16 março, 2009

Comentário que vale um post ou a tréplica de Lelec

Olá Zé,


Obrigado por continuar a discussão. É uma oportunidade preciosa para refletirmos sobre uma questão – o aborto – que é, na minha modesta opinião, um dos mais complexos problemas bioéticos. Agradeço-lhe pela deferência em meu favor (“inteligente”, blog “impecavelmente escrito”). A recíproca, você sabe, é verdadeira.Por isso, dado esse clima de cordialidade, não compreendi sua insinuação de que eu teria aplaudido por “corporativismo” o médico que realizou o procedimento na menina grávida. Não me confunda, por favor. Vamos guardar o respeito entre nós, ou alguém vai dizer que eu defenderia Menguelle por "corporativismo".



1) Como falei no comentário anterior, não tenho postura definida com relação ao aborto, nos casos em que não há risco para a saúde da mãe ou quando a gravidez não é fruto de violência. Quando os há – e foi assim no caso dessa criança – sou enfaticamente a favor do procedimento. Aplaudiria o médico porque ele agiu corretamente, enfrentando a ferrenha oposição do Bispo de Recife e Olinda. Essa equipe médica salvou a vida de uma menina, já por demais desgraçada pela violência que sofreu. É inconcebível que fosse negado à essa criança o procedimento que lhe impediu ser exposta a um risco de morbi-mortalidade extremamente importante.



2) Não diga que tentei “relativizar” a postura histórica da Igreja diante do aborto; isso não é verdade. Discorde de mim, mas não deturpe meu argumento. Não “relativizei” coisa alguma. O que apresentei são fatos históricos que independem de sermos contra ou a favor do aborto. É fato: a Igreja só assumiu uma posição contra o aborto em 1869. Antes disso, foi oficialmente contra o aborto apenas entre 1588 e 1561. As idéias de São Tomás sobre o aborto só foram oficialmente incorporadas em 1869. Tudo isso são fatos, está na historigrafia da ICAR. Não há nada de “relativo” nisso. Como historiador que você é, você bem sabe que a história se atém ao relato do que os homens fizeram com os instrumentos que lhes eram disponíveis à época em que viveram. Por isso, sinto muito, mas não há qualquer valor em dizer que “apostava que”, se Santo Agostinho conhecesse a ultrassonografia, ele teria outra concepção sobre a vida fetal. Se Cabral tivesse o avião, ele teria vindo ao Brasil na primeira classe de um 747, e não em uma caravela fedorenta.



3) Sendo o documento que citei vindo de um “representante do Vaticano” (palavras suas), é lógico considerar que ele reflete, em alguma medida, a opinião... Do Vaticano, oras. Então um documento de um “representante do Vaticano” não representa o Vaticano? Há várias lideranças na ICAR que não concordam com a excomunhão da equipe médica. Os bispos franceses dizem que a excomunhão não é automática, mas que a pena poderia não ter sido “aplicada” neste caso específico, dadas as circunstâncias.


Veja só:


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=vaticano-critica-excomunhao-no-caso-de-aborto-no-brasil&cod_post=168813



http://www.lefigaro.fr/international/2009/03/13/01003-20090313ARTFIG00523-excommunications-l-eglise-bresilienne-fait-son-mea-culpa-.php



http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2009/03/14/01016-20090314ARTFIG00258-l-eglise-de-france-opposee-a-l-eveque-bresilien-.php




4) Eu também me emociono com os batimentos fetais no corpo materno. Lembro-me da emoção que senti ao escutá-los, no ambulatório de obstetrícia, na faculdade.Fico sinceramente feliz em saber que seu filho lhe proporciona uma alegria tão grande e viva. Mas a pessoalidade que atribuímos a um embrião de dois meses (atenção, não me refiro a fetos com mais de três meses de gestação) não lhe é biologicamente intrínseca, mas é um sentimento que existe nos pais ou no observador externo e que é transferido ao embrião.



5) Por fim, sua referência à minha educação cristã. De fato, cresci em um lar PROFUNDAMENTE religioso. Não posso sequer usar a poética expressão de que “a semente cristã” me foi "plantada". Não foi bem assim. Foi algo MUITO mais violento do que isso. Algo que merece um livro, caso eu tivesse coragem para escrevê-lo. A violência continua, com referências ao inferno. Mas já me acostumei a lidar com essas invectivas, mesmo disfarçadas em brincadeiras “para descontrair” (“de boas intenções o inferno está cheio!”). Há psicólogos nos EUA especializados no atendimento a pessoas que romperam com a fé cristã, mas que ainda são assombrados pela idéia de inferno. Mas é assim mesmo. No fundo, quando falham outros métodos de convencimento, o bom cristão usa o mesmo argumento há séculos: as chamas do inferno.


Abraço, Lelec.

8 comentários:

Lelec disse...

Puxa, Zé, você é de uma elegância constrangedora...

Sua galhardia é uma referência para mim.

Muito obrigado por fazer um post com a minha "tréplica".

Peço-lhe apenas a gentileza de editar o post, separando os links (Le Figaro, O Globo) que coloquei no texto, para que o acesso a eles não fique prejudicado.

Grande abraço e, mais uma vez, muito obrigado.

Lelec

Thiago Henrique Santos disse...

Estou aqui, todos estes dias, acompanhando a discussão caladinho, mas mais por falta de tempo de parar e comentar algo do que qualquer coisa.

Longe de querer ir de maneira tão profunda no assunto, quero deixar aqui minha revolta não com relação ao caso, mas com a maneira como alguns cientistas andaram se comportando em relação a isso.

Me foi muito desagradável ver como meia dúzia de pessoas usaram meios de divulgação científica pra atacar a igreja, disfarçando suas opiniões como "opinião da ciência", em uma tática bem próxima da que nosso tão "querido" Olavo de Carvalho costuma fazer.

É mesmo a ação de meia dúzia de oportunistas, que parecem nunca terem deixado o século XVIII pra trás, mais uma vez defendendo que a religião é o obscurantismo dogmático, e a ciência é o grande paladino branco que veio para acabar com todos os problemas que assolam a humanidade.

E aí vale qualquer coisa. Vi gente competente em divulgar a ciência, trazendo a tona até a inquisição! Há momentos, como este e como alguns outros, que eu vejo essa histeria coletiva de meia duzia de cientistas e me pergunto se vale a pena continuar me esforçando em estudar a ciência.

Há mesmo momentos em que eu me sinto completamente enganado pela minha própria atividade. Crises a parte, a única coisa que a ciência pode dizer a respeito de um embrião, é sobre como o seu desenvolvimento ocorre.

Qualquer coisa além disso é especulação do cientista, e não da ciência. E embora qualquer um possa valer de sua liberdade em opinar sobre um assunto qualquer, tentar chancelar a opinião sobre a proteção da comunidade científica é desonestidade, ou talvez ingenuidade. Porque não da pra generalizar e dizer que todos são desonestos... Mas seria capaz de apostar que os ingênuos cabem nos dedos de uma mão.

Zé Costa disse...

Quem tem leitores como vocês, aprende mais do que ensina.

Lelec, vou responder à sua tréplica, mas não posso fezê-lo agora porque estou em semana de provas e preciso corrigir cerca de 500 avaliações e isso leva um tempo grande e exige esforço e concentração. Tenha paciência.

Thiago, sua contribuição foi bastante valiosa, obrigado.

Lelec disse...

Oi Zé,

Não se preocupe: aguardo (mas com impaciência) sua resposta.

Enquanto isso, poderia por favor separar os links que coloquei no texto (Le Figaro, O Globo)?

Do jeito que está, não se pode acessá-los, pois está tudo embolado.

Obrigado e tenha ânimo para corrigir as provas.

Abraço,

Lelec

Fernando Sampaio disse...

Zé,
Recomendo a leitura deste texto de Olavo de Carvalho (o Lelec não gosta dele mas eu gosto)intitulado Truque Besta.
Em resumo é o seguinte:

Tese: a pretexto de proteger mulheres e crianças, procede-se à demolição da autoridade paterna, bem como dos princípios morais que a sustentam;

Antítese: nas famílias desfeitas – surpresa! –, proliferam os estupros e a gravidez infantil;

Síntese: o aborto é elevado à categoria de obrigação moral, e em seu nome o Estado condena a religião como imoral e desumana e se autoconstitui em guia espiritual da sociedade.

Lelec disse...

Oi Zé, oi Fernando,

Esse texto do Olavo é um non sequitur.

Não defendo o aborto como obrigação moral, nem elevo o Estado a guia espiritual. Olavo tem o dom de dar etiquetas estereotipadas a tudo mundo que discorda dele, como se não houvesse milhares de possibilidades de se divergir dele, e não apenas uma (a esquerdista empedernida e cega).

Entendo que o aborto deveria ser praticado nesse caso porque: 1) é legal e é permitido pela Constituição brasileira nesses casos; 2) por prezar a vida dessa menina que sofreu um abuso horrendo.

E, por favor, Zé, edite os links que coloquei no texto... Ninguém consegue acessá-los, basta apertar "enter" entre os links!

Abraço,

Lelec

Lelec disse...

Ah, agora sim, ficou bem melhor!

Obrigado mon ami!

Abraço,

Lelec

flávia disse...

Também adoro o Olavo, mas vai ser cabeça dura assim nos cafundó dos Judas. Eu espero suas manifestações Zé sobre o aborto, e agora sobre essa notícia sobre a Raposa do Sol, e o atentado lamentável que sofremos, quando nossa última instância toma uma decisão política, submissa totalmente ao desgoverno atual,a democracia brasileira foi extinta ontem. Democracia quer dizer "poder pelo povo". Não há poder do povo, sem haver respeito pelo direito à propriedade.