30 junho, 2009

Isso não é uma metáfora é um escândalo.


A foto acima foi registrada pelo repórter fotográfico Lula Marques no final de dezembro de 2007. Eu sei que a imagem causa náusea, mas serve de emblema para uma reveladora declaração da líder do PT no senado, a senadora Ideli Salvati.

Na época da foto escrevi o seguinte:

Não é um beijo de confraternização. É a consumação da promiscuidade entre o PT e o PMDB. Esse não é o beijo da traição. É o ósculo dos ímpios! Dos proxenetas da res publica.

Chega! Preciso de um um saco para vomitar!

O PT que na oposição condenava a todos, muitas vezes sem provas, quando virou governo passou a exigir, para com os aliados pegos em crimes, o benefício da dúvida.

Leiam, abaixo, o que ela acabou de declarar na tribuna do senado.

“O que está vindo a público é coisa que tem muito tempo, não é nada recente, é muito antigo. E tudo tem muitas mãos, tem a participação de muitos (…). Eu vou defender na bancada que nenhuma medida pode ser adotada contra qualquer um dos senadores” disse, referindo-se a reunião da bancada do PT que deve ocorrer na noite de hoje para tratar do assunto. (…) Ninguém pode ser acusado, afastado, antes que as investigações sejam concluídas. Senão não vamos resolver nada. Continuaremos lendo essas matérias [de denúncias] até que o Senado se inviabilize”.

Convenhamos, depois de um beijo desses, ela não poderia ter dito outra coisa, não é?

CQC: quando a piada não tem graça

Uma das coisas mais difíceis para quem vive de humor é não atravessar o tênue limite que separa a galhofa do constrangimento. Constranger uma pessoa para fazer os outros rirem é um risco que todo humorista corre, mas quando isso acontece, acho importante que o comediante reflita e peça desculpas.

O programa CQC, que vai ao ar às segundas-feiras na Rede Bandeirantes de Televisão, foi uma das mais importantes novidades em humor que surgiu nos últimos anos na TV brasileira. Piadas inteligentes, perguntas desconcertantes e com boa dose de picardia, são fórmulas conhecidas, mas que os repórteres do programa sabem utilizar com talento e propriedade.

Um dos mais, se não o mais talentoso desses repórteres, o Danilo Gentili, na semana passada, foi destaque de uma elogiosa matéria em Veja e com merecimento, na minha opinião.

Contudo, na edição do programa de ontem, dia 29 de junho (assista abaixo),Danilo Gentili, ao cobrir a manifestação de estudantes da USP contra a greve, no afã de fazer rir, protagonizou uma das cenas mais tristes do programa. Entrevistando um estudante da USP que havia sido agredido por outros estudantes favoráveis à greve do SINTUSP e por sindicalistas, fez uma "brincadeira" de extremo mau gosto. Combinou com um grupo de estudantes - que se não estava entre os agressores do entrevistado, certamente os apoiava - que durante a entrevista eles deveriam, em bando, aproximar-se do estudante para ver se, palavras do repórter, o aluno que fora agredido sairia correndo. A intenção foi infeliz, infantil e cruel. O aluno não correu, para frustração do repórter, mas ficou assustado sim, quando o grupo se aproximou, cumprindo o script acertado com o Danilo Gentili. A cena não teve graça nenhuma. Danilo Gentili, sempre espirituoso, inteligente e de raciocínio rápido; dessa vez foi cruel, inconseqüente e sem graça.

A matéria, no meu entender, também foi covarde. O adjetivo é forte, reconheço, mas apropriado. Fazer piadas com os estudantes de verdade da USP, aqueles que estudam, que não são vagabundos militantes, é fácil. Corajoso seria fazer piadas com o outro lado. E o jornalista não fez. Pelo contrário. Tratou-os até com alguma deferência. O repórter chegou a afirmar que o SINTUSP estava em greve por melhorias na USP o que, com efeito, é uma péssima piada. Onde a irreverência do repórter com aquela estudantada que detesta aula, livros e está na universidade apenas para ser militante? Onde a irreverência, tão eficiente que ele mostra com os parlamentares no congresso, com os sindicalistas do SINTUSP?

Danilo Gentili é talentoso e de longe o melhor repórter do programa, mas hoje, com sua "armação" cruel, infantil e covarde, atravessou o limite que separa a galhofa do constrangimento. Uma pena.



23 junho, 2009

Professor também não precisa de diploma.

Semana passada o STF, por 8 votos a 1, derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalista para profissionais que trabalham nos meios de comunicação. A decisão, segundo o relator, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, garante um direito fundamental na democracia: a liberdade de expressão.

As corporações de ofício do século XXI reagiram dizendo ser um absurdo não se exigir de um jornalista o diploma de curso superior em comunicação. Afirmam também que a decisão desprestigia as faculdades de comunicação. O curioso é que a maioria das pessoas que torceram o nariz para a decisão do STF acha que um diploma universitário é absolutamente dispensável para ser presidente da república.

Concordo com a decisão. Vou mais longe. Acho que a função de professor, por exemplo, também dispensa um diploma universitário específico na área que se deseja lecionar. Um professor precisa ter, antes de tudo, o conhecimento da disciplina e, claro, habilidade de transmitir esse saber aos seus alunos. Eu, por exemplo, fui vítima desse cartório. Em 2005, fui aprovado na décima-quinta colocação para professor de filosofia na rede pública do Distrito Federal. Minha graduação é em história e por isso, mesmo sendo aprovado num concurso público, o GDF não permitiu a minha posse. Não me deixaram, por exemplo, provar que eu poderia dar aula para os alunos do ensino médio. Simplesmente me pediram o diploma do curso de filosofia. Como não tinha, não pude assumir.

Se um advogado, sociólogo, pedagogo provar que tem conhecimento em história e deseja ser professor dessa disciplina e mostra habilidade para o magistério, por que não permitir que essa pessoa dê aulas de história? Só porque ela não tem diploma? Ora. Isso é cartório.

Diploma não dá atestado de competência a ninguém. Quantos professores existem, devidamente diplomados, que são notadamente uns ignorantes? Que mal sabem juntar lé com cré. Que nunca leram, na faculdade, um livro inteiro. Um professor diplomado incompetente é mais nefasto para o futuro de um país que um professor reconhecidamente competente, mas que não tem o "diproma".

A carência na educação é tanta que hoje mesmo os professores incompetentes têm emprego. Certa vez uma aluna me perguntou qual a profissão que teria emprego garantido. Respondi que a de professor. Porque para um professor, mesmo que ele seja uma anta, haverá quem o coloque numa sala de aula, desde que ele tenha diploma, é claro.



17 junho, 2009

Se eles estivessem do nosso lado...



Diálogos impertinentes 4*

O Sr. Z estava aplicando uma avaliação de recuperação quando a secretária, a Sra E, entrou na sala e, discretamente, disse-lhe:

- Z., tem uma mãe lá embaixo, muito brava com você. Ela alega que em sua prova de recuperação foram cobrados conteúdos que você disse que não seriam cobrados. É bom ir lá.

Como quem atende a uma ordem aborrecida, o Sr Z dirigiu-se até a coordenação e encontrou uma senhora com um semblante carregado, cheia de razões e pronta para pegar o Sr Z pelo pé.

- Tudo bem, professor? Disse ela com a satisfação de quem está preste a dar um golpe certeiro.

- Tudo bem. Qual o problema? Disse o Sr. Z com sua objetividade característica.

- Alguns alunos terminaram sua prova há pouco e eles afirmam que havia conteúdos diferentes daqueles pré-definidos pelo senhor. O que o senhor me diz?

- A senhora poderia especificar quais seriam esses conteúdos?

- Não! Mas os alunos garantem que havia. – A mãe, com o livro na mão aberto na página do índice, chama um aluno, e pergunta:

- Meu amor, o que caiu na prova que não estava nos conteúdos pré-definidos?

- A Era Napoleônica. Não tinha esse conteúdo na Internet. - Respondeu o aluno com convicção.

Com afirmação tão categórica, a zelosa mãe olha para o Sr. Z com olhar triunfal, como se dissesse: “peguei o senhor!”.

- Vamos conferir o conteúdo disponível na Internet? Sugeriu o professor.

Depois de alguns instantes, apareceu na tela do computador os conteúdos que seriam cobrados na prova. O Sr. Z, então, chamou a mãe para conferir. Tudo estava lá, bem explicado, bem mastigado, inclusive a Era Napoleônica. A mãe, sem graça, ficou em silêncio. O Sr Z quebrou o gelo, dizendo:

- Não é incomum o aluno confundir alguns conteúdos, principalmente quando ele está estudando para várias provas de recuperação. Não se preocupe.

A mãe deixou a sala sem se despedir. O senhor Z, então, pensou: “Se alguns pais pegassem no pé dos filhos como pegam no pé dos professores, talvez nossa educação fosse melhor”


*TEXTO PUBLICADO EM 07 DE JUNHO DE 2008.


14 junho, 2009

O ALUB erra até quando acerta

É impressionante como os responsáveis pelo site do ALUB não se incomodam com a qualidade dos comentários dos itens das provas do PAS e do Vestibular da Unb. Fico estarrecido com o nível de parvoíce e de ignorância que os comentários revelam. Não fosse pela estupidez pura e simples, a pobreza literária de quem redige os comentários cobriria de ingnomínia qualquer estudante de terceiro ano medianamente alfabetizado.

O curioso nos comentários do ALUB é que mesmo quando eles acertam o gabarito, o comentário que justifica o item, geralmente, é dissociado do que foi cobrado do candidato. Assim, eles cravam que um item x está certo ou errado e o justificam de forma alienada.

Na prova do vestibular da Unb aplicada ontem, por exemplo, vários itens poderiam servir de prova do que falei acima, mas destaco um, o 102, do Caderno Grande Otelo. Vejam:

102 C - O AI 5 foi um dos maiores processos de ruptura do processo de fortalecimento das manifestações artísticas brasileiras.

O item exige do aluno que reconheça as diferentes fases pelo qual passou o regime autoritário implantado no Brasil em 1964. Aliás, o AI 5 foi um ponto de inflexão importante, tornando o regime escancaradamente repressivo. O item está correto, mas o comentário do AULB é de uma pobreza de estilo e de conteúdo que são inadmissíveis num curso de preparação para concursos e vestibulares.

Já no item 29, numa questão de filosofia medieval, o comentário do ALUB é lacônico e estúpido! Aliás, não é a primeira vez que o ALUB erra feio comentando uma questão de filosofia. Ano passado, na prova do PAS da primeira etapa, o curso não reconheceu a famosa frase do sofista Protágoras de Abdera - O homem é a medida de todas as coisas - e marcou como correto um item que afirmava que os sofistas eram defensores de valores absolutos. Mesmo um aluno abaixo do medíocre reconheceria essa frase e marcaria o item como errado.

No item 29 do Caderno Grande Otelo, o gabarito e o comentário do ALUB, respectivamete, foram:

29 C Nunca houve fusão entre Filosofia e Teologia (religião).


Prestem atenção ao advérbio nunca. Em história, tanto ele quanto o seu oposto, sempre, são armadilhas para pegar incautos. Supõe-se que os incautos sejam os alunos menos preparados, mas ao que parece os incautos são aqueles que comentam os itens para o ALUB.

Vejamos o que diz Bertrand Russel, filósofo britânico que na década de 50 do século passado, ganhou o Nobel de literatura por uma obra sobre a História da Filosofia. Em seu livro A História do Pensamento Ocidental, ele afirma na páginas 190 e 192, o seguinte:

“Nos tempos grecos-romanos, como hoje, a filosofia, na essência, independia da religião. (...) Nesse aspecto, o período entre a Queda de Roma e o fim da Idade Média difere tanto da era precedente como da seguinte. No Ocidente, a filosofia se tornou uma atividade que floresceu sob o patrocínio e a direção da Igreja. (...) Durante a Idade Média, a filosofia permanece estreitamente ligada à Igreja.”

Se os professores de filosofia que comentaram esse item soubessem da disciplina que lecionam, diriam mais ou menos o seguinte:

Se houve uma época em que a filosofia se subordinou a teologia, essa época foi a o período medieval. Santo Agostinho e Tomás de Aquino, dois dos maiores nomes da filosofia medieval, em que pese suas divergências filosóficas, afinal, o primeiro influenciou a Alta Idade Média e o segundo, a Baixa Idade Média, fizeram suas reflexões no âmbito geral da religião cristã. A filosofia de ambos servia, antes de tudo, para fins teológicos, por isso a afirmação que eles separavam sua filosofia da religião está incorreta, falsa.

O comentário que está no site do curso não revela apenas a pobreza de conteúdo de quem comentou, mas a sua oligofrenia.


Seria interessante que professores de outras disciplinas se debruçassem sobre os comentários do ALUB para constatarem o engodo desses comentários. Em literaratura, por exemplo, eu vi alguns.

Confira aqui os comentários do ALUB e aqui a prova de ontem.