01 abril, 2009

Não tenho competência para a Fundação Educacional.

Aconteceu hoje, na hora do intervalo, na sala dos professores. Havia uma acalorada discussão sobre o movimento grevista na rede oficial de ensino do DF - aqui chamada de Fundação Educacional - quando, em tom de provocação, disparei: "professor da fundação não trabalha e ainda quer aumento." Foi o suficiente para despertar em alguns colegas uma ira incontida; em outros, uma indignação contundente; e, em todos, os instintos mais primitivos.

Sentado no sofá, acuado por colegas que também são professores da fundação, ouvi reprimendas do tipo: "você não devia falar isso nem de brincadeira." Outros disseram que minha generalização era injusta.

Sim, generalizei. E por ter generalizado, é claro, cometi uma injustiça. Que generalização não é injusta? De fato, não são TODOS os professores da fundação que não fazem nada, são apenas MUITOS que não trabalham, não dão aula, são descompromissados e estão mais interessados em receber benefícios do governo que ensinar seus alunos. Os meus colegas, claro, reagiram indignados ao meu chiste porque compõem a minoria - dos professores da fundação - que é séria, preocupada com o aprendizado do aluno e com a qualidade da educação pública. Houve até um colega, menino ainda, recém-contratado pelo governo, que declarou que se quisesse não precisava trabalhar na fundação, afinal, ainda mora com os pais, é solteiro e não tem necessidade de ganhar dinheiro. Trabalha na fundação, segundo disse, por idealismo. Porque acredita na escola pública. É um educador nota 10! É de professores assim, sem interesse pecuniário, só pensando na Causa da Educação que o nosso sistema público está precisando. Para um professor assim, como esse meu colega solteiro e vivendo na casa dos pais, a estabilidade no serviço público é uma vantagem dispensável. Receber proventos, por 20 ou 40 horas/aula, que é a maior média salarial do Brasil, é um luxo que ele, garanto, dispensaria, afinal trabalha na fundação porque acredita na escola pública.

Esse meu colega, como tantos outros que justificadamente ficaram indignados comigo, pensam no melhor para a educação e, por isso, devem fazer uma greve deixando sem aula a parte mais fraca dessa disputa: o aluno pobre. Mas o estudante que será prejudicado pela interrupção das aulas vai certamente entender a necessidade dos professores da Fundação Educacional do GDF.

Quando fui aluno de escola pública, eu sempre apoiei os 90 dias de greve que os professores do estado de Pernamuco faziam, ano sim, ano não. Nas escolas federais, onde estudei, eu estava lá, dando meu apoio altruísta à classe docente que exigia do governo federal aumentos substanciais. Fiquei sem aula, os professores sem o aumento desejado, mas lutamos e isso é o que importa, não é?

Sou professor desde 2000. Nunca trabalhei no serviço público. Costumo dizer que não tenho competência para ser professor de escola pública. Falta-me muitas qualidades...

Sempre trabalhando na rede privada de ensino, fui explorado pelos tubarões da educação. Enquanto dava meu sangue pelos alunos, o empresário, com a mais valia, enriquecia às custas do meu trabalho de operário do saber. Além disso, eles me cobravam qualidade, aprimoramento, novos recursos didáticos. Obrigavam-me a ler. Finaciavam cursos de especialização para eu ser um professor cada vez melhor e assim eles poderem ficar ainda mais ricos e eu mais pobre.

Dos meus colegas que trabalhavam na rede pública, sentia inveja. Todos diziam que fora o salário, era uma maravilha! Uma tranquilidade! Nada da pressão das escolas privadas. A cobrança por qualidade, quando existia, era retórica. As faltas, as muitas faltas, eram devidamente abonadas, de modo que meus colegas conseguiam a proeza de receber o salário sem ter dado quase nenhuma aula no mês, afinal era o direito do professor. Os abonos, a aposentadoria integral, as licenças, tudo chamava minha atenção. Cúpido, eu queria ser professor público para me refestelar nessas regalias que a novílingua Orwelliana chama de direitos da categoria. Nunca quis ser professor da escola pública por idealismo. Mas, como disse, faltava-me, e ainda me falta, competência para trabalhar na rede pública de ensino.

É que eu gosto do chicote do patrão. Gosto de receber meu salário trabalhando. Gosto de ir para o trabalho, mesmo quando a unha do meu dedo mindinho quebrou e me senti tentado a pedir ao médico um atestado de 15 dias.

Não faço greve porque me envergonho - sou mesmo um imbecil - de me dedicar, por um tempo, exclusivamente à cupidez do sistema privado de ensino que só quer me explorar e impor sua visão de mundo neoliberal e capitalista. Não faço greve porque me constrange aderir a uma paralização só para ficar de pernas pro ar, viajar, descansar enquanto eu sei que os alunos ficarão sem as aulas que serão repostas de qualquer jeito e de qualquer maneira.

Por isso, professores, não sejam tolos como eu! Façam Greve! Exijam o aumento de 20% prometido pelo governador Arruda. Não se incomodem de vocês terem, no serviço público, regalias, digo, direitos, que a maioria dos trabalhadores do sistema privado não têm. Problema deles. Façam greve porque 10 ou 100 dias parados não vão fazer diferença para vocês que sempre conseguem receber pelos dias não trabalhados. Talvez os alunos se prejudiquem, mas e daí? O que importa é sensibilizá-los para a causa da educação! É pedir a eles que apoiem o movimento para vocês ampliarem seus direitos.


3 comentários:

Anônimo disse...

Onde estão os professores de Brasília q não comentam esse post????

Ilka disse...

Professor observe se você não tem competência ou se na verdade não tem necessidade da Fundação...uma coisa é diferente da outra.

LENINHA disse...

Parabéns,será q é somente VC E EU em toda BRASÍLIA que pensamos assim?
greve pra que? O que esses professores querem mais?
Sou mãe de aluna que estuda no Cruzeiro, semana passada tive que ir a escola,porque a minha filha reclamou q o professor de matemática somente jogava a materia e não explicava,E ELA quer aprender.,sabe o q fiquei sabendo? q ele esta de volta as salas de aula porque quer se aposentar em sala de aula pra ganhar mais do que já ganha.Acredito que ele deve esta dentro dessa greve.QUANDO teremos professores que realmente fazem jus ao seu pagamento? Que realmente quer que as nossas crianças sejam verdadeiramente bem orientadas?SOU TOTALMENTE CONTRA ESSAS GREVES.PEÇO encarecidamente ao SENHOR GOVERNADOR ARRUDA QUE NÃO Dê ESSE AUMENTO POIS JÁ QUE ENTRARAM EM GREVE E JÁ COMEÇARAM A PREJUDICAR A CLASSE MAIS NECESSITADA O QUE PODE SE PERDER MAIS?
Aulas dadas nos sabados com toda certeza naõ será a melhor opção.que o nosso Senhor Governador corte os pontos, já que abonos eles tem demais.