30 novembro, 2008

Metodologia

Os dois textos do fim de semana estão abaixo. Tentarei seguir essa metodologia para os futuros posts do blog: dois textos por semana. Claro que a necessidade pode provocar mudanças, mas vou tentar seguir esse método

A pedagogia de Ana Dubeux!

Hoje, reconheço, estou pegando no pé dos jornalistas. Mas é que há certas coisas que se eu não disser ou escrever, não sossego. Quase nunca leio a coluna da jornalista do Correio Braziliense, Ana Dubeux. O problema é o “quase”. Há algumas semanas, a jornalista declarou que havia deixado de torcer pelo Santa Cruz, clube da quarta divisão do futebol brasileiro e que um dia já foi rival do atual campeão da Copa do Brasil, meu glorioso Sport Club do Recife. Como torcedor do glorioso, exultei com a iluminação da jornalista torcedora. Mas sei que quem consome droga, quase sempre, volta a consumir. Ela mesma confessou na dita coluna que ainda não está “limpa”.

Na coluna de hoje, cujo título é "Ensino inteligente", ela se superou na fanfarronice que grassa no colunismo do jornal. Munida do poder universal que as faculdades conferem aos jornalistas para falarem sobre tudo, mesmo que não saibam de nada, ela discorre sobre método de ensino, formação de professores, vestibular e tecnologia, com tanta ligeireza que obriga-me a um vermelho e azul com ela.

No próximo fim de semana, quando 30 mil candidatos fizerem as provas do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília, começará um novo ciclo do processo seletivo. Até então, para medir o nível do conhecimento, os estudantes eram submetidos a provas de diversas disciplinas num processo compartimentado, assim como ainda é baseado o ensino. Essa etapa do PAS inaugura uma era de inter e multidisciplinaridade, em que as questões abordam de forma conjunta diversas áreas do conhecimento. Matemática e Filosofia podem estar juntas num item, por exemplo.

D. Ana devo adverti-la que esse “novo ciclo” que para a senhora terá início no próximo fim de semana, começou há pelo menos dois anos. Não acredite em mim. Consulte, no site do Cespe, as provas do PAS do subprograma de 2006 e a senhora verá que a “novidade” não é assim tão nova. Em 2004, acredite, já se discutia nos fóruns do PAS essas mudanças e esse papo de multi e interdisciplinaridade, sabia?

A senhora, de maneira didática, exemplifica: “Matemática e Filosofia podem estar juntas num item, por exemplo.” O que no seu texto parece ser uma surpreendente inovação, já existia na boa e velha Atenas há pelo menos 2500 anos. Na famosa academia de Platão , uma inscrição alertava os candidatos a alunos do filósofo ateniense: “Quem não souber matemática, não entre”. Claro, claro, a novidade está na possibilidade de se cobrar conteúdos dessas duas disciplinas num mesmo item, não é? Infelizmente, nesse caso específico, até hoje não houve um só item nas provas do PAS que contemplasse o exemplo que a senhora ofereceu. Uma lástima, porque não seria assim tão difícil, sabia?

Todos os detalhes dessa mudança importante, você verá amanhã no caderno Gabarito, editado pela competente jornalista Ana Sá, que há alguns anos revela aos leitores, em especial aos estudantes do ensino médio, todas as novidades sobre a educação, seja a expansão das áreas do conhecimento, sejam as alterações no vestibular, cotas, etc.

Espero que a competente Ana Sá não repita a asneira de que o ciclo é “novo” e que “inaugura” uma nova forma de avaliar os alunos, porque estará desinformando os leitores.

A mudança no PAS deveria ser a síntese de um processo que começa bem mais cedo. Em tempos de globalização e de internet elevada ao topo do ranking no interesse de crianças e jovens, nada mais natural do que informar e educar de maneira interdisciplinar. Mas o ensino formal ainda está muito longe dessa realidade.

Agora o texto começa a ficar mais delicioso. A senhora afirma que a mudança no PAS deveria ser a culminância de um processo anterior, feito nas escolas, não é? Infere-se de suas palavras que o papel da escola moderna e de qualidade é ensinar o aluno a passar no PAS e, por isso, as aulas deveriam primar pela interdisciplinaridade.

A senhora elenca a internet e a globalização como processos que justificariam uma mudança de método de ensino. Para o aluno aprender mais? Para se sentir mais motivado a ir a escola? Não! Para a senhora, o objetivo último seria passar no PAS. As escolas, portanto, adotando a interdisciplinaridade deveriam tornar-se, é inescapável que se diga, um longo processo de preparação para o... PAS. Não lhe ocorre, senhora, que possam existir alunos, pais de alunos e instituições de ensino que não foquem a UnB em especial? Que sejam competentes, que obtenham resultados satisfatórios em outros exames mesmo sem apelar para a interdisciplinaridade? Pois saiba que existe. Aprovar muitos alunos para a UnB nada tem a ver com qualidade na educação. Se passar na UnB ou em qualquer outra universidade pública atestasse a qualidade da escola ou do aluno aprovado nesses exames, teríamos uma avaliação dessas universidades e desses alunos bem melhor, não acha? Consulte os números do ENADE e tire suas conclusões. Mas o que digo? Seu padrão de qualidade é o PAS, tanto, que a senhora acha que o ideal era que as escolas, desde cedo, ensinassem conforme a comissão que elabora o PAS acha que deve ser o ensino.

Se o ensino está muito longe dessa realidade, como a senhora atesta, não estaria a UnB, através do PAS, exigindo das escolas e dos alunos mais do que eles podem suportar? Não seria, portanto, esse “novo ciclo” uma forma excludente de seleção de alunos para a universidade de Brasília, uma vez que boa parte das escolas do DF , quiçá do Brasil, estariam longe dessa “realidade”? É caso de se pensar.


A preparação para o PAS e a ânsia das escolas em emplacar seus alunos nos primeiros lugares do programa – convenhamos, não há melhor estratégia de marketing do que essa – são um importante incentivo para incorporar de vez um método de ensino que privilegie o conhecimento integral. Acabou – ou já deveria ter acabado – o tempo em que os caderninhos tinham que ser divididos por assuntos.

Cara Ana, palavras não são inocentes. Na pena de um jornalista, muito menos. Justamente no parágrafo em que a senhora reconhece que as escolas usam a aprovação no PAS como estratégia de marketing, aparece o verbo “emplacar”. Seria uma referência ao colégio que afirma que o aluno que estuda nele emplaca na UnB? Propaganda subliminar? Acho que não, apenas coincidência.

Outra questão: se as escolas usam a aprovação no PAS como estratégia de Marketing – há também o Enem, não esqueça – e como marketing só faz sentido na rede privada, que incentivo teriam as escolas públicas em ter aprovação significativa na avaliação seriada da UnB? Humm, quem sabe o de convencer as famílias de classe média a matricular seus filhos na rede pública. Olhe só, se a tal lei das cotas for mesmo aprovada no senado, não se preocupe, as escolas públicas do Brasil vão receber uma enxurrada de alunos egressos do sistema privado, afinal, pela lei estariam reservadas metade das vagas nas universidades federais aos alunos de escola pública, não é?

A senhora sugere que o método correto seria aquele que privilegia um conhecimento integral. Que diabo é isso? A senhora não diz. Seria aquele em que o professor de história dá aula sobre o I Reinado e aproveita para falar de gramática, matemática, química? Talvez, com um professor que dominasse diversas áreas do saber e numa aula de 50 minutos passasse o conteúdo integral não só da disciplina em que foi habilitado, mas das outras também, fosse fácil de implementar esse tal de ensino moderno que garante, pensa a senhora, um conhecimento integral.

O parágrafo a seguir é o melhor de todos. Utilizando uma ferramenta filosófica antiga, o reducionismo, vou separá-lo em trechos menores para explicar o que pretendo:

"As especialidades continuam, é claro, mas os professores não podem ser donos de apenas uma disciplina e bastar-se dela."

Senti um alívio lendo esse trecho. Ainda bem que a senhora, que já decretou o fim da divisão dos caderninhos por assuntos, garante a sobrevivência das especialidades. Estou cá com a sensação de que a senhora anda, entre uma ida à academia e um lanche no trabalho, lendo o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. Acaso a senhora baseou-se na tese do super-homem para defender a tese do super-professor? A senhora diz: “os professores não podem ser donos de apenas uma disciplina e bastar-se dela.” Se eu fosse um freiriano – e pela bondade e misericórdia de Deus, nunca fui – diria que esse papo de “dono” do saber é coisa de educador bancário. O delicioso, porém, é a senhora dizer que o professor moderno não pode contentar-se apenas em ensinar a disciplina para a qual se formou. Precisa também saber as outras! É o multi-professor ou o professor Bombril, que ao invés de ter mil e uma utilidades, teria mil um saberes.

O irônico, D. Ana, é que hoje a maioria dos professores mal sabe a disciplina para a qual foram formados. Professor de português que escreve errado, professor de matemática com deficiências básicas, professores de história, de geografia, filosofia, sociologia que doutrinam os alunos no esquerdismo bocó, eis a triste realidade.

Infelizmente, D Ana, os professores não nasceram com a distinção, só concedida aos jornalistas, que é a competência e a habilidade de falar sobre tudo, de forma superficial e todo mundo achar o máximo! Se assim o fizessem, estariam deixando de ser professores e suas aulas em nada iriam diferir de uma discussão de mesa de bar.

"Eles precisam ser formados e formar no entendimento de que o saber não tem fronteiras e que as crianças e jovens de hoje não vão se contentar com um modo de ensino segmentado e ultrapassado."

O saber não tem fronteiras? Onde foi que eu já ouvi uma frase semelhante? Não é um slogan de uma operadora de telefonia celular? Ah... como os clichês revelam nossa superficialidade. Essa mania de nós olharmos para o passado como algo melhor do que presente é bem marcante quando se fala de educação. Quando eu era aluno em Recife, do velho Liceu, ouvia os adultos afirmarem que no passado a escola pública tinha qualidade, mas que agora – naquela época gente – estava sucateada e obsoleta. Para meu espanto, quando digo a alguns alunos que estudei em escola pública, eles me retrucam dizendo: “mas na sua época, professor, a escola pública tinha qualidade.” Pois é.

O aluno de hoje, a senhora diz, só se contenta em aprender se a escola não ensinar de forma segmentada. Conclui-se, portanto, que se ele não aprende é por causa dos métodos de ensino e, claro, dos professores ultrapassados que só conseguem, veja que absurdo, ensinar os conteúdos das matérias para as quais foram habilitados.

É preciso envolver, criar espaços de estímulos para discussões abrangentes, usar a tecnologia a favor do conhecimento para evitar a navegação supérflua e perniciosa do mundo virtual. O ensino precisa estar na dianteira desse processo, abraçar todas as formas de informação e conhecimento para não sofrer uma apropriação indébita da imbecilidade que também reina nos tempos de globalização. A mudança no PAS dá a largada para isso.

O que vai acima é só lugar comum. Qualquer livro de Didática vai abordar com muito mais riqueza a importância do envolvimento, dos estímulos, da troca de idéias e do uso orientado da tecnologia citados pela jornalista, no aprendizado do aluno. Ao sair do lugar comum, contudo, ela só consegue escrever asneiras. Vejam alguns exemplos: “usar a tecnologia a favor do conhecimento para evitar a navegação supérflua e perniciosa do mundo virtual.” O que ela quis dizer com isso? Seria oportuno perguntá-la o que é conhecimento? Será que ela quis dizer que o uso da tecnologia sem orientação não produz conhecimento? Sei lá!

“...abraçar todas as formas de informação e conhecimento para não sofrer uma apropriação indébita da imbecilidade que também reina nos tempos de globalização.”

Empulhação pura e simples. Abraçar todas as formas de conhecimento? Sem seleção? Sem critério? De qualquer jeito? Não haveria um risco de se compor um samba do crioulo-doido didático? Ela afirma que só abraçando todas as formas de conhecimento evita-se a apropriação indébita da imbecilidade. Ah... se esse “abraço” nos livrasse da imbecilidade dessas palavras...

Para arrematar: “A mudança no PAS dá a largada para isso.” Pronto. A mudança que fez dois anos, mas que ela só noticia agora, será o marco zero da Grande Mudança. A educação, a qualidade e a excelência do ensino, finalmente, encontraram seus pontos de inflexão: o PAS e a UnB! Alvíssaras!

Lei Falcão: a lorota e a verdade.

O roqueiro porra-louca, Raul Seixas, cantava numa de suas músicas os seguintes versos: “Eu não preciso ler jornais/ mentir sozinho eu sou capaz...” Não sei por que, de vez em quando ao ler o Correio Braziliense e alguns livros, eu me lembro desses versos.


No caderno Opinião deste domingo, há um artigo do ex-ministro do STF, ex-senador e ex-magistrado, o gaúcho Paulo Brossard, que recomendo com vigor. O artigo é precioso pois revela que jornalista – com as raras exceções de praxe – no afã de tornar sua estória verdadeira, apela a versões mirabolantes e fantásticas, caindo em esparrelas as mais fajutas. Quero destacar um trecho do artigo que deveria ser o norte moral de todo profissional de comunicação e de todo professor. Aliás, se os professores seguissem esse conselho, duvido que as salas de aula fossem o picadeiro que são para bobões saírem por aí falando besteira e molestando intelectualmente as crianças e os jovens. Paulo Brossard escreve: “O fato é intocável e, como tal, deve ser apurado e respeitado; em sua interpretação cada um tem o direito de errar, mas, quanto à sua objetiva realidade, há de ser sagrado.”


O ex-magistrado refere-se no artigo a uma lorota contada pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha no recente livro O seqüestro dos uruguaios. O que chamou a atenção do ministro Brossard foi a revelação feita no livro de que a famigerada Lei Falcão - implementada em 1 de julho de 1976, no governo de Ernesto Geisel (1974-1979) e que feriu de morte as pretensões de vitória eleitoral dos candidatos que faziam oposição ao regime militar - foi, na verdade, obra do então governador do Rio Grande do Sul, Sinval Guazzelli. O jornalista chega a narrar que o governador gaúcho tinha datilografado um documento em papel timbrado do governo do Rio Grande do Sul e entregue, pessoalmente, o documento nas mãos do presidente numa sala do Palácio do Planalto onde estavam Guazzelli, Geisel e o ministro Falcão. Ainda segundo o jornalista, o presidente Geisel ficara tão satisfeito com a proposta de lei, que determinou ao ministro da justiça do seu governo, Armando Falcão, que a implementasse. Nascia a “Lei Guazzelli, maquiada como Lei Falcão”. A versão acima e a citação estão, segundo o articulista, nas páginas 124 e 125 do livro supracitado.


Essa é a história contada no livro. Essa é a história que Brossard com gentileza e educação mas, sobretudo, com provas irrefutáveis, diz que não é verídica. O magistrado, que foi um importante ator político da época, revela que nunca ouviu falar dessa versão. Cuidadoso, porém, ponderou que talvez fosse uma história super-secreta e decidiu ligar para amigos, conhecidos, testemunhas do período, e nenhum sequer atestou a versão contada pelo jornalista em seu livro. Luís Cláudio da Cunha sustenta a versão dizendo que ela está no livro Tudo a declarar, do ex-ministro Armando Falcão, publicado em 1988. Não está! Não há uma mísera menção do ex-ministro à versão criada pelo jornalista. Enfim, é uma lorota. Diz o articulista: “Ao contrário, ele [ o ex-ministro Armando Falcão] assume a iniciativa da lei que leva o seu nome, apelidada de ‘cinema mundo’...” Na página 357 desse livro, diz o ex-ministro Brossard, Aramando Falcão expõe a gestação da famigerada Lei Falcão.


Por que trouxe essa história para o blog? Porque é um exemplo de como a mentira, a mistificação, a preguiça, o embuste e a fanfarronice ameaçam a formação dos estudantes e daqueles que pensam estar aprendendo quando na verdade estão sendo enganados.


O livro, segundo resenha publicada em Veja, tem o mérito de revelar uma armação protagonizada por membros do governo do general Geisel no intuito de desautorizar a notícia do sequëstro e das torturas sofridas pelos uruguaios publicadas pela revista na época. Não sei, mas espero que ao menos essa revelação seja verdadeira.

28 novembro, 2008

Racismo e Racialismo

Mais uma vez o professor da USP, Demétrio Magnoli ,escreve sobre o tema das cotas racias com maestria. Dessa vez, porém, ele se supera. Numa carta aberta ao deputado tucano Paulo Renato de Souza, ex-ministro da Educação dos tempos de Fernando Henrique, o acadêmico ao mesmo tempo que cobra coerência do deputado paulista, admoesta-o com firmeza. Leiam. Guardem na carteira e não se calem diante da maciça doutrinação racialista presente nas escolas, na imprensa, no trabalho, na fazenda e numa casinha de sapê.

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Carta aberta ao Grande Chefe Branco-Demétrio Magnoli O Estado de S. Paulo

O ESTADO DE S PAULO
Prezado deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP):

No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a Câmara passou a lei de cotas nas universidades e instituições federais de ensino médio, que é a primeira lei racial na história da República. A aprovação se deu sem o voto dos deputados, por conluio entre lideranças. Você participou destacadamente daquele conluio, renunciando à posição contrária à inclusão da raça na lei que dizia sustentar.

Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente da Câmara, celebrou o desenlace e ofereceu um diagnóstico: "Os que têm opiniões divergentes cederam, o que resultou em um grande avanço." Traduzo a frase do seguinte modo: nada é impossível, nem mesmo derrubar o princípio da igualdade perante a lei, quando a oposição abdica de seus deveres básicos. Estou errado?

Serei franco. Surpreendeu-me a sua colaboração, sem a qual o projeto teria de aguardar uma sessão com quórum e ser votado nominalmente pelos deputados. Li num jornal a sua justificativa. De acordo com ela, o projeto não é ruim, pois estabelece cotas raciais proporcionais à composição "racial" da população de cada unidade federativa, de modo que, nas suas palavras, nos Estados com predomínio demográfico de brancos, eles terão chances maiores de ingressar nas universidades. Se entendi, você negociou e aprovou o projeto pois não viu nele desvantagens para a "raça branca". Posso, então, intitulá-lo Grande Chefe Branco?

Não há ironia nisso, acredite. Os patrocinadores de projetos de cotas no ensino e no mercado de trabalho almejam a condição de líderes negros. Eles usam o fruto envenenado da raça para impulsionar carreiras políticas ou conquistar posições de prestígio em ONGs muito bem financiadas. Mas é claro que a construção de identidades raciais oficiais no Brasil abre possibilidades inusitadas. Se há líderes negros, por que não líderes brancos? (Veja que para isso nem se precisa de algo tão aparente quanto a cor da pele: em Ruanda a vida política girava em torno de líderes tutsis e líderes hutus, ao menos até o genocídio).

Não nos enganemos. Políticos oportunistas em busca da condição de líderes negros (ou brancos) são elos instrumentais na passagem de leis de raça, mas a concepção de tais leis se deve aos doutrinários racialistas, que são pessoas dotadas de princípios - e o xis do problema reside no conteúdo desses princípios. Racialismo é a doutrina baseada numa dupla crença: 1) raças existem, se não na natureza, ao menos na história; 2) "a história do mundo não é a história de indivíduos, mas de grupos, não a de nações, mas a de raças". Empreguei, para expor a segunda crença racialista, uma citação de William Du Bois (1868-1963), o pai fundador da doutrina. Toda a lógica das políticas de cotas raciais se encontra delineada na obra desse americano. Seria inoportuno sugerir que a lesse?

Du Bois era um racialista, não um racista, pois não acreditava em noções de superioridade racial. Ele visitou a Alemanha nazista e gostou do orgulho de raça promovido pelo regime, mas confessou sua repulsa com a perseguição aos judeus. Bem antes, em 1903, escreveu Os talentosos dez por cento, em que expunha a tese de que, por meio de uma criteriosa seleção educacional, um negro em cada dez poderia converter-se em líder mundial da raça negra. O artigo começa assim: "A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens excepcionais. O problema da educação entre negros, então, deve antes de tudo concentrar-se nos 10% talentosos..." Entendeu, agora, a proposta de cotas? Percebeu que ela nada tem que ver com um programa de redução de desigualdades sociais?

Nos EUA, as leis de segregação racial definiram quem era branco e quem era negro. Du Bois falava para uma raça oficializada pela discriminação. Por aqui, os racialistas lamentam a ausência de leis desse tipo no nosso passado, pois recaiu sobre os ombros deles a missão de fabricar, na mente das pessoas, a consciência racial e o orgulho de raça. Fico um tanto triste ao perceber que se procura realizar essa obra a partir da escola. Tarso Genro, na sua passagem pelo Ministério da Educação, ordenou que todas as escolas associem nominalmente cada aluno a uma raça. Você, um ex-ministro da Educação, e Paulo Haddad, o atual titular da pasta, articularam juntos o projeto de cotas raciais aprovado na Câmara. Vocês não são três, mas uma tríade. Juntos, por cima de diferenças partidárias, invadem as aulas de História e Biologia para apagar a lousa onde está escrito que raças humanas não existem, a não ser como invenção do racismo. Mas você liga para o que está escrito na lousa?

Já notou que os brasileiros sentem uma certa repugnância diante da idéia de serem divididos oficialmente em raças? Por coincidência, no mesmo dia em que vocês aprovavam uma lei que faz exatamente isso, divulgou-se uma pesquisa de opinião pública sobre atitudes diante do tema racial. Encomendada pelo Cidan, uma ONG racialista, a pesquisa fez perguntas viciadas, tendenciosas, a uma amostra da população carioca. Mesmo assim, 63% declaram-se contra as cotas raciais. Mais interessante é que as posturas diante das cotas raciais não variam em função da cor autodeclarada das pessoas. Entre os "brancos", 63,7% rejeitam essa política; entre os "pardos", 64%; entre os "pretos", 62,2%. Eu interpreto isso como uma opção identitária: as pessoas, independentemente da cor da pele, querem ser cidadãos iguais perante a lei. Estou errado?

Não há motivo para imaginar que os demais brasileiros pensem diferente dos cariocas. Apesar da maciça propaganda racialista veiculada pelo Estado, os cidadãos percebem o mal que a pedagogia das raças faz aos jovens estudantes. A coincidência entre a divulgação da pesquisa e a aprovação por conchavo da lei de cotas coloca uma pergunta constrangedora: onde está a representação parlamentar da maioria que rejeita as leis raciais?

27 novembro, 2008

Educação: diagnóstico preciso!

Lendo a entrevista da pesquisadora Eunice Durham, em Veja desta semana, tive aquela sensação agradável que se tem quando percebemos nas palavras de uma especialista, idéias e opiniões muito semelhantes as nossas. Vejam o que escrevi em 18 de maio deste ano sobre a formação de professores:

Alguns docentes, ainda mais nocivos, formam-se nas faculdades sabendo tudo sobre Paulo Freire, sobre a pedagogia do oprimido, da autonomia, enfim, sonhando em tornarem-se educadores que libertam; quando, na verdade, são apenas professores que reproduzem a ignorância. Acham que a sua missão é formar "alunos críticos" - entendam como "alunos críticos" aqueles que deploram o capitalismo e sonham com o socialismo ideal - e não se ocupam de ensinar geografia política ou análise sintática, mas em incentivar os alunos a militar em movimentos sociais organizados. Formam, não alunos para o mercado de trabalho, mas militantes de utopias que a história provou serem cerceadoras das liberdades individuais e assassinas!

A ignorância daqueles que deveriam ensinar, mas que por preguiça, comodismo e falta de iniciativa não o fazem; explica a ignorância daqueles que também por preguiça, comodismo e falta de iniciativa, deveriam aprender, mas não aprendem.

Abaixo, trechos da entrevista da pesqisadora. Aqui, a entrevista na íntegra.

"As faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e ensinar a matéria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limitações elementares: não conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos científicos de média complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se livrado delas"

"Eles [os professores dos cursos de pedagogia] confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educação. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dialética, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia."

"Acho que elas [as faculdades de pedagogia] precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. Não é preciso ir tão longe para entender por quê. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama atenção por uma razão para lá de negativa. Está sempre entre os piores países do mundo em educação."

Abaixo, trechos de um texto saído de minha pena, desta vez, em 14 de dezembro de 2007

"...boa parte de nosso fracasso em leitura, ciências e matemática é culpa da pedagogia da estupidez que tem em Paulo Freire o seu Papa e em Rubem Alves e Tião Rocha, seus bispos. Claro, que na base da pirâmide estão pedagogos e professores, todos libertários e avessos aos conteúdos formais.
No dia que, à semelhança da Suíça no século XVI ou mesmo do império bizantino nos séculos VII a IX, fizermos um movimento iconoclasta contra essas figuras que são santificadas nos cursos de formação de professores, garanto: nossa educação dará um salto gigantesco de qualidade.

"Quem é professor ou pedagogo e já freqüentou aquelas aulas das disciplinas de Educação em qualquer universidade, sabe que do jeito que as coisas são ensinadas é um verdadeiro engodo. O aluno que está se preparando para ser professor percebe a falácia e entra no jogo do faz de conta. Somos chateados com um monte de teorias pedagógicas e psicológicas que não têm efeito prático algum. Se tivessem, desconfio, talvez estivéssemos em situação pior na educação."

O primeiro passo para melhorar a educação no Brasil é enterrar Paulo Freire. Ou lembrá-lo como uma piada sem graça.

Há muitos entulhos teórico-metodológicos e jurídicos que atravancam o desenvolvimento de nossa educação. Antes de aumentar os recursos – quase sempre roubados, como no Piauí e Maranhão, recentemente – é preciso demover Paulo Freire do altar, melhorar os cursos que formam os professores, exigir dos professores e dos alunos resultados e reavaliar o ECA, assim poderemos começar a pensar em melhorar a educação no Brasil."

24 novembro, 2008

Avisos e lembretes.

Olá, queridos! Sei que ando sumido, mas dessa vez a culpa é da internet, mais especificamente da Brasil Telecom, que se recusa, embora eu pague tudo em dia, a liberar o sinal de banda larga para a minha nova residência. Já liguei 15 vezes e nada! Vou ao Procon!

No dia 24 de novembro, do ano da Graça de 1976, às 16:45, no hospital Barão de Lucena, em Recife, conta a minha mãe, eu nasci. Portanto, hoje, faço 32 anos de vida!

Abaixo, leiam dois posts acabados de sair do forno. Como o responsável pela fornada é um tanto desejeitado no manuseio da inculta e bela, perdoem os meus erros, por favor!

Até mais!

A Política de Cotas raciais é mesmo um sucesso!

Veja esta notícia que saiu no caderno Cidades, do Correio Braziliense deste domingo. Volto depois:

“Um jogo de truco regado à cerveja, na noite de quinta-feira, no Centro Acadêmico de Geologia, da Universidade de Brasília (UnB), acabou em brigas entre alunos e professor. (...) No meio da confusão, o professor teria ofendido um outro (sic) estudante que é negro. A discussão resultou numa queixa crime por racismo contra o acadêmico na polícia.

Segundo o estudante Jesus Vieira, 25 anos, o professor José Eloi Guimarães Campos, chamou um de seus amigos de “crioulo” e “cotista oportunista”. Ele contou que o professor tem um histórico de brigas e que é conhecido por reprovar muitos alunos. (...) Jesus conta que o professor teria feito xingamentos racistas contra seu amigo – Daniel Lopes Pêgo, 24 anos. [Quando Daniel soube dos supostos xingamentos, procurou a 2ª DP, na Asa Norte e registrou uma queixa por racismo contra o professor]

O estudante também vai entregar uma denúncia ao Núcelo de Promoção da Igualdade Racial, da UnB. “Vou colocar tudo no papel. O Jesus e o Allan vão assinar também. Já me disseram que o documento será enviado para a direção do Instituto de Geologia e para a reitoria”, afirmou.

Procurado pelo Correio, o professor José Eloi confirmou que houve uma discussão, mas negou de forma veemente que tenha usado as palavras “crioulo” e “cotista oportunista”(...)



A confusão ocorreu na noite de quinta-feira, dia 20 de novembro, dia em que o Movimento Negro comemora a morte de Zumbi dos Palmares, líder quilombola do século XVII que foi alçado à condição de herói e símbolo contra as injustiças e a discriminação racial. A data, que foi transformada em feriado em cerca de 350 cidades no país, recebe o nome pomposo de “Dia da Consciência Negra”. A notícia, parece, chegou tarde à redação do Correio, mas para uma causa nobre, o atraso é só um contratempo.

Eis o resultado prático da política de cotas raciais. Mais do que promover igualdade, essa política provoca conflitos dessa natureza. Sinceramente, acho que um professor deve evitar esse tipo de “programa com alunos”, mesmo sendo universitários. O professor Eloi, a quem não conheço, jamais deveria participar desse tipo de recreação regada à cerveja. Geralmente, os resultados não são bons, como se vê. Meu ponto, no entanto, é outro. A política de cotas raciais é a principal responsável pela indignação do aluno. O termo “cotista oportunista” tendo sido dito, ou não, pelo professor, revela o que essa política engendra: a idéia de que todo estudante de pele preta da UnB é cotista, e, portanto, de capacidade acadêmica questionável. O termo “cotista oportunista” e outras acusações do gênero não existiriam se o mérito continuasse a ser o critério para o ingresso na universidade. Estou desculpando o professor? De jeito nenhum. Apesar de nada ter sido provado, sei bem como pode existir universidade pública um professor canalha e mau caráter. Da mesma forma, sei que existem alunos que não valem um bago de jaca mole mastigado. Estou apenas fazendo uma relação entre o insulto e a política de cotas. O aluno Daniel não se sentiria ofendido pela acusação de “cotista oportunista” – sequer esta existiria - se não pairasse sobre ele a dúvida de que, porque tem a pele preta, trata-se de um cotista, e como tal, beneficiário desse sistema.

Aproveito para recomendar a leitura do livro Não Somos Racistas, do jornalista Ali Kamel. Nesse livro, o autor, que é formado em Ciências Sociais pela UFRJ e diretor de jornalismo da TV Globo, analisa dados do IBGE sobre renda, escolaridade e cor da pele, relatando experiências do Sistema de Cotas em várias partes do mundo. A conclusão é um alerta: Pode-se fabricar no Brasil, um país de mestiços, o que nunca existiu: o ódio racial. Uma coisa é certa: a política de cotas já produziu na UnB a idéia de que estudante de pele preta é um cotista, e como tal, oportunista! Um vexame!

Não é de hoje que incidentes envolvendo professores e alunos na UnB vem ganhando as páginas dos jornais e revistas por supostas discriminações raciais. O caso mais famoso aconteceu com o Cientista Político, professor Paulo Kramer. Acusado de racista por um grupo de alunos, o professor chegou a ser condenado por uma comissão de ética da universidade a uma suspensão de 30 dias, modificada mais tarde para uma multa de 50% dos seus vencimentos. A história toda, como ficou provada, foi uma armação contra o professor que se viu vítima de uma ação orquestrada pelos acusadores. Todavia, o discurso de vítima dos alunos acabou prevalecendo. Acusações de racismo na UnB, verdadeiras ou não acabam reforçando a política de cotas. Servem, enfim, para justificar essas medidas.

Finalmente, uma briga de alunos, moradores da Casa de Estudantes da UnB, ganhou, em 2007, as páginas dos jornais como tendo sido um conflito motivado contra alunos negros, portanto, racista. Discursos inflamados, manifestações de desagravo, sessão solene no senado, tudo levava a crer que estudantes africanos que tiveram a porta de seu apartamento incendiada haviam sido vítimas de um crime racista e xenófobo. Investigando o caso, chegou-se a um suspeito que ao entrar na UnB havia se declarado negro. O ato, odioso, antes de ter conotação racista, foi motivado por desavenças pessoais. Ao que parece, incidentes, brigas, conflitos que envolvam estudantes, professores ou funcionários da UnB, se um dos lados tiver a pele preta, logo ganharão a pecha de racistas! A política de cotas é mesmo um sucesso!

05 novembro, 2008

Que inveja da América!

Eu sinto uma inveja imensa dos Estados Unidos! Não estou me referindo exatamente à vitória de Obama que que vai produzir mais calor do que luz, podem apostar. Mas à maneira como o povo e sobretudo o adversário do democrata, o republicano Jonh MacCain, reagiu diante da derrota. Foi um exemplo de civilidade democrática.

Pesquisem por aí como Lula reagiu nas três eleições em que foi derrotado. Em todas elas, saiu cuspindo seu rancor contra a mídia, os empresários, a classe média, até contra o povo. Em nenhuma teve a dignidade e o senso democrático de aceitar a vontade das urnas.

Mesmo nas eleições de 2008, vimos e lemos petistas, petralhas e jornatralhas culpando a sociedade, os preconceitos, os machismo, o elitismo e o conservadorismo dos paulistanos pela derrota de Marta Suplicy. Eles nunca admitirão uma derrota como o resultado natural de uma eleição democrática. Não sabem perder porque se acham ungidos para a vitória e se ela não vem, a culpa certamente é da mídia, do empresário, da classe média, quiçá da Cuca.

Quando em 2002 o candidato José Serra reconheceu a derrota para Lula, alguns correligionários ensaiaram uma vaia que foi duramente criticada pelo candidato tucano. Conhece-se um caráter de um homem, e, claro, de um político, em momentos assim. Lula sempre demonstrou pouco espírito democrático. Não é à toa que sempre que pode, tenta, junto com seus acólitos, solapar os valores democráticos. Com Lula e o PT não existe honra, decência, dignidade na derrota. Mais uma vez o povo dos Estados Unidos e o candidato MacCain provam a superioridade desse país.

Abaixo, o discurso da derrota que a história deverá conferir a mesma importância que o discurso da vitória.



"Obrigado. Obrigado, meus amigos. Obrigado por virem aqui, nesta bela noite do Arizona.

Meus amigos, nós --nós chegamos ao fim de uma longa jornada. O povo americano falou, e falou claramente.

Há pouco, tive a honra de telefonar para o senador Barack Obama para parabenizá-lo.

Em uma disputa tão longa e difícil quanto foi a dessa campanha, o sucesso dele demanda meu respeito por sua habilidade e perseverança. Mas, que ele tenha obtido sucesso ao inspirar as esperanças de tantos milhões de americanos que acreditaram erroneamente que tinham pouco em jogo ou pouca influência na eleição de um presidente americano, é algo que admiro profundamente e o elogio por alcançar.

Carolyn Kaster/AP
Republicano John McCain, 72, disse que vitória de Obama deixa negros "muito orgulhosos", ao reconhecer derrota na disputa
Republicano John McCain, 72, disse que vitória de Obama deixa negros "muito orgulhosos", ao reconhecer derrota na disputa

Esta é uma eleição histórica, e reconheço o significado especial que ela tem para os afro-americanos e para o orgulho todo especial, que deve ser deles nesta noite.

Sempre acreditei que os Estados Unidos oferecem oportunidades para todos os que são trabalhadores e que tem vontade de trabalhar. O senador Obama acredita nisso também.

Mas ambos reconhecemos que, embora tenhamos avançado muito desde as velhas injustiças que já mancharam a reputação de nosso país e negaram a alguns americanos as plenas benesses da cidadania americana, as lembranças delas ainda têm poder para machucar.

Um século atrás, o convite do presidente Theodore Roosevelt a Booker T. Washington para jantar na Casa Branca foi visto como um ultraje em muitos lugares.

A América está hoje a um mundo de distância do fanatismo cruel e apavorante daqueles tempos. Não há melhor prova disso do que a eleição de um afro-americano para a presidência dos Estados Unidos.

Que não haja razão agora para que qualquer americano deixe de celebrar sua cidadania nesta que é a maior nação da Terra.

O senador Obama alcançou um grande feito para si mesmo e para este país. Eu o aplaudo por isso, e ofereço a ele meus sinceros sentimentos, por sua avó não ter vivido para ver este dia. Embora nossa fé nos assegure que ela repousa na presença do Criador e está muito orgulhosa do bom homem que ela ajudou a criar.

O senador Obama e eu tivemos e discutimos sobre nossas diferenças, e ele prevaleceu. Sem dúvida muitas dessas diferenças permanecem.

Estes são tempos difíceis para o nosso país. E eu prometo a ele esta noite fazer tudo em meu poder para ajudá-lo a nos liderar através dos muitos desafios que vamos encarar.

Peço a todos os americanos que me apoiaram que se juntem a mim não apenas para parabenizá-lo, mas para oferecer ao nosso próximo presidente nossa boa vontade e nossos esforços mais honestos para encontrar modos de nos unirmos a fim de efetuarmos os compromissos necessários para superar nossas diferenças e ajudar a restaurar nossa prosperidade, defender nossa segurança em um mundo perigoso, e deixar para nossos filhos e netos um país melhor e mais forte do que o que herdamos.

Sejam quais forem nossas diferenças, somos todos americanos. E por favor acreditem em mim quando digo que nenhuma ligação jamais significou mais para mim do que essa.

É natural. É natural, nesta noite, sentir algum desapontamento. Mas amanhã teremos de seguir adiante e trabalhar em conjunto para colocar nosso país em movimento de novo.

Lutamos --lutamos tão duro quanto pudemos. E embora tenhamos chegado perto, a falha foi minha, não de vocês.

Estou tão profundamente grato a todos vocês pela grande honra do seu apoio e por tudo que vocês fizeram por mim. Eu gostaria que o resultado tivesse sido diferente, meus amigos.

A estrada foi difícil desde o começo, mas o seu apoio e amizade nunca se abalaram. Não posso expressar de modo adequado o quanto estou profundamente em débito com vocês.

Estou especialmente grato a minha mulher, Cindy, a meus filhos, a minha querida mãe e a toda a minha família, e aos muitos velhos e caros amigos que ficaram ao meu lado através dos muitos altos e baixos desta longa campanha.

Eu sempre fui um homem de sorte, e muito mais ainda pelo amor e encorajamento que vocês me deram.

Vocês sabem, campanhas freqüentemente são mais duras para a família do candidato, e isso foi verdadeiro nessa campanha.

Tudo que posso oferecer para compensar é meu amor e gratidão e a promessa de anos mais pacíficos à frente.

Também estou --também estou, é claro, muito grato à governadora Sarah Palin, uma das melhores companheiras de campanha que já vi, e uma voz nova e impressionante em nosso partido por reforma e pelos princípios que sempre foram nossa maior força, a seu marido Todd e a seus cinco lindos filhos por sua incansável dedicação à nossa causa, e à coragem e graça que mostraram nos percalços de uma campanha presidencial.

Podemos todos esperar com grande interesse por seus próximos serviços no Alasca, no Partido Republicano e em nosso país.

A todos os meus companheiros de campanha, de Rick Davis e Steve Schmidt e Mark Salter até o último voluntário que lutou dura e bravamente, mês após mês, no que às vezes pareceu a mais disputada campanha nos tempos modernos, muito obrigado. Uma eleição perdida nunca vai significar mais para mim do que o privilégio de sua fé e amizade.

Eu não sei --eu não sei o que mais eu poderia ter feito para tentar vencer essa eleição. Deixarei isso a outros para determinar. Todo candidato comete erros, e tenho certeza de que cometi minha parcela deles. Mas não vou gastar um minuto do futuro lamentando o que poderia ter sido.

Essa campanha foi e vai permanecer como a grande honra da minha vida, e meu coração está cheio de nada menos que gratidão pela experiência e pelo povo americano por me conceder uma oportunidade justa antes de decidir que o senador Obama e meu velho amigo, o senador Joe Biden, deveriam ter a honra de nos liderar pelos próximos quatro anos.

Eu não seria --eu não seria um americano digno desse nome se lamentasse um destino que me permitiu ter o privilégio extraordinário de servir a esse país por meio século.

Hoje, fui um candidato ao posto mais alto do país que amo tanto. E esta noite permaneço um servo. Isso é benção suficiente para qualquer um, e eu agradeço ao povo do Arizona por isso.

Esta noite --esta noite, mais do que em qualquer outra noite, tenho em meu coração nada mais que amor por esse país e por todos os seus cidadãos, tenham apoiado a mim ou ao senador Obama.

Desejo boa sorte ao homem que foi meu oponente e será meu presidente. E peço a todos os americanos, como fiz freqüentemente nesta campanha, que não se desesperem diante das atuais dificuldades, mas que acreditem, sempre, na promessa e na grandeza dos Estados Unidos, porque nada é inevitável aqui.

Americanos nunca desistem. Americanos nunca se rendem.

Nunca nos escondemos da história. Nós fazemos história.

Obrigado, e Deus os abençoe, e Deus abençoe os Estados Unidos. Obrigado a todos."