30 novembro, 2008

A pedagogia de Ana Dubeux!

Hoje, reconheço, estou pegando no pé dos jornalistas. Mas é que há certas coisas que se eu não disser ou escrever, não sossego. Quase nunca leio a coluna da jornalista do Correio Braziliense, Ana Dubeux. O problema é o “quase”. Há algumas semanas, a jornalista declarou que havia deixado de torcer pelo Santa Cruz, clube da quarta divisão do futebol brasileiro e que um dia já foi rival do atual campeão da Copa do Brasil, meu glorioso Sport Club do Recife. Como torcedor do glorioso, exultei com a iluminação da jornalista torcedora. Mas sei que quem consome droga, quase sempre, volta a consumir. Ela mesma confessou na dita coluna que ainda não está “limpa”.

Na coluna de hoje, cujo título é "Ensino inteligente", ela se superou na fanfarronice que grassa no colunismo do jornal. Munida do poder universal que as faculdades conferem aos jornalistas para falarem sobre tudo, mesmo que não saibam de nada, ela discorre sobre método de ensino, formação de professores, vestibular e tecnologia, com tanta ligeireza que obriga-me a um vermelho e azul com ela.

No próximo fim de semana, quando 30 mil candidatos fizerem as provas do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília, começará um novo ciclo do processo seletivo. Até então, para medir o nível do conhecimento, os estudantes eram submetidos a provas de diversas disciplinas num processo compartimentado, assim como ainda é baseado o ensino. Essa etapa do PAS inaugura uma era de inter e multidisciplinaridade, em que as questões abordam de forma conjunta diversas áreas do conhecimento. Matemática e Filosofia podem estar juntas num item, por exemplo.

D. Ana devo adverti-la que esse “novo ciclo” que para a senhora terá início no próximo fim de semana, começou há pelo menos dois anos. Não acredite em mim. Consulte, no site do Cespe, as provas do PAS do subprograma de 2006 e a senhora verá que a “novidade” não é assim tão nova. Em 2004, acredite, já se discutia nos fóruns do PAS essas mudanças e esse papo de multi e interdisciplinaridade, sabia?

A senhora, de maneira didática, exemplifica: “Matemática e Filosofia podem estar juntas num item, por exemplo.” O que no seu texto parece ser uma surpreendente inovação, já existia na boa e velha Atenas há pelo menos 2500 anos. Na famosa academia de Platão , uma inscrição alertava os candidatos a alunos do filósofo ateniense: “Quem não souber matemática, não entre”. Claro, claro, a novidade está na possibilidade de se cobrar conteúdos dessas duas disciplinas num mesmo item, não é? Infelizmente, nesse caso específico, até hoje não houve um só item nas provas do PAS que contemplasse o exemplo que a senhora ofereceu. Uma lástima, porque não seria assim tão difícil, sabia?

Todos os detalhes dessa mudança importante, você verá amanhã no caderno Gabarito, editado pela competente jornalista Ana Sá, que há alguns anos revela aos leitores, em especial aos estudantes do ensino médio, todas as novidades sobre a educação, seja a expansão das áreas do conhecimento, sejam as alterações no vestibular, cotas, etc.

Espero que a competente Ana Sá não repita a asneira de que o ciclo é “novo” e que “inaugura” uma nova forma de avaliar os alunos, porque estará desinformando os leitores.

A mudança no PAS deveria ser a síntese de um processo que começa bem mais cedo. Em tempos de globalização e de internet elevada ao topo do ranking no interesse de crianças e jovens, nada mais natural do que informar e educar de maneira interdisciplinar. Mas o ensino formal ainda está muito longe dessa realidade.

Agora o texto começa a ficar mais delicioso. A senhora afirma que a mudança no PAS deveria ser a culminância de um processo anterior, feito nas escolas, não é? Infere-se de suas palavras que o papel da escola moderna e de qualidade é ensinar o aluno a passar no PAS e, por isso, as aulas deveriam primar pela interdisciplinaridade.

A senhora elenca a internet e a globalização como processos que justificariam uma mudança de método de ensino. Para o aluno aprender mais? Para se sentir mais motivado a ir a escola? Não! Para a senhora, o objetivo último seria passar no PAS. As escolas, portanto, adotando a interdisciplinaridade deveriam tornar-se, é inescapável que se diga, um longo processo de preparação para o... PAS. Não lhe ocorre, senhora, que possam existir alunos, pais de alunos e instituições de ensino que não foquem a UnB em especial? Que sejam competentes, que obtenham resultados satisfatórios em outros exames mesmo sem apelar para a interdisciplinaridade? Pois saiba que existe. Aprovar muitos alunos para a UnB nada tem a ver com qualidade na educação. Se passar na UnB ou em qualquer outra universidade pública atestasse a qualidade da escola ou do aluno aprovado nesses exames, teríamos uma avaliação dessas universidades e desses alunos bem melhor, não acha? Consulte os números do ENADE e tire suas conclusões. Mas o que digo? Seu padrão de qualidade é o PAS, tanto, que a senhora acha que o ideal era que as escolas, desde cedo, ensinassem conforme a comissão que elabora o PAS acha que deve ser o ensino.

Se o ensino está muito longe dessa realidade, como a senhora atesta, não estaria a UnB, através do PAS, exigindo das escolas e dos alunos mais do que eles podem suportar? Não seria, portanto, esse “novo ciclo” uma forma excludente de seleção de alunos para a universidade de Brasília, uma vez que boa parte das escolas do DF , quiçá do Brasil, estariam longe dessa “realidade”? É caso de se pensar.


A preparação para o PAS e a ânsia das escolas em emplacar seus alunos nos primeiros lugares do programa – convenhamos, não há melhor estratégia de marketing do que essa – são um importante incentivo para incorporar de vez um método de ensino que privilegie o conhecimento integral. Acabou – ou já deveria ter acabado – o tempo em que os caderninhos tinham que ser divididos por assuntos.

Cara Ana, palavras não são inocentes. Na pena de um jornalista, muito menos. Justamente no parágrafo em que a senhora reconhece que as escolas usam a aprovação no PAS como estratégia de marketing, aparece o verbo “emplacar”. Seria uma referência ao colégio que afirma que o aluno que estuda nele emplaca na UnB? Propaganda subliminar? Acho que não, apenas coincidência.

Outra questão: se as escolas usam a aprovação no PAS como estratégia de Marketing – há também o Enem, não esqueça – e como marketing só faz sentido na rede privada, que incentivo teriam as escolas públicas em ter aprovação significativa na avaliação seriada da UnB? Humm, quem sabe o de convencer as famílias de classe média a matricular seus filhos na rede pública. Olhe só, se a tal lei das cotas for mesmo aprovada no senado, não se preocupe, as escolas públicas do Brasil vão receber uma enxurrada de alunos egressos do sistema privado, afinal, pela lei estariam reservadas metade das vagas nas universidades federais aos alunos de escola pública, não é?

A senhora sugere que o método correto seria aquele que privilegia um conhecimento integral. Que diabo é isso? A senhora não diz. Seria aquele em que o professor de história dá aula sobre o I Reinado e aproveita para falar de gramática, matemática, química? Talvez, com um professor que dominasse diversas áreas do saber e numa aula de 50 minutos passasse o conteúdo integral não só da disciplina em que foi habilitado, mas das outras também, fosse fácil de implementar esse tal de ensino moderno que garante, pensa a senhora, um conhecimento integral.

O parágrafo a seguir é o melhor de todos. Utilizando uma ferramenta filosófica antiga, o reducionismo, vou separá-lo em trechos menores para explicar o que pretendo:

"As especialidades continuam, é claro, mas os professores não podem ser donos de apenas uma disciplina e bastar-se dela."

Senti um alívio lendo esse trecho. Ainda bem que a senhora, que já decretou o fim da divisão dos caderninhos por assuntos, garante a sobrevivência das especialidades. Estou cá com a sensação de que a senhora anda, entre uma ida à academia e um lanche no trabalho, lendo o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. Acaso a senhora baseou-se na tese do super-homem para defender a tese do super-professor? A senhora diz: “os professores não podem ser donos de apenas uma disciplina e bastar-se dela.” Se eu fosse um freiriano – e pela bondade e misericórdia de Deus, nunca fui – diria que esse papo de “dono” do saber é coisa de educador bancário. O delicioso, porém, é a senhora dizer que o professor moderno não pode contentar-se apenas em ensinar a disciplina para a qual se formou. Precisa também saber as outras! É o multi-professor ou o professor Bombril, que ao invés de ter mil e uma utilidades, teria mil um saberes.

O irônico, D. Ana, é que hoje a maioria dos professores mal sabe a disciplina para a qual foram formados. Professor de português que escreve errado, professor de matemática com deficiências básicas, professores de história, de geografia, filosofia, sociologia que doutrinam os alunos no esquerdismo bocó, eis a triste realidade.

Infelizmente, D Ana, os professores não nasceram com a distinção, só concedida aos jornalistas, que é a competência e a habilidade de falar sobre tudo, de forma superficial e todo mundo achar o máximo! Se assim o fizessem, estariam deixando de ser professores e suas aulas em nada iriam diferir de uma discussão de mesa de bar.

"Eles precisam ser formados e formar no entendimento de que o saber não tem fronteiras e que as crianças e jovens de hoje não vão se contentar com um modo de ensino segmentado e ultrapassado."

O saber não tem fronteiras? Onde foi que eu já ouvi uma frase semelhante? Não é um slogan de uma operadora de telefonia celular? Ah... como os clichês revelam nossa superficialidade. Essa mania de nós olharmos para o passado como algo melhor do que presente é bem marcante quando se fala de educação. Quando eu era aluno em Recife, do velho Liceu, ouvia os adultos afirmarem que no passado a escola pública tinha qualidade, mas que agora – naquela época gente – estava sucateada e obsoleta. Para meu espanto, quando digo a alguns alunos que estudei em escola pública, eles me retrucam dizendo: “mas na sua época, professor, a escola pública tinha qualidade.” Pois é.

O aluno de hoje, a senhora diz, só se contenta em aprender se a escola não ensinar de forma segmentada. Conclui-se, portanto, que se ele não aprende é por causa dos métodos de ensino e, claro, dos professores ultrapassados que só conseguem, veja que absurdo, ensinar os conteúdos das matérias para as quais foram habilitados.

É preciso envolver, criar espaços de estímulos para discussões abrangentes, usar a tecnologia a favor do conhecimento para evitar a navegação supérflua e perniciosa do mundo virtual. O ensino precisa estar na dianteira desse processo, abraçar todas as formas de informação e conhecimento para não sofrer uma apropriação indébita da imbecilidade que também reina nos tempos de globalização. A mudança no PAS dá a largada para isso.

O que vai acima é só lugar comum. Qualquer livro de Didática vai abordar com muito mais riqueza a importância do envolvimento, dos estímulos, da troca de idéias e do uso orientado da tecnologia citados pela jornalista, no aprendizado do aluno. Ao sair do lugar comum, contudo, ela só consegue escrever asneiras. Vejam alguns exemplos: “usar a tecnologia a favor do conhecimento para evitar a navegação supérflua e perniciosa do mundo virtual.” O que ela quis dizer com isso? Seria oportuno perguntá-la o que é conhecimento? Será que ela quis dizer que o uso da tecnologia sem orientação não produz conhecimento? Sei lá!

“...abraçar todas as formas de informação e conhecimento para não sofrer uma apropriação indébita da imbecilidade que também reina nos tempos de globalização.”

Empulhação pura e simples. Abraçar todas as formas de conhecimento? Sem seleção? Sem critério? De qualquer jeito? Não haveria um risco de se compor um samba do crioulo-doido didático? Ela afirma que só abraçando todas as formas de conhecimento evita-se a apropriação indébita da imbecilidade. Ah... se esse “abraço” nos livrasse da imbecilidade dessas palavras...

Para arrematar: “A mudança no PAS dá a largada para isso.” Pronto. A mudança que fez dois anos, mas que ela só noticia agora, será o marco zero da Grande Mudança. A educação, a qualidade e a excelência do ensino, finalmente, encontraram seus pontos de inflexão: o PAS e a UnB! Alvíssaras!

Um comentário:

Anônimo disse...

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA - por Diego Casagrande, jornalista.
Não espere tanques, fuzis e estado de sítio. Não espere campos de concentração e emissoras de rádio, tevê e as redações ocupadas pelos agentes da supressão das liberdades. Não espere tanques nas ruas. Não espere os oficiais do regime com uniformes verdes e estrelinha vermelha circulando nas cidades. Não espere nada diferente do que estamos vendo há pelo menos duas décadas. Não espere porque você não vai encontrar, ao menos por enquanto. A revolução comunista no Brasil já começou e não tem a face historicamente conhecida. Ela é bem diferente. É hoje silenciosa e sorrateira. Sua meta é o subdesenvolvimento. Sua meta é que não possamos decolar. Age na degradação dos princípios e do pensar das pessoas. Corrói a valoração do trabalho honesto, da pesquisa e da ordem. Para seus líderes, sociedade onde é preciso ser ordeiro não é democrática. Para seus pregadores, país onde há mais deveres do que direitos não serve. Tem que ser o contrário para que mais parasitas se nutram do Estado e de suas indenizações. Essa revolução impede as pessoas de sonharem com uma vida econômica melhor, porque quem cresce na vida, quem começa a ter mais, deixa de ser “humano” e passa a ser um capitalista safado e explorador dos outros. Ter é incompatível com o ser.Esse é o princípio que estamos presenciando. Todos têm de acreditar nesses valores deturpados que só impedem a evolução das pessoas e, por conseqüência, o despertar de um país e de um povo que deveriam estar lá na frente. Vai ser triste ver o uso político-ideológico que as escolas brasileiras farão das disciplinas de filosofia e sociologia, tornadas obrigatórias no ensino médio a partir do ano que vem. A decisão é do ministério da Educação, onde não são poucos os adoradores do regime cubano mantidos com dinheiro público. Quando a norma entrar em vigor, será uma farra para aqueles que sonham com uma sociedade cada vez menos livre, mais estatizada e onde o moderno é circular com a camiseta de um idiota totalitário como Che Guevara.A constatação que faço é simples. Hoje, mesmo sem essa malfadada determinação governamental - que é óbvio faz parte da revolução silenciosa - as crianças brasileiras já sofrem um bombardeio ideológico diário. Elas vêm sendo submetidas ao lixo pedagógico do socialismo, do mofo, do atraso, que vê no coletivismo econômico a saída para todos os males. E pouco importa que este modelo não tenha produzido uma única nação onde suas práticas melhoraram a vida da maioria da população. Ao contrário, ele sempre descamba para o genocídio ou a pobreza absoluta para quase todos.No Brasil, são as escolas os principais agentes do serviço sujo. São elas as donas da lavagem cerebral da revolução silenciosa. Há exceções, é claro, que se perdem na bruma dos simpatizantes vermelhos. Perdi a conta de quantas vezes já denunciei nos espaços que ocupo no rádio, tevê e internet, escolas caras de Porto Alegre recebendo freis betos e mantendo professores que ensinam às cabecinhas em formação que o bandido não é o que invade e destrói a produção, e sim o invadido, um facínora que “tem” e é “dono” de algo, enquanto outros nada têm. Como se houvesse relação de causa e efeito.Recebi de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, o livro “Geografia”, obrigatório na 5ª série do primeiro grau no Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora. Os autores são Antonio Aparecido e Hugo Montenegro. O Auxiliadora é uma escola tradicional na região, que fica em frente à praça central da cidade e onde muita gente boa se esforça para manter os filhos buscando uma educação de qualidade. Através desse livro, as crianças aprendem que propriedades grandes são de “alguns” e que assentamentos e pequenas propriedades familiares “são de todos”. Aprendem que “trabalhar livre, sem patrão” é “benefício de toda a comunidade”. Aprendem que assentamentos são “uma forma de organização mais solidária... do que nas grandes propriedades rurais”. E também aprendem a ler um enorme texto de... adivinhe quem? João Pedro Stédile, o líder do criminoso MST que há pouco tempo sugeriu o assassinato dos produtores rurais brasileiros. O mesmo líder que incentiva a invasão, destruição e o roubo do que aos outros pertence. Ele relata como funciona o movimento e se embriaga em palavras ao descrever que “meninos e meninas, a nova geração de assentados... formam filas na frente da escola, cantam o hino do Movimento dos Sem-Terra e assistem ao hasteamento da bandeira do MST”.Essa é a revolução silenciosa a que me refiro, que faz um texto lixo dentro de um livro lixo parar na mesa de crianças, cujas consciências em formação deveriam ser respeitadas. Nada mais totalitário. Nada mais antidemocrático. Serviria direitinho em uma escola de inspiração nazi-fascista.Tristes são as conseqüências. Um grupo de pais está indignado com a escola, mas não consegue se organizar minimamente para protestar e tirar essa porcaria travestida de livro didático do currículo do colégio. Alguns até reclamam, mas muitos que se tocaram da podridão travestida de ensino têm vergonha de serem vistos como diferentes. Eles não são minoria, eles não estão errados, mas sentem-se assim. A revolução silenciosa avança e o guarda de quarteirão é o medo do que possam pensar deles.O antídoto para a revolução silenciosa? Botar a boca no trombone, alertar, denunciar, fazer pensar, incomodar os agentes da Stazi silenciosa. Não há silêncio que resista ao barulho.

flávia