31 outubro, 2008

Elisabeth, monstro ou vítima?

Em muitas situações, mas sobretudo na vida profissional, incidentes costumam provocar constrangimentos. Em todas essas situações, a versão vale mais do que a verdade. Vejam o caso da professora de educação infantil da escola classe 54, na Ceilândia, Elisabeth Barros. Num primeiro momento, o Correio Braziliense noticiou que ela teria segurado um aluno de 5 anos para ser agredido pelos coleguinhas como uma forma de castigá-lo, afinal, esse garoto costumava se envolver em brigas com os colegas de turma.

A história, por si só, é tão absurda que ainda me custa acreditar nela. Na matéria, o Correio ouviu a mãe do garoto agredido, a diretora da escola, os outros pais da turminha, mas nada de ouvir a professora. O jornal alega que Elisabeth Barros não quis falar com a imprensa,pois estaria abalada com a repercussão do fato.

Na edição de hoje, o Correio põe em manchete de primeira página a versão da professora. E sua versão deixa a história mais verossímil, é verdade. Mas...adianta? acho que não.

O menino de 5 anos - pivô da confusão - tem um histórico de brigas na escola. A própria mãe do garoto, a funcionária pública Rejane Vieira Urani, 36 anos, admite que o filho envolveu-se em dois incidentes que acabaram provocando ferimentos em seus colegas. Segundo a professora acusada, havia um risco iminente do menino ser expulso da escola - na verdade transferido - caso mais um incidente acontecesse. Por isso, decidiu não comunicar a confusão à direção. A diretora da escola confirmou que o risco de "expulsar" o aluno existia.


Alarmada com a repercussão do caso, a professora buscou ajuda no sindicato dos professores. Precisou, antes, filiar-se e só assim o sindicato assumiu a defesa dela.

A professora cometeu muitos erros nesse caso. Mas o que pesa contra ela é a acusação - contada pela mãe do menino de 5 anos e, segundo o jornal, confirmada pelos alunos, de ter segurado a criança e permitido que os coleguinhas batessem no rosto dele como uma forma de puni-lo. por ele ter batido neles antes. O jornal assegura que a professora chorou, arrependida da atitude que tomou, chegando a pedir desculpas aos pais da criança.

A professora errou quando deixou sem supervisão um aluno com histórico de agressividade, sozinho, simulando uma briga com outros colegas. Ela também errou quando não comunicou o incidente à direção - e aqui a estória que ela conta faz sentido, mas revela uma ingenuidade sem tamanho e certamente enfraquece sua defesa. Porém, o erro mais sério foi o de ter segurado o aluno para apartá-lo da briga. O manual diz que o professor deve, sempre, evitar tocar o aluno. O ECA poderá ser usado contra o professor. Por isso, D Elisabeth, sua situação está feia. Em casos assim, não interessa se o professor é inocente, ele nunca estará com a razão.

De todo esse imbroglio, fica uma lição para nós professores: em qualquer incidente em sala de aula, o profissional precisa, sempre, estar vigilante para que algo que diga ou faça não possa ser mal interpretado e acabe virando notícia de jornal, maculando de maneira irreversível a imagem de um profissional.


2 comentários:

ALlan disse...

Pois é,
parece estar havendo um linchamento sem uma investigação mais criteriosa.
E quanto ao ECA em minha opinião ele é um dos granes responsáveis pela inconsequencia de muitos de nossos jovens, que não tem freio em casa e nem na rua..

Anônimo disse...

De antemão, certas questões não estão sendo avaliadas:
1 - O delegado-chefe colocou a ação da professora como não sendo uma "conduta normal"! Gostaria de saber como ele pede aos policiais para apartar uma briga!(Seria sentando e conversando ou pedindo para os envolvidos pararem? Serioa sem tocar em pessoas q insistem em brigar? Funciona?). A professora tomou o menino pelos braços provavelmente por impulso pensando o q seria mais fácil (pelo q se expõe no relato): retirar do local o menino q apanhava dos demais em vez de tentar impedir vários ao mesmo tempo decididos a brigar. Se ela deixasse acontecer sem tocar na criança ou tentando entrar no meio de tantos envolvidos, desta forma não conseguindo evitar q um tapa ou outro atingisse o aluno em questão; também poderia estar sendo condenada, neste momento, por conduta "anormal"! Em nenhum momento se aprende, em qualquer curso de formação de professores, como apartar brigas de crianças ou mesmo o que seria uma "conduta normal" na visão de um delegado... Não estou atestando q a professora agiu da melhor forma, mas entendo que mediante a urgência da situação, tenha optado por uma conduta a partir da qual outras crianças tenham se aproveitado, movidas pelo desejo de reproduzir o comportamento anterior do colega e sabendo da desaprovação docente quanto a esta conduta (pode ter sido mesmo uma interprtação dos alunos o fato da professora ter pego o menino pelos braços e, de alguma forma, isso ter facilitado um tapa dos outros alunos)
2 - Outra questão é a falta de apoio da escola. Eu gostaria de saber de quantas crianças é formada a turma. Dependendo do número, esta professora deveria ter uma auxiliar. A ocorrência poderia ter sido evitada mediante suporte oferecido. Mas o q ocorre é que muitas escolas ou sistemas escolares preferem economizar, deixando professores lidarem com crianças pequenas como se fossem autônomas como as maiores... Em muitos casos, uma professora só para cuidar de alunos em Ed. Infantil não é suficiente (aí episódios como o relatado e outros acontecem mesmo!)
3 - Se a professora teve de separar as crianças em grupo de meninos e meninas para ir ao banheiro, é pq a escola deve ter dois banheiros separados sem um lugar único para q a professora supervisione todas as crianças ao mesmo tempo! Muitas escolas tem lavabos num mesmo corredor e apenas separando as cabines de toaletes para meninos e meninas(onde as crianças vão sozinhas, estando a professora e colegas pelo lado de fora). Mesmo que ela levasse as crianças no mesmo momento aos banheiros, não haveria como dividir-se em duas para olhar os dois grupos em lugares diferentes ao mesmo tempo! Por certo, deixar um grupo na sala não foi sensato, mas é possível que a escola tb não ofereça estrutura adequada para turmas de Educação Infantil, mesmo a uma professora q deseje não separar o grupo.
4 - Entendo a angústia da mãe frente aos relatos... Ouvir o q o filho disse e os colegas deste não é fácil... Contudo, quando seu filho agrediu outras crianças, como ela reagiu? Conversando? P q ela não foi à escola conversar com a professora primeiro? Não pensou q outras famílias poderiam tê-lo denunciado tb? O problema, neste caso, recairiam novamente sobre a professora e a alegação seria a de que ela não olhou adequadamente sua turma... Mesmo quando se pára para amarrar um tênis de um aluno, uma ocorrência desagradável pode acontecer. Os professores estão entregues às mãos de Deus e à compreensão (quando há) das famílias...
5 - Somente agora a criança foi encaminhada para atendimento profissional visando "trabalhar sua agressividade"... Ora! Em vez de pensar em exigir tal medida da família antes, deixaram à cargo da professora resolver incidentes em sala de aula!!!??? Pensaram em "transferência" para a criança em vez de dar suporte a esta? Pensaram que a transferência para outra escola garantisse soluções? Preferiram arriscar deixar a professora sem suporte e esperar que a criança brigasse novamente para só então tomar uma providência que a impedisse de fazer algo contra os colegas! Onde estava a Orientação Educacional numa hora destas???
Desconheço a escola, os personagens desta história... Mas pelos relatos, muitas questões precisam ser avaliadas antes de julgar a professora. Nâo estou colocando-a como inocente, mas acho que outras questões deveriam ser melhor analisadas.