26 outubro, 2008

Gilberto, o derrotado!

(Leia primeiro o post abaixo)

O jornalista Reinaldo Azevedo comenta o textinho de Dimenstein. Leiam, vale a pena!



Discordo de Dimenstein do título ao pé biográfico

Gilberto Dimenstein escreveu um texto intrigante na Folha Online. Não conseguiu superar, certamente, a, digamos assim, análise feita por Nelson de Sá na Folha de sábado: ele viu uma vitória avassaladora de Marta Suplicy (PT) no debate com Gilberto Kassab (DEM) ocorrido na sexta, na Globo. Ninguém mais viu. Eu estava lá. Percebia-se ao vivo a vitória de Marta estampada no rosto dos petistas... Mas volto ao texto de Dimenstein, cujo título é “A culpa da derrota não é de Marta”. Segue em vermelho, com comentários meus, em azul.

O debate da TV Globo precisaria ter sido devastador contra Gilberto Kassab para evitar a derrota nas urnas de Marta Suplicy, agora centro de acusações dentro do PT.
Pois é. Não só não foi devastador como o candidato do DEM venceu. É o que indicam todos os levantamentos. De Sá ficou — e talvez Dimenstein também —fascinado com a insistência da petista em ligar Kassab a Pitta, o que Alckmin e a própria Marta tentaram, sem sucesso, durante o primeiro turno. O comentarista de TV da Folha chegou a chamar isso de tática “bate-estaca”. Sei. Kassab fulminou a iniciativa com o que é fato, não gosto: ele se afastou de Pitta e rompeu com o ex-prefeito. Marta continua em companhia dos mensaleiros. Verdade ou mentira? A propósito: o texto de De Sá estava tão bom, que foi muito elogiado no blog de Felipe Belisário Wermus, o auto-intitulado Luís Favre... Sigamos com Dimenstein.
Nem ela nem seus marqueteiros são culpados pela derrota na disputa municipal.
Ele tem razão. A "culpa" é mesmo do eleitor, não é?, que insiste em não votar em Marta.

Ela não vai perder por causa de sua taxa de rejeição nem pelo fato de seu discurso não priorizar a classe média.
Em primeiro lugar, o discurso de Marta “priorizou”, sim, a classe média, quem disse que não? Tanto assim, que passou boa parte do tempo fazendo mea-culpa por causa das taxas que criou. O factóide “Internet Grátis” também tinha esse apelo — ela só se esqueceu de que 60% dos lares paulistanos ainda não têm computador. E aquele locutor de óculos modernos, barbicha estilo Vila Madalena e um jeito muito severo e sensível de encarar a câmera e falar entre suspiros? É classe média que leva o poodle pra passear... Mas não deu certo. Tanto não deu, que, na reta final e no desespero, ela decidiu cair nos braços do povo, como reconhece Wermus. Segundo o maridão, ela voltou a vestir vermelho e foi pra guerra. De fato, ao longo da campanha, Marta só vestia azul.
REJEIÇÃO – Dimenstein também revoluciona toda a teoria sobre pesquisas eleitorais. Alô, Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Seu emprego está ameaçado. Dimenstein descobriu — e gostaria de saber onde colheu os fundamentos teóricos de tal descoberta — que uma taxa de rejeição de 40% (segundo o Ibope; não lembro a medida pelo Datafolha) é só fator lateral numa disputa. Ele poderia provar o que diz citando casos de pessoas que tenham sido eleitas exibindo tal índice.

Esses fatores contribuíram, claro, explicam até a larga distância nas pesquisas em relação ao prefeito — mas não são a causa principal da derrota.

Então vamos ver a causa principal.
Há um fato essencial, o resto me parece detalhe. O eleitor estava de olho nas realizações locais e, até porque teve mais dinheiro e pegou obras e licitações em andamento (nisso Marta tem razão), Kassab pôde apresentar mais realizações do que sua oponente.
Huuummm... Ainda bem que ele diz que “Marta tem razão” porque, de fato, ele repete os argumentos de campanha do PT. A questão é saber se Kassab apresentou mais realizações só porque teve mais dinheiro ou se porque empregou direito esse dinheiro, não é mesmo? Veja só, Dimenstein: um prefeito pode pegar R$ 400 milhões e enterrar em dois túneis que enchem d’água quando chove, porque malfeitos, e que terminam num sinal de trânsito, de sorte que este administrador genial transfere o engarrafamento que está sobre o solo para o subsolo.
Quanto às licitações, o argumento beira a puerilidade: nenhum cidadão usufrui de licitações. Ele usa é a obra pronta. Ou bastaria a um administrador sair licitando coisa por aí e deixar o pepino para o sucessor. Tenha dó! De resto, o argumento é falso.

Marta corretamente tentou buscar o passado e melhorar as comparações, trazendo as ligações do prefeito com Celso Pitta; Kassab fez tudo para trazer o debate para o presente, ajudado por uma propaganda eficaz.
Como é? A palavra “ligações” (de Kassab com Celso Pitta) faz supor que se tinha naquele caso algo além de coligações partidárias, o que é normal na democracia. De resto, quem disse que Kassab discutiu só o presente — onde, com efeito, ele tem muito a mostrar? Discutiu também o passado: o PT mensaleiro, as obras paradas que a ex-prefeita deixou, a dívida de quase R$ 2 bilhões... Ou nada disso faz parte do passado — e do presente — de Marta?

Seria absolutamente anormal que qualquer candidato, por melhor que fosse, derrotasse um governante com 60% de ótimo e bom. Se Kassab merece essa avaliação é outra coisa — mas a tendência do eleitor é querer manter o que considera que vai bem.
Huuummm, parece que Dimenstein não acha a avaliação justa. Talvez seja um daqueles casos clássicos em que a gente percebe que o povo, coitado!, não sabe julgar.

Por isso, Lula não teve o efeito que se imaginou. Nem acredito que Serra tenha sido decisivo para o desempenho do prefeito.
Os tucanos e democratas não usaram Serra na campanha. Os petistas é que insistiram em Lula.

Acusar Marta e seus assessores e marqueteiros pela derrota é não conhecer como, neste momento, funciona a cabeça do eleitor paulistano.
O jornalista conhece. Sendo como ele diz, Marta nem deveria ter-se candidatado, não é mesmo?

Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha.
É a primeira vez na vida que discordo de um pé biográfico. Pô, tá na hora de a Folha Online atualizá-lo. Gilberto Dimenstein nasceu no dia 28 de agosto de 1956 — e está com 52. Se bem que ele poderia ter escrito esta coluna aos 48, há quatro anos, quando Marta perdeu para Serra. A Folha popularizou essa conquista do jornalismo: sempre informar a idade. Sejamos rigorosos.

2 comentários:

Anônimo disse...

A vitória de Marta em São Paulo e de José Fogaça em Porto Alegre será um lenitivo para o PT, e prova que nem pretígio nem dinheiro apagam da memória experiências de serem governadas pelos "cumpanheiros".

Flávia,

Anônimo disse...

A vitória de Marta em São Paulo e de José Fogaça em Porto Alegre será um lenitivo para o PT, e prova que nem prestígio nem dinheiro apagam da memória experiências de serem governadas pelos "cumpanheiros".

Flávia,