30 abril, 2009

2 anos...




 Amelinha - Foi Deus Quem Fez Você


Obrigado, meu Deus, por este filho!

26 abril, 2009

Mais uma Cassandra às avessas.*

Há algumas semanas, nas aulas sobre a Crise de 29, os alunos me fizeram algumas perguntas sobre a atual crise financeira mundial. Houve até um aulão sobre esse tema. Muitos queriam saber a origem dessa crise, quais os seus efeitos práticos na economia real e se existe alguma relação entre ela e a famosíssima Grande Depressão dos anos 30. Alguns mais informados perguntaram se de fato a atual crise ameaça o sistema capitalista e vai provocar o colapso do modelo neoliberal. Minhas respostas, como eles já sabem, não flertam com os delírios típicos da esquerdopatia.

Diante da importância do tema, os editores do jornal do colégio La Salle pediram aos professores de história da escola que escrevessem um artigo que explicasse a turbulência financeira que vem abalando a economia mundial. Escrevi o artigo e assim que o jornal começar a ser distribuído, prometo publicá-lo aqui no blog.

Mas o motivo deste post é o seguinte: chegou-me por e-mail uma entrevista concedida à revista Ciência Hoje, edição deste mês, do economista e professor da UFRJ Reinaldo Gonçalves, onde ele explica e comenta as causas e os efeitos da crise financeira atual, e também opina sobre as medidas tomadas pelos governos para enfrentá-la.

Lendo a entrevista fui lembrando das palavras do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788 – 1860) que dizia que os professores universitários da Alemanha estavam mais empenhados em parecer sábios do que em ser sábios. É assim que explico a entrevista desse economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O professor Reinaldo está pessimista, desiludido e, alguns momentos, também está desinformado. Sua análise sobre a crise é canhestra e contraditória. Fui pesquisar sobre ele e descobri (a revista infelizmente omitiu esse dado) que o premiado professor pertenceu até fevereiro de 2005 ao Partido dos Trabalhadores. Foi um dos economistas responsáveis pelo programa econômico do partido. Programa, diga-se, jogado no lixo depois que Lula chegou à presidência. Era, portanto, um intelectual orgânico. Um militante partidário. Hoje, longe do PT (desconfio que atualmente se abriga no PSOL), é um duro crítico da política econômica do Governo Lula. Suas críticas, de viés esquerdista, são uma panacéia de conceitos ultrapassados e que a história já provou serem ineficientes. Clique aqui e você poderá salvar em PDF o arquivo contendo a íntegra da entrevista.

Nas duas postagens abaixo reproduzo trechos da entrevista e faço um pequeno vermelho e azul com o professor Reinado Gonçalves, acompanhem.

PS: Não deixem de ler a entrevista na íntegra, não sem antes buscar aquele saquinho para enjôo como precaução.


* Cassandra, filha de Príamo com Hécuba, recebeu do deus Apolo o dom da profecia e em troca o deus queria unir-se a ela. Como a moça o rejeitou, Apolo a castigou retirando-lhe o dom da persuasão. Assim ninguém daria crédito às suas profecias, sempre corretas. Ela previu, por exemplo, que o Cavalo de Tróia era uma armadilha dos gregos contra os troianos, mas ninguém deu ouvidos a ela e o final todos conhecem, não?

Reinaldo Gonçalves joga búzios e prevê o fim de uma era.

CH: A crise é realmente um duro golpe no modelo capitalista ou pelo menos no que se costuma chamar de liberalismo?


Sem dúvida alguma. A questão central dessa cri­se é que ela revela duas enormes deficiências hoje: a instabilidade intrínseca do capitalismo, um sistema. baseado no acúmulo de capital e movido pela gera­ção de lucro, e a fragilidade provocada pelo libera­lismo, que guiou as privatizações e a desregulamen­tação do sistema financeiro. Esta crise, assim como as anteriores, mostra que o liberalismo torna o capi­talismo ainda mais instável e perverso, com efeitos mais nefastos.


O professor não tem dúvida que o modelo capitalista foi duramente golpeado pela atual crise. Que seu Jeremias da venda afirme isso, tudo bem. Mas um acadêmico, cujo trabalho é ler, ensinar e pesquisar afirmar o que vai acima dá conta da mediocridade que tomou conta de boa parte dos professores universitários do país. Se a Crise de 29 muito mais drástica não foi capaz de acabar com o capitalismo, por que esta, que já está sendo superada, alcançaria tal intento?


A resposta do acadêmico é uma miscelânea de submarxismo chinfrim e palavras de ordem que na boca de um militante são perdoáveis, mas na de um intelectual deploráveis. O problema é que o professor Reinaldo Gonçalves nunca deixou de ser um militante e isso afeta sua análise científica da crise. Como posso provar isso? Clique aqui e assista a uma modorrenta e tosca entrevista que o ilustre acadêmico concedeu à TV Socialismo e Liberdade em 2008 sobre o mesmo assunto.


Todo esquerdopata tem horror ao mercado, ao livre-comércio e à iniciativa privada. como, e falo aqui especificamente das privatizações no Brasil, um esquerdopata não pode negar que os setores privatizados trouxeram benefícios para os brasileiros eles partem para a cínica peroração de que as empresas estatais foram vendidas a preço de banana. Outra grande mentira, mas eles sempre contam com a preguiça e a ignorância de seus ouvintes ou leitores. Também contam, e aqui um dado triste, com a inocência e com a excessiva credulidade dos alunos universitários que desde a mais tenra idade foram vítimas de abuso intelectual provocado pelo esquerdismo bocó que deplora o capitalismo, que vê o lucro como a encarnação do mal e que simpatiza com movimentos que se dizem sociais, mas que na verdade não passam de organizações criminosas que quando não estão se assenhoreando do dinheiro público, estão invadindo propriedades. Tudo em nome é claro, da justiça social.


O mundo nunca conheceu um período de tão rápido crescimento econômico como o vivido nos últimos anos. Qual a causa disso? O aumento do livre comércio, a diminuição das barreiras comerciais, a grande liquidez do sistema financeiro. Aspectos que o acadêmico deplora e deturpa. Pior: afirma que esses aspectos foram os causadores da crise.


CH: Mas o capitalismo sem o liberalismo funciona?


Não, o ser humano ainda tem que inventar um sis­tema que seja menos perverso, mais eficaz, com me­nos custo para a humanidade. O capitalismo mostra o lado irracional da nossa espécie e, em algum mo­mento, terá que ser substituído por um sistema eco­nômico que funcione a favor das pessoas e não con­tra elas.


A resposta a essa pergunta é uma maravilha porque desmascara a fanfarronice do professor Reinaldo Gonçalves. Ele diz que o ser humano precisa inventar um sistema menos perverso, mais eficaz, com menos custo para a humanidade. É mesmo? E como seria esse sistema? Estou ansioso por conhecê-lo. Quais seriam suas diretrizes? O professor explica:


(...) criar economias mistas, onde se tem um pla­nejamento forte e uma intervenção do Estado con­trolando diretamente setores estratégicos da econo­mia, como o financeiro, de saúde, educação e infra­estrutura. Nesses casos, se o Estado não for o único produtor, ele deve ser o dominante.”


Esse tipo de sistema é novo, professor? Nem a China, que a ignorância atribui um modelo moderno de socialismo quando não passa de um capitalismo manco porque controlado politicamente pelo governo, mas que mesmo assim é responsável pelo vigoroso crescimento chinês dos últimos 15 anos, teve a coragem de implantar, depois das reformas de Xioaping, esse tipo de controle que o professor apregoa.


Onde o estado domina, seja na economia ou em qualquer outra área o que vemos é corrupção, ineficiência e atraso tecnológico. Isso é fato, não é ideologia. Era de economistas assim que o presidente Lula se cercava antes de chegar à presidência. Para a nossa sorte, uma vez no poder, Lula deu um chute no traseiro desses idiotas que com suas idéias humanistas nos levariam rapidamente à bancarrota.


Assim como Lênin já dizia em 1917, santo Deus! O nosso economista acredita que quanto mais estado, melhor. Vejam mais essa afirmação:

Temos que voltar a um aparato regulatório bastante significati­vo nesses mercados. Temos que retomar o planeja­mento de forma a canalizar o excedente econômico para propósitos sociais evidentes e sinalizar as tra­jetórias a serem percorridas pelo setor privado. A segunda perna desse modelo seria o poder público ter intervenção direta nas áreas em que o processo de acumulação não pode seguir a lógica do capital privado.


Lendo assim sem refletir, apenas desejando que tudo que ele verbaliza aconteça, a idéia é até simpática. Mas na prática ela é impossível, pior: é um embuste. O setor privado dinamiza a sociedade, gera emprego, receita para o Estado. Onde a iniciativa privada é forte, a população é rica. Mostre-me um país, onde o estado tenha o controle econômico, que gerou riqueza e avanços tecnológicos? Não percam seu tempo procurando, não existe, não existiu, nem existirá. Que o estado deve atuar nas áreas pouco atrativas para o setor privado é um axioma do liberalismo clássico. Afinal, o estado existe para suprir, com investimentos, as necessidades de uma região que não desperte o interesse do capital privado. Onde o retorno é certo, ou seja, onde o lucro é atraente, o estado deve deixar nas mãos da iniciativa privada. Isso é mais eficiente e economicamente mais vantajoso para todo mundo.





Economista da UFRJ receita protecionismo para enfrentar a crise.

Professor Reinaldo Gonçalves, original como uma cédula de três reais, tem uma proposta muito curiosa sobre como os governos devem proceder nesse momento de crise: criar barreiras alfandegárias. Isto mesmo que você leu. Para o douto economista os governos devem adotar medidas protecionistas para retirar a economia do atoleiro.

Eu preciso lembrar – eu que não passo de um vira-lata – a este ilustre professor que foi justamente medidas protecionistas que na Grande Depressão agravaram ainda mais os efeitos daquela crise? Acaso o economista ignora os efeitos terríveis da Tarifa Smoot-Hawley para o comércio mundial? Se ignora tal dado, tenho dó de seus alunos da UFRJ.

Se existe algo que o governo pode fazer para piorar os efeitos de uma crise econômica como a atual é uma política protecionista. De economistas renomados a autoridades políticas de peso como o primeiro-ministro da Inglaterra Gordon Brown ou mesmo o presidente Lula, todos estão de acordo que os governos mais ricos não podem cair na tentação protecionista.

Nosso professor, ao contrário, tem outra receita. Acompanhe:


"Um dos efeitos da crise econômica é aumentar o protecionismo, é a situação do ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’. O país não consegue vender para si pró¬prio, então tenta o mercado externo, ao mesmo tem¬po em que procura impedir que outros vendam para ele. Isso é perfeitamente natural, sempre aconteceu e vai continuar. A Argentina está se protegendo, mas o Brasil, infelizmente, não, devido a erros e equívo¬cos do governo [do presidente Luís Inácio] Lula [da Silva]. Os norte-americanos fazem muito bem em se proteger, porque assim compram mercadorias dentro de seu país. Com isso, geram mais rapidamente ren¬da e emprego e recolocam a locomotiva nos trilhos de maneira mais rápida do que conseguiriam sem o protecionismo. Quando sua economia se recupera, ela puxa as outras, fazendo o trem andar de novo. Ou seja, o protecionismo é um guindaste auxiliar para a economia norte-americana e deve ser usado, sim, por ela e por todos. Tolos e medíocres são os governantes que não fazem isso em uma situação de crise como a que estamos vivendo."


Que em toda crise econômica os governos são pressionados a tomar medidas protecionistas, é fato. Mas sempre que isso acontece, os que perdem superam, e muito, os que ganham com tais medidas. A resposta acima comprova que o professor ignora a tragédia comercial que foi a adoção de medidas protecionistas durante a Grande Depressão. Mesmo com este exemplo notório de fracasso, o economista afirma que os países deveriam se proteger criando barreiras comerciais. Parafraseando Roberto Campos eu diria que um economista de esquerda tem sempre uma surpreendente vocação para o fracasso.

Como todo homem de esquerda, o professor Reinaldo Gonçalves sempre projeta um futuro idílico. Um esquerdista autêntico, mesmo desiludido como está o professor, no fundo, acredita que inevitavelmente chegaremos a um modelo perfeito, do tipo que respeita o ser humano, a natureza e onde todos serão felizes.

Quando, por exemplo, os defensores do socialismo são confrontados com os resultados catastróficos de seu sistema seja na economia, seja nos cadáveres que produziu em nome da “justiça”, como eles reagem? Afirmam que o socialismo verdadeiro ainda não aconteceu.

Provocado pelo repórter se haveria um lição a ser aprendida com essa crise, ele responde em tom de enfado:

"Não tenho virtudes teologais: nem fé, nem esperança, nem caridade. Por isso, não acredito na sensatez do ser humano. Pode ser que depois de muitos, muitos e muitos anos de crise no capitalismo central, com reflexo na periferia, haja um redirecionamento no sentido de mudanças profundas nesse sistema. Con¬tudo, as medidas anunciadas pelo governo Obama não apontam na direção de mudanças profundas. Acho que ele não tem vontade política ou capacida¬de, não apenas pessoal, mas do ponto de vista da correlação de forças nos Estados Unidos. Lá, os con¬servadores ainda têm muita força e podem inibir alterações mais significativas. Se ocorrerem mudanças, elas mais provavelmente acontecerão na Europa ocidental."


Apesar de não ter “virtudes teologais” ele responde como um exegeta da seita marxista. Como um digno representante da escatologia da esquerda, ela projeta para um futuro incerto o advento de um sistema que substitua tudo o que está aí. Como Marx, ele prevê que as contradições do sistema capitalista vão provocar o seu fim e então um novo sistema, mais humano, mais preocupado com as pessoas, vai se impor. Ele não chega a propor ,como o seu guru do século XIX afirmava ser imperioso, uma revolução do proletariado, mas a escatologia é a mesma.

Sabe por que os comunistas, onde quer que tenham chegado ao poder, aboliram a religião? Porque não admitiam concorrência no mercado da fé. (hehehehhe)

20 abril, 2009

Em algum lugar do Atlântico...

A visão do Atlântico é mesmo grandiosa, não acham?

Muitas coisas me preocupam nessa hora...

Ei, Lelec! Lembrei de três ocasiões pretéritas que certamente me cobrem de ignomínia. Ainda falta lembrar de mais três para, finalmente, completar a lista. Mas é que no momento eu estou com outras prioridades como você pode perceber acima.

Aos poucos leitores deste blog minhas sinceras desculpas pela falta de textos. Como veem, estou a pensar em algo muito importante.

PS: Apesar de residir em Brasília, não tenho cotas de passagens aéreas. Aliás, o estado não me dá nada, ao contrário, com o famigrado IR o que ele faz é me extorquir para dar boa vida a deputados, senadores e servidores públicos.


Como trilha sonora uma expressiva canção da bossa nova

Toquinho - O barquinho

13 abril, 2009

A política das Cotas ou A marcha da insensatez 3

Do blog do Reinaldo Azevedo.

ESTA MOÇA NÃO APRENDEU A ODIAR. ENTÃO UM TRIBUNAL RACIAL CASSOU A SUA VAGA NA UNIVERSIDADE
A covardia tomou conta do país, e o racismo avança .
É covarde boa parte da imprensa, que se cala diante do abuso de celerados racistas!
É covarde a Justiça, que permite que a Constituição seja violada sob o pretexto de se fazer justiça histórica.
É covarde o Congresso Nacional, que tem cedido ao lobby dos racistas.
São covardes os que, mesmo discordando das leis racialistas, se conformam com a instituição de tribunais raciais no país.
É covarde o Ministério Público — quando não é conivente — ao permitir, sem dar um pio, que direitos sejam cotidianamente agravados.

Vocês certamente leram o caso da estudante Tatiana Oliveira, 22 anos, que cursa pedagogia na Universidade Federal de Santa Maria. Apelou à lei das cotas para ingressar na faculdade. Declarou-se parda. Segundo entendi, seu pai é mestiço, e a mãe é branca. Leiam o que foi publicado no Globo On Line. Retomo em seguida:

Logo depois da aprovação, Tatiana entregou os documentos que a UFSM exige dos futuros alunos. No caso dos cotistas afro-brasileiros, é necessária uma autodeclaração do aprovado dizendo que é negro ou pardo. Tatiana fez o que foi pedido e começou as aulas normalmente. A surpresa veio no dia 18 de março, quando ela foi convocada para comparecer a uma entrevista na reitoria.
Segundo Tatiana, na reunião estavam sete pessoas, três negras. Por alguns minutos, eles a teriam questionado sobre sua raça, se já havia sofrido preconceito e o porquê da opção pelo sistema de cotas. Tatiana, filha de branca e pardo e neta de negro, respondeu:
- Eu falei que me considero parda. Menos parda do que meu pai, porque minha mãe é branca. Respondi que nunca sofri preconceito e que escolhi me inscrever no sistema de cotas porque ele dá chance para que nós, de cor parda, possamos ingressar na universidade. Falei a verdade - diz Tatiana.
Depois da entrevista, ela foi comunicada pela coordenadora do seu curso que a sua matrícula foi cancelada. A decisão revoltou Tatiana e sua mãe, a técnica em Enfermagem Adriana Oliveira.
- O que a UFSM quer? Que só entre quem já sofreu preconceito? Ninguém aqui usou de má-fé para conseguir uma vaga. A Tatiana só se inscreveu por cotas porque entendemos que era um direito dela. Mas, pelo jeito, agora teremos de definir a cor da minha filha na Justiça - indigna-se Adriana.

Voltei
Olhem a que ponto chegou a estupidez! Escrevi há uns dois ou três dias que os negros, no Brasil, são 6% da população. Um leitor, realmente curioso, indagou: “Ué, mas os negros já não são mais de 50% do país?” Não, não são, não, meu caro! Trata-se de uma mentira política e de uma farsa ideológica.

Em dezembro do ano passado, o Ipea, em parceria com o IBGE, divulgou a falácia de que os negros já são 49,8% dos brasileiros — 51,1% da população masculina. Como é que 6% viram 49,8%? Simples: pegaram os 43,8% de mestiços e somaram aos 6% realmente negros, e todos ficaram sendo “negros”. E “ser negro” está começando a virar uma categoria política no Brasil.

Esse grupo que o Ipea/IBGE pretende chamar de “negro” correspondia a 45,1% da população em 1993. Em 2007, saltou para 49,8%!!! Teria havido uma explosão de natalidade? Não! Como a pesquisa é feita com base na autodeclaração, é evidente que mais gente passou a se declarar “negra” ou, a exemplo de Tatiana, “parda” porque isso passou a ser uma vantagem competitiva.

Os números de dezembro de 2008 tinham sido parcialmente antecipados no dia 13 de maio daquele ano por ocasião dos 120 anos da Abolição. Divulgaram-se, então, dados com o perfil racial das regiões brasileiras. A vigarice é tal, que se sustenta que a Região Norte tem 85% de... negros! É um escândalo estatístico e histórico. E que pode ser percebido a olho nu. A esmagadora maioria dos “pardos” daquela região deriva da mestiçagem de branco com índio. VALE DIZER: SE, NO PASSADO, FEZ-SE UM ESFORÇO DE EMBRANQUECIMENTO DO BRASIL, HOJE, FAZ-SE O ESFORÇO DO ENEGRECIMENTO.

Antes que avance, uma observação. Não me venham com a tolice de que os números são sérios porque tirados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), O Pnad não determina que “pardo” é igual a “negro”. Essa é uma leitura política, não técnica. Adiante.

Comissão fascistóide
Mesmo diante dessa avalanche de mentiras, de leituras ideologicamente interessadas, não imaginei possível a brutalidade que colheu a estudante Tatiana. Não, eu não acho que ela seja “negra”. Quem diz que ela é negra é o IBGE. Quem diz que ela é “negra” é o Ipea. Quem diz que ela é negra é a política de cotas raciais. ATENÇÃO: TATIANA ESTÁ NOS NÚMEROS OFICIAIS QUE DIZEM HAVER 49,8% DE NEGROS NO BRASIL. OU BEM ELA É NEGRA E TEM “DIREITO” À SUA VAGA (SEGUNDO A POLÍTICA DE COTAS VIGENTES), OU BEM, COMO É FATO, ESSES NÚMEROS SÃO FALSOS, E A POLÍTICA DE COTAS RACIAIS FICA ABSOLUTAMENTE DESMORALIZADA. Sim, os números são falsos, e tal expediente já se desmoralizou. Mas está em vigência. E Tatiana não pode ser discriminada por uma comissão que agora decide quem é e quem não é negro. Grupos como esse foram muito ativos na Alemanha nas décadas de 30 e 40 do século passado...

Não basta ser negro...
Acontece, meus caros, que não basta ser negro; é preciso também ser vítima. Não basta dizer-se pertencente a uma minoria; é preciso também aderir à política do coitadismo. Não basta dizer-se pertencente ao grupo; é preciso exercitar um tanto de rancor. NÃO BASTA TER UM DIREITO (OU PRIVILÉGIO); É PRECISO TAMBÉM SER UM MILITANTE DA CAUSA. E Tatiana não é. Tatiana é alguém a quem foi dado um “direito” — a ela e a milhões de outros. E ela resolveu exercitá-lo.

Um certo Jorge Luiz da Cunha, pró-reitor de Graduação da universidade, que assina os documentos de cancelamento de vaga, disse o seguinte em entrevista: “Ela respondeu que nunca sofreu discriminação, que nunca se considerou parda, que se considera mais clara que outros integrantes da sua família e que, no vestibular, foi a primeira vez que se disse ‘parda’. Partindo do espírito das políticas de ações afirmativas, a comissão, que inclusive tem representantes do Movimento Negro, entendeu que ela não se sente participante desse grupo”.

Entenderam? Se o Ministério Público tiver vergonha na cara, aciona este senhor sob a acusação de abuso de autoridade. A lei das cotas raciais não exige que a pessoa se sinta discriminada ou tenha sido alvo de preconceito. O fato de haver pessoas do “Movimento Negro” — o “movimento” agora virou tribunal racial? — na comissão não torna legal a arbitrariedade. E se Tatiana tivesse mentido? Onde é que está escrito que só os sofredores têm direito a cotas?

Observem como as coisas se dão. Essa gente toma para si a Constituição e resolve reinterpretá-la ao bel-prazer, transformando a desigualdade em instrumento de justiça. Para que pudesse lograr o seu intento, reivindicou o direito de DECIDIR QUEM É NEGRO. E foi assim que os mestiços se tornaram, então, negros. Agora que lhe foi dado esse poder, executa a manobra típica das revoluções vitoriosas: começou a fase dos expurgos. E AQUELES QUE DECIDIRAM QUEM É NEGRO COMEÇAM A DECIDIR QUEM NÃO É NEGRO. Antes, diziam reivindicar um direito. Agora está claro que, de fato, eles se tornaram concessores de privilégios.
O Senado discute uma lei que oficializa o racismo no país sob o pretexto de instituir uma política de cotas em todas as escolas federais. Que preste bem atenção ao caso da estudante Tatiana. Obviamente parda, ela foi vítima de um tribunal racial. Não que a cor de sua pele não lhe dê “direito” à cota — segundo a lei vigente, dá, sim. Ocorre que o problema de Tatiana está no coração: FALTA-LHE A DOSE NECESSÁRIA DE ÓDIO, QUE É O VERDADEIRO ALIMENTO DO RACISMO. DE QUALQUER RACISMO.

Politica de cotas ou A marcha da insensatez 2

(leia primeiro o post abaixo)

J.R. Guzzo

Tudo pelo racial

"Como disse recentemente o escritor João Ubaldo
Ribeiro, citando um dos seus personagens da Ilha
de Itaparica, "quem tem raça é cachorro". Não
poderia ter feito um resumo melhor da coisa toda"


O Brasil está fazendo o possível, nestes últimos tempos, para dar a si próprio algo que até hoje conseguiu não ter: um problema racial. Se tantos outros países importantes têm questões sérias de racismo, por que o Brasil também não poderia ter a sua? Parece um motivo de desapontamento, na visão das pessoas que foram nomeadas pelo governo para defender os interesses da "população negra", ou nomearam a si mesmas para essa tarefa, que o Brasil seja possivelmente o país menos racista do mundo. Que outros poderiam ser citados? Certamente haverá nações que têm um número maior de leis contra a discriminação, são mais sérias na sua aplicação e adotam medidas de proteção especial a minorias raciais. Mas não dá para sustentar, não a sério, que haja mais racismo no Brasil do que em qualquer delas. Como poderia haver, num país onde a grande maioria da população não sabe dizer ao certo qual é a sua cor, nem demonstra maior interesse em saber? "Moreno" é a sugestão de resposta mais frequente, quando a pergunta é feita para a imensa massa de brasileiros que não se identificam claramente como brancos, nem pretos, nem qualquer outra coisa.

Criar um racismo que se preze, num país assim, não é trabalho fácil – mas é possível. Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é distribuir aos "brancos" uma espécie de culpa geral por tudo o que ocorre de errado aqui dentro. Não se citam nomes; só se cita a cor da pele. Tornou-se comum, por exemplo, o uso da expressão "elite branca" como símbolo de coisa do mal – com a agravante, em certos casos, de que essa elite, além de branca, pode ser "do sul". A mesma gente, de "pele clara e olhos azuis", é culpada também pelo que ocorre de errado lá fora, como a crise financeira internacional; por essa maneira de ver a vida, os desastres que produziram foram provocados por seu tipo físico, e não pelo seu comportamento individual. Outro esforço é criar repartições públicas para cuidar da questão racial – o que tem a tripla vantagem de dar uma cara oficial à existência do problema, passar a impressão de que o governo está cuidando dele e arrumar empregos para amigos. A mais notável delas é um órgão com nove palavras no título e status de ministério – a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Seu grande feito, em seis anos de existência, foi a demissão da secretária-ministra Matilde Ribeiro, em 2008, quando se descobriu que ela usava o cartão de crédito destinado ao exercício de sua função para pagar despesas de free shop ou contas no Bar Amarelinho, no Rio de Janeiro.

Nada parece pior, porém, do que a tentativa de estabelecer por lei que cidadãos devem ter direitos diferentes de acordo com a cor de sua pele, como preveem os projetos de "cotas raciais" ora em debate no Congresso Nacional – pelos quais os brasileiros negros, ou definidos como tal, deveriam ter mais direitos que os brasileiros brancos, ou de outras origens, no mercado de trabalho, nas vagas universitárias ou nos concursos para cargos públicos. É o contrário, exatamente, do que deveria ser. A grande vitória da humanidade contra a discriminação racial foi excluir das leis a palavra "raça"; o objetivo era estabelecer que todos têm direitos idênticos, sejam quais forem as suas origens, dentro da ideia de que todos os homens pertencem a uma "raça" apenas – a raça humana. No Brasil de hoje, em vez de proibir o uso da noção de raça para dar ou negar direitos, tenta-se ressuscitar a tese de que os indivíduos são diferentes uns dos outros, em termos de cidadania, segundo a cor que têm.

"Os defensores de leis raciais ludibriam a boa-fé alegando que cota racial é ação afirmativa", escreveu, num artigo para O Estado de S. Paulo, o advogado negro José Roberto Militão, um especialista em antidiscriminação na OAB de São Paulo. "Ação afirmativa", de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou estabelecer diferenças de direitos. "Ao estado cabe atuar para destruir a crença em raças", diz Militão. "Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas." São, além disso, o oposto da harmonia: como se sabe, nada é mais fácil do que passar da distinção à divisão.

*Coluna publicada na Revista Veja, edição 2108 de 15 de abril de 2009.

12 abril, 2009

Política de cotas ou A marcha da insensatez


Ela diz que é parda, mas a Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, diz que não. E aí?
............................................................................................

O movimento começou nas universidades federais, vem ganhando espaço no mercado de trabalho, e agora, fashion que é, pretende conquistar as passarelas de São Paulo, quiçá as do mundo! Querem ver? Clique aqui.


A despeito da primeira notícia, não custa lembrar um trecho do livro Não Somos Racistas, de Ali Kamel.

A funcionária do IBGE que me ajuda com os números se disse parda ao censo, ‘parda como a Glória Pires'. Mas, para muitos, a Glória Pires é branca. Digo isso com real preocupação: quem é pardo? O pardo é um branco meio negro ou um negro meio branco? Chamar um pardo de afro-descendente é mais do que inapropriado, é errado. (...)

A despeito da segunda notícia, é oportuno conferir mais esse trecho do livro supracitado.

" O livro é uma pesquisa sobre o efeito das ações afirmativas e da adoção das cotas na Índia, na Malásia, no Sri Lanka, na Nigéria, nos Estados Unidos e em outros países. As conslusões, calcadas em fatos e números, são demolidoras. Quando as cotas surgiram na Índia, seus defensores diziam que elas durariam dez anos. Isso foi em 1949, e até hoje elas estão em vigor, ampliadas. O mesmo aconteceu em toda parte, em todos os países do mundo que adotaram a experiência. (...) O Brasil não será uma exceção no futuro: livrar-se das cotas será uma tarefa praticamente impossível numa democracia de massas como a nossa, em que a pressão de grupos organizados é decisiva na eleição de um parlamentar ou mesmo de um presidente."

Caminhamos para a segregação baseada na cor da pele. Uma lástima!

09 abril, 2009

O dinheiro compra tudo?

Os poucos leitores deste blog, merecem, de vez em quando, um texto impecável. Nada dos meus escritos visigóticos, da minha gramática ralé ou de meu estilo Pithecantropus. Leiam o excelente artigo do jovem - da minha idade, meu Deus! - intelectual português, João Pereira Coutinho, sobre a malfadada "operação adoção", protagonizada pela cantora pop, Madonna.



06/04/2009

Os meninos de Madonna


Madonna foi às compras e um tribunal não deixou. Aconteceu no Maláui. Em 2006, a cantora pop mais famosa do mundo proletário aterrou em África, praticamente raptou financeiramente uma criança e depois zarpou para Ocidente com o troféu nas mãos.

Agora, a operação não teve igual sucesso e Madonna não conseguiu fazer o par da coleção. Um juiz decidiu que, sem residência mínima no país por período de 18 a 24 meses, Madonna tem que procurar crianças em outro lugar. Onde?

Uma sugestão: em Portugal, por exemplo. Eu próprio não me importaria de ser adotado por Madonna. As vantagens são evidentes: crescido e alfabetizado, sem necessidade de fraldas (por enquanto), seria uma criança adorável, capaz de tomar o leite a horas certas e sem necessidade de presença maternal durante os concertos da diva.

Aliás, agradeceria até que a diva me deixasse regularmente numa mansão qualquer, de preferência em Londres ou Nova York, entregue aos cuidados de duas ou três baby-sitters que me dessem colo e carinho em momentos de inevitável carência infantil.

Madonna tem outras ideias e é provável que, em breve, volte ao ataque. Condenável?
A doutrina, como sempre, divide-se. Alguns críticos, com impecável raciocínio econômico, dizem coisas sensatas que seria crueldade não escutar. Primeiro: o Maláui é pobre. Segundo: Madonna é rica. Terceiro: uma criança pobre em família rica é uma benesse para a criança.

O raciocínio, temo bem, não é claro. Para começar, ainda está por provar que a pobreza material africana é pior do que a pobreza mental de Madonna. E, para terminar, o cálculo puramente econômico, se levado ao limite, acabaria por privar África, e não apenas o Maláui, de qualquer futuro demográfico e humano. África seria apenas o shopping center das celebridades que, depois das compras feitas, deixariam para trás uma lixeira de gente velha, doente. E pobre.

Se Madonna quer "ajudar" as crianças de África, talvez o primeiro passo seja parar de exibir os troféus do continente negro perante as lentes sentimentais do mundo.

O segundo passo, mais caridoso e incomparavelmente mais barato, resume-se em palavra simples: filatelia.

P.S. - Sou informado pela redação da Folha Online que incontáveis leitores têm protestado com meu alegado erro nesse artigo. Onde está escrito "filatelia", os leitores acreditam que minha real intenção era escrever "filantropia". Lamento desiludir as almas beneméritas dos leitores: minha intenção era "filatelia" por motivos que eu julgava óbvios. Entre colecionar crianças ou colecionar selos, eu penso que é mais simpático, mais decente e mais barato colecionar selos. "Filantropia" é outra coisa: por exemplo, gastar tempo e dinheiro explicando aos leitores o conceito de ironia.

João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho@folha.com.br

06 abril, 2009

Cristovam não está no seu normal.

Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo? (...) Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. De novo, perguntou-lhes o governador: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam eles: Barrabás! Repicou-lhes Pilatos: Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo? Seja crucificado! Responderam todos!

Mateus (27: 17 - 22)

Segundo o blog do Noblat, o senador Cristovam Buarque fez nesta tarde um pronunciamento polêmico. Diante das críticas que o parlamento brasileiro vem sofrendo da sociedade, o senador sugere que talvez estivesse na hora da população, através de um plebiscito, decidir se mantém o congresso aberto. O senador explica que se o fechamento do congresso fosse aprovado em plebiscito, não seria golpe. Meu Deus!

Sempre tive admiração pelo professor Cristovam Buarque. Talvez pouca gente saiba, mas ele escreveu diversos livros dos quais já li quase todos. No meu curso de história, em Recife, ele sempre foi um referencial ético para mim. Quando vim para Brasília tive a satisfação de morar numa quadra onde ele tinha um escritório e algumas vezes fizemos um lanche na Torteria de Lorenzo da 213 norte. Sempre afável e atencioso, o professor Cristovam falava e ouvia com paciência. Depois que me mudei dessa quadra, não nos encontramos mais.

Em julho de 2006, com muita gentileza, o professor Cristovam respondeu para este blog algumas perguntas sobre sua candidatura a presidente e suas propostas para o país (confira aqui). Enfim, sempre tive um grande respeito e admiração pelo senador Cristovam Buarque.

Infelizmente, nos últimos meses, o senador vem se esmerando em fazer propostas esdrúxulas. Primeiro, elaborou um projeto de lei que obriga os políticos que ocupam cargos eletivos a matricularem seus filhos em escolas públicas. Segundo o senador, sofrendo na pele o descaso da educação, os políticos vão se sensiblizar e resolver de uma vez por todas os males de nossa escola pública.

Na semana que passou, sugeriu que os imigrantes brasileiros possam eleger deputados para a câmara, aumentando o número de parlamentares numa casa que anda, já há muito tempo, em baixa, na opinião pública. Agora, essa de plebiscito para fechar o congresso.

A mente do senador deve estar confusa. No mesmo discurso, em que ele brinca com o perigo, afirma que faria campanha contra o fechamento do congresso. Ora, se ele é contra, por que propor, ainda que hipoteticamente, um plebiscito dessa natureza? Ou ele apoia a ideia ou é contra ela. Não dá para ser contra e ao mesmo tempo criar condições políticas para que ela triunfe.

Não seria mais fácil, senador, corrigir e punir os desvios? Se existe um poder cioso de sua liberdade, é o poder legislativo. Não caia na esparrela de acreditar que o povo, as massas possam ter sempre a melhor saída. Não têm. Foram as massas que deram, por exemplo, força política a regimes totalitários no século XX. As massas, como comprova o exemplo bíblico, são persuadidas pelos maus, nunca pelos bons. É isso, senador.






05 abril, 2009

A pergunta que não quer calar.


Ainda é possível ler nesta página um post onde comento sobre os problemas que a política de cotas para o ingresso nas universidades públicas podem causar ao país. Ainda que as chamadas "cotas sociais" - para alunos pobres e de escolas públicas - tenham mais aceitação que as "cotas raciais", que beneficia apenas candidatos que se declaram negros, a verdade é que qualquer sistema de cotas privilegia a mediocridade.

Esta semana, a revista Época traz em sua matéria de capa uma reportagem sobre as cotas. A essência da matéria não é muito diferente daquilo que escrevi há dias no post sobre esse tema. Contudo, há alguns detalhes interessantes que devem ser lidos. Como não sou assinante, não tenho acesso à revista na internet, por isso, fui auma banca para comprá-la. Quero destacar alguns pontos da reportagem que me chamaram atenção. Confiram abaixo.

Funcionário da Petrobras, o carioca Thiago Lugão, de 24 anos, é formado em engenharia de produção no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet). Em 2002, ele foi classificado em 14º lugar no vestibular da Universidade do Norte Fluminense (Uenf), que tinha 20 vagas para o curso de engenharia de exploração e prospecção de petróleo. Lugão tirou 14,20 na prova de física, que valia 20. Ainda assim, viu concorrentes que tiraram 0,25 conseguir a vaga na sua frente, porque se declararam negros. Lugão foi um dos primeiros estudantes que fizeram vestibular na Uenf sob o regime das cotas raciais. “O sistema de cotas raciais é injusto. A cor da pele não quer dizer nada”, afirma. “Você não pode dar privilégio a alguém por causa da cor da pele. Meu avô era negro, e eu poderia me declarar pardo, até porque é difícil um brasileiro não ser pardo.” Lugão estudou no Colégio Santo Agostinho, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Convencido de que sofrera uma injustiça, recorreu aos tribunais. No ano passado, cinco anos depois, a Justiça decidiu que ele tinha razão. Mas Lugão já estava formado em outra universidade e pós-graduado. Hoje, ganha menos da metade que colegas formados no curso que ele queria.

Lugão é um personagem típico da história recente do sistema de cotas raciais, implantado nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e da Bahia. Em tese, elas surgiram como uma tentativa de corrigir uma injustiça histórica – o desfavorecimento a negros e índios –, em meio a um sistema de educação pública de má qualidade. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado deve votar, ainda neste mês, um projeto que propõe expandir esse sistema e criar reservas de vagas com critérios raciais e socioeconômicos nas universidades federais. Discutida como uma questão educacional, a instituição das cotas esconde seu real alcance para o país. Não se trata apenas de reparar injustiças contra estudantes negros ou índios. Se for aprovado na comissão e no plenário do Senado, o projeto criará a primeira lei racial do Brasil em 120 anos de história republicana. “A criação de cotas raciais não vai gerar problema para a universidade, mas para o país”, afirma o geógrafo Demétrio Magnoli – ele participa das discussões no Senado e escreve um livro sobre a questão racial. “A partir do momento em que o Estado cria a raça, passa a existir também o racismo.”

Voltei.

A matéria traz uma informação curiosa. Afirma que nas universidades públicas do estado do Rio de Janeiro, vem diminuindo a procura de candidatos pelo sistema de cotas. A explicação, segundo especialistas ouvidos pela reportagem é que o brasileiro não tem identidade racial e muitos não querem iniciar um curso superior com o estigma de cotista.

A matéria também lembra que a pressão que o Estado vem sofrendo nos últimos anos pela ampliação do sistema de cotas nada tem a ver com uma demanda da sociedade, como fazem crer a maioria dos movimentos sociais que defendem o sistema de cotas raciais. Tanto que a maioria da população, quando questionada sobre o sistema, afima que cotas sociais são mais justas que as raciais. Boa parte das Ongs que defendem o interesse dos "negros", como a Educafro, são taxativas em se contrapor às cotas sociais. Seu líder, frei David, afirma com todas as letras que os beneficiados devem ser aqueles que sempre lutaram pelo sistema, ou seja, os movimentos sociais dos "negros". A declaração dá bem o tom do que se transformou esse imbrógilo: a disputa é política e ideológica.

Finalmente, como bem lembra o professor da USP Demétrio Magnoli, se a lei for aprovada podemos criar, em 120 anos de república, a PRIMEIRA LEI RACIAL DO BRASIL.

PS: Já recomendei várias vezes, mas não custa repetir. Leiam o livro NÃO SOMOS RACISTAS, de Ali Kamel, um estudo bem fundamentado sobre os equívocos, mas sobretudo, sobre os perigos que o sistema de cotas raciais podem trazer para a nossa sociedade.

01 abril, 2009

Não tenho competência para a Fundação Educacional.

Aconteceu hoje, na hora do intervalo, na sala dos professores. Havia uma acalorada discussão sobre o movimento grevista na rede oficial de ensino do DF - aqui chamada de Fundação Educacional - quando, em tom de provocação, disparei: "professor da fundação não trabalha e ainda quer aumento." Foi o suficiente para despertar em alguns colegas uma ira incontida; em outros, uma indignação contundente; e, em todos, os instintos mais primitivos.

Sentado no sofá, acuado por colegas que também são professores da fundação, ouvi reprimendas do tipo: "você não devia falar isso nem de brincadeira." Outros disseram que minha generalização era injusta.

Sim, generalizei. E por ter generalizado, é claro, cometi uma injustiça. Que generalização não é injusta? De fato, não são TODOS os professores da fundação que não fazem nada, são apenas MUITOS que não trabalham, não dão aula, são descompromissados e estão mais interessados em receber benefícios do governo que ensinar seus alunos. Os meus colegas, claro, reagiram indignados ao meu chiste porque compõem a minoria - dos professores da fundação - que é séria, preocupada com o aprendizado do aluno e com a qualidade da educação pública. Houve até um colega, menino ainda, recém-contratado pelo governo, que declarou que se quisesse não precisava trabalhar na fundação, afinal, ainda mora com os pais, é solteiro e não tem necessidade de ganhar dinheiro. Trabalha na fundação, segundo disse, por idealismo. Porque acredita na escola pública. É um educador nota 10! É de professores assim, sem interesse pecuniário, só pensando na Causa da Educação que o nosso sistema público está precisando. Para um professor assim, como esse meu colega solteiro e vivendo na casa dos pais, a estabilidade no serviço público é uma vantagem dispensável. Receber proventos, por 20 ou 40 horas/aula, que é a maior média salarial do Brasil, é um luxo que ele, garanto, dispensaria, afinal trabalha na fundação porque acredita na escola pública.

Esse meu colega, como tantos outros que justificadamente ficaram indignados comigo, pensam no melhor para a educação e, por isso, devem fazer uma greve deixando sem aula a parte mais fraca dessa disputa: o aluno pobre. Mas o estudante que será prejudicado pela interrupção das aulas vai certamente entender a necessidade dos professores da Fundação Educacional do GDF.

Quando fui aluno de escola pública, eu sempre apoiei os 90 dias de greve que os professores do estado de Pernamuco faziam, ano sim, ano não. Nas escolas federais, onde estudei, eu estava lá, dando meu apoio altruísta à classe docente que exigia do governo federal aumentos substanciais. Fiquei sem aula, os professores sem o aumento desejado, mas lutamos e isso é o que importa, não é?

Sou professor desde 2000. Nunca trabalhei no serviço público. Costumo dizer que não tenho competência para ser professor de escola pública. Falta-me muitas qualidades...

Sempre trabalhando na rede privada de ensino, fui explorado pelos tubarões da educação. Enquanto dava meu sangue pelos alunos, o empresário, com a mais valia, enriquecia às custas do meu trabalho de operário do saber. Além disso, eles me cobravam qualidade, aprimoramento, novos recursos didáticos. Obrigavam-me a ler. Finaciavam cursos de especialização para eu ser um professor cada vez melhor e assim eles poderem ficar ainda mais ricos e eu mais pobre.

Dos meus colegas que trabalhavam na rede pública, sentia inveja. Todos diziam que fora o salário, era uma maravilha! Uma tranquilidade! Nada da pressão das escolas privadas. A cobrança por qualidade, quando existia, era retórica. As faltas, as muitas faltas, eram devidamente abonadas, de modo que meus colegas conseguiam a proeza de receber o salário sem ter dado quase nenhuma aula no mês, afinal era o direito do professor. Os abonos, a aposentadoria integral, as licenças, tudo chamava minha atenção. Cúpido, eu queria ser professor público para me refestelar nessas regalias que a novílingua Orwelliana chama de direitos da categoria. Nunca quis ser professor da escola pública por idealismo. Mas, como disse, faltava-me, e ainda me falta, competência para trabalhar na rede pública de ensino.

É que eu gosto do chicote do patrão. Gosto de receber meu salário trabalhando. Gosto de ir para o trabalho, mesmo quando a unha do meu dedo mindinho quebrou e me senti tentado a pedir ao médico um atestado de 15 dias.

Não faço greve porque me envergonho - sou mesmo um imbecil - de me dedicar, por um tempo, exclusivamente à cupidez do sistema privado de ensino que só quer me explorar e impor sua visão de mundo neoliberal e capitalista. Não faço greve porque me constrange aderir a uma paralização só para ficar de pernas pro ar, viajar, descansar enquanto eu sei que os alunos ficarão sem as aulas que serão repostas de qualquer jeito e de qualquer maneira.

Por isso, professores, não sejam tolos como eu! Façam Greve! Exijam o aumento de 20% prometido pelo governador Arruda. Não se incomodem de vocês terem, no serviço público, regalias, digo, direitos, que a maioria dos trabalhadores do sistema privado não têm. Problema deles. Façam greve porque 10 ou 100 dias parados não vão fazer diferença para vocês que sempre conseguem receber pelos dias não trabalhados. Talvez os alunos se prejudiquem, mas e daí? O que importa é sensibilizá-los para a causa da educação! É pedir a eles que apoiem o movimento para vocês ampliarem seus direitos.