24 novembro, 2008

A Política de Cotas raciais é mesmo um sucesso!

Veja esta notícia que saiu no caderno Cidades, do Correio Braziliense deste domingo. Volto depois:

“Um jogo de truco regado à cerveja, na noite de quinta-feira, no Centro Acadêmico de Geologia, da Universidade de Brasília (UnB), acabou em brigas entre alunos e professor. (...) No meio da confusão, o professor teria ofendido um outro (sic) estudante que é negro. A discussão resultou numa queixa crime por racismo contra o acadêmico na polícia.

Segundo o estudante Jesus Vieira, 25 anos, o professor José Eloi Guimarães Campos, chamou um de seus amigos de “crioulo” e “cotista oportunista”. Ele contou que o professor tem um histórico de brigas e que é conhecido por reprovar muitos alunos. (...) Jesus conta que o professor teria feito xingamentos racistas contra seu amigo – Daniel Lopes Pêgo, 24 anos. [Quando Daniel soube dos supostos xingamentos, procurou a 2ª DP, na Asa Norte e registrou uma queixa por racismo contra o professor]

O estudante também vai entregar uma denúncia ao Núcelo de Promoção da Igualdade Racial, da UnB. “Vou colocar tudo no papel. O Jesus e o Allan vão assinar também. Já me disseram que o documento será enviado para a direção do Instituto de Geologia e para a reitoria”, afirmou.

Procurado pelo Correio, o professor José Eloi confirmou que houve uma discussão, mas negou de forma veemente que tenha usado as palavras “crioulo” e “cotista oportunista”(...)



A confusão ocorreu na noite de quinta-feira, dia 20 de novembro, dia em que o Movimento Negro comemora a morte de Zumbi dos Palmares, líder quilombola do século XVII que foi alçado à condição de herói e símbolo contra as injustiças e a discriminação racial. A data, que foi transformada em feriado em cerca de 350 cidades no país, recebe o nome pomposo de “Dia da Consciência Negra”. A notícia, parece, chegou tarde à redação do Correio, mas para uma causa nobre, o atraso é só um contratempo.

Eis o resultado prático da política de cotas raciais. Mais do que promover igualdade, essa política provoca conflitos dessa natureza. Sinceramente, acho que um professor deve evitar esse tipo de “programa com alunos”, mesmo sendo universitários. O professor Eloi, a quem não conheço, jamais deveria participar desse tipo de recreação regada à cerveja. Geralmente, os resultados não são bons, como se vê. Meu ponto, no entanto, é outro. A política de cotas raciais é a principal responsável pela indignação do aluno. O termo “cotista oportunista” tendo sido dito, ou não, pelo professor, revela o que essa política engendra: a idéia de que todo estudante de pele preta da UnB é cotista, e, portanto, de capacidade acadêmica questionável. O termo “cotista oportunista” e outras acusações do gênero não existiriam se o mérito continuasse a ser o critério para o ingresso na universidade. Estou desculpando o professor? De jeito nenhum. Apesar de nada ter sido provado, sei bem como pode existir universidade pública um professor canalha e mau caráter. Da mesma forma, sei que existem alunos que não valem um bago de jaca mole mastigado. Estou apenas fazendo uma relação entre o insulto e a política de cotas. O aluno Daniel não se sentiria ofendido pela acusação de “cotista oportunista” – sequer esta existiria - se não pairasse sobre ele a dúvida de que, porque tem a pele preta, trata-se de um cotista, e como tal, beneficiário desse sistema.

Aproveito para recomendar a leitura do livro Não Somos Racistas, do jornalista Ali Kamel. Nesse livro, o autor, que é formado em Ciências Sociais pela UFRJ e diretor de jornalismo da TV Globo, analisa dados do IBGE sobre renda, escolaridade e cor da pele, relatando experiências do Sistema de Cotas em várias partes do mundo. A conclusão é um alerta: Pode-se fabricar no Brasil, um país de mestiços, o que nunca existiu: o ódio racial. Uma coisa é certa: a política de cotas já produziu na UnB a idéia de que estudante de pele preta é um cotista, e como tal, oportunista! Um vexame!

Não é de hoje que incidentes envolvendo professores e alunos na UnB vem ganhando as páginas dos jornais e revistas por supostas discriminações raciais. O caso mais famoso aconteceu com o Cientista Político, professor Paulo Kramer. Acusado de racista por um grupo de alunos, o professor chegou a ser condenado por uma comissão de ética da universidade a uma suspensão de 30 dias, modificada mais tarde para uma multa de 50% dos seus vencimentos. A história toda, como ficou provada, foi uma armação contra o professor que se viu vítima de uma ação orquestrada pelos acusadores. Todavia, o discurso de vítima dos alunos acabou prevalecendo. Acusações de racismo na UnB, verdadeiras ou não acabam reforçando a política de cotas. Servem, enfim, para justificar essas medidas.

Finalmente, uma briga de alunos, moradores da Casa de Estudantes da UnB, ganhou, em 2007, as páginas dos jornais como tendo sido um conflito motivado contra alunos negros, portanto, racista. Discursos inflamados, manifestações de desagravo, sessão solene no senado, tudo levava a crer que estudantes africanos que tiveram a porta de seu apartamento incendiada haviam sido vítimas de um crime racista e xenófobo. Investigando o caso, chegou-se a um suspeito que ao entrar na UnB havia se declarado negro. O ato, odioso, antes de ter conotação racista, foi motivado por desavenças pessoais. Ao que parece, incidentes, brigas, conflitos que envolvam estudantes, professores ou funcionários da UnB, se um dos lados tiver a pele preta, logo ganharão a pecha de racistas! A política de cotas é mesmo um sucesso!

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