16 setembro, 2008

Reflexões sobre a profissão


Eu vim para Brasília para fazer mestrado em Ciência Política na Unb. Sem conhecer ninguém na universidade, aconselharam-me a solicitar uma vaga como aluno especial. Assim o fiz. No primeiro mês de aula, depois de relutar bastante, cheguei à conclusão frustrante de que o que se estava ensinando ali, não era exatamente o que eu esperava aprender, pior: a doutrinação ideológica, que se passava por ciência política, era evidente e eu estava cansado dela; afinal, fui aluno da UFPE.


Além da frustração com o curso, as dificuldades econômicas que marcaram o primeiro ano em que eu e minha mulher passamos em Brasília obrigaram-me a fazer bicos em vários lugares. Dei aulas em cursinhos de pouca ou nenhuma expressão. Ganhava pouco, mas o suficiente para atenuar os apertos financeiros, agravados pelo furto de cartões de que fomos vítimas. Pensei em voltar várias vezes, mas nem isso podia.


O fato é que não fiz o que me propus quando deixei Recife e vim para Brasília. Nunca deixei, no entanto, de me aprimorar. Se o mestrado e os professores da Unb não provocaram em mim o que Aristóteles chamava de thauma, passei a comprar e a ler, compulsivamente, livros que ampliaram o meu conhecimento. Hoje, sei, fiz muito melhor do que teria feito se tivesse persistido no mestrado apenas para ostentar um título e arrotar um saber enlatado.


O ponto onde quero chegar, no entanto, é outro. Nunca tive base científica para provar o que vou afirmar, mas sempre tive cá comigo a impressão que um título de mestre ou de doutor não qualifica, necessariamente, uma pessoa a ser um excelente professor. Quero dizer com isso que não se deva investir na carreira acadêmica? Não! Quero apenas lembrar que há por aí muitos mestres e doutores que podem ser sumidades na academia, nas escolas, mas que em sala de aula se revelam medíocres. Muitos mal sabem escrever ou falar. Quantos mestres e doutores, porque têm um título, não se consideram acima do bem e do mal e não admitem, por exemplo, rever práticas pedagógicas comprovadamente ineficazes, por pura vaidade ou teimosia? Se o aluno não aprende, dizem alguns, azar do aluno! Um professor medíocre, enfim, não se torna uma excelência do ensino porque conseguiu um título. “Ah, Zé Paulo”, diriam os céticos, “então não há doutores e mestres que sejam excelentes professores?” Claro que há! Na UFPE tive alguns. Infelizmente , pode-se contá-los nos dedos de uma mão. A realidade, porém, é que a maioria dos professores na universidade que ostentavam seus títulos de doutores e pós-doutores – com raríssimas exceções – eram os piores em sala de aula. Havia doutores que eram excelentes professores? Sim, mas isso não era a regra, infelizmente.


O que faz de um professor um bom professor, finalmente, não é a quantidade de títulos ou especializações que ele ostenta, como se fossem estrelas na farda de um general. Um bom professor é aquele que no fim de um período fez seu aluno avançar no conhecimento. Por isso, há algum tempo, defendo que as escolas públicas e privadas deveriam medir a excelência do seu quadro docente não apenas nas pesquisas que fazem com os alunos e os pais mas, PRINCIPALMENTE, com uma avaliação independente, que meça o desempenho dos alunos e o quanto eles avançaram em cada componente curricular.


Para a minha grata surpresa, na entrevista concedida à Veja desta semana, o economista norte-americano que se tornou um especialista em avaliar a educação de forma científica e estatística, responde assim à duas perguntas da revista:

As salas de aula estão repletas de experiências pedagógicas. O senhor chegou a alguma conclusão sobre qual o melhor caminho para alcançar a qualidade acadêmica?

De todos os fatores numa escola, certamente o que mais explica a excelência na sala de aula diz respeito à capacidade dos professores de despertar a curiosidade intelectual dos alunos e lhes transmitir conhecimento. É algo básico, mas freqüentemente ignorado. Veja o que revelam os números. Tendo um ótimo professor durante cinco anos seguidos, uma criança egressa de um ambiente de pobreza e analfabetismo poderá alcançar o mesmo nível de conhecimento de outra vinda de uma casa em que os pais têm diploma de ensino superior e boa situação financeira. A questão é que os diretores das escolas raramente aplicam os critérios certos para rastrear os bons profissionais.

Por que eles erram tanto?

Valorizam tempo de experiência e cursos de especialização, quando esses são fatores sem nenhuma relação relevante com a qualidade das aulas. Os educadores resistem a aceitar essa idéia, mas as pesquisas não deixam dúvidas: os Ph.Ds. não apenas não são necessariamente os melhores professores, como muitas vezes figuram entre os piores. Já se conhecem, portanto, algumas das características que não definem um bom professor. O que não se sabe até hoje é o que, de fato, faz um profissional sobressair na sala de aula.



4 comentários:

Thiago disse...

Zé, a coisa não melhora muito nas ciências naturais. Desde que ficou decidido que o valor de um acadêmico é a quantidade de "papers" que ele publica, a coisa toda se tornou uma queda livre.

O motivo é evidente, podemos contar quantos trabalhos alguém publicou, mas é difícil medir a importância disso. Com efeito, alguns "pós-docs-mestres-jedis" passam a vida toda sem realizar um único trabalho relevante.

Tristes tempos os nossos. O mundo já foi feito de pessoas que revolucionaram tudo com uma única e brilhante idéia.

Hoje, na febre do publique ou pereça, a coisa é quase desanimadora. O que impede ela de ser completamente desanimadora é a minha insistência em ser um otimista.

Abraços, texto extremamente relevante.

Saramar disse...

A mitificação dos títulos, das publicações, dos eventos, par amim, é sinal do mais absoluto desprezo pela educação verdadeira.
Claro que, como você ressaltou, os professores devem estudar sempre, para sempre. Porém, acredito que o professor se constroi na sala de aula, ao lado dos alunos.
A sala de aula não é laboratório e os alunos não são cobaias para pseudo professores mestrandos ou doutorandos testarem suas hipóteses ou para ideológos firmarem suas teorias.
Quando isso será entendido?

beijos

Lelec disse...

Oi Zé,

Desculpe-me pela ausência no seu blog (o meu também anda parado). As coisas estão muito apertadas por aqui, por causa do... Doutorado!

A discussão levantada por esse texto é importantíssima. Concordo inteiramente que não é o mestrado ou o doutorado que faz bom um professor. Da mesma maneira, um diploma de graduação não necessariamente torna a pessoa capacitada (conhecimento inclusive)para exercer uma profissão. Infelizmente, no Brasil, dá-se mais valor a um papel na parede (o diploma) do que ao que ao conhecimento em si e à maneira como é transmitido.

O que mais me choca no Brasil é a dissociação entre a formação que a pessoa teve e a maneira como ela pensa. Às vezes, tenho a impressão de que para certas pessoas o que elas estudam não repercute em nada na sua vida, na sua maneira de pensar. É gente que fez um curso superior só para ter um curso superior. Daí a que eu tenha encontrado advogados que não gostam de ler ou que não sabem quando se deu o golpe militar que instalou a ditadura no Brasil... Conheço uma pessoa que se formou em filosofia e que não sabe pensar. É duro. Mas, ao mesmo tempo, há o contrário, como meu pai, um homem que só fez o segundo grau, mas que se tornou um micro-empresário muitíssimo bem sucedido.

Quanto aos professores "doutores" que não gostam de ensinar, nas ciências naturais isso é mesmo muito comum. Muitos deles obtiveram um cargo de professor não para poder ensinar, mas para poder pesquisar. Gostam da pesquisa, não do ensino. Eu trabalhei em um laboratório de imunologia. Estávamos lá com os ratinhos e, de repente, meu orientador falava... "Ih, que droga, tenho que parar para ir dar aula!"

Nas faculdades de medicina, a impressão que tenho é que 70% dos docentes estão lá só para colocar no cartãozinho que são professores da tal faculdade, o que lhes dá prestígio e pacientes no consultório particular.

Sobre o ponto levantado pelo Thiago aí em cima, eu acredito que é importante que se leve em consideração a quantidade de artigos (não falo "paper" nem a pau) que o camarada produz. Mas isso não pode ser a única medida. Se não, irá se aprofundar isso que já vemos hoje: pesquisadores que repartem seus resultados em vários artigos, ao invés de agrupá-los em um só, que seria muito mais forte e consistente, mas que não atenderia ao critério "número"...

Bem, já falei demais... Tenho que voltar a me ocupar... Do doutorado!

Abração,

Lelec

Comentário importante: imagino que tenha gostado da virada do Mengo sobre seu Sport, ontem à noite, he he.

Zé Costa disse...

O que mais me irrita numa derrota, é vê-la escapar por covardia. O time comportou-se como se ganhar de 1XO do Flamengo fosse a Glória. Tudo bem, perdemos e merecemos. O que importa, no entanto,é que enquanto todos brigam para chegar à Libertadores, o glorioso já está lá!

Obrigado pelo comentário.