14 março, 2009

Quando a morte é aplaudida.

Temporão cumprimentou médico pernambucano Olímpio Moraes


Encontre uma pessoa na esquina, no trabalho, na parada de ônibus e, dificilmente, essa pessoa vai desconhecer o caso da menina pernambucana que depois de ter sido violentada pelo padrasto, engravidou de gêmeos e, amparada pela lei, submeteu-se à prática do aborto.


O caso, escabroso e indesculpável, ganhou contornos ainda mais dramáticos e também polêmicos, quando o arcebispo de Olinda e Recife, D José Cardoso Sobrinho, anunciou que todos que participaram do aborto estavam excomungados. Pronto. Os que se pretendem racionais, os humanistas, os progressistas, as feministas e outros tantos vigaristas, de maneira geral, levantaram a bandeira da indignação e declararam que a Igreja estava sendo conservadora, anticristã, reacionária e insensível ao sofrimento da família da pobre menina.


Muitos por ignorância e outros tantos por pura má fé e senso de oportunismo, escreveram artigos em jornais, discursaram em programas de televisão, denunciaram o anacronismo da Igreja e disseram toda sorte de indignidades contra o eclesiástico que comanda a arquidiocese de Olinda e Recife. Essas pessoas modernas, boas por natureza e altruístas por vocação, não demoraram a distorcer os fatos e o que era interpretação – errada, diga-se – das palavras do bispo, transformaram em verdades insofismáveis.


O leitor desatento ou crédulo nesses profetas da verdade acreditaria que estávamos em pleno padroado do século XIX onde o Estado e a Igreja se confundiam num mesmo corpo. Trataram uma sanção religiosa, prevista no Direito Canônico, com sendo uma punição civil.


D José, a meu ver, foi inábil na forma como atuou no caso. Mas a sua inabilidade não significa que estivesse errado. Antes que muitos de nós, o bispo percebeu que o caso da menina, absolutamente ignominioso, poderia ser usado, como foi e como está sendo, pelos defensores da legalização do aborto, como uma bandeira. Ao declarar excomungadas as pessoas que participaram do ato nefando, o religioso também lembrou que bastava um pedido de perdão sincero, de quebrantamento, para que a Igreja as recebesse de volta.


As falanges do ódio e as hienas da ignorância, contudo, não querem saber disso. Acusaram a Igreja de não se importar com o sofrimento da menina quando, em verdade, são eles que estão pouco se lixando para o sofrimento dela e de sua família. Falam da pobre criança, não como uma pessoa, mas como uma bandeira. Transformaram-na numa causa, num pretexto para saírem por aí defendendo o aborto.


O que me incomodou no caso, não foi a crítica à Igreja, ao arcebispo ou à excomunhão. O que me incomodou foi a distorção da verdade e a mentira pura e simples. Não precisavam recorrer a tais expedientes.


A Igreja JAMAIS perdoou o canalha do padrasto, como se tentou dizer. A Igreja JAMAIS excomungou as pessoas responsáveis pelo aborto, como fizeram crer. A Igreja nunca quis infligir às pessoas envolvidas no caso, uma penalidade civil. Fez o que era a sua OBRIGAÇÃO. Posso assentir que a forma foi atrapalhada, mas, reafirmo: foi correta. Tanto, que da CNBB ao Vaticano, todos apoiaram o anúncio do prelado de Pernambuco.

Tivesse ele silenciado, fazendo ouvidos moucos à decisão de se interromper a gravidez da menina, estaria, como autoridade da Igreja, incorrendo num crime de responsabilidade. Desconfio que ao expor na mídia o fato da excomunhão a que se auto-impuseram aqueles que fizeram ou concorreram para a prática abortiva, D José assumiu, sozinho, uma luta perdida.


O lado do bem é aquele que evocou a inquisição e a Idade Média para ridicularizar a Igreja e que defende o DIREITO que uma mulher julga ter para interromper uma gravidez. A Igreja, que condena o aborto, é que é medieval e violenta. Eles que defendem, são humanistas e progressistas. Curioso, não?


O ponto principal, porém, vem agora. O médico que chefiou a equipe que realizou a cirurgia de interrupção da gravidez se diz católico, freqüenta as missas, comunga, um verdadeiro cristão. Este bom médico foi recebido sob aplausos, comandados pelo ministro da saúde, José Gomes Temporão, que declarou: “O trabalho dessa equipe fortalece a sociedade brasileira no enfrentamento da questão que é grave. Todo o debate que se deu a partir desse fato foi importante para tirar o véu que encobre a questão, amadurecendo na sociedade o reconhecimento do aborto como problema de saúde pública”. Médicos, de pé, aplaudiram o Dr. Olímpio Moraes e não foram poucos os elogios que fizeram à coragem, à determinação e à prova de amor pelo próximo do médico e de sua equipe.


Não entro no mérito se o aborto era necessário para manter a vida da menina que corria risco, caso prosseguisse com a gravidez. Nem discuto as poucas chances que as crianças teriam de sobreviver a um parto de alto risco. O que me espanta é que a decisão da equipe, por mais tecnicamente acertada que fosse, deveria causar, antes, consternação que euforia. Goste-se ou não: matou-se naquela sala de operações duas pessoas. O que deveria ser motivo de reflexão, recolhimento, oração, acabou se transformando em aplausos, regozijo, satisfação.


A pobre menina, que teve sua infância violada, que foi a grande vítima de todo esse caso repugnante, vem sendo usada de forma desumana e descarada como bandeira pela legalização do aborto. A maneira como as autoridades reagiram, o regozijo que muitos sentiram e demonstraram com a cirurgia, provam, como falou o presidente da CNBB no Nordeste. que uma sociedade que aceita e defende com naturalidade o assassinato de duas criaturas de Deus, está doente.

Um comentário:

Lelec disse...

Olá Zé,

Como já falei com você uma vez, eu tenho lido sobre o aborto, afim de adotar uma posição.

Ainda não tenho uma opinião consolidada.

Nesse caso específico, sou a favor de que o aborto fosse praticado, tal como foi.

A noção de que "duas pessoas" foram mortas no procedimento é altamente discutível.

Mesmo a posição da Igreja sobre o assunto mudou com o tempo.

Até 1869, a Igreja não condenava o aborto, pois adotava o hilomorfismo, de Santo Agostinho, teoria segunda a qual um feto só é humano a partir do momento que passa a ter forma humana (braços, pernas, etc). Essa teoria foi oficialmente adotada em 1312 (Concílio de Viena). Em 1588, o Papa Sixto a revogou e o aborto passou a ser condenado. Em 1591, Gregório XIV reafirma o hilomorfismo e o aborto é autorizado, posição que dura até 1869.

Enfim, a proibição do aborto é algo relativamente recente na história da Igreja.

Eu aplaudiria o médico que fez o procedimento. E, por favor, não me inclua na esparrela reinaldiniana contra os "humanistas, progressistas" (ele sempre faz isso com quem discorda dele).

Sou apenas uma pessoa bem intencionada tentando refletir sobre o assunto.

Abraço,

Lelec