dessas interpretações. Existe uma verdade no passado. O PT apega-se a uma certa vocação humana, usando as palavras do historiador francês, a não ater-se à ela. Vou ficar apenas num caso recente:

Que partido, em 2007, salvou o senador Renan da cassação de mandato? Não há outra resposta: o PT! Na votação secreta do primeiro processo enfrentado por Renan Calheiros, o senador de Alagoas foi salvo pelas SEIS ABSTENÇÕES dos senadores do Partido dos Trabalhadores. Para ser cassado, Renan deveria ter recebido 41 votos. Recebeu apenas 35. Façam as contas! E como eu sei que os seis votos que faltaram para alijar do poder por oito anos um político como Renan foram do PT, uma vez que a votação é secreta? Ora, porque os próprios petistas confessaram que se abstiveram. O argumento dos senadores que se acovardaram, porque não tiveram coragem de votar claramente pela absolvição, por isso optaram pela indecência da abstenção (o que na prática significava absolver Renan), é que não estavam convencidos nem da culpa, nem da inocência, por isso decidiram abster-se.

Retomo esse fato para dizer que o PT do senado, esta semana, até pode votar pela rejeição do arquivamento de uma, de duas, de três ou de todas as representações e denúncias que pesam contra o Presidente José Sarney no Conselho de Ética da Casa. Será tudo fingimento. Ao fim e ao cabo, no Conselho de Ética ou no plenário de senado, o PT e os seus senadores, mais uma vez, vão salvar os corruptos, os canalhas de sempre, os locupletadores, as figuras que no passado mereciam os apupos das lideranças do partido e os impropérios de uma militância aguerrida e disciplinada, mas que hoje, porque do lado do governo Lula, merecem o apoio incondicional e desavergonhado dessas mesmas lideranças e da mesma militância que sempre será aguerrida e disciplinada, como se vê.

À oposição e àqueles que ainda sobraram um pouco de pudor, restará, se muito, a consolação de que José Sarney deixará o comando da casa dos horrores, apenas isso.

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