25 julho, 2009

CQC, quando a piada não tem graça*

Uma das coisas mais difíceis para quem vive de humor é não atravessar o tênue limite que separa a galhofa do constrangimento. Constranger uma pessoa para fazer os outros rirem é um risco que todo humorista corre, mas quando isso acontece, acho importante que o comediante reflita e peça desculpas.

O programa CQC, que vai ao ar às segundas-feiras na Rede Bandeirantes de Televisão, foi uma das mais importantes novidades em humor que surgiu nos últimos anos na TV brasileira. Piadas inteligentes, perguntas desconcertantes e com boa dose de picardia são fórmulas conhecidas, mas que os repórteres do programa sabem utilizar com talento e propriedade.

Um dos mais, se não o mais talentoso desses repórteres, o Danilo Gentili, na semana passada, foi destaque de uma elogiosa matéria em Veja e com merecimento, na minha opinião.

Contudo, na edição do programa de ontem, dia 29 de junho (assista abaixo),Danilo Gentili, ao cobrir a manifestação de estudantes da USP contra a greve, no afã de fazer rir, protagonizou uma das cenas mais tristes do programa. Entrevistando um estudante da USP que havia sido agredido por outros estudantes favoráveis à greve do SINTUSP e por sindicalistas, fez uma "brincadeira" de extremo mau gosto. Combinou com um grupo de estudantes - que se não estava entre os agressores do entrevistado, certamente os apoiava - que durante a entrevista eles deveriam, em bando, aproximar-se do estudante para ver se, palavras do repórter, o aluno que fora agredido sairia correndo. A intenção foi infeliz, infantil e cruel. O aluno não correu, para frustração do repórter, mas ficou assustado sim, quando o grupo se aproximou, cumprindo o script acertado com o Danilo Gentili. A cena não teve graça nenhuma. Danilo Gentili, sempre espirituoso, inteligente e de raciocínio rápido; dessa vez foi cruel, inconseqüente e sem graça.

A matéria, no meu entender, também foi covarde. O adjetivo é forte, reconheço, mas apropriado. Fazer piadas com os estudantes de verdade da USP, aqueles que estudam, que não são vagabundos militantes, é fácil. Corajoso seria fazer piadas com o outro lado. E o jornalista não fez. Pelo contrário. Tratou-os até com alguma deferência. O repórter chegou a afirmar que o SINTUSP estava em greve por melhorias na USP o que, com efeito, é uma péssima piada. Onde a irreverência do repórter com aquela estudantada que detesta aula, livros e está na universidade apenas para ser militante? Onde a irreverência, tão eficiente que ele mostra com os parlamentares no congresso, com os sindicalistas do SINTUSP?

Danilo Gentili é talentoso e de longe o melhor repórter do programa, mas hoje, com sua "armação" cruel, infantil e covarde, atravessou o limite que separa a galhofa do constrangimento. Uma pena.





*Post publicado originalmente em 29 de junho de 2009

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