29 agosto, 2009

Vicente Faleiros, o faroleiro!

Poucas pessoas devem se lembrar de Vicente Faleiros. Mas todos lembram que em fevereiro desse ano, depois de um episódio de violência que envolveu alunos do Colégio La Salle da Asa Sul, um "especialista" que estuda e pesquisa casos de agressão à criança e ao adolescente declarou numa matéria veiculada no jornal on line da Universidade de Brasília que a culpa da violência daqueles meninos era da escola particular. Para quem esqueceu, o tal especialista é Vicente Faleiros.

Lembram das palavras que ele utilizou na análise do caso que ficou conhecido como A Briga do Parque da Cidade? Eu as guardei. Acompanhem:

“A rede privada de ensino escamoteia essa realidade, tem um tipo de cegueira para discutir o problema. Mas ela precisa abrir a conversa com os adolescentes sobre a problemática”, afirma o especialista em violência contra a criança e o adolescente. A omissão, diz, está relacionada à lógica de mercado dos estabelecimentos privados que se preocupam em conquistar cada vez mais clientelas.

Para alcançarem esses objetivos, declara Faleiros, elas tentam vender imagem de harmonia e paz às famílias.“Se eles apresentarem qualquer sinal de violência, os pais podem recusar em matricular seus filhos. Por isso elas resolvem os problemas escondendo ou expulsando os meninos quando praticam algum ato considerado violento”, analisa.

Por outro lado, afirma o professor, as escolas públicas estão mais abertas ao tipo de discussão, embora sejam palco de atos violentos de adolescentes. "É preciso impor limites. Eles estão no momento de construção da identidade e a escola tem que dar uma atenção especial para essa fase da vida", diz.


Por que volto a falar desse nobre especialista que também é professor do departamento de Psicologia da Universidade Católica de Brasília? Ora, para provar, novamente, que ele analisa os casos de violência nas escolas do DF debaixo de um submarxismo chinfrim.

No último dia 26 de agosto, três meninas da 8a série, entre 15 e 17 anos, do Centro de Ensino Fundametal 11 localizado na cidade do Gama, envolveram-se numa briga que levou a de 15 anos ao hospital com hemorragia interna devido a força dos chutes e socos que sofreu das rivais, quando brigavam a 200 metros da escola, num descampado.

A comunidade escolar, segundo a matéria, está chocada e com medo. Alunos, profesores e funcionários confirmam que as agressoras têm um histórico de brigas, desentendimentos e indisciplina na escola, e que por isso os alunos têm medo delas.

Instado a comentar sobre mais um caso dessa natureza, Vicente Faleiros dessa vez encontrou outra explicação. Não mais o deliberado recurso de esconder dos alunos e de seus pais a realidade da violência. Muito menos, a evocação da "lógica do mercado" que justifica, nas escolas privadas, escamotear casos de agressão e brigas para não afugentar os pais que assim evitariam matricular seus filhos nessas escolas. Quando a violência é na escola pública, o especialista vê outras causas.

Sobre o caso da escola do Gama, ele declarou: "a violência é a forma como os adolescentes encontram para resolver os problemas. “A relação entre a juventude está dominada pelo modelo de crime organizado, extermínio e ameaça. A turma incorpora a agressão como forma de resolver conflito”.

Como disse em fevereiro, repito agora. Ao analisar de forma tão díspare casos bastante semelhantes de violência entre alunos, Faleiros, o faroleiro da Católica e da UnB, prova apenas que ele detesta o sistema privado de ensino.

Nas escolas privadas ele vê ganância, cupidez, ludíbrio, tudo em nome do lucro e do mercado. Daí, essas escolas não "trabalham" (detesto esse verbo empregado dessa forma) a questão da violência, do respeito às diferenças porque teriam que admitir casos de agressão e Bullying o que seria contrapropaganda.

Nas escolas públicas, ao contrário, ele vê diálogo, abertura e que apesar de existir casos de violência , eles só ocorrem porque esses jovens da escola pública encontram nas brigas uma forma de resolver os problemas e conflitos.

No primeiro caso, a culpa é do sistema privado. No segundo, é da sociedade ou quem sabe do sistema capitalista, neoliberal e burguês. No primeiro, os alunos são vítimas da ganância das escolas. No segundo, de uma realidade social violenta e cruel.

Podemos com isso?

28 agosto, 2009

A Lei Antifumo é fascista?



Quando a lei anti-fumo foi aprovada em São Paulo, não me importei com a polêmica que ela suscitou. Entendi a reclamação dos que viam na lei um viés autoritário,como uma reação natural daqueles que não conseguem viver sem uma tragadinha. Avaliei que os benefícios que essa lei traria, como garantir nos ambientes fechados um ar mais puro e livre da insuportável fumaça de um cigarro, superavam, e muito!, algumas injustiças que naturalmente essa lei provocaria. Estava tão satisfeito com o resultado prático da lei que negligenciei um aspecto que para mim é inadmissível: o caráter fascista da Lei Antifumo!

Não, senhores. Não vou defender o cigarro. Acho fumar um hábito nojento. Considero que toda a beleza, toda a graça, todo o charme que pode existir numa pessoa desaparece no mesmo instante que essa pessoa acende um cigarro. Por minha vontade os mais jovens não cairiam nesse vício e os mais velhos o abandonariam. Mas esse meu desejo, essa minha vontade particular, não me dá o direito de alijar do convívio social, o fumante. É o que essa lei faz. Não tenho o direito, nem em nome da saúde, de tratar um fumante como um pária! Abomino seu vício, mas não posso constrangê-lo por causa dele. É isso que a Lei Antifumo provoca.

O colunista da Folha, Luiz Felipe Pondé, em dois artigos decisivos, revelou de forma clara minha negligência nesse aspecto da lei. Provou com argumentos precisos, o quão totalitária e fascista é essa lei aprovada no estado de São Paulo. As palavras de Pondé são uma importante advertência para cidades como Curitiba, Belo Horizonte e Brasília que já se movimentam para aprovar lei semelhante.

A história nos ensinou que não devemos dar a menor chance, a menor mesmo, para idéias e valores totalitários que sempre vêm com boas intenções, mas que no final acabam tolhendo a liberdade do indivíduo. Não esqueço da valiosa advertência do cineasta italiano Bernardo Bertolucci que afirmava: "os fascistas começaram caçando tarados". Parece que o estado de São Paulo quer começar caçando os fumantes.

Leiam, abaixo, os dois artigos de Pondé. (Os grifos sãos meus"

As freiras feias sem Deus, por LUIZ FELIPE PONDÉ, 07 de agosto.

LUIZ FELIPE PONDÉ – COLUNISTA DA FOLHA

O QUE MOVE as pessoas, em meio a tantos problemas, a dedicar tamanha energia para reprimir o uso do tabaco? Resposta: o impulso fascista moderno.

Proteger não fumantes do tabaco em espaços públicos fechados é justo. Minha objeção contra esta lei se dá em outros dois níveis: um mais prático e outro mais teórico.

O prático diz respeito ao fato de ela não preservar alguns poucos bares e restaurantes livres para fumantes, sejam eles consumidores ou trabalhadores do setor. E por que não? Porque o que move o legislador, o fiscal e o dedo-duro é o gozo típico das almas mesquinhas e autoritárias. Uma espécie de freiras feias sem Deus.

O teórico fala de uma tendência contemporânea, que é o triste fato de a democracia não ser, como pensávamos, imune à praga fascista.

A tendência da democracia à lógica tirânica da saúde já havia sido apontada por Tocqueville (século 19). Dizia o conde francês que a vocação puritana da democracia para a intolerância para com hábitos “inúteis” a levaria a odiar coisas como o álcool e o tabaco, entre outras possibilidades.

Odiaremos comedores de carne? Proprietários de dois carros? Que tal proibir o tabaco em casa em nome do pulmão do vizinho? Ou uma campanha escolar para estimular as crianças a denunciar pais fumantes? Toda forma de fascismo caminhou para a ampliação do controle da vida mínima. As freiras feias sem Deus gozariam com a ideia de crianças tão críticas dos maus hábitos.

A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.

E não me venha dizer que no “Primeiro Mundo” todo o mundo faz isso, porque não sou um desses idiotas colonizados que pensam que o “Primeiro Mundo” seja modelo de tudo. Conheço o “Primeiro Mundo” o suficiente para não crer em bobagens desse tipo.

O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô.

A VOLTA DAS FREIRAS FEIAS

HÁ DIAS escrevi no caderno Cotidiano desta Folha um artigo cujo título era "Freiras Feias sem Deus" sobre a nova lei antifumo. Um mar de e-mails.

Volto ao tema hoje para aprofundar duas questões que julgo mais importantes neste debate. Uma delas se refere à imagem de uma freira feia sem Deus como metáfora dos fascistas amantes da nova lei. Por que freira, por que feia, por que sem Deus?

Outra questão, mais "séria", referia-se ao uso do termo "fascismo" para uma lei legitimamente votada num Estado democrático de direito. Como aplicar um termo advindo do universo totalitário ao campo da vida política democrática?

Eu sei, caro leitor: quem é afinado com o debate da filosofia política contemporânea sabe que a suposição de que a democracia seja imune ao fascismo não passa de mera ignorância.

A democracia atual, com suas intenções de corrigir o comportamento do cidadão (elevando-o à categoria de agente moral), pelo contrário, bebe muito na inspiração fascista.

A referência da "freira" aqui é simbólica, é claro. "Freira" remete à figura da mulher religiosa maníaca pelo controle das paixões e dos desejos, uma espécie de fiscal da virtude e do pecado. Ela ama castigar o pecador enquanto se olha no espelho e vê sua face como sendo a do espírito puríssimo. Não muito distante do não fumante militante que, ainda que não confesse, vê o fumante como um lixo da humanidade, alguém que tem prazer em se melar com a morte.

"Feia" é a figura da deformação interna da alma advinda desta fiscalização orgulhosa. Goza a noite em seu quartinho abafado, com a ideia de que, finalmente, aqueles que ela detesta serão humilhados. Como ratos que se escondem no escuro pra respirar seu ar doente.

"Sem Deus" é uma referência mais sofisticada. A relação entre a luta contra o pecado e o vício, por um lado, e Deus, por outro, implica a noção de piedade. Deus é uma ideia que traz em si um abismo no qual miséria humana e misericórdia divina se encontram.

Uma freira feia sem Deus é terrível porque a única coisa que ela deseja é a violência legal como controle total do pecador, sem amor algum pelo infeliz. Ao pecador resta apenas a miséria e a vergonha.

Já o fascismo é, no fundo, uma religião civil e não um tipo específico de política ou governo. Manifesta-se como um governo cuja autoimagem é a de um agente moral na sociedade. Agente este movido pela fé em gerar melhores cidadãos, por meio do constrangimento legal e científico dos comportamentos.
Na democracia, o fascismo ainda é mais perigoso porque tende a ser invisível. Esta invisibilidade nasce da ilusão de que a legitimidade pelo voto inviabiliza o motor purificador do fascismo. Pelo contrário, a própria ideia de "maioria" ou de "vontade do povo" trai a vocação fascista.

23 agosto, 2009

Fim de semana atípico


O Jardim das Delícias, Jeronymus Bosch.


Ontem o Sport venceu,
e hoje o São Paulo perdeu.
Ontem, em Brasília Choveu.
E hoje e amanhã,
segundo a meteorologia,
a chuva persite, e até em demasia.
Rubinho, nesse domingo, acabou vencendo.
Assim sendo, e isso posto,
que fim de semana foi esse de agosto?

21 agosto, 2009

Collor, meu Deus, acertou!



Numa tarde modorrenta do dia 02 de agosto de 2009, numa dicusão, porque debate não foi, acérrima envolvendo o senador Pedro Simon e dois baluartes da ética que hoje prevalece no Senado da República, ouviu-se com espanto, não as acusações de parte a parte, os ataques baixos e as ameaças chulas, mas o vatícinio de um senador cuja presença no senado revela o nível moral dessa casa legislativa. Estou falando, é claro, de Fernando Collor de Melo.

Assistam ao vídeo ou passem direto para a triste profecia que se confirmou, para supresa dos dos ingênuos e para a vergonha dos homens decentes, com a ajuda do presidente Lula e do PT.

"(...) acho que esta Casa não pode se agachar, não pode e não haverá de se agachar àquilo que a mídia, ou certa parte da mídia deseja. Ela não conseguirá tirar o presidente José Sarney desta cadeira. Não conseguirá. Nem ela, nem o senhor, nem quem mais esteja deblaterando como o senhor deblatera parlapatão que é desta tribuna. “Peço, por favor, que antes de citar meu nome desta tribuna, Vossa Excelência engula e as digira e faça dela o que achar conveniente.”


19 agosto, 2009

Vou elogiar um petista? É. Vou.



Nem a oposição faria melhor.

No Estadão Online:

O senador Flávio Arns (PT-PR) anunciou no final da tarde desta quarta-feira, 19, que pedirá à Justiça Eleitoral para sair do Partido dos Trabalhadores. O senador vai esperar que a justiça decida se o mandato pertence a ele ou ao partido. “Quero que a justiça diga que o PT foi infiel ao ideário do partido”, disse.

O senador disse que ficou envergonhado com a decisão da bancada petista em votar pelo arquivamento das ações que foram movidas contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). “Fiquei envergonhado com o que aconteceu. Estamos dando as costas para a sociedade brasileira. Hoje as bandeiras da ética e da justiça foram rasgadas”, disse.

Arns avaliou que o PT decidiu apoiar José Sarney na presidência do Senado unicamente porque está interessado no apoio do PMDB à candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, nas eleições para sucessão do presidente Lula. “Aspectos eleitorais estão se sobrepondo a assuntos como democracia, ética e respeito à sociedade. A ordem dos valores está invertida”, disse.

Arns, que já foi filiado ao PSDB, disse que ainda não começou a discutir a possibilidade de se filiar a outras legendas. Se o senador quiser concorrer às próximas eleições, em outubro de 2010, será preciso que ele esteja filiado a uma nova legenda até o início de outubro.

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Só para lembrar: no dia 11 e agosto escrevi:

Retomo esse fato para dizer que o PT do senado, esta semana, até pode votar pela rejeição do arquivamento de uma, de duas, de três ou de todas as representações e denúncias que pesam contra o Presidente José Sarney no Conselho de Ética da Casa. Será tudo fingimento. Ao fim e ao cabo, no Conselho de Ética ou no plenário de senado, o PT e os seus senadores, mais uma vez, vão salvar os corruptos, os canalhas de sempre, os locupletadores, as figuras que no passado mereciam os apupos das lideranças do partido e os impropérios de uma militância aguerrida e disciplinada, mas que hoje, porque do lado do governo Lula, merecem o apoio incondicional e desavergonhado dessas mesmas lideranças e da mesma militância que sempre será aguerrida e disciplinada, como se vê.

À oposição e àqueles que ainda sobraram um pouco de pudor, restará, se muito, a consolação de que José Sarney deixará o comando da casa dos horrores, apenas isso.

O principal erro de meu vatícinio foi ter, por otimismo exagerado, considerado a remota, mas plausível possibilidade do afastamento do senador José Sarney da presidência da casa.

16 agosto, 2009

"A universal é o PT da Religião, e o PT é a Universal da Política

Guarde o texto abaixo na carteira. Repassem para seus amigos! É revelador!

Do blog do Reinaldo Azevedo
domingo, 16 de agosto de 2009 | 7:33

Uma gente do mundo das trevas mentais — na melhor das hipóteses — resolveu, o que é inútil, estender ao meu blog a corrente de “defesa” da Igreja Universal do Reino de Deus, que estaria sendo vítima de uma campanha movida pela TV Globo. Campanha? Enviam-me um texto que foi lido na TV Record e em “vigílias” da seita. Também foi publicado no blog de Edir Macedo. Trata-se de uma suposta mensagem enviada ao “bispo” por um suposto fiel.

Tudo o que se noticia sobre a Record seria, pasmem!, uma conspiração envolvendo a TV Globo e o governador José Serra porque “os barões da imprensa temem mais um mandato presidencial do PT”. O que eu tenho a dizer? Peço que leiam o que segue.

*

Deu-se no dia 27 de setembro de 2007 um fato emblemático. O autoproclamado “bispo” Edir Macedo inaugurou a Record News, um canal de jornalismo 24 horas, só que em TV aberta. No dia anterior, a TV Pública começara a sair do papel, com a indicação da jornalista Tereza Cruvinel para presidir a empresa. À sua maneira, trata-se da convergência histórica de dois neopentecostalismos. Um se finge de laico para ocultar a sua religião. O outro se finge de religioso para ocultar seus interesses laicos. Antes que volte a este ponto, algumas informações adicionais.

A solenidade, como é comum quando empresas de comunicação expandem seus negócios, contou com a presença de autoridades. Estiveram lá o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab; o governador do estado, José Serra, e, não poderia faltar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aquele que se diz “bispo” não titubeou e afirmou, numa referência velada à Rede Globo: “Fomos injustiçados por muitos anos nas mãos de um grupo de comunicação que mantinha e mantém, por enquanto, o monopólio da notícia do Brasil. Daí surgiu o nosso desejo de levar ao fim esse monopólio, de dar às pessoas o direito de se informar por outro canal de notícias, de formar opinião por si mesmas. Daí surgiu nosso desejo em democratizar a informação“. Lula também discursou: “A estréia do canal Record News representa um grande momento para a história da televisão brasileira e contribui para que os cidadãos exerçam aquele que é um dos mais sagrados direitos democráticos: o acesso à informação“. E, sabe-se lá por quê, encerrou sua fala com um “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”, lembrando o Hino da República.

Sem dúvida, Lula e Macedo são “homens livres” — inclusive do senso de limites.

O “bispo”, que sempre se negou a ser tratado como “dono” da Rede Record, desta feita, é apresentado como “proprietário” da Record News, sem subterfúgios. A nova emissora demandou investimentos da ordem de US$ 7 milhões. No mercado, há quem diga que é muito mais. Se não era o dono da Record e se o dinheiro da sua seita não pode ser transferido para empresas comerciais — na lei, não pode —, de onde vêm os recursos? Qual a origem de sua fortuna?

Em 1992, o valente foi preso sob a acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. A “perseguição” a que ele se refere tem a ver com a reportagem apresentada pelo Jornal Nacional sobre os métodos a que ele recorria e recorre — basta ver a transmissão dos cultos na Record — para arrecadar dinheiro dos fiéis. Revela-se ali a origem da fortuna de Edir Macedo e a moralidade daquele que diz querer democratizar a comunicação no Brasil.

Neopentecostalismos

Há incrível similaridade entre o petismo e o a Universal. Os dois são derivações deformadas de uma tradição. O petismo açambarcou os chamados movimentos populares e acenou para os pobres com um outro mundo possível, fazendo tabula rasa das dificuldades que outros governantes enfrentaram, atribuindo-as à falta de competência ou de vontade — acreditem: Lula disse isso naquele dia na entrevista à nova emissora quando se referiu a FHC. Ele se considera o marco inaugural de uma política, embora, como se sabe, na macroeconomia, recorra ao estoque de medidas de seu antecessor. As melhores “conquistas” de seu governo decorrem de ações decididas pelo governo que ele demoniza.

O que é a Universal? Edir Macedo nada mais fez do que se apropriar das vertentes populares do catolicismo, dando visibilidade à sua dimensão, vamos dizer, mágica, coisa que a Igreja Católica Apostólica Romana, ao longo do tempo, mais combateu do que incentivou. Não custa lembrar que o santo mais popular do Nordeste, Padre Cícero, não é… santo! Até hoje, os pastores da Universal incentivam seus fiéis eletrônicos a pôr um copo d’água perto da televisão para que ela seja “ungida”. Em Dois Córregos, ouvíamos a bênção do Padre Donizetti, uma gravação transmitida pelo rádio - em latim! Estimulados por um sujeito que, depois, virou vereador (Pedro Geraldo Costa), púnhamos um copo d’água sobre o rádio. Também pertence ao catolicismo popular a tradição das benzedeiras - jamais reconhecidas pela Igreja. Os pastores de Macedo “benzem” seus fiéis. Mais do que isso: até outro dia, em programas de televisão, realizavam exorcismos às pencas - mas não aquele regulamentado pelo Vaticano. O de Macedo incorporou, para expulsá-las, as entidades das religiões de origem africana. A Universal (não custa lembrar que “católica”, em grego, quer dizer “universal”) criou uma indústria da fé com os elementos que a Igreja rejeitou. Não estou fazendo juízo de valor. Trata-se apenas de uma constatação.

Qual foi a “novidade” trazida por esse ex-funcionário público pobretão, hoje um dos homens mais ricos do país? A idéia do “desafio” feito a Deus, algo que ele importou de algumas seitas americanas. Isso a que se chama “Teologia da Prosperidade” nada mais é do que o estabelecimento de uma relação mercantil com a fé. Assistam ao vídeo. Ele explica muito bem como a coisa funciona. É preciso que o crente veja o seu pastor como um homem destemido, intermediário entre o mundo celestial e o terreno. Ao fiel cabe fazer a sua parte, com a doação de dinheiro. Os amanhãs sorridentes estão garantidos. Nesta madrugada, enquanto a Record News reapresentava um jornal e depois reprisava as entrevistas de Renan Calheiros e de Lula, a outra Record garantia que, se tudo vai mal da vida do telespectador, basta que ele vá a uma Igreja Universal para participar de uma tal cerimônia dos 318 pastores. Mais tarde, enquanto Serra discutia o Orçamento do Estado e os problemas do Brasil na emissora chique, na outra, uma “empregada” ia fazer macumba no cemitério para ferrar a vida da patroa que a demitira. Por telefone, “amigas” davam testemunhos ao pastor dos males de que foram vítimas: coisa do capeta, do chifrudo, do coisa ruim. Tudo isso tem cura? Tem. Basta ir à Igreja Universal do Reino de Deus.

PT e Universal são duas máquinas de explorar a ignorância, a crendice, a miséria material e a pobreza espiritual. Também o partido, a exemplo da seita, exige uma disciplina de seus militantes - ambos, não custa dizer, cobram dízimo. Macedo põe os seus fiéis para lutar contra os demônios e as entidades malignas, responsáveis diretos por uma vida malsucedida. No PT, esse espírito mau são as “elites”. Tenho cá minhas dúvidas do que pode acontecer com a Universal sem Edir Macedo: é grande a chance de degringolar; tenho certeza do que vai acontecer com o petismo no dia em que não mais tiver Lula: vai se esfacelar em várias correntes.

O petismo está para a renovação da política como a Universal está para a renovação do cristianismo. Trata-se, cada uma no seu campo, de forças regressivas. Uma empurra o país para trás - e acreditem: empurra; o tempo dirá. A outra confere à vida espiritual uma dimensão meramente instrumental: pague, que Deus devolve. Sabem que sou católico e poderão dizer: “Não é assim na sua Igreja?” É claro que não é - ou, quem sabe?, ela estaria ganhando fiéis em vez de perder. Esta crítica, ademais, passa longe das denominações protestantes tradicionais, que levam a sério o seu ministério. Está claro a que “igrejas” estou me referindo. Costumo dizer que não respeito nenhuma mais nova do que o uísque que bebo.

E não me venham dizer que estou atacando a liberdade religiosa. Se um vagabundo ocupa uma concessão pública de TV para dizer que faz milagres, ou ele prova o milagre - quero ver um - ou tem de ir em cana. Acusação: charlatanismo, curandeirismo, estelionato. Afirmo e dou fé: os pastores e “bispos” de Macedo, incluindo ele próprio, não fazem nem operam milagres. Tampouco são intermediários de uma intercessão divina e milagrosa. E aceito a prova dos noves. Em seus templos, que os demônios apareçam à vontade. Vai lá quem quer. Numa concessão pública, não dá. Isso só se faz e se fez porque o Ministério Público e a Justiça têm sido historicamente lenientes com os neopentecostalismos. Assim como a democracia brasileira e as instituições são lenientes com o petismo.

Macedo e Lula tinham o que comemorar, não é? Um lançava a Record News, e o outro, a Lula News. Ambos estão crentes de que, desta feita, derrotam os inimigos. Mas eles têm também uma fragilidade: os aparelhos que criaram dependem de suas respectivas intervenções pessoais. Sem herdeiros, tendem a se esfacelar. E é o que vai acontecer. Para o bem da democracia. E do cristianismo.
*
Sabem de quando é este texto? Do dia 28 de setembro de 2007!!!

Em vez de atacar, a Record deveria era explicar.

Os cretinos de sempre estão em horda pela internet a propalar que as denúncias sobejamente documentadas pelo Ministério Público do estado de São Paulo, de que o autoproclamado bispo Edir Macedo, com mais outras 8 pessoas usaram dinheiro dos fiéis para o enriquecimento pessoal e para a aquisição de patrimônio particular, fazem parte de um complô que envolve a Rede Globo de Televisão, o governador José Serra, a Cuca e quem sabe até o saci pererê. Todos estariam segundo esses sicofantas, incomodados com o governo Lula e com a Rede Record.

Os esquerdinhas, aquele espécie de gente que não junta lé com cré, dividem-se, por enquanto, em duas correntes: a primeira, reverbera os gritos da emissora do bispo de que a Universal e a Rede Record estariam sendo vítimas de perseguição religiosa e comercial. A segunda, além de acreditar nas diatribes da primeira, finge-se de isenta, ao repetir que querem que as duas redes se engalfinhem até se destruírem mutuamente. Essa segunda corrente torce mais para o fim da Globo, do que pelo fim da Record.

Com esses patetas, não adianta debater. Deveriam é explicar o imenso patrimônio da Igreja e os repasses cada vez maiores para a Rede Record de Televisão nos últimos 3 anos. Se não veio dos fiéis, como eles dizem, veio da onde? Como não podem responder essas perguntas sem se incriminarem mais, partem para a sandice das teorias conspiratórias.

Não há uma guerra da Globo contra a Record. O que há são fatos bem documentados contra a Igreja Universal do Reino de Deus e seus líderes. Reduzir o imbróglio a uma mera luta comercial é desviar o foco e fugir das respostas que a Igreja e a emissora precisam dar à Justiça brasileira.

Guardem bem meu vaticinio: a Record e a Universal vão se defender no melhor estilo petista. "Se eu cometi um crime, a Globo também já cometeu os seus, então, por que só com a gente?"

12 agosto, 2009

Virgílio capitulou?

Quando o senador Renan Calheiros leu da tribuna do Senado a representação que fez contra o senador Arthur Virgílio do PSDB do Amazonas, evidenciando o clima de chantagem que se estabeleceu nessa casa a fim de igualar a todos na mesma lama, escrevi ao senador Virgílio nos seguintes termos:

Ilmo senhor Arthur Virgílio.

Não é de hoje, muito menos por causa dessa triste crise de degradação do senado da república que envergonha a todo brasileiro sério e decente, que acompanho os discursos de vossa excelência pela TV do Senado.

Assisti, não surpreso, mas incomodado, à leitura da representação que o PMDB, na pessoa do líder Renan Calheiros, fez contra o senhor e que pede a cassação de seu mandato de senador e de seus direitos políticos. É estarrecedor que alguém como o líder do PMDB do senado tenha a desfaçatez, o cinismo de, por espírito de vindita, retaliar com tais ameaças suas ações contundentes a favor do afastamento do presidente do senador, José Sarney; a fim de que as investigações sobre as denúncias que envolvem o senador pelo PMDB do Amapá sejam feitas sem tutela.

A coragem, senador, está cobrando o seu preço. O senhor errou. Desgraçadamente errou. Ficará sempre a dúvida se o reconhecimento do seu erro deveu-se, antes de tudo, a divulgação do mesmo. No entanto, num ambiente onde a mentira tem prevalecido; onde as desculpas esfarrapadas são pronunciadas sem constragimento;onde as responsabilidades são sempre terceirizadas, sua confissão pública de um erro e a decisão de ressarcir o erário público com o próprio dinheiro, merece aplauso.

Não se cale senador. Não se cale. Não o conheço pessoalmente. Nunca o encontrei pelas quadras de Brasília, como já encontrei o senador Cristovam, Demóstenes Torres, Tião Viana e outros. Mas, e ainda que o senhor não leia esse e-mail, quero transmitir-lhe meu apoio, solidariedade e confessar minha admiração pelo senhor.

Lamento não poder um dia ter votado num homem público como o senhor!

Recebi, há pouco, pelo e-mail, em forma de mala direta, a resposta do senador Arthur Virgílio. Sua resposta, a se confirmar o acordo espúrio que a oposição parece ter feito com a base aliada para ficar o dito pelo não dito, é um ultraje àqueles que esperavam ver os bandidos punidos. Espero estar errado, senador. Espero mesmo.

Se ao senhor fosse dado perder o mandato e salvar o Senado garantindo a punição ao senador Sarney e a outros canalhas da espécie, acho que o senhor, para o bem maior, deveria perder o mandato.

Abaixo, o e-mail do senador Virgílio.

Caros Internautas,

Emociono-me e sinto-me confortado ao ler a pilha de milhares de e-mails que chegam ao meu Gabinete todos os dias, a maioria esmagadora compreendendo minha conduta e condenando, com muita força, muita indignação, a retaliação de que fui alvo por ter, desde o início – e até como voz quase isolada – exigido a apuração de irregularidades e ilegalidades ocorridas no Senado e a punição dos culpados.

Quem acompanha minha atuação sabe que fui o primeiro, quando da eleição da Mesa da Casa, no início de fevereiro, a pedir a demissão do então diretor-geral, Sr. Agaciel Maia. Apoiamos, nós do PSDB, a candidatura do digno petista Senador Tião Viana porque ele firmou compromisso com a bancada tucana de fazer a necessária reforma administrativa no Senado, e porque sabíamos – disse isso em plenário – que o Senador José Sarney não mexeria na Diretoria-Geral. Só afastou o Sr. Agaciel depois das graves denúncias trazidas pela imprensa e das cobranças que fiz.

Passei a reclamar não somente seu afastamento do cargo, mas sua demissão a bem do serviço público, assim como a do outro ex-diretor (Recursos Humanos), Sr. João Carlos Zoghbi, o que montou empresas de fachada para intermediar empréstimos consignados na Casa.

Depois, quando começaram a surgir denúncias envolvendo o próprio presidente da Casa, Senador José Sarney, pedi, primeiro, que ele se afastasse temporariamente do cargo para permitir isenção nas apurações, e, depois, o denunciei ao Conselho de Ética, para que fossem tomadas as devidas providências.

Não me moveu nenhum motivo pessoal, mas simplesmente a necessidade de resguardar uma instituição tão importante para a Democracia quanto o Senado.

Com isso, despertei a ira de toda essa gente, dessa verdadeira máfia. Passei a ser alvo de tentativas de chantagem e de ameaças, que foram se corporificando na divulgação de erros e equívocos em que também incorri – porque fazia parte de uma não mais admissível “cultura” da Casa – e terminaram pela vingança de representarem contra mim no Conselho de Ética.

Muitos, sob o temor da chantagem e das ameaças, silenciaram. Eu não! Assumi a responsabilidade por ter autorizado um funcionário do meu Gabinete a fazer curso no exterior e, mesmo sem ser cobrado, estou, por ditame de consciência, ressarcindo o Senado dos valores a ele pagos. Disseram que, por ter admitido o erro, tornei-me réu confesso. Se é assim, sou réu confesso mesmo. Não faço parte do clube da mentira, não alego que não sabia nem passo a terceiros responsabilidade que é minha. Não roubei, não desviei recursos da Casa, não passei para o bolso nenhum centavo público. Por isso, não me calo sob essa ou outras ameaças. Continuo exigindo a punição de quem cometeu gravíssimas irregularidades, a reforma na administração e nos costumes do Senado, enfim, limpeza geral na Casa, custe o que custar, doa a quem doer. Estou ao lado da imensa maioria dos brasileiros que não aceita mais uma instituição parlamentar presa ao passado, a antigas oligarquias.

Li emocionado mesmo, como disse, as mensagens de apoio e incentivo que recebi. Vi que homens e mulheres de todo o Brasil compreenderam que, apesar de haver incorrido também numa prática não mais cabível no Senado de hoje, tive a hombridade de por ela me penitenciar e não me deixar abater pelas ameaças e vendetas de quem está do outro lado. A Nação sabe bem quem está de um lado e de outro.

Aos que me escrevem com críticas, as acato democraticamente e aos que me enviaram sugestões, agradeço e parabenizo a intenção cívica de colaborar com um Senado melhor, mais transparente movido pelo mais autêntico espírito público.

Gostaria de responder às mensagens, uma a uma, mas isso não é possível. Por isso, a todos o meu MUITO OBRIGADO!
Continuarei na luta!
Cordialmente,
Senador Arthur Virgílio


11 agosto, 2009

A história e os fatos depõem contra o PT ou a Ética do fingimento.

O historiador francês Paul Veyne numa entrevista à revista Sciences Humaines, reproduzida, em parte, pelo Caderno Mais! da Folha de São Paulo, respondeu de uma forma bastante provocativa à pergunta se, na ciência histórica, há lugar para a verdade. Antes de reproduzir a resposta do historiador francês, permitam-me uma longa digressão.

Não são poucos os que acreditam que a História é a ciência das versões. Não existindo, portanto, uma verdade objetiva na história. Outros tantos chegam a tachar a narrativa histórica simplesmente de mentirosa ou, no mínimo, de tendenciosa, porque atende, segundo eles, aos interesses dos mais fortes, dos vencedores, dos ricos, etc.

As várias interpretações que existem sobre o passado, antes de ser um problema de objetividade da ciência histórica, é uma de suas maiores riquezas. É o que faz a História atrativa e viva! Nada seria mais nefasto para a História do que ela ser definitiva.

A razão dessas várias interpretações sobre as realizações humanas no tempo é que o olhar sobre o passado é diferente a depender das fontes utilizadas, da crítica aos documentos levantados, e, até mesmo, da época em que a pesquisa foi realizada.

As novas interpretações não significam, necessariamente, que as anteriores estavam erradas ou eram mentirosas. Significam apenas que o historiador, dispondo de novos recursos, novas fontes, novas ferramentas teóricas, conseguiu analisar aquele passado de uma forma diferente, quase sempre desafiadora e, em muitos casos, enriquecedora.

Essas novas abordagens tornam a pesquisa histórica viva e interessante. É clichê, entre os historiadores, que a história não é uma ciência do passado, mas do presente. Isto é, o historiador está sempre preocupado com problemas atuais quando investiga o passado.

Devido a essas características intrínsecas da ciência histórica, o vulgo, o leigo, costuma dizer que NENHUM relato histórico é verdadeiro. No máximo, representa a visão de um grupo, de um partido, de uma ideologia. Estão errados! Por mais que um grupo, um partido, uma ideologia tente contar a história de acordo com os seus interesses, eles jamais conseguirão negar os fatos. Podem, é claro, dar a esses fatos uma interpretação que lhes convenham, mas quanto maior for o malabarismo para ajustar os fatos à suas interpretações, mais eles tenderão a modificá-los, ficando assim, patentes, suas tentativas de corromper a verdade histórica.

Finalmente, os fatos, de onde deve partir qualquer análise séria, constituem-se a matéria-prima do historiador, do pesquisador, daquele que ambiciona apenar chegar o mais próximo possível da verdade. Distorcer os fatos, inventá-los ou reelaborá-los é típico daqueles que querem confundir, nunca daqueles que querem esclarecer.

Num artigo ao jornal Correio Braziliense, o ex-senador e ex-ministro do STF, o senhor Paulo Brossard, assim definiu a importância do fato numa pesquisa: “O fato é intocável e, como tal, deve ser apurado e respeitado; em sua interpretação cada um tem o direito de errar, mas, quanto à sua objetiva realidade, há de ser sagrado.”

Qual foi, enfim, a resposta que Paul Valéry deu para a pergunta se há ou não uma verdade objetiva na história? Leiam-na abaixo.

“É evidente que a história séria não pode colocar em dúvida a existência dos campos de concentração ou o desaparecimento das famílias judias nas câmaras de gás. Existe uma verdade no passado.

Mas não existe uma vocação humana para ater-se à verdade. Com a exceção dos historiadores que exercem sua profissão seriamente, as pessoas são capazes de negar as câmaras de gás ou de zombar delas ou, ainda, de inventar outras que não existiram.


Toda essa digressão tem uma razão de ser. Daqui a não sei quantos anos, quando alguém fizer a história da Nova República, a partir da eleição direta para presidente, em 1989, alguém terá que dizer que o Partido dos Trabalhadores, o PT, que surgiu no cenário político brasileiro levantando de forma radical a bandeira da ética e da moralidade, que antes de chegar ao poder, recusava-se, inclusive, a fazer alianças com outros partidos acusados de fisiologismo e corrupção, formados que eram por homens cúpidos, desonestos e corruptos; Esse mesmo PT que não media palavras, muitas delas duras, contundentes, para atacar adversários políticos, quando chegou ao poder, não importando a esfera: se municipal, estadual ou federal, não só repetiu os crimes e as práticas que acusavam existir nos outros, como as aperfeiçoou e as aprofundou. O corolário dessa mudança pode ser resumido numa expressão muito acertada do jornalista Reinaldo Azevedo que escreveu certa feita que antes, o PT dizia que ninguém prestava, só ele. Agora, o PT diz que ninguém presta, nem ele. A diferença é que os petistas dão aos crimes que eles cometeram, quando no poder, uma aura romântica. Como se dissessem: “ erramos, fraudamos, mentimos, mas foi tudo em nome de uma ética nova, pura e bem-intencionada. Fizemos tudo isso em nome do povo.”

Essa interpretação cínica que o PT dá e que seus correligionários no partido e na Imprensa oferecem como verdade, não muda, nem mudará os fatos. Basta se apegar aos fatos para desconfiar dessas interpretações. Existe uma verdade no passado. O PT apega-se a uma certa vocação humana, usando as palavras do historiador francês, a não ater-se à ela. Vou ficar apenas num caso recente:

Que partido, em 2007, salvou o senador Renan da cassação de mandato? Não há outra resposta: o PT! Na votação secreta do primeiro processo enfrentado por Renan Calheiros, o senador de Alagoas foi salvo pelas SEIS ABSTENÇÕES dos senadores do Partido dos Trabalhadores. Para ser cassado, Renan deveria ter recebido 41 votos. Recebeu apenas 35. Façam as contas! E como eu sei que os seis votos que faltaram para alijar do poder por oito anos um político como Renan foram do PT, uma vez que a votação é secreta? Ora, porque os próprios petistas confessaram que se abstiveram. O argumento dos senadores que se acovardaram, porque não tiveram coragem de votar claramente pela absolvição, por isso optaram pela indecência da abstenção (o que na prática significava absolver Renan), é que não estavam convencidos nem da culpa, nem da inocência, por isso decidiram abster-se.

Retomo esse fato para dizer que o PT do senado, esta semana, até pode votar pela rejeição do arquivamento de uma, de duas, de três ou de todas as representações e denúncias que pesam contra o Presidente José Sarney no Conselho de Ética da Casa. Será tudo fingimento. Ao fim e ao cabo, no Conselho de Ética ou no plenário de senado, o PT e os seus senadores, mais uma vez, vão salvar os corruptos, os canalhas de sempre, os locupletadores, as figuras que no passado mereciam os apupos das lideranças do partido e os impropérios de uma militância aguerrida e disciplinada, mas que hoje, porque do lado do governo Lula, merecem o apoio incondicional e desavergonhado dessas mesmas lideranças e da mesma militância que sempre será aguerrida e disciplinada, como se vê.

À oposição e àqueles que ainda sobraram um pouco de pudor, restará, se muito, a consolação de que José Sarney deixará o comando da casa dos horrores, apenas isso.