03 maio, 2009

"Abortei sem culpa"

(Leia antes, se quiser, o post abaixo)

"Tinha só 16 anos e nem cogitei a possibilidade de ter o filho. A decisão foi tomada só por mim Tanto que só avisei a minha melhor amiga, minha irmã e o meu namorado na época. Para mim é claro: porque acredito realmente que ninguém pode interferir na escolha da mulher. Já que tinha sido uma besteira que eu fiz, eu é que tinha que resolver. Talvez se eu tivesse falado com a minha mãe e meu pai teria sido mais tranquilo.

O primeiro problema foi arrumar R$ 300 para comprar o remédio. Para uma menina de 16 anos, foi necessário um mês para juntar o dinheiro. No dia que eu consegui pegar o remédio, já estava com dois meses e meio. Tive que usar quatro remédios. Senti muita cólica. Foram seis horas de muita dor, mas eu estava tranquila porque já tinha tomado a decisão havia muito tempo.

Mas, ao contrário do que eu já tinha ouvido de outras pessoas, a minha cólica não passou totalmente en nenhum momento. Eu descobri que algo tinha dado errado porque uma semana depois ainda estava sentindo dor, sem quase conseguir sair da cama. Nessa hora eu decidi ir ao hospital. Mandei uma mensagem de texto falando com minha médica que era urgente. Se não tivesse falado com ela, poderia ter morrido. Ela me alertou que era um risco e que poderia ter ficado com sequelas. O tratamento dentro do hospital particular foi ótimo, parecia que era até legalizado. Tomei a decisão certa. Fiquei grávida na mesma época que uma amiga. Hoje, ela tem um filho de 5 anos. Eu não poderia."

Paula*, 22 anos, universitária. (*nome fictício)

Analisemos parágrafo a parágrafo o suposto depoimento acima. Suposto, Zé Paulo? Pois é. Tenho razões para acreditar que a jornalista do Correio não foi totalmente séria nessa matéria. Algumas passagens espicaçaram minha desconfiança, como a que afirma que uma menina, há seis anos, e quando só tinha 16 anos, mandou mensagem de texto para sua médica dizendo que precisava de atendimento de urgência; e a médica; ferindo o código de ética médica para esses casos, nem falou com os pais da paciente menor de idade. Essa parte ficou esquisita. Mas admitamos que o depoimento é verídico. Vamos às minhas impressões.

No primeiro parágrafo a menina demostra uma frieza aterradora. Declarou que nunca cogitou ter o filho, embora se submetesse ao risco tendo relações sexuais sem proteção com o seu namorado. Apesar de só ter 16 anos à época, ela, com uma segurança incompatível com a idade, agiu como uma feminista de longa data, afirmando que como mulher ela tinha o direito de abortar.

A gravidez indesejada, ela admite, foi uma besteira. Abortar, ela conclui, foi um acerto.

No segundo parágrafo de seu depoimento, a ausência de qualquer emoção e afeto em suas palavras chama atenção. Reparem que ela afirma que o "primeiro problema" foi conseguir os trezentos reais para comprar o remédio. Em nenhum momento ela considerou o problema ético de interromper uma gestação que geraria um novo ser humano, o seu filho. Por esse drama, infere-se de seu depoimento, a moça não passou.

Ela declara que precisou juntar dinheiro por um mês para conseguir a medicação abortiva. Um mês sem uma dúvida, um vacilo, um recuo. Trinta dias planejando o assassinato de seu filho. Ela também diz que quando, finalmente, tomou os "remédios" estava com 10 semanas de gravidez. Se ela tivesse feito um exame de ultrassonografia poderia ver e ouvir o coração de seu bebê batendo, mas ela preferiu tomar os remédios.

A dor das cólicas provocada pela medicação, que ela jura ter sentido por mais de seis horas, foi apenas física. Dor moral? Nunca. Afinal, ela admite: "eu estava tranquila porque já tinha tomado a decisão havia muito tempo"

O terceito parágrafo é o mais interessante, e, para mim, o principal motivo de minhas desconfianças quanto à idoneidade do depoimento. Relendo o último parágrafo, tem-se a impressão que foi escrito sob medida para justificar a descriminalização do aborto. Todos os argumentos dos defensores da legalização dessa prática estão nesse parágrafo. Releiam e vejam por vocês mesmos.

Primeiro a menina reconhece que sua tentativa de praticar o aborto com automedicação fora um risco, tanto que depois de uma semana as cólicas continuavam e não restou a ela outra opção que não a de procurar os serviços médicos. De maneira explícita ela diz: "se não tivesse falado com ela [a médica] eu teria morrido." Aqui fica implícito, é claro, o argumento de que se o aborto fosse legalizado, a moça não passaria por esse risco.

Mais adiante, a menina aliviada, talvez sorrindo, declara que "o tratamento no hospital particular foi ótimo. Parecia até que era legalizado." Reparem que depoimento perfeito - até demais, não acham? - para os defensores da descriminalização do aborto. Se os hospitais oferecessem o serviço, as meninas poderiam transar com o namorado da vez, sem compromisso, e se ficassem grávidas iriam ao hospital, fariam o aborto como quem se submete a um tratamento contra verminose e ainda sairiam felizes com a sensação de que, como é mesmo?, fizeram a coisa certa.

Como não sou assinante do Correio, não tenho como reproduzir aqui a matéria deste domingo. Mas recomendo que leiam. Há muito mais detalhes a serem esmiuçados.

Em toda a matéria só há uma pessoa que se posiciona contra a legalização do aborto, o deputado federal Luiz Bassuma, do PT da Bahia, que vem sofrendo, dentro do partido, perseguição por conta de sua "cruzada", é assim que ele define, contra a descriminalização do aborto, como você pode conferir aqui.

Entre as várias opiniões favoráveis à legalização do aborto, há uma que me chamou atenção: a da professora da unB - isso não me espanta - Débora Diniz, que defendeu assim a prática do aborto:

"Há quem sustente a criminalização do aborto como um instrumento de castigo contra as mulheres em nome dos interesses do feto. A Verdade (ela tem a verdade, meu Deus!), é que o aborto impõe um desafio ético único em nosso campo moral - o da duplicidade na unidade. - HÃ? - Se há interesses do feto a serem protegidos, esses devem se subordinar à unidade existente, que é a mulher. A duplicidade na unidade - lá vem ela de novo - nos mostra que não há dois interesses em disputa: apenas os direitos das mulheres face a uma ordem moral que insiste em reduzi-las ao útero".

Todo esse palavrório da professora, esse jeito afetado de falar, quer dizer o seguinte: a mulher deve ter a última, quem sabe a única palavra sobre a decisão de interromper a gravidez. Esse papo de duplicidade na unidade é apenas academicismo bocó e pedante.

Mas quem é a professora Débora Diniz? Clique aqui para saber um pouco sobre ela.

A professora Débora é doutora - encha a boca leitor no doutora, por favor - em antropologia com pós-doutorado - agora incline a cabeça leitor, em reverência, não seja mal-educado - em bioética e está lotada no departamento de Serviço Social da unB, o mesmo em que estão Pedro Demo e Vicente Faleiros, que como a professora Débora, são progressistas que só querem o bem da humanidade. Eu que sou conservador, direitista e neoliberal, só quero a desgraça da raça humana, não é?


2 comentários:

Anônimo disse...

Fico só imaginando: se a "menina" sentiu dores por 6 horas antes do fato se consumar, imaginem o bebê!

Uma vez ouvi uma fala que me impressionou pela verdade, pouco pensada pelos defensores do aborto. Esta afirmava que, pela lógica, se uma mãe tem o direito de acabar com a vida de um filho pq este lhe atrapalhará a vida (aquelas desculpas de "não estava pronta", "era muito jovem", etc...), então um filho tem o direito de matar os pais quando estes estiverem idosos e causando gastos ou demandando muitos cuidados da parte do filho, "atrapalhando" também sua vida!

É fácil pensar numa forma de eliminar um "problema", difícil é pensar no ser humano envolvido nesta situação. A mãe também é um problema para o feto. Ela também poderia ser eliminada, então?

Fernando Sampaio disse...

Eu não acredito que uma mulher consiga viver para sempre sem um pingo de remorso por ter feito um aborto. No fundo no fundo, ela sempre terá isso em sua consciência.