22 outubro, 2008

De Paula a Paulo ou foi mal aí, santa Paula!

Um dos traços marcantes da religião católica é a crença nos santos. Mais: é a crença na intercessão dos santos junto ao Deus Pai, Todo Poderoso. A Igreja, atualmente, é bem mais cautelosa quando eleva um católico à condição de santo. Na verdade, os trâmites exigidos pelo Vaticano para conceder tal honraria a um católico passa pela comprovação do milagre e, mesmo assim, primeiro beatifica-se e só depois, com mais dois ou três milagres comprovados, dá-se o título de santo.

Quem disse, todavia, que para as pessoas simples, de pouca instrução escolar e com uma fé fervorosa no coração, os trâmites do Vaticano são importantes? Para elas, basta a convicção de que um padre, uma freira ou um frei levaram uma vida santa, que já são tidos como tais e merecedores de devoção como se santos fossem. Assim, temos aos montes religiosos e religiosas que nem sequer foram beatificados, mas que são venerados como se santos fossem.

Dois exemplos clássicos no Brasil, e, em particular, no nordeste, são o Padre Cícero e o Frei Damião. Para o povo simples, sobretudo do semi-árido nordestino, Padre Cícero e, em menor medida, mas com igual fervor, Frei Damião, foram homens santos, portanto, merecedores de devoção. Chegam aos milhares os romeiros que todos os anos visitam os locais onde estão enterrados esses dois religiosos. O Vaticano não precisa beatificá-los e santificá-los, os católicos do semi-árido já o fizeram e para eles isso basta.

Pode-se com racionalidade questionar essa atitude devocional dessa gente simples, sofrida e de fé fervorosa. Pode-se, inclusive, chamá-los de fanáticos, ignorantes, legítimos representantes do catolicismo popular. O que não se pode é acusá-los de incoerentes na sua fé. Afinal, beatificaram e santificarm católicos que para eles levaram uma vida de dedicação aos mais pobres e ao evangelho. A devoção a esses dois religiosos em particular está bem restrita ao nordeste e mais especificamente aos católicos do semi-árido.

O que me espanta é a devoção que algumas pessoas têm sobre certos indivíduos que nem cristãos eram. Gente que nos livros - pessimamente escritos, diga-se de passagem - fingindo falar de solidariedade, enxergava o mundo como os maniqueístas e pregava abertamente que os bons deveriam derrotar, ou melhor, eliminar os maus. Gente que defendia e era entusiasta da ideologia da morte, da intolerância, mas que revestia seu discurso com um futuro promissor onde todos seriam iguais, felizes e livres. Lorota, engodo, mistificação.

No encontro do qual participei, vejam só, chegaram a comparar a pedagogia picareta de Paulo Freire com os conselhos pedagógicos de Santa Paula Frassineti, religiosa italiana do século XIX e que foi canonizada pelo Papa João Paulo II em 1984. A coitada só não se revirou e rogou uma praga porque é santa e como santa nunca terá o desprazer de encontrar Paulo Freire no céu, se é que me entendem.(hehehehe)

Paulo Freire foi transformado em um santo. Não só no nordeste e não só pelos católicos. Está no altar dos pedagogos, sobretudo os de esquerda e daqueles que por preguiça e para seguir a manada, acham seu trabalho o máximo!, embora pouco tenham lido sobre ele. A verdade é que , à exceção dos pedagogos, os estudantes de licenciatura lêem uma xerox de um capítulo de Pedagogia da autonomia ou do Oprimido e dizem que leram Paulo Freire. Leram nada e fizeram muito bem! Eu, caxias, li e não me tornei melhor do que os meus colegas que não leram ou que só leram um trechinho. Chego a pensar que mais do que perder tempo, essa leitura criteriosa me tornou um professor pior. Ainda bem que fui curado! Criticá-lo equivale a chutar a imagem da santa, a cuspir na cruz, a blasfemar! Lixo!

Quando, meu Deus, o curso de formação de Professores rejeitará a influência perniciosa e pernóstica de Paulo Freire? Quando essa bobagem de "educador" sairá da nomenclatura dos pedagogos progressistas? Quando essa idéia utópica e falsa de que o professor deve tornar os alunos cidadãos éticos, morais, respnsáveis será rechaçada como uma ambição desmedida.? Não se ensina ética, moral e responsabilidade com discursos enlatados, politicamente corretos e supostamente humanistas; Com metáforas pobres ou com narrativas piegas, mas com exemplo. A ética e a moral preconizada por Paulo Freire, segundo ele ensina em seu horroroso livro A Pedagogia do Oprimido é "pensar certo" que na visão dele é pensar como um esquerdista bocó, cheio de boas intenções, mas com um viés totalitário escondido.

Se minha ética for a da individualidade que premia o esforço de cada um, para Paulo Freire eu estaria sendo um "educador" bancário, conservador e na sua visão maniqueísta, um educador do mal. Se eu, na minha prática pedagógica, impuser regras, objetivos e conduzir a aula de maneira a chegar no melhor resultado possível ainda que desagrade o aluno preguiçoso e indisciplanado; para Paulo Freire eu estaria sendo autoritário. Um educador que escraviza, não que liberta. Minha única ambição com meus alunos é lbertá-los da ignorância. O resto eles aprendem em casa, na rua, talvez na escola.

A partir da próxima semana vou publicar trechos dos livros de Paulo Freire e comentá-los.

PS: Eu sei que muitos dos poucos que lêem este blog não concordam comigo sobre esse assunto. Há aqueles que desculpam Paulo Freire porque afinal foi alguém que tentou fazer alguma coisa para mudar a educação. Sua pedagogia, dizem, pode ser utópica, mas ele tinha boas intenções. Respondo com a gentileza possível: Uma ova! Ele mudou sim, mas para pior. E de resto, o inferno está cheio de gente com boas intenções.

4 comentários:

Anônimo disse...

Considero uma honra ter feito um comentário que possa ter incentivado este post e a série de posts anunciada, ou mesmo ter sido abordado em seu "PS".
Concordo com vc quando fala do falso altar levantado à Freire, contudo, o que defendo não é necessariamente a validade de sua fala, porém o intuito de fazer algo, dizer algo, propor algo diferente enquanto tantos professores se calam. Embora vc não tenha sido muito gentil ao responder com toda "gentileza possível", pergunto: p q culpá-lo? Acredita nele quem quer ou simplesmente tem preguiça de pensar. Além disso, não creio em donos da verdade. Seja vc de direita e Freire de esquerda, não há como aferir todos terão pessoas discordando de suas teses e isso é direito de cada um. Definir em quem concordar fica a cargo de cada leitor.
Interessei-me pelos posts anunciados. Vou ler com certeza. Parabéns pela iniciativa.

Zé Costa disse...

Boa parte de nossa formação profissional como professores foi forjada na leitura dos livros de Paulo Freire. 11 em cada 10 profssores da área de educação quando se referiam a Paulo Freire se referiam com devoção. Se nossa prática está impregnada por esse discurso bisonho, é claro que devemos culpá-lo, sim. Se não, vejamos: nos últimos 20 anos, a pedagogia de Paulo Freire, suas idéias e valores se impuseram e, claro, sempre com a desculpa esfarrapada de que ele pensava nos mais pobres. Pergunto: com a pedagogia de Freire e seus seguidores, o aprendizado melhorou? Os números indicam que não. Por isso, para mim, Paulo Freire e sua pedagogiam foram e para a nossa desgraça, ainda é um mal a ser extirpado dos cursos que formam professores e pedagogos.

Outra coisa: Se um aluno tiver a coragem para chegar para seu professor num curso de pedagogia e dizer que as idéias de Paulo Freire estão superadas, é muito provável que o "educador" se transforme num "trator" e esmague o pobre aluno que ousou contestar o barbudo.

Anônimo disse...

Hum... agora está culpando os pedagogos!!!
Concordo plenamente com a primeira parte do que escreveu. Contudo, quando diz que Paulo Freire foi o grande vilão da história da educação brasileira, está colocando professores e pedagogos numa áurea de inocência (como se não tivessem poder de escolha, como se fossem hipnotizados pela fala freiriana)... Quem acredita nele e o defende, o faz porque quer! Ninguém é enganado, se deixa enganar ao evitar qualquer tipo de questionamento (não se deve aceitar tudo como verdade absoluta!).
Talvez culpe os pedagogos por lecionarem nos cursos de formação de professores (Ens. Médio). Saiba, vc não é o único no campo da escola que já ouvi criticando seu companheiro de nome. Muitos pedagogos concordam com sua visão, não generalize! Critico mesmo (e também) os concursos públicos... Se fizer um levantamento de questões apresentadas em concursos nos últimos anos, em diversas localidades e elaboradas por diferentes instituições, verá que não tem um que não tenha uma questão (pelo menos) sobre Paulo Freire. Ele ainda faz parte do currículo em cursos de educação? Não me admira. Há quem o defenda porque concorda com suas idéias (apesar dos pesares), há quem dele discorde (com argumentos, pensando que ele pode ter tentado, mas que sua tentativa não dá conta de grandes contribuições para a realidade educacional do país)e há os que pensem nele como grande vilão, aceito por todos de cabeça baixa...
Não sei bem, mas sua visão pareceu-me um tanto ingênua ao julgar os pedagogos.

Zé Costa disse...

Não culpo os pedagogos por nada, apenas aqueles - e aí os professores também se incluem - que repetem as bobagens de Paulo Freire sem, aposto, conhecer bem o que ele defendia. Ficam ali, nas franjas do discurso, achando o máximo as idéias de Paulo Freire sem se questionar, efetivamente, se elas deram certo ou não. Tenho convicção, olhando para os dados e os resultados de nossa educação, que sua pedagogia não passou de engodo.

Ademais, concordo que qualquer pessoa razoavelmente instruída pode, sim, pensar por si mesma. Mas aí precisa ter a coragem necessária de enfrentar os consensos. Sei que não sou muito polido, mas isso talvez seja defeito de personalidade. Os esquerditas diriam que é defeito de caráter, porque, acho que você sabe, quem não pensa como eles pensam, são naturalmente do mal!

Repito: pedagogos, psicólogos, professores, diretores, o diabo, podem pensar no que quiserem, é um direito que eu acredito. Mas, raleia Pedagogia do Oprimido e vc vai ver Freire, de maneira disfarçada, afirmar que quem pensa certo é quem pensa como ele.

Assim não dá!

Eu, o dono da verdade? De jeito nenhum! Não tenho talento para pastor de almas e detesto tanto que me conduzam quando conduzir. Não preciso de aplauso, de platéia, de apoios!