04 julho, 2009

A saga dos cotistas? Pois é.

Há, no Correio Web, um site dedicado à educação. Chama-se Eu Estudante. Ontem, foi publicada uma matéria sobre os primeiros alunos cotistas da Unb. A jornalista Camila de Magalhães deu à matéria um título curioso: A saga dos cotistas. Em qual sentido ela aplicou o termo saga? No sentido de lendas escandinavas? No sentido de tradições históricas de um povo? Não. Provavelmente na acepção de uma narrativa ficcional ou talvez numa narrativa cheia de incidentes. Não importa. O que importa é que ou Camila de Magalhães não sabe o que significa o termo saga ou força a barra para qualificar de saga a história dos primeiros alunos cotistas da Unb.

Reproduzo a matéria abaixo e faço um vermelho e azul com ela.

Segundo a secretaria de atendimento ao aluno, hoje a UnB conta com 2.657 alunos cotistas. A primeira entrada ocorreu no primeiro semestre de 2004, quando ingressaram 442 negros e pardos. No primeiro semestre de 2005, foram mais 137. Os cotistas têm direito a 20% das vagas de todos os cursos da universidade.

Há um dado importante nesse parágrafo. De 2004 para 2005, o número de aprovados pelo sistema de cotas diminuiu de 442 para 137. Por quê? E no último vestibular quantos devem ter sido aprovados pelo sistema de cotas? A verdade é que o aluno cotista carrega um estigma que nada tem a ver com a cor de sua pele. O estigma da incompetência, da vitória sem méritos. Talvez por isso tanta gente ande empenhada a dar aos cotistas um orgulho que ao que parece eles não sentem.

Dos que entraram no primeiro semestre de 2004, 191 cotistas estão regulares, cursando diferentes faculdades. Até o final de junho, 179 estudantes das turmas de 2004 e 2005 já haviam se formado.

Os números mais uma vez são reveladores. Dos 442 que entraram em 2004, apenas 191 estão regulares. Pouco mais de 40 % dos aprovados pelo sistema de cotas. Na hora de dar o número de cotistas que estariam formados no final de junho, a jornalista precisou somar os que entraram em 2004 e 2005, o que dá, segundo ela, 179 alunos.

O próprio Movimento Negro junto com algumas repartições da Unb, reconhecem que muitos alunos cotistas enfrentam dificuldades para continuar no curso, por isso já solicitaram e conseguiram ajuda institucional da universidade para subsidiá-los. Eu sou contra a ajuda? Eu não! Mas deveria ser para todos que precisassem e não apenas para os cotistas, não acham?



Ângelo Roger de França formou-se em serviço social. Ingressou no primeiro vestibular do sistema de cotas. Estudou todo o ensino médio e fundamental em escolas públicas. Para ele, ser cotista era um motivo de orgulho, apesar das opiniões contrárias.

De acordo com o assistente social, o racismo está instalado na UnB. "Você começa a perceber as sutilezas", conta Ângelo. "Os professores não estavam dispostos a falar sobre o sistema de cotas porque muitos não concordam". Outra questão eram as pichações nos banheiros, diz. Mensagens como "Cotas hoje, marginais com PHD amanhã" e "Morte aos cotistas" eram um insulto para Ângelo. O jovem lembra que a discriminação era mais implícita, não por xingamentos. No início, ele não ficava magoado, mas depois, sim.


Mas o rapaz conseguiu dar a volta por cima. Terminou o curso com notas excelentes e já passou em três concursos públicos. Um deles para analista do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, na área de serviço social.

Se o estudante de serviço social é um dos melhores alunos – não duvido disso! A ponto de ser aprovado em três concursos públicos que sempre têm um nível de concorrência bem maior do que o da Unb ou de qualquer universidade pública, fica provado que ele tinha méritos para passar em Serviço Social, não acham? Então, para que cotas?

Segundo a matéria de Camila de Magalhães, Ângelo não é apenas um bom aluno é também um militante da causa. Segundo ela, o aluno diz que o racismo está instalado na Unb, mas é disfarçado, escondido. Só eles e outros militantes, ao que parece, é que vêem o tal do racismo na Unb. Ora, o aluno não poderia citar um exemplo desse racismo instalado na Unb? Claro que podia. E ele dá: "Você começa a perceber as sutilezas (...). Os professores não estavam dispostos a falar sobre o sistema de cotas porque muitos não concordam.” Viram as sutilezas do racismo? Não! Oh, seus racistas! Os professores que não falam do sistema porque não concordam com ele só podem ser racistas sutis, não? Ou você apóia o que eles pensam ou se transforma num racista sutil, percebem?

Mas Ângelo está disposto a oferecer mais provas do racismo instalado na Unb. E, claro, ele apresenta uma prova irrefutável desse racismo: inscrições nas portas dos banheiros da universidade. Diz o assistente social: “outra questão eram as pichações nos banheiros. Mensagens como "Cotas hoje, marginais com PHD amanhã" e "Morte aos cotistas."

Esses insultos e essas ameaças não podem, sinto vergonha de ter que explicar isso, comprovar que o racismo está instalado na Unb. Nessas portas se escreve toda sorte de asneiras. De convites obscenos a versos de péssimo gosto. E além do mais, vejam o detalhe, o insulto é contra o sistema de cotas, não contra os negros. “Ora, Zé Paulo, deixe de ser cínico”, diria um interlocutor exaltado. “É claro, continuaria ele, que é contra os negros, afinal quem são os cotistas?” Calma, meu amigo nervoso! Antes deixe eu lhe dizer que esses insultos não existiriam se o mérito continuasse sendo o único critério de ingresso na universidade. Além do mais, se o racismo estivesse instalado na Unb, por que nessas mesmas portas de banheiro, ou nas paredes dos corredores ou em qualquer outra dependência da universidade não aparecem inscrições insultando ou ameaçando os alunos porque são negros? Insisto: O exemplo dado pelo assistente social é antes uma manifestação - burra, infantil, idiota - contra o sistema de cotas para negros do que contra os alunos de pele preta.

Para a estudante do 9º semestre de pedagogia Juliana Cristina Siqueira, 24 anos, o sistema de cotas é uma forma de reparar os danos sofridos pelos negros até hoje. "Há muito racismo institucional no Brasil", lamenta. Quando terminar a faculdade, no fim do ano, Cristina pretende lutar por um mestrado na área de gestão educacional e diversidade étnico-cultural.

Confesso que me impressiona o curso dos cotistas citados na matéria. Não considero Serviço Social, Artes Visuais ou Cênicas, Pedagogia ou Licenciatura - mesmo em Letras em japonês, cursos de pouca importância. Mas é inegável que nesses cursos a concorrência é bem baixa. Ser aprovado nesses cursos pelo sistema de cotas é um pouco vexatório.

A estudante de pedagogia do nono semestre – quantos semestres têm o curso de pedagogia na Unb? – afirma que “há muito racismo institucional no Brasil.” O que isso quer dizer? Não sei. Talvez que as instituições no Brasil sejam racistas. Será que é por isso que só tem um negro como ministro do STF?

Os estudantes citados precisam reforçar a tese de racismo mesmo sem apresentar uma prova porque do contrário o sistema pelo qual eles foram aprovados se desmoraliza.

Juliana acha justo o sistema de cotas porque é uma chance de reparar os "danos sofridos pelos negros até hoje." Esse discurso vitimista me causa náusea. É desonroso. É coisa de gente medíocre e sem altivez.

Devs Oliveira, 26 anos, diz que uma das coisas mais difíceis quando entrou na UnB era assumir a condição de cotista. "As pessoas viam como uma facilidade de acesso à universidade, mas não é verdade, o ponto de corte é o mesmo".

Depois que percebeu que não havia necessidade, passou a aceitar e, hoje no 10º semestre, é um dos mais respeitados no curso, pelo mérito como pesquisador. Devs quer fazer mestrado e ser diretor de teatro.

Devs é estudante de artes cênicas e confessa que sentia vergonha de ser cotista. E por que a vergonha? Ora, porque ele achava que os cotistas entravam com mais facilidade na Unb do que os não-cotistas. E não entram? É. Entram. Só que disseram para Devs que o ponto de corte é o mesmo, aí ele se sentiu grande e importante, capaz de ombrear com os demais colegas universitários.

Vergonha eu sentiria era de entrar em artes cênicas pelo sistem de cotas, mas aí é problema meu. Agora, que o sistema de cotas facilita o ingresso do candidato cotista é lógico. Se não facilitasse, de que serviria as cotas? Se não facilitasse, por que candidatos cotistas com notas menores são aprovados e outros candidatos não-cotistas, mesmo com notas bem superiores ficaram de fora da Unb? Devs, meu caro, você deve ficar é duplamente envergonhado.


No 7º semestre de ciências políticas e ex-aluno de geografia, Gustavo dos Santos Cantuária também foi vítima de preconceito. "Na geografia, eu não era muito acolhido", lembra. E agora, em ciências políticas, ele conta que foi melhor acolhido, porém por um grupo pequeno. "O curso é ainda muito conservador e não há professores negros", observa. Gustavo pretende emendar a graduação com um mestrado .

Finalmente, um intelectual nessa matéria! Gustavo que cursou geografia, mas que mudou para Ciência Política, vê racismo na Unb porque não se sentiu acolhido pelos colegas de curso. O que ele queria? Festa? Pedido de desculpas por anos e anos de opressão branca? Sei lá. Decidiu mudar de curso e, conta o estudante, foi mais bem recebido na ciência política, embora não muito mais.

O que Gustavo Santos acha de seu novo curso? "O curso é ainda muito conservador e não há professores negros." O que seria um curso conservador? O que não tem professores negros? Então, um curso progressista seria aquele que tivesse professores negros, é isso? O pensamento desse aluno é um primor de rigor intelectual. É de cientistas sociais desse naipe que estamos precisando.

Para as pessoas entenderem a necessidade da política de cotas, destaca o rapper brasiliense Gog, é preciso ter uma vivência histórica da escravidão, como ela foi abolida e os indicadores sociais que estão aí. "O sistema de cotas é uma oportunidade de ensino. Os negros têm que entrar de cabeça erguida, não precisa ter vergonha".

Falaram, pela pena da jornalista, um assistente social, uma pedagoga, um artista, um cientista político, mas quem deve nos explicar a necessidade da política de cotas é um rapper. Este sim é uma autoridade no assunto. Ele que nunca ouviu falar de Gilberto Freyre, afirma com convicção que é preciso ter vivência histórica da escravidão para se entender a política de cotas. Vivência histórica? Meu Deus! O cara surtou? O que andou tomando ou fumando? A escravidão, Pedro Bó, acabou há 121 anos, meu rapaz! Como alguém poderia ter vivência histórica dela?

Os indicadores sociais, então, justificam as cotas para negros, é isso? E só existe pobre de pele preta? Não existe branco? A maioria é formada por negros dizem as estatísticas. E daí? É justo penalizar um branco pobre que, assim como um negro pobre, não teve as mesmas chances por causa de estatísticas?

Os negros nunca precisaram sentir vergonha de chegar à universidade quando o mérito era o critério de ingresso. Muitos colegas negros que tive na UFPE avançaram na academia e são excelentes profissionais e nunca tiveram de apelar para esses sistemas de facilidades. Nunca baixaram a cabeça. Se hoje uma matéria como essa tenta mostrar para os alunos cotistas da Unb que não há motivos para sentir vergonha do sistema de cotas, é porque motivos não faltam!


7 comentários:

Anônimo disse...

Caro Zé Costa
E o que você diz a respeito de cotas para alunos do ensino público?

Carlos F

Zé Costa disse...

Caro Carlos,

Sugiro que você vá aos arquivos do mês de março do anos de 2009, mais precisamente ao dia 22 de março e leia o post "Cotas, até quando cairemos nessa?". Lá você conhecerá minha opinião sobre o assunto.

Um abraço e obrigado pela gentileza de ler o post.

Anônimo disse...

Caro Zé Costa,
Segui sua sugestão e dei uma olhada no post. Boa argumentação, do jeito que a coisa está essa lei só vai servir para beneficiar os estudantes dessas escolas públicas "de elite".

Sempre reservo um tempo para ler blogs, não é ótimo se manter informado? Depois de ler as notícias, nada como revê-las criticadas, sem a falsa imparcialidade da mídia... é sempre um prazer ler o seu blog, não é uma gentileza não!
Um abraço

Carlos F

Anônimo disse...

Tudo bem que não concorde com o sistema de cotas, mas não precisa denegrir as pessoas nem seus cursos... Vc se considera um intelectual por que é um historiador? Mas para mim vc não passa de charlatão. Espero que quando eu me formar (no curso História), eu não fique um sujeito tão arrogante como você!!!

Zé Costa disse...

Não meu caro anônimo. Não sou um historiador, apenas um professor de história, sem título algum! Sou um viralata, entende?

Se você faz história, espero que entenda logo a diferença entre um pesquisador e um mero professor.

Você sem conseguir refutar meus argumentos decidiu me chamar de arrogante e de charlatão. Isso é tudo o que você consegue?

Quando você se formar em História será um intelectual importante, desses que escrevem em revistas, jornais, compêdios... fique tranquilo.

Simone Borges disse...

Sinto pena de você. Pesquisador imbecil.

Anônimo disse...

Você é o que você fala, logo suas palavras refletem aquilo uma atitude de um nojento em toda a sua essência.