15 março, 2009

Lelec discorda de mim e eu dele, mas somos amigos!

Quando um amigo discorda daquilo que escrevo, sobretudo quando é uma pessoa preparada e inteligente, oferece a mim a oportunidade rara de exercitar minha gentileza e urbanidade. Se, por ventura, não conseguir, é por falta de hábito mesmo.

Abaixo, há dois comentários do amigo e médico Leonardo Cruz, o simpático Lelec, neurologista que estuda e trabalha em Paris e, cujo blog, sempre impecavelmente escrito, é uma referência importante para mim.

Leiam o que ele comenta, depois eu volto.

"Falanges do ódio", "hienas da ignorância"... Credo, Zé, esse vocabulário hidrofóbico não combina com você. Deixe essas expressões com o tio Rei, nele a gente já se acostumou.

Não sou especialista em direito canônico e tenho por hábito respeitar quem sabe mais do que eu.

Mas, a julgar pela reação da própria Igreja, a excomunhão não era tão "automática" assim, se me permite.

O Vaticano há pouco divulgou um documento dizendo que os médicos da equipe não mereciam a excomunhão.

A CNBB disse que "não tem elementos para dizer qual médico está excomungado e qual não está; depende do grau de consciência de cada um".

Enfim, a julgar pelo que foi escrito pelas autoridades eclesiásticas, a ação da equipe médica poderia ter sido relevada.

Se a excomunhão diante do aborto é automática e independe da aplicação do pontífice, gostaria de saber se a autoridade pontifícia tem poder para revogá-la ou para anular seu caráter automático, em casos específicos.

Levanto a questão respeitosamente, para discussão e para que eu possa aprender. Não há nada de ironia ou de escárnio na minha colocação.

Abraço,

Lelec

Num outro post sobre o mesmo assunto, e onde nossas divergências se acentuam, meu amigo Lelec, continua:

Olá Zé, Como já falei com você uma vez, eu tenho lido sobre o aborto, afim de adotar uma posição. Ainda não tenho uma opinião consolidada. Nesse caso específico, sou a favor de que o aborto fosse praticado, tal como foi. A noção de que "duas pessoas" foram mortas no procedimento é altamente discutível. Mesmo a posição da Igreja sobre o assunto mudou com o tempo. Até 1869, a Igreja não condenava o aborto, pois adotava o hilomorfismo, de Santo Agostinho, teoria segunda a qual um feto só é humano a partir do momento que passa a ter forma humana (braços, pernas, etc). Essa teoria foi oficialmente adotada em 1312 (Concílio de Viena). Em 1588, o Papa Sixto a revogou e o aborto passou a ser condenado. Em 1591, Gregório XIV reafirma o hilomorfismo e o aborto é autorizado, posição que dura até 1869. Enfim, a proibição do aborto é algo relativamente recente na história da Igreja. Eu aplaudiria o médico que fez o procedimento. E, por favor, não me inclua na esparrela reinaldiniana contra os "humanistas, progressistas" (ele sempre faz isso com quem discorda dele). Sou apenas uma pessoa bem intencionada tentando refletir sobre o assunto. Abraço, Lelec

O que venho combatendo nos meus posts é a maneira como a imprensa reagiu às palavras do prelado de Pernambuco taxando-a de medieval e inquisitorial, quando o que ele fez foi apenas mencionar o artigo 1398 do Direito Canônico, que estabelece a excomunhão automática, no caso da prática do aborto.

Além disso, não foram poucos os que aproveitaram o caso para destilar seu ódio contra a Igreja e defender a legalização do aborto. Nada contra, como já escrevi. Todavia, não precisavam distorcer a verdade ou mesmo mentir com desfaçatez para darem consistências às suas críticas.

O documento a que você se refere Lelec, não é do Vaticano, mas de um representante do Vaticano. E, a rigor, o que o monsehor Fisichela criticou foi a maneira como D José conduziu o caso. Lendo o documento com atenção, ele reforça a premissa indiscutível para a Igreja: o aborto é um pecado nefando e proporciona a excomunhção automática. Portanto, nesse aspecto não há como haver sofismas. Ademais, outra voz importante da Igreja, Gianfranco Grieco, chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família, apoiou a decisão de arcebispo de Olinda e Recife na sua atuação contra o aborto.

O arrependimento sincero e o reconhecimento da culpa são determinantes e suficientes para a anulação da excomunhão. A Igreja não revoga uma excomunhão sem esse quebrantamento do fiel. Aqui, entra um detalhe importante: a relação do crente com Deus é particular. A necessidade da revogação da sanção religiosa pela Igreja tem caráter meramente jurídico, possibilitando a comunhão dos arrependidos com os sacramentos da Igreja.

O Direito Canônico atual foi revisado no começo dos anos 80, portanto, no pontificado de João Paulo II. Nessa revisão, os pecados passíveis de excomunhção foram reduzidos para apenas 9 e o aborto está entre eles.

Passemos agora para o segundo comentário:

Você começa escrevendo que está lendo sobre o aborto e afirma que ainda não tem uma posição consolidada sobre o assunto. Mesmo assim, para a minha supresa, você diz que também aplaudiria o médico que chefiou a equipe que fez o aborto na menina. Por quê, se sua posição sobre o aborto ainda não está consolidada? Por corporativismo?

O caso específico é um ultraje. Eu mesmo, confesso, não saberia como agir se fosse uma filha minha. O meu ponto, é outro: a Igreja, na pessoa de D José, agiu como deveria ter agido. Anunciou que quem pratica ou concorre para a prática do aborto está excomungado, pelas leis da Igreja. E o que fizeram as pessoas de bem? Às que arrotam um humanismo laico? Condenaram a Igreja e chegaram a divulgar duas mentiras aviltantes: a de que a Igreja excomungou a equipe médica e ainda por cima, perdoou o canalha da padrasto.

Você considera altamente discutível a ideia de que duas pessoas foram assassinadas nesse aborto específico. Não acho. Mas aqui, cada um com as suas convicções.

Você recorre à teoria de Santo Agostinho para relativizar historicamente a posição da Igreja sobre o tema. Tomás de Aquino, que você não cita, foi o responsável pela revisão da opinião da Igreja sobre esse assunto, no século XIII. Estes dois Pais da Igreja escreveram na Idade Média - curiosamente, sempre lembrada como uma era de obscurantimo - e, no entanto, tivesse esses pilares da Fé acesso à ultrassonografia, aposto que ambos concordariam que o aborto em qualquer etapa da gestação é um assassinato frio, covarde e cruel.

Quando meu filho tinha o tamanho de um polegar, sem braços, pernas, ou rosto definidos, seu coraçãozinho batia no ritmo típico dos fetos: maravilhosamente acelerado. Ali, para mim, não era um conceito altamente discutível, mas um ser, vivo, em desenvolvimento e que hoje, graças a Deus, abençoa a minha vida e a de minha família.

Jamais eu incluiria você no rol dos apologistas da morte, muito menos entre aqueles que, anticlericais, querem apenas uma chance de malhar a Igreja, ainda que para tanto, recorram à mentira e a distirção da verdade. Você é inteligente. Por isso,creio, com sinceridade, que em um momento, não sei quando, a semente cristã que foi plantada no seu coração na infância, haverá de germinar e as luzes da fé haverão de iluminar sua alma e você perceberá que o aborto - seja na potencialidade do zigoto ou não, - é tão ou mais ultrajante que a violência sexual de um canalha sobre uma criança indefesa.

PS: Apenas para descontrair, Lelec, lembro a você que de boas intenções o inferno está cheio!

Um abraço.

2 comentários:

Lelec disse...

Olá Zé,

Obrigado por continuar a discussão. É uma oportunidade preciosa para refletirmos sobre uma questão – o aborto – que é, na minha modesta opinião, um dos mais complexos problemas bioéticos.

Agradeço-lhe pela deferência em meu favor (“inteligente”, blog “impecavelmente escrito”).

A recíproca, você sabe, é verdadeira.

Por isso, dado esse clima de cordialidade, não compreendi sua insinuação de que eu teria aplaudido por “corporativismo” o médico que realizou o procedimento na menina grávida.

Não me confunda, por favor.

Vamos guardar o respeito entre nós, ou alguém vai dizer que eu defenderia Menguelle por "corporativismo".

1) Como falei no comentário anterior, não tenho postura definida com relação ao aborto, nos casos em que não há risco para a saúde da mãe ou quando a gravidez não é fruto de violência. Quando os há – e foi assim no caso dessa criança – sou enfaticamente a favor do procedimento.
Aplaudiria o médico porque ele agiu corretamente, enfrentando a ferrenha oposição do Bispo de Recife e Olinda. Essa equipe médica salvou a vida de uma menina, já por demais desgraçada pela violência que sofreu. É inconcebível que fosse negado à essa criança o procedimento que lhe impediu ser exposta a um risco de morbi-mortalidade extremamente importante.

2) Não diga que tentei “relativizar” a postura histórica da Igreja diante do aborto; isso não é verdade. Discorde de mim, mas não deturpe meu argumento. Não “relativizei” coisa alguma. O que apresentei são fatos históricos que independem de sermos contra ou a favor do aborto. É fato: a Igreja só assumiu uma posição contra o aborto em 1869. Antes disso, foi oficialmente contra o aborto apenas entre 1588 e 1561. As idéias de São Tomás sobre o aborto só foram oficialmente incorporadas em 1869. Tudo isso são fatos, está na historigrafia da ICAR. Não há nada de “relativo” nisso.
Como historiador que você é, você bem sabe que a história se atém ao relato do que os homens fizeram com os instrumentos que lhes eram disponíveis à época em que viveram. Por isso, sinto muito, mas não há qualquer valor em dizer que “apostava que”, se Santo Agostinho conhecesse a ultrassonografia, ele teria outra concepção sobre a vida fetal. Se Cabral tivesse o avião, ele teria vindo ao Brasil na primeira classe de um 747, e não em uma caravela fedorenta.

3) Sendo o documento que citei vindo de um “representante do Vaticano” (palavras suas), é lógico considerar que ele reflete, em alguma medida, a opinião... Do Vaticano, oras. Então um documento de um “representante do Vaticano” não representa o Vaticano?

Há várias lideranças na ICAR que não concordam com a excomunhão da equipe médica. Os bispos franceses dizem que a excomunhão não é automática, mas que a pena poderia não ter sido “aplicada” neste caso específico, dadas as circunstâncias.

Veja só:

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=vaticano-critica-excomunhao-no-caso-de-aborto-no-brasil&cod_post=168813

http://www.lefigaro.fr/international/2009/03/13/01003-20090313ARTFIG00523-excommunications-l-eglise-bresilienne-fait-son-mea-culpa-.php

http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2009/03/14/01016-20090314ARTFIG00258-l-eglise-de-france-opposee-a-l-eveque-bresilien-.php

4) Eu também me emociono com os batimentos fetais no corpo materno. Lembro-me da emoção que senti ao escutá-los, no ambulatório de obstetrícia, na faculdade.
Fico sinceramente feliz em saber que seu filho lhe proporciona uma alegria tão grande e viva.
Mas a pessoalidade que atribuímos a um embrião de dois meses (atenção, não me refiro a fetos com mais de três meses de gestação) não lhe é biologicamente intrínseca, mas é um sentimento que existe nos pais ou no observador externo e que é transferido ao embrião.

5) Por fim, sua referência à minha educação cristã. De fato, cresci em um lar PROFUNDAMENTE religioso. Não posso sequer usar a poética expressão de que “a semente cristã” me foi "plantada". Não foi bem assim. Foi algo MUITO mais violento do que isso. Algo que merece um livro, caso eu tivesse coragem para escrevê-lo. A violência continua, com referências ao inferno. Mas já me acostumei a lidar com essas invectivas, mesmo disfarçadas em brincadeiras “para descontrair” (“de boas intenções o inferno está cheio!”). Há psicólogos nos EUA especializados no atendimento a pessoas que romperam com a fé cristã, mas que ainda são assombrados pela idéia de inferno. Mas é assim mesmo. No fundo, quando falham outros métodos de convencimento, o bom cristão usa o mesmo argumento há séculos: as chamas do inferno.

Abraço,

Lelec

Roberta disse...

Duelo de titãs!!!