10 dezembro, 2008

Meu discurso

Abaixo, a íntegra do discurso que proferi esta noite na colação de grau da turma de 3° ano do colégio Santa Dorotéia.

Ilmos. Formandos. Ilmos. Senhores e Senhoras que compõem a mesa. Ilmos. Senhores Pais, Mães, Avôs, Avós, Convidados, Professores e Amigos dos que nesta noite celebram a conquista de mais uma etapa no processo de formação acadêmica.


Boa noite.


A lisonja com que vocês, meus caros, de forma unânime, concederam-me, muito me honra. Todavia, sinto pudores em aceitar tal honraria sozinho. Esses pruridos nada têm de falsa modéstia, mas vêm do reconhecimento de que pouco fiz para merecer, individualmente, essa homenagem. Por isso, vim para esta solenidade com a convicção de que aqui não sou eu o homenageado, mas todos os professores que tiveram a ventura de acompanhá-los nesse processo. É, portanto, com o sentimento de que represento um grupo muito maior, e com toda certeza, bem melhor do que eu que lhes dirijo algumas palavras.


Minha história nessa cidade, que começou, a rigor, em janeiro de 2004, é indissociável desta escola, das pessoas que há muito tempo nela trabalham ou já trabalharam e, claro, também está ligada à da turma de vocês. Foi há quase 5 anos que conheci boa parte dos que aqui estão. Vocês eram crianças. Estavam na sétima série e davam muito trabalho. Naquele ano, muitos devem recordar, eu não era para vocês e para tantos outros um professor, digamos, querido. Ao contrário, até. Sério, rigoroso, tenso. Sempre pronto a corrigir com severidade o que bem poderia ser corrigido com delicadeza. Não foi, portanto, sem razão que suscitei em muitos de vocês e em tantos outros, ódios secretos e declarados. Pensava, e acreditava piamente nisso, que minha obrigação era ensiná-los o conteúdo previsto e que para isso, não era imprescindível que vocês gostassem de mim.


Maquiavel, no texto clássico, ensina que um governante deve ser amado e temido pelo seu povo, mas, se tivesse que escolher entre um dos dois, que escolhesse ser temido. Sem me dar conta, como professor, segui esse conselho e só a duras penas reconheci que, não só em sala de aula, mas em qualquer relação de poder, ser temido quando não atrapalha, dificilmente ajuda no trabalho que precisa ser desenvolvido.


Alguns, que não me conhecem, talvez estejam pensando que passei dos modos de um casmurro, no sentido empregado no festejado clássico de Machado de Assis, para os modos de um professor efusivo, festivo, pândego. Daquele tipo que procura conquistar a simpatia do aluno pela fanfarronice. Não. Isso, vocês bem sabem, não combina comigo.


Muitas vezes, muitas mesmo, vocês foram duramente admoestados por mim. Muitas vezes, quando algum aluno ultrapassava o limite que – desculpem os que discordam – sempre dever existir na relação professor-aluno, advertia-o com firmeza, dizendo que ele tinha se excedido e que deveria se recompor. A diferença é que agora, havíamos estabelecido uma relação de confiança e respeito mútuos. Respeito e confiança. Sem essas duas coisas as relações humanas estão liquidadas. Assim, minha repreensão firme, que bem poderia ser encarada com desagrado e revolta, passou a ser vista como um convite amoroso à responsabilidade.


Finalmente, depois de alguns anos juntos, construímos essa relação saudável, alicerçada nos sentimentos recíprocos de admiração e transparência, de afeto e carinho.


Um professor, para o bem ou para o mal, sempre deixa marcas no aluno. Não deixa de ser curioso que os alunos lembrem, anos depois, mais das idiossincrasias dos professores que dos conteúdos que foram ensinados. Se me fosse dado o direito de escolher a maneira como vocês deveriam lembrar de mim, eu diria: "como o professor de história que ao invés de incentivá-los a militar, quando na faculdade, em algum movimento social, incentivava-os a estudar e a não perder tempo com essas coisas. Como o professor que detestava o discurso politicamente correto. Que não se assombrava com patrulhas ideológicas e que vivia repetindo: 'quando a maioria está de um lado, eu, geralmente, estou do outro'. Não sei se essas serão as “marcas” que eu deixarei em vocês, mas com certeza são as que ambiciono deixar.


Tenham certeza, porém, de que vocês deixaram em mim marcas indeléveis. O caráter e a hombridade de vocês serão inesquecíveis para mim. Esses valores, que vocês provaram ter, dão-me a segurança para afirmar: vocês serão pessoas de sucesso.


Nunca me escondi em discursos mornos, genéricos, esfíngicos. Sempre fui claro. Vocês sempre souberam o lado em que eu estava. Entretanto, nunca me neguei a falar sobre os “outros lados.” Vocês nunca foram cobrados em sala ou nas provas a reproduzir o que era a minha opinião sobre as coisas, porque a função de um professor não é a de doutrinar seu aluno, mas a de oferecer-lhe, honestamente, sem picaretagem, subsídios para que ele forme sua própria opinião. O nome disso, meus caros, é liberdade! Ninguém é livre, queridos, seguindo valores, idéias ou consciência de grupos organizados. Mas, reconhecendo, antes de tudo, que somos indivíduos e que temos nossos valores pessoais, nossas idéias, nossa consciência. Enfim, ser livre é assumir a responsabilidade individual por nossas escolhas. É não transferir para outrem aquilo que nos cabe. É não culpar os outros pelos nossos fracassos e erros. Ser livre é não ser como aquele que olha para o passado e sente pena de si mesmo.


Uma das alegrias nesse trabalho, queridos, é ter o reconhecimento agradecido dos alunos ao nosso esforço. Não há recompensa maior para quem trabalha com educação que ouvir de um aluno: “Muito obrigado, professor, por tudo”. Porém, neste ano em especial, o agradecimento que precisa ser feito, é o meu. Já disse em sala e repito, agora, em público: “Muito obrigado pelo que vocês fizeram por mim”. Quando minha motivação caiu e a tristeza se abateu sobre o meu trabalho, foi o carinho de vocês que me reanimou. Quando senti que tudo conspirava contra mim e senti minhas forças combalidas, foi o carinho de vocês que me sustentou. Por isso, nessa noite em que vocês recebem o grau de Ensino Médio, contrariando a ordem natural das coisas, eu é que lhes digo: muito obrigado, queridos, por tudo!


Boa noite.





6 comentários:

Thiago disse...

Zé, parabéns.

É certamente um dos discursos mais bonitos que já li. Quisera eu meus professores tivessem tido tamanha humildade.

Infelizmente pra mim, a maior parte deles era do tipo que estavam do lado da maioria. Infelizmente para eles, eu geralmente estava do outro.

Guardo comigo a lembrança de poucos, mas valorosos professores que jamais esquecerei e que me ajudaram a me tornar o que sou.

Tenho certeza que estes alunos, alvos de tão belo texto, jamais esquecerão você.

Parabéns mesmo.

Daniel. disse...

Legal.

Daniel. disse...

A propósito, tem um convite (meio sem propósito, aliás) pra você no meu blog. Dê uma olhada.

Bruna disse...

Olá Professor,

Caprichou no discurso teacher, os ouvintes devem ter ficado fascinados. Como eu. Nem todos os professores deixam saudade, tem razão quando diz que também para o mal deixam marcas.

Um grande beijo

Anônimo disse...

O bom professor é aquele que ensina mais do que o currículo de sua disciplina; é o que vai buscar no aluno o que ele tem de melhor, onde nem ele mesmo suspeitava; é o que liberta de preconceitos e o incentiva a pensar, a questionar e a concluir; é aquele que sabe das suas e das limitações dos alunos, mas não desiste nem se cansa de buscar a superação desses limites. Assim, seus ensinamentos passam a fazer parte da vida pessoal e profissional de seus alunos.

Parabéns Zé,

Flávia.

Lelec disse...

Puxa, Zé,

Um duplo parabéns para você: pelo honroso convite a ser paraninfo da turma e pelo lindo discurso!

Foi particularmente preciosa sua reflexão sobre a liberdade:

"Enfim, ser livre é assumir a responsabilidade individual por nossas escolhas. É não transferir para outrem aquilo que nos cabe. É não culpar os outros pelos nossos fracassos e erros. Ser livre é não ser como aquele que olha para o passado e sente pena de si mesmo."

Eu, talvez seu aluno mais velho e mais distante, agradeço-lhe comovido!

Abraço,

Lelec