18 setembro, 2008

A Crise de hoje e a de ontem 1

A crise imobiliária americana - não digo estadunidense porque isso é coisa de professor ressentido e picareta - vem provocando por essas plagas, por enquanto, uma reação que nada têm a ver com a economia. Os prestidigitadores, os embusteiros, os beócios e os falastrões, vêem na crise e na ajuda do governo americano ao sistema financeiro de lá, uma prova cabal de que não só o neoliberalismo é uma falácia, como o próprio sistema capitalista é uma desgraça e só provoca crises. Tivesse eu agora mais tempo, mostraria o engodo de tais assertivas, mas no momento, quero apenas atender a um pedido de alguns alunos e explicar um pouco sobre a crise americana e, sendo possível, fazer algumas alusões à famosíssima Crise de 29.

Ontem, por exemplo, no Programa do Jô, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comparou, um tanto hiperbólico, a crise atual com a Crise de 29; afirmando que o potencial da atual crise pode ter efeitos semelhantes aos que foram provocados pelo crash da Bolsa de Nova Iorque naquela quinta-feira negra.

Nesse primeiro momento, sugiro que vocês assistam a uma matéria veiculada na última terça-feira no Jornal Nacional da TV Globo e leiam o que foi publicado na revista Veja, desta semana.

Antevejo os beócios, os embusteiros, os prestidigitadores e os falastrões rasgando as próprias vestes porque recomendei como fontes o JN e a Revista Veja. À diferença dessa gente torpe, que se esconde por trás de um falso bom mocismo e que prega o bem de todos - desde que todos pensem como eles pensam - não cobro dos meus alunos atestado ideológico, muito menos exijo deles que concordem com as minhas opiniões. Previno-os – e isto faço com destemor – dos discursos bocós, quase sempre simplistas e não raras vezes mentirosos dessa gente que mesmo se tivesse uma câmera na mão, seria incapaz de ter uma idéia na cabeça. Enfim, tento prevenir e proteger os meus alunos de explicações que procuram transformá-los em seres que têm dois dois pés no chão e duas mãos também.

Na matéria do JN há a explicação, bem didática, da origem da crise imobiliária americana. Na reportagem de Veja a relação desta Crise com a Grande Depressão.

Apreciem e se possível, perguntem aqui ou em sala de aula.

Matéria do JN

Matéria publicada em Veja.

Ensaio sobre a cegueira

As comparações entre a crise atual e a de 1930
ignoram o novo papel dos países emergentes e o
desastre social de outros períodos de turbulência

Marcio Aith

O filósofo americano Thomas Kuhn definiu o "paradigma da cegueira" em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962. Trata-se de um processo pelo qual análises consolidadas impedem que se enxerguem, com nitidez, situações novas. Algo semelhante parece estar ocorrendo ao se interpretarem a gravidade e a extensão da atual crise financeira mundial. Ela é grave, ninguém duvida – só neste ano, onze bancos quebraram em razão dos abalos financeiros iniciados em agosto do ano passado, e as estimativas de perdas com o crédito podre na economia americana giram entre 500 bilhões e 3 trilhões de dólares. Esses números levaram o investidor George Soros a compará-la, sem as reservas feitas pelos especialistas abaixo, ouvidos por VEJA, à Grande Depressão de 1930. A comparação gratuita impressiona, mas embute uma cegueira que, com cinismo, pode-se dizer que beira a esperteza. Quem propala perigos demais está, no fundo, pedindo confete, ou ajuda, dos governos. Abaixo, relatos do que foram crises profundas:

• Na Grande Depressão, a taxa de desemprego nos Estados Unidos saltou para 25%. Metade dos bancos fechou as portas e 90 000 empresas desapareceram.

• No período posterior à II Guerra Mundial, a população européia, 10% maior, alimentava-se com apenas quatro quintos da comida disponível na década de 30.

• Os choques do petróleo de 1973 e 1979 provocaram uma retração de 13% no comércio internacional e fizeram o desemprego na Europa quase triplicar. Na Inglaterra, o governo determinou que a indústria funcionasse apenas três dias na semana.

• O Japão passou a década de 90 arrastando a vergonhosa taxa de crescimento do PIB de 1% ao ano, em média, por causa do estouro da bolha que havia se formado nos mercados imobiliário e financeiro.

O que chama atenção na crise atual é o fato de a economia real, que envolve a indústria, o consumo e as exportações, estar indo bem, como se houvesse isolado a ameaça do setor financeiro. Mais importante, as autoridades financeiras das principais economias do planeta souberam tirar lições das hecatombes econômicas ocorridas no passado. O Tesouro americano e o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), aliados a seus congêneres europeus, foram rápidos em injetar toda a liquidez necessária para que os mercados financeiros não sucumbissem. A mais recente ação nesse sentido foi a intervenção estatal nas duas gigantes hipotecárias americanas na semana passada. Esse trabalho coordenado impediu que houvesse um estiolamento completo nas linhas de crédito – como aconteceu no crash de 29, exacerbando a crise. Não se deve esquecer também que o mundo possui hoje pólos diversos de consumo e crescimento, principalmente na Ásia.

O capitalismo americano terá de se purgar de seus excessos, notadamente a bolha no preço dos imóveis – um desequilíbrio que vinha sendo apontado desde 2005 por dezenas de observadores, dos quais o mais enfático é o respeitado professor Robert Shiller, da Universidade Yale. As bolhas criam riqueza quando se inflam e destroem riqueza quando estouram. Desde a bolha de internet que se inflou nos anos 90 e estourou em 2000, o capitalismo turbinado pela hegemonia e pela globalização vem produzindo megacrises. Agora é a vez da bolha imobiliária. Ela será metabolizada, pois, como toda crise do capitalismo, essa traz em si o germe de sua própria solução.


Um comentário:

Anônimo disse...

Existe o neoliberalismo puro?

Flávia.