03 agosto, 2008

QUO VADIS?

A tradição da Igreja nos ensina que os primeiros cristãos quando eram presos por autoridades do império romano tinham como destino servirem de diversão na arena para o povo e o imperador, que ficavam eufóricos com o espetáculo macabro de leões comendo cristãos.

Embora muitos cristãos, como qualquer pessoa normal, ficassem apavorados diante de um leão faminto, não eram raros os casos em que os seguidores de Jesus de Nazaré entoavam cânticos de louvor, felizes por estarem morrendo em nome do Salvador. Ainda segundo a Tradição, os imperadores romanos ficavam entre surpresos e decepcionados com aquelas atitudes. Esperavam medo, revolta, gritos, choros de desespero, mas encontravam nos cristãos: alegria, fé, lágrimas de júbilo. A certeza da recompensa futura confortava aquelas pessoas prestes a serem devoradas pelas feras.

Ainda bem que o espetáculo das antigas arenas romanas chegou ao fim. Muitos dizem que aquele modelo de fé e de cristianismo também ficou para trás.

Comparo a surpresa e a decepção que muitos homens instruídos e sábios têm diante de uma família que, por causa de sua fé, decide não seguir o que pensa a ciência e os sábios, com a supresa e a decepção que marcavam os imperadores romanos diante da demonstração de fé dos primeiros cristãos. Não me refiro aqui, é lógico, a atitude fanática que enxerga numa vacina ou numa transfusão de sangue, algo pecaminoso. Mas à decisão de manter uma gravidez mesmo sabendo que o feto é anencefalo ou apresenta outras deficiências congênitas.

Não faz muito tempo, uma auxiliar de enfermagem aqui de Brasília descobriu que esperava seu primeiro filho. As primeiras ultrassonografias, contudo, constataram que a criança apresentava uma série de malformações, a mais grave era a ausência dos rins. A criança nasceria morta ou viveria poucos instantes após o parto. A mãe estava no terceiro mês de gestação.

Contrariando as expectativas, a corajosa auxiliar de enfermagem decidiu prosseguir com a gravidez. Deu nome à filha e desenvolveu toda uma relação afetiva com ela. Não estou romantizando. A mulher sofreu, chorou, desesperou-se até. Mas no fim, sua fé cristã lhe deu forças não só para manter a gravidez como para amar aquela filha que, enquanto estivesse em seu ventre, estaria viva.

Depois de 8 meses, houve a cesariana e a pequena menina, horas depois, faleceu. A mãe chorou, mas disse que a maior alegria dela foi ver por poucas horas o rosto da sua filha. Toda a equipe ficou comovida quando a mãe, ainda sob forte emoção, olhou para o corpo já sem vida de seu bebê, e disse: “eu nunca iria abortar você, meu amor”

Imagino que para as pessoas sem fé ou sem filhos e que, claro, pensam nos custos de se manter viva uma criança “inviável”, o exemplo real, citado acima, não faça sentido; seja até, piegas. Afinal, por que manter por meses uma gravidez inviável? Por que dedicar um amor a um ser que nunca poderá falar ou interagir? Por que lesar o contribuinte ou ocupar leitos de UTI com um bebê que não sobreviverá por muito tempo?

Essas perguntas assombrosas são comuns em pessoas que, como os primeiros césares que perseguiam os cristãos, nada entendem de fé, e, talvez por isso, fiquem entre indignados e perplexos com a atitude de mulheres como a auxiliar de enfermagem ou mesmo a mãe da menina Marcela de Jesus.

PS: Assitam ao filme Quo Vadis, vale a pena, garanto!

4 comentários:

Ricardo Rayol disse...

discordo meu amigo, essas cenas não acabaram, só mudaram os atores e a divulgação é planetária

Lelec disse...

Olá Zé,

Realmente, é comovente o exemplo dessa mãe de Brasília.

Apenas uma observação: a linda relação mãe-filho não é explicada pela fé da pessoa. A dramática história por você relatada poderia ter se passado com mães de diferentes credos (não necessariamente cristãos) e, até mesmo, com progenitoras sem fé alguma (atéias também são capazes de amor maternal).

Vale lembrar que, quando se defende a interrupção da gravidez de um bebê com graves anomalias, incompatíveis com a vida autônoma fora do útero, não se está falando de um procedimento compulsório. A mãe e o pai têm apenas a opção de interromper a gravidez. Na minha limitada maneira de ver esta questão tão complexa, é correto que os pais tenham essa opção.
Ainda na minha limitada maneira de ver essa complicada questão, os pais que optam por abortar um feto anencéfalo ou com graves anomalias não cometem nisso assassinato.

Eu, pessoalmente, não faria o que essa mãe fez. Mas não veja em mim "a supresa e a decepção que marcavam os imperadores romanos diante da demonstração de fé". Até porque, não vejo isso como demonstração de fé. Entendo-o como demonstração de amor maternal, um sentimento universal, presente em pessoas das mais diferentes fés.

Às vezes, passa-me uma pergunta em casos como esses. Por favor, é apenas uma pergunta. Será que essas mães que se agarram tão firmemente a um feto que não sobreviverá, não estão, na verdade, sendo egoístas, por impor a um bebê a agonia de uma curta existência ligada a tubos e máscaras? Não seriam apenas incapazes de livrar a criança do sofrimento que será sua sobrevivência no mundo exterior (com tubos, UTIs, agulhas em todo o corpo)? Será que não estão, na verdade, sendo incapazes de aceitar a própria idéia de morte? Será que não estariam naquela fase primitiva de imortalidade do ego (segundo Freud)?

Não sei mas, ao ver, no hospital, questões semelhantes (como, por exemplo, a família que é incapaz de autorizar aos médicos o deligamento dos aparelhos de um ancião que não faz outra coisa que não agoniar em um leito de UTI), percebo que as pessoas projetam no ente querido todo seu temor e pânico da morte.

Bem, mas isso é assunto para muitos e muitos debates.

Ah! Assino embaixo sua recomendação de "Quo Vadis". Quando o vi, emocionei-me com a cena em que o oficial romano desce à arena, após o massacre dos cristãos, e não entende por quê muitos deles tinham sorrisos no rosto já morto.

Abração,

Lelec

Zé Costa disse...

Sim lelec, os cristãos ou os religiosos como um todo, não são os únicos a demonstrar amor, seja maternal ou paternal, mas creio que devemos à moral das religiões, esse sentimento.

Você tocou num ponto que concordo, mas apenas para os casos de anencefalia ou malformação congênita.Acho que os pais devem ter garantido por lei o direito de não prosseguir com a gravidez, nesses casos. Mas sou, por convicção religiosa, admito com orgulho, contra a legalização do aborto apenas para a mulher ou o casal se livrar do problema. Engravidou? Não queria, assuma!

Meu post foi uma crítica a quem recrimina famílias que agem dessa forma porque oneram os cofres públicos. Porque a seu favor têm com argumento apenas sua convicção religiosa, como se fé, fosse coisa de obscurantista.

Compreendo, mesmo, que você não enxergue no exemplo uma questão de fé, mas de amor fraternal. Não sei se você é uma pessoa religiosa, acho que não, e por isso compreendo seu contraponto.

Sua pergunta é pertinente e sinceramente, não acho que ela tenha uma única resposta. Sei, contudo, que onde você suspeita de egoísmo, enxergo um dilema ético onde o amor pelo ente querido e a dor de saber que nada poderá fazer para salvá-lo se confundem. Tenho plena convicção, que na balança da dor, do sofrimento, o peso maior não está no prato de quem está entubado, mas no prato dos familiares que nada podem fazer.

Lelec disse...

Olá Zé,

Muito obrigado por responder ao meu comentário.

Eu também concordo que o sofrimento maior está nos pais e não na criança entubada. Aí é que está o meu ponto. Fosse simples e puramente amor, os pais não imporiam o sofrimento inútil ao filho, que não tem chances de sobreviver sem toda a aparelhagem. Pai algum aceita a idéia de fazer o filho sofrer inutilmente e, no fim, vê-lo morrer em meio à dor. Não gostam de vê-lo sofrer sem propósito. Assim, fico a pensar que, talvez, o que os move a prolongar a existência da criança tenha susbtrato psicodinâmico: um masoquismo inconsciente (provar aos outros e a si mesmo que é "grande", "amoroso", ou "castigar-se por uma culpa imensa"), ou a já referida incapacidade de pensar a morte.

É claro, JAMAIS falaria isso a um paciente. Apenas me questiono e compartilho minha dúvida com você, na ânsia de que talvez você possa me ajudar a esclarecer a questão.

Quanto ao aborto convencional, sou contra, mas confesso estar repensando a questão.

Não vejo na relação da mãe que você mencionou um caso de "amor fraternal", e, sim, maternal.

O sentimento materno NÃO é oriundo da religião. Na verdade, ele pode ser observado, em graus crescentes na linha evolutiva, em todos os mamíferos. Isso está provado cientificamente. Os chimpanzés e outros primatas têm envolvimentos intensos com suas crias. É claro, nos seres humanos a relação atingiu uma complexidade extraordinária, não observada em outras espécies. Mas a proto-relação já está presente em outros mamíferos. Isso é incontestável. Há muitos trabalhos científicos sobre o assunto, caso queira, posso lhe indicar.

É CLARO que foi a religião judaico-cristã que deu o substrato moral à civilização ocidental. Isso é inegável. Mas isso não significa que sejam bons valores. A Bíblia está cheia de passagens assustadoras do ponto de vista ético.

Quanto à minha fé, atualmente sou não religioso, apesar de ter sido criado em um meio profundamente religioso. Fui um cristão protestante fervoroso até os 26 anos. Era daqueles que lêem a Bíblia diariamente (li-a todinha), pregam, vão à Igreja três a quatro vezes por semana, lidera trabalhos com jovens, etc. Talvez volte a essa prática. Talvez não. Há muitas "minhocas" que ainda preciso tirar da minha cabeça.

Abraço,

Lelec