30 março, 2009

Eu, neoliberal? Não! Sou Liberal!


Eu estava em Campos do Jordão, num encontro das escolas doroteanas da província sul, quando, lá pelas tantas, duas vozes se levantaram contra a "sociedade neoliberal". Um professor e uma professora, universitários, como a esconjurar o demônio, disseram que os valores "neoliberais" eram a causa das desgraças na educação do país e em outros campos. Senti vontade de reagir, de polemizar, mas a conjuntura política daquele encontro não era favorável para pelejas daquela natureza. Além do mais, quando nossas opiniões têm mais chances de provocar calor do que luz, é sábio silenciar. Foi o que fiz. Mas Deus sabe o quanto me custou.

Defender o liberalismo econômico hoje é como ser uma voz que clama no deserto. Não obstante, a riqueza mundial dos últimos 15 anos ter sido provocada pelo crescimento do livre comércio; da China com a sua "economia social de mercado" ter retirado da pobreza cerca de 600 milhões de pessoas; do estrondoso sucesso das privatizações no Brasil, caso das telecomunicações, da CSN e da Vale; é bastante comum, infelizmente, os alunos serem ensinados em sala de aula que as privatizações foram um erro motivado por interesses escusos e que o liberalismo - batizado pelos progressistas do ensino, de neoliberalismo - são as causas das desigualdades no Brasil e no mundo e, finalmente, que a Globalização só beneficia os países ricos.

É justamente para refutar essas bobagens ensinadas aos adolescentes como verdades auto-evidentes, que o livro Neoliberal, Não. Liberal, do jornalista econômico Carlos Alberto Sardenberg é uma poderosa arma. Nele, o leitor médio, sem conhecimento técnico de teorias e/ou operações financeiras - como o autor deste blog - pode entender sem dificuldade a tese do livro que é ressaltar a eficiência dos valores liberais na produção de riqueza e na redução da pobreza no mundo. Há passagens memoráveis no livro, como a crítica à teoria da Mais Valia, de Karl Marx e a forma pragmática que a China encontrou para seu espetacular crescimento econômico, aderindo, como se sabe, ao capitalismo, batizado na China de "Economia Socialista de Mercado", um exemplo notório da Newspeak do George Orwell, no livro 1984.

Sem meias-palavras, o autor faz duras críticas à ideologização na condução das políticas públicas e nas medidas econômicas, como fator de atraso econômico do país. Lembra, com desassombro, como o PT e o presidente Lula, para a sorte de nossa economia, tiveram que abrir mão de seus históricos postulados socialistas, sofrendo, no governo, um choque de realidade. Contudo, a visão estatista presente no partido, mas não só nele, diga-se, vem atravancando reformas que poderiam trazer para o Brasil mudanças positivas, como um crescimento mais robusto e consistente.

Em época de crise financeira, parece inadequado defender as ideias liberais. Ano passado, no início da crise, não foram poucas as vozes que preconizaram o fim do capitalismo e do neoliberalismo. O livro, na contramão da metafísica influente, esclarece que foi na onda das medidas liberais, do início dos anos 90 do século passado, como o aumento do livre-comércio e a participação cada vez menor do estado na economia, que o mundo viveu sua época mais próspera. O resto é ideologia barata!



Como disse aos meus alunos em sala de aula, leiam o livro ainda que a priori você não concorde com os pressupostos do liberalismo. A leitura vai ajudá-los a entender melhor esse sistema econômico e ainda traz a virtude de esclarecer com números e dados, as mudanças que ocorream no Brasil nos últimos 15 anos.


23 março, 2009

O aluno militante é o estudante ignorante?

G1
  1. Estudantes do ensino médio da rede estadual de Vila Velha (ES) voltaram a protestar nesta segunda-feira (23) contra a ampliação da carga horária nas aulas. Eles reclamam da falta de infraestrutura das escolas. Numa faixa, deslizes de português chamaram a atenção. Na frase 'Porque almentar (sic) a carga horária??', aumentar aparece com a letra L no lugar do U e 'por que' deveria ter sido escrito separado, além de ter faltado acento na palavra 'horária'. O protesto ocorreu em frente ao Ministério Público. (Foto: Guido Nunes/Gazeta Online)



Vejam a alegria desses meninos e meninas da foto. Vejam como sequer se envergonham de assassinar a língua portuguesa. Também cometo os meus erros, como sabem aqueles me leem. Agora, não corar de vergonha quando se comete erros como os que se observa nessa faixa, não dá!

Esses alunos, todos do ensino médio de uma escola pública de Vila Velha, foram ao Ministério Público do estado "exercer a cidadania". Provavelmente incentivados por algum professor de filosofia, de sociologia, de história ou de geografia. Posso até imaginar o discurso na sala de aula: "o sistema capitalista, as regras do liberalismo, a burguesia podre, a grande imprensa, todos esses agentes do imperialismo americano, querem moldar o nosso pensamento. Temos que ter voz e buscar nossos direitos. Vamos até o MP protestar! Confeccionem uma faixa para ser fotografada pela imprensa burguesa. Sorriam e fiquem famosos! Vamos lá, pessoal! Exerçamos nossa cidadania!"

Esses professores bem que poderiam corrigir o erro crasso cometido pelos estudantes, mas desconfio que a faixa foi escrita por um desses professores, entendem?

Por aqui, há um certo professor da Unb que defende que aula faz mal a aprendizagem do aluno. Segundo esse sociólogo, chamado Pedro Demo, quem gosta de aula é professor. Aluno, detesta! Por isso, o especialista em educação da Unb defende que deve haver menos aula para os alunos aprenderem mais. Será? Será que com menos aulas de língua portuguesa esses garotos escreveriam o que está na faixa corretamente? Tenho quase certeza que seria muito pior.

Mas como se diz por aí, o mais importante é o aluno participar de movimentos sociais. Aprender a escrever, a fazer contas, isso é coisa da burguesia podre. O que importa é ser um militante da causa. Qualquer uma, desde que seja contra o neoliberalismo ou contra o capitalismo.

Além do mais, para quê ser o melhor se agora o Estado acena com a possibilidade de cotas para alunos da escola pública entrarem na universidade, não é?

22 março, 2009

Cotas, até quando cairemos nessa?

Semanada passada, numa aula para o 3° ano do Ensino Médio, disse, pela enésima vez, que me oponho ao sistema de cotas para o ingresso nas universidades públicas, mesmo quando maquiado com a proposta de beneficiar os alunos da rede oficial de ensino. Por defender isso, sou tachado de direitista, neoliberal, insensível, do contra e outras parvoíces do gênero.

Os que defendem o sistema de cotas - chamados de humanistas, progressistas, preocupados com os "mais altos interesses do povo" - costumam justificá-lo com o argumento de que o Estado precisa fazer alguma coisa para corrigir injustiças históricas. Lembram, com indisfarçável preconceito de classe, que é um absurdo que nas universidades públicas, os mais ricos, aqueles que poderiam pagar uma faculdade privada, sejam a maioria nessas instituições. Isso não é verdade, mas essa briga fica para outra hora. Baseados nessas premissas, defendem que os alunos de escola pública deveriam ter alguma vantagem para equilibrar a disputa por vagas nas universidades federais com os alunos da rede privada de ensino.

Tramita no senado uma proposta, já aprovada na Câmara, que reserva METADE das vagas nessas universidades para alunos que estudaram em escolas públicas. O projeto, modificado no Senado, rejeita o critério racial, o que já é alvissareiro, mas não é menos inconstitucional do que o projeto que foi aprovado na Câmara que previa cotas raciais. Adverti em sala que os alunos de escola privada - se o projeto for aprovado - serão prejudicados. Pagarão o pato de seus pais, com esforço e trabalho, terem investido no sistema privado de ensino, procurando dar aos filhos, em tese, um ensino de melhor qualidade. Se esse projeto for aprovado do jeito que está, os estudantes de escola particular teriam apenas metade das vagas disponíveis. A outra metade estaria reservada aos alunos de escola pública. Algumas pessoas acham a proposta justa. Eu não acho.

Leiam a reportagem abaixo, publicada hoje, em O Globo, na internet. Volto em seguida.

BRASÍLIA - Elite do ensino brasileiro, os estudantes das escolas técnicas federais e dos colégios militares e de aplicação também terão direito a cotas, caso o Senado aprove projeto de lei em análise na Comissão de Constituição e Justiça. Diferentemente do que ocorre nas redes estaduais e municipais, as escolas federais tiram notas mais altas que as particulares nas avaliações do Ministério da Educação (MEC).

O projeto de cotas, que já passou pela Câmara, reserva 50% das vagas das universidades federais a alunos da rede pública, sem distinção. Assim, se a proposta virar lei, um estudante que tenha cursado o ensino médio no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp UFRJ) poderá fazer vestibular para medicina pelo sistema de cotas, isto é, concorrerá apenas com egressos da rede pública.

O CAp UFRJ está entre as escolas com nota mais alta no Exame Nacional de Desempenho do Ensino Médio (Enem) de 2007, atrás apenas de seis colégios particulares. Na média, as federais também tiveram melhor desempenho em português e matemática na última prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do MEC.

O mesmo ocorre no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador do governo para medir a qualidade do ensino. O Ideb das federais, no ensino médio, é 5,7, numa escala até 10, contra 5,6 das privadas. Nas redes estaduais e municipais, é de 3,2.

- Mais de 90% de nossos alunos entram na universidade pública - diz o diretor-adjunto de Ensino do CAp UFRJ, Rowilson Silva.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, diz que a Câmara tentou corrigir o problema, acrescentando um critério socioeconômico: metade dos cotistas deverá ter renda familiar inferior a um salário mínimo e meio por pessoa. Ainda assim, alunos das escolas federais com renda superior poderiam disputar parte das vagas.

Para Haddad, a redação ficou confusa e o projeto deve voltar à Câmara. Senadores petistas querem aprovar a proposta do jeito que está, o que inclui reserva de vagas para alunos pretos, pardos e índios:

- É quase inevitável que volte à Câmara - diz o ministro da Educação.


Uma proposta que promete corrigir uma injustiça provocando outras, não me parece uma boa saída. Como resolver esse imbróglio? As escolas públicas de elite - fui aluno de uma dessas escolas no ensino médio - não podem ser excluídas da proposta, afinal, são mantidas pelo governo e, na maiorias dos casos, há concurso público para se ingressar nelas. Se elas não podem ser excluídas, os alunos dessas instituições, que formam, inquestionavelmente, uma elite acadêmica e que, normalmente, são aprovados com facilidade nos vestibulares para as universidades públicas, terão com essa proposta uma vantagem adicional. Pior: podem excluir os alunos mais pobres que estão nas escolas públicas sucateadas. No final, fica tudo na mesma. Quer dizer, fica muito pior, porque com a intenção de corrigir "injustiças", cria-se outras ainda maiores.

Para finalizar, permitam-me um depoimento pessoal. Todos, prestem atenção, todos os meus colegas da Escola Técnica Federal de Pernambuco (ETFPE) - hoje se chama Centro Federal de Ensino Tecnológico (CEFET) - foram APROVADOS na Universidade Federal de Pernambuco ou na FESP - a universidade mantida pelo governo de Pernambuco. Minha mulher e outros colegas delas, por exemplo, passaram para o curso de medicina que está entre os cursos mais concorridos da UFPE e da Fesp. Tudo isso sem cotas.

Outro bom exemplo de colegas meus da ETFPE são Paula Tereza, que fez doutorado na França em Química e Robson Silva, que saindo da periferia, dedicando-se com afinco aos estudos, formou-se em Química Industrial e hoje é responsável pela área de produção de um indústria de cimento na Paraíba. Ah! Eles são negros e conquistaram seu espaço pelo mérito!

Insisto: o mérito é ainda a forma mais justa de se ingressar numa universidade!



16 março, 2009

Comentário que vale um post ou a tréplica de Lelec

Olá Zé,


Obrigado por continuar a discussão. É uma oportunidade preciosa para refletirmos sobre uma questão – o aborto – que é, na minha modesta opinião, um dos mais complexos problemas bioéticos. Agradeço-lhe pela deferência em meu favor (“inteligente”, blog “impecavelmente escrito”). A recíproca, você sabe, é verdadeira.Por isso, dado esse clima de cordialidade, não compreendi sua insinuação de que eu teria aplaudido por “corporativismo” o médico que realizou o procedimento na menina grávida. Não me confunda, por favor. Vamos guardar o respeito entre nós, ou alguém vai dizer que eu defenderia Menguelle por "corporativismo".



1) Como falei no comentário anterior, não tenho postura definida com relação ao aborto, nos casos em que não há risco para a saúde da mãe ou quando a gravidez não é fruto de violência. Quando os há – e foi assim no caso dessa criança – sou enfaticamente a favor do procedimento. Aplaudiria o médico porque ele agiu corretamente, enfrentando a ferrenha oposição do Bispo de Recife e Olinda. Essa equipe médica salvou a vida de uma menina, já por demais desgraçada pela violência que sofreu. É inconcebível que fosse negado à essa criança o procedimento que lhe impediu ser exposta a um risco de morbi-mortalidade extremamente importante.



2) Não diga que tentei “relativizar” a postura histórica da Igreja diante do aborto; isso não é verdade. Discorde de mim, mas não deturpe meu argumento. Não “relativizei” coisa alguma. O que apresentei são fatos históricos que independem de sermos contra ou a favor do aborto. É fato: a Igreja só assumiu uma posição contra o aborto em 1869. Antes disso, foi oficialmente contra o aborto apenas entre 1588 e 1561. As idéias de São Tomás sobre o aborto só foram oficialmente incorporadas em 1869. Tudo isso são fatos, está na historigrafia da ICAR. Não há nada de “relativo” nisso. Como historiador que você é, você bem sabe que a história se atém ao relato do que os homens fizeram com os instrumentos que lhes eram disponíveis à época em que viveram. Por isso, sinto muito, mas não há qualquer valor em dizer que “apostava que”, se Santo Agostinho conhecesse a ultrassonografia, ele teria outra concepção sobre a vida fetal. Se Cabral tivesse o avião, ele teria vindo ao Brasil na primeira classe de um 747, e não em uma caravela fedorenta.



3) Sendo o documento que citei vindo de um “representante do Vaticano” (palavras suas), é lógico considerar que ele reflete, em alguma medida, a opinião... Do Vaticano, oras. Então um documento de um “representante do Vaticano” não representa o Vaticano? Há várias lideranças na ICAR que não concordam com a excomunhão da equipe médica. Os bispos franceses dizem que a excomunhão não é automática, mas que a pena poderia não ter sido “aplicada” neste caso específico, dadas as circunstâncias.


Veja só:


http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=vaticano-critica-excomunhao-no-caso-de-aborto-no-brasil&cod_post=168813



http://www.lefigaro.fr/international/2009/03/13/01003-20090313ARTFIG00523-excommunications-l-eglise-bresilienne-fait-son-mea-culpa-.php



http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2009/03/14/01016-20090314ARTFIG00258-l-eglise-de-france-opposee-a-l-eveque-bresilien-.php




4) Eu também me emociono com os batimentos fetais no corpo materno. Lembro-me da emoção que senti ao escutá-los, no ambulatório de obstetrícia, na faculdade.Fico sinceramente feliz em saber que seu filho lhe proporciona uma alegria tão grande e viva. Mas a pessoalidade que atribuímos a um embrião de dois meses (atenção, não me refiro a fetos com mais de três meses de gestação) não lhe é biologicamente intrínseca, mas é um sentimento que existe nos pais ou no observador externo e que é transferido ao embrião.



5) Por fim, sua referência à minha educação cristã. De fato, cresci em um lar PROFUNDAMENTE religioso. Não posso sequer usar a poética expressão de que “a semente cristã” me foi "plantada". Não foi bem assim. Foi algo MUITO mais violento do que isso. Algo que merece um livro, caso eu tivesse coragem para escrevê-lo. A violência continua, com referências ao inferno. Mas já me acostumei a lidar com essas invectivas, mesmo disfarçadas em brincadeiras “para descontrair” (“de boas intenções o inferno está cheio!”). Há psicólogos nos EUA especializados no atendimento a pessoas que romperam com a fé cristã, mas que ainda são assombrados pela idéia de inferno. Mas é assim mesmo. No fundo, quando falham outros métodos de convencimento, o bom cristão usa o mesmo argumento há séculos: as chamas do inferno.


Abraço, Lelec.

15 março, 2009

Lelec discorda de mim e eu dele, mas somos amigos!

Quando um amigo discorda daquilo que escrevo, sobretudo quando é uma pessoa preparada e inteligente, oferece a mim a oportunidade rara de exercitar minha gentileza e urbanidade. Se, por ventura, não conseguir, é por falta de hábito mesmo.

Abaixo, há dois comentários do amigo e médico Leonardo Cruz, o simpático Lelec, neurologista que estuda e trabalha em Paris e, cujo blog, sempre impecavelmente escrito, é uma referência importante para mim.

Leiam o que ele comenta, depois eu volto.

"Falanges do ódio", "hienas da ignorância"... Credo, Zé, esse vocabulário hidrofóbico não combina com você. Deixe essas expressões com o tio Rei, nele a gente já se acostumou.

Não sou especialista em direito canônico e tenho por hábito respeitar quem sabe mais do que eu.

Mas, a julgar pela reação da própria Igreja, a excomunhão não era tão "automática" assim, se me permite.

O Vaticano há pouco divulgou um documento dizendo que os médicos da equipe não mereciam a excomunhão.

A CNBB disse que "não tem elementos para dizer qual médico está excomungado e qual não está; depende do grau de consciência de cada um".

Enfim, a julgar pelo que foi escrito pelas autoridades eclesiásticas, a ação da equipe médica poderia ter sido relevada.

Se a excomunhão diante do aborto é automática e independe da aplicação do pontífice, gostaria de saber se a autoridade pontifícia tem poder para revogá-la ou para anular seu caráter automático, em casos específicos.

Levanto a questão respeitosamente, para discussão e para que eu possa aprender. Não há nada de ironia ou de escárnio na minha colocação.

Abraço,

Lelec

Num outro post sobre o mesmo assunto, e onde nossas divergências se acentuam, meu amigo Lelec, continua:

Olá Zé, Como já falei com você uma vez, eu tenho lido sobre o aborto, afim de adotar uma posição. Ainda não tenho uma opinião consolidada. Nesse caso específico, sou a favor de que o aborto fosse praticado, tal como foi. A noção de que "duas pessoas" foram mortas no procedimento é altamente discutível. Mesmo a posição da Igreja sobre o assunto mudou com o tempo. Até 1869, a Igreja não condenava o aborto, pois adotava o hilomorfismo, de Santo Agostinho, teoria segunda a qual um feto só é humano a partir do momento que passa a ter forma humana (braços, pernas, etc). Essa teoria foi oficialmente adotada em 1312 (Concílio de Viena). Em 1588, o Papa Sixto a revogou e o aborto passou a ser condenado. Em 1591, Gregório XIV reafirma o hilomorfismo e o aborto é autorizado, posição que dura até 1869. Enfim, a proibição do aborto é algo relativamente recente na história da Igreja. Eu aplaudiria o médico que fez o procedimento. E, por favor, não me inclua na esparrela reinaldiniana contra os "humanistas, progressistas" (ele sempre faz isso com quem discorda dele). Sou apenas uma pessoa bem intencionada tentando refletir sobre o assunto. Abraço, Lelec

O que venho combatendo nos meus posts é a maneira como a imprensa reagiu às palavras do prelado de Pernambuco taxando-a de medieval e inquisitorial, quando o que ele fez foi apenas mencionar o artigo 1398 do Direito Canônico, que estabelece a excomunhão automática, no caso da prática do aborto.

Além disso, não foram poucos os que aproveitaram o caso para destilar seu ódio contra a Igreja e defender a legalização do aborto. Nada contra, como já escrevi. Todavia, não precisavam distorcer a verdade ou mesmo mentir com desfaçatez para darem consistências às suas críticas.

O documento a que você se refere Lelec, não é do Vaticano, mas de um representante do Vaticano. E, a rigor, o que o monsehor Fisichela criticou foi a maneira como D José conduziu o caso. Lendo o documento com atenção, ele reforça a premissa indiscutível para a Igreja: o aborto é um pecado nefando e proporciona a excomunhção automática. Portanto, nesse aspecto não há como haver sofismas. Ademais, outra voz importante da Igreja, Gianfranco Grieco, chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família, apoiou a decisão de arcebispo de Olinda e Recife na sua atuação contra o aborto.

O arrependimento sincero e o reconhecimento da culpa são determinantes e suficientes para a anulação da excomunhão. A Igreja não revoga uma excomunhão sem esse quebrantamento do fiel. Aqui, entra um detalhe importante: a relação do crente com Deus é particular. A necessidade da revogação da sanção religiosa pela Igreja tem caráter meramente jurídico, possibilitando a comunhão dos arrependidos com os sacramentos da Igreja.

O Direito Canônico atual foi revisado no começo dos anos 80, portanto, no pontificado de João Paulo II. Nessa revisão, os pecados passíveis de excomunhção foram reduzidos para apenas 9 e o aborto está entre eles.

Passemos agora para o segundo comentário:

Você começa escrevendo que está lendo sobre o aborto e afirma que ainda não tem uma posição consolidada sobre o assunto. Mesmo assim, para a minha supresa, você diz que também aplaudiria o médico que chefiou a equipe que fez o aborto na menina. Por quê, se sua posição sobre o aborto ainda não está consolidada? Por corporativismo?

O caso específico é um ultraje. Eu mesmo, confesso, não saberia como agir se fosse uma filha minha. O meu ponto, é outro: a Igreja, na pessoa de D José, agiu como deveria ter agido. Anunciou que quem pratica ou concorre para a prática do aborto está excomungado, pelas leis da Igreja. E o que fizeram as pessoas de bem? Às que arrotam um humanismo laico? Condenaram a Igreja e chegaram a divulgar duas mentiras aviltantes: a de que a Igreja excomungou a equipe médica e ainda por cima, perdoou o canalha da padrasto.

Você considera altamente discutível a ideia de que duas pessoas foram assassinadas nesse aborto específico. Não acho. Mas aqui, cada um com as suas convicções.

Você recorre à teoria de Santo Agostinho para relativizar historicamente a posição da Igreja sobre o tema. Tomás de Aquino, que você não cita, foi o responsável pela revisão da opinião da Igreja sobre esse assunto, no século XIII. Estes dois Pais da Igreja escreveram na Idade Média - curiosamente, sempre lembrada como uma era de obscurantimo - e, no entanto, tivesse esses pilares da Fé acesso à ultrassonografia, aposto que ambos concordariam que o aborto em qualquer etapa da gestação é um assassinato frio, covarde e cruel.

Quando meu filho tinha o tamanho de um polegar, sem braços, pernas, ou rosto definidos, seu coraçãozinho batia no ritmo típico dos fetos: maravilhosamente acelerado. Ali, para mim, não era um conceito altamente discutível, mas um ser, vivo, em desenvolvimento e que hoje, graças a Deus, abençoa a minha vida e a de minha família.

Jamais eu incluiria você no rol dos apologistas da morte, muito menos entre aqueles que, anticlericais, querem apenas uma chance de malhar a Igreja, ainda que para tanto, recorram à mentira e a distirção da verdade. Você é inteligente. Por isso,creio, com sinceridade, que em um momento, não sei quando, a semente cristã que foi plantada no seu coração na infância, haverá de germinar e as luzes da fé haverão de iluminar sua alma e você perceberá que o aborto - seja na potencialidade do zigoto ou não, - é tão ou mais ultrajante que a violência sexual de um canalha sobre uma criança indefesa.

PS: Apenas para descontrair, Lelec, lembro a você que de boas intenções o inferno está cheio!

Um abraço.

14 março, 2009

Quando a morte é aplaudida.

Temporão cumprimentou médico pernambucano Olímpio Moraes


Encontre uma pessoa na esquina, no trabalho, na parada de ônibus e, dificilmente, essa pessoa vai desconhecer o caso da menina pernambucana que depois de ter sido violentada pelo padrasto, engravidou de gêmeos e, amparada pela lei, submeteu-se à prática do aborto.


O caso, escabroso e indesculpável, ganhou contornos ainda mais dramáticos e também polêmicos, quando o arcebispo de Olinda e Recife, D José Cardoso Sobrinho, anunciou que todos que participaram do aborto estavam excomungados. Pronto. Os que se pretendem racionais, os humanistas, os progressistas, as feministas e outros tantos vigaristas, de maneira geral, levantaram a bandeira da indignação e declararam que a Igreja estava sendo conservadora, anticristã, reacionária e insensível ao sofrimento da família da pobre menina.


Muitos por ignorância e outros tantos por pura má fé e senso de oportunismo, escreveram artigos em jornais, discursaram em programas de televisão, denunciaram o anacronismo da Igreja e disseram toda sorte de indignidades contra o eclesiástico que comanda a arquidiocese de Olinda e Recife. Essas pessoas modernas, boas por natureza e altruístas por vocação, não demoraram a distorcer os fatos e o que era interpretação – errada, diga-se – das palavras do bispo, transformaram em verdades insofismáveis.


O leitor desatento ou crédulo nesses profetas da verdade acreditaria que estávamos em pleno padroado do século XIX onde o Estado e a Igreja se confundiam num mesmo corpo. Trataram uma sanção religiosa, prevista no Direito Canônico, com sendo uma punição civil.


D José, a meu ver, foi inábil na forma como atuou no caso. Mas a sua inabilidade não significa que estivesse errado. Antes que muitos de nós, o bispo percebeu que o caso da menina, absolutamente ignominioso, poderia ser usado, como foi e como está sendo, pelos defensores da legalização do aborto, como uma bandeira. Ao declarar excomungadas as pessoas que participaram do ato nefando, o religioso também lembrou que bastava um pedido de perdão sincero, de quebrantamento, para que a Igreja as recebesse de volta.


As falanges do ódio e as hienas da ignorância, contudo, não querem saber disso. Acusaram a Igreja de não se importar com o sofrimento da menina quando, em verdade, são eles que estão pouco se lixando para o sofrimento dela e de sua família. Falam da pobre criança, não como uma pessoa, mas como uma bandeira. Transformaram-na numa causa, num pretexto para saírem por aí defendendo o aborto.


O que me incomodou no caso, não foi a crítica à Igreja, ao arcebispo ou à excomunhão. O que me incomodou foi a distorção da verdade e a mentira pura e simples. Não precisavam recorrer a tais expedientes.


A Igreja JAMAIS perdoou o canalha do padrasto, como se tentou dizer. A Igreja JAMAIS excomungou as pessoas responsáveis pelo aborto, como fizeram crer. A Igreja nunca quis infligir às pessoas envolvidas no caso, uma penalidade civil. Fez o que era a sua OBRIGAÇÃO. Posso assentir que a forma foi atrapalhada, mas, reafirmo: foi correta. Tanto, que da CNBB ao Vaticano, todos apoiaram o anúncio do prelado de Pernambuco.

Tivesse ele silenciado, fazendo ouvidos moucos à decisão de se interromper a gravidez da menina, estaria, como autoridade da Igreja, incorrendo num crime de responsabilidade. Desconfio que ao expor na mídia o fato da excomunhão a que se auto-impuseram aqueles que fizeram ou concorreram para a prática abortiva, D José assumiu, sozinho, uma luta perdida.


O lado do bem é aquele que evocou a inquisição e a Idade Média para ridicularizar a Igreja e que defende o DIREITO que uma mulher julga ter para interromper uma gravidez. A Igreja, que condena o aborto, é que é medieval e violenta. Eles que defendem, são humanistas e progressistas. Curioso, não?


O ponto principal, porém, vem agora. O médico que chefiou a equipe que realizou a cirurgia de interrupção da gravidez se diz católico, freqüenta as missas, comunga, um verdadeiro cristão. Este bom médico foi recebido sob aplausos, comandados pelo ministro da saúde, José Gomes Temporão, que declarou: “O trabalho dessa equipe fortalece a sociedade brasileira no enfrentamento da questão que é grave. Todo o debate que se deu a partir desse fato foi importante para tirar o véu que encobre a questão, amadurecendo na sociedade o reconhecimento do aborto como problema de saúde pública”. Médicos, de pé, aplaudiram o Dr. Olímpio Moraes e não foram poucos os elogios que fizeram à coragem, à determinação e à prova de amor pelo próximo do médico e de sua equipe.


Não entro no mérito se o aborto era necessário para manter a vida da menina que corria risco, caso prosseguisse com a gravidez. Nem discuto as poucas chances que as crianças teriam de sobreviver a um parto de alto risco. O que me espanta é que a decisão da equipe, por mais tecnicamente acertada que fosse, deveria causar, antes, consternação que euforia. Goste-se ou não: matou-se naquela sala de operações duas pessoas. O que deveria ser motivo de reflexão, recolhimento, oração, acabou se transformando em aplausos, regozijo, satisfação.


A pobre menina, que teve sua infância violada, que foi a grande vítima de todo esse caso repugnante, vem sendo usada de forma desumana e descarada como bandeira pela legalização do aborto. A maneira como as autoridades reagiram, o regozijo que muitos sentiram e demonstraram com a cirurgia, provam, como falou o presidente da CNBB no Nordeste. que uma sociedade que aceita e defende com naturalidade o assassinato de duas criaturas de Deus, está doente.

07 março, 2009

Os excomungados.

As falanges do ódio junto com as hienas da ignorância estão à solta. Cheios de verdades insofismáveis, esses homens e mulheres sempre cheios de si, estão a atacar a Igreja na pessoa do arcebispo de Olinda e Recife, D José Cardoso Sobrinho, por ter declarado que todos que concorreram para a prática do aborto numa menina de nove anos que esperava gêmeos, vítima de violência sexual por parte do padrasto, no agreste de Pernambuco, estavam excomungados.

A má fé, aliada à ignorância, produziram nos últimos dias discursos inflamados e, na maioria das vezes, rasteiros, sobre a declaração do bispo. Houve até quem dissesse que a Igreja condenara os abortistas e perdoara o estuprador. Nada mais falso.

Que se critique a Igreja. Que se defenda a prática do aborto. Mas que não se faça da empulhação, da distorção e da mentira, as armas para combater os dogmas e defender o assassínio de fetos.

Abaixo, uma excelente explicação técnica, retirada do blog do Jamildo, sobre a excomunhão a que se impuseram todos aqueles que participaram, direta e indiretamente, da prática do aborto na menina.


O direito canônico e o crime de aborto

POSTADO ÀS 14:57 EM 07 DE Março DE 2009

O Direito Canônico e o crime de aborto

Jamildo, peço licença para usar o seu espaço na internet para esclarecer alguns pontos sobre a polêmica do aborto no seio da Igreja Católica.

Sou advogado e no término da minha graduação em Direito fiz uma monografia sobre o Direito Penal Canônico.

Com tal conhecimento, desejo esclarecer algumas injustiças que estão sendo cometidas.

As pessoas estão crucificando o nosso Bispo, Dom José, sem nenhum embasamento teórico, portanto, para defender a inocência do pastor da nossa cidade resolvi fazer um breve resumo sobre o crime de aborto que está disciplinado no vigente Código Canônico, cânon 1398: “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.”

Na tradução brasileira do Código Canônico, em nota no supracitado cânone, o padre Jesús Hortal, sj, afirma: “o cânon não faz nenhuma exceção quanto aos motivos do aborto.

”¹ Ora, em nenhum momento a fundamentação teórica de Dom José é errônea. Aliás, não foi ele que excomungou os envolvidos, pois a excomunhão no caso do aborto é latae sententiae, ou seja, se dá “pelo simples fato de praticar o delito, sem necessidade da intervenção do superior ou juiz.

Essa é uma pena excepcional na Igreja, reservada aos delitos mais graves.

”² Logo, não foi o bispo que excomungou os envolvidos na prática do aborto, e sim cada um se excomungou com sua conduta delituosa.

É importante, ainda, romper com uma imagem errada que os leigos têm sobre a excomunhão: tal pena canônica não rompe o laço que o fiel possui com Cristo, e sim o separa, excluindo-o do seio da Igreja.

Bernal afirma que a comunhão dos fiéis tem duas dimensões, a mística e a jurídica:

“A dimensão mística da comunhão contempla a inserção do fiel no Corpo Místico de Cristo, o fruto da graça e a caridade. Portanto, se perde pelo pecado mortal e, em seu grau mais pleno, pelo abandono da fé. [...]

A dimensão jurídica da comunhão, por sua vez, se materializa naquele conjunto de relações jurídicas pelas quais os fiéis estão presentes de modo ativo na estrutura da Igreja; concretamente nos vínculos de profissão da fé, os sacramentos e o regime eclesiástico.

³ Portanto, o que é rompido com a excomunhão é o vínculo jurídico, e não o místico, que só pode ser rompido pelo pecado mortal.

Vale salientar que a excomunhão não é perpétua: o fiel fica afastado do convívio da Igreja Católica até o momento do abandono da contumácia, ou seja, até se arrepender do crime cometido e realizar a confissão de seus pecados.

O posicionamento do Bispo Dom José Cardoso nada mais é do que a doutrina verdadeira da Igreja, onde, mesmo diante das dificuldades – até mesmo de uma gravidez de uma infante estuprada – deve-se ao máximo preservar a vida desde a concepção e aguardar que seja feita a vontade de Deus, pois, até mesmo das maiores desgraças podem florescer milagres.

Daniel Lucena e Couto Maurício
OAB/PE 25.713

05 março, 2009

"Eu tento ser humilde, mas meu time não deixa"


Eu pertenço a esta nação!

Aqui, no passado, muitos caíram. Aqui, outros tantos cairão. Que venha o Palmeiras!

Que a imprensa do centro-sul ignore a campanha histórica do Sport na Libertadores, não é estranho. Estranho é no rodapé das edições imprensas, nos links discretos das homepages esportivas ou na narração burocrática dos locutores esportivos a afirmação de que o Sport é o Brasil na Libertadores. Não é. O Sport é Pernambuco.

Abaixo, o hino do glorioso!







Com o Sport Eternamente estarei
Pois rubro-negras são
As cores que abracei
E o abraço, de tão forte,
Não tem separação
Pra mim, o meu Sport É religião

A vida a gente vive
Pra vencer Sport, Sport
Uma razão para viver

Treze de Maio,
Mil novecentos e cinco
Dia divino em que Guilherme de Aquino
Reune, no Recife, ardentes seguidores
Fundando esta nação de vencedores
Que encanta, enobrece e dá prazer
Sport, Sport
Uma razão para viver

Eterno símbolo de orgulho
É o pavilhão
De listras pretas e vermelhas,
Com o Leão
Erguendo, imponente, o imortal escudo
Mostrando à gente que o Sport é tudo
Que a vida tem de belo a oferecer
Sport, Sport Uma razão para viver

São gerações e corações
Fazendo a história
São campeões e emoções
Tecendo a glória
Do bravo Leão da Ilha, Sport obsessão
Que faz bater mais forte o coração
Torcida mais fiel não pode haver
Sport, Sport Uma razão para viver
Sport! Sport! Sport

Quem é desta nação emociona-se com cenas como as que você pode ver abaixo.

02 março, 2009

A mentira nos livros didáticos 2

No blog que fiz para meus alunos do 3° ano do ensino médio, escrevi um texto onde critico a maneira como o autor do livro História Crítica, Mário Schimdt, tenta incutir na cabeça do aluno a ideia de que Lênin, no fundo, era um democrata.

A bem da verdade, Mário não está sozinho nessa patifaria. Na maioria dos livros didáticos de história, seja do ensino fundamental ou do ensino médio, os autores tratam com muita condescendência tanto Trotsky quanto Lênin e de maneira capciosa, insinuam que o socialismo que eles queriam foi desvirtuado por Stálin.

O objetivo é claro. Tentar convencer o aluno de que o socialismo verdadeiro, aquele que redimirá a humanidade e trará o paraíso à Terra ainda não aconteceu. É mais do que patifaria. É estupidez!

Em breve, aqui neste blog, vou trazer novidades que desmentem a maioria dos livros didáticos de história quando o assunto é a Revolução Russa.

PS: Aqui você pode conferir que o livro de Schimdt não é o único que apresenta esse problema