21 julho, 2008

"A pureza, a honestidade e o amor"

Vejam como eles são puros, honestos e amorosos.

Os Fulni-ô querem "dindin"

Certa vez, um grupo de professores que iria para um congresso em Campos do Jordão, estava reunido para discutir um livro, cujo autor, seria a estrela do tal encontro. Lá pelas tantas, um professor, com enfado, declarou: "O autor é muito profundo, muito filosófico." O autor, meus poucos leitores, era apenas um patife. Sua redação tão canhestra como a de Paulo Freire. Por que, então, o meu colega o havia considerado um "autor profundo"? Porque, penso, quando nos deparamos com um texto ininteligível, ruim, sem pé nem cabeça, com tolices escritas de forma pomposa, procuramos a formação teórica do autor e constatamos que o valente tem mestrado, doutorado, nem sei quantos diplomas e especializações; então, nossa humildade rapidamente concorda em chamá-lo de profundo, porque não conseguimos entender nada do que ele escreve. Recusamo-nos a admitir que uma pena tão cheia de títulos seja capaz de escrever bobagens.

Veja o exemplo do juiz da 6a Vara Federal de São Paulo, Fausto De Sanctis. No dia 16 de Julho, o juiz escreveu no Estadão um artigo tão estúpido, tão cheio de idéias vazias, que a princípio me recusei a acreditar que havia sido escrito por um juiz federal. Num trecho particularmente oligofrênico, o juiz afirma:

"Lamentavelmente, não se tem notícia de sociedade que tivesse chegado a tamanho grau de evolução, salvo raras intactas tribos indígenas que, de primitivo, pode-se tão-somente invocar alguns instrumentos e objetos inerentes, mas que em verdade representam grandeza do ser: pureza, honestidade e amor. Quanta sofisticação!"

O magistrado acredita piamente que os índios são seres bons e angelicais por natureza. Leiam como o Reinaldo Azevedo comentou o trecho acima:

"Meu Deus! Estamos perdidos!
- Quando penso na pureza e no amor dos ianomâmis que matam recém-nascidos enfiando-lhes mato nas narinas, meu ser amoroso treme da cabeça aos pés.
- Quando penso nas tribos que enterram vivas as crianças deficientes, penso: “Quanta honestidade! Quanta pureza! Quanto amor! Quanta sofisticação!" Eu, o idiota antropológico.
- E se penso, então, na harmonia edênica dos povos pré-colombianos, violentados pelos europeus?! Aquilo, sim, é que era vida!
Uma pergunta ao juiz De Sanctis: ele não acha “primitivo” nem mesmo o direito das tribos “intactas”?

Já falei algumas vezes do pensamento bocó que alardeia a bondade natural dos aborígines. Que romantiza a figura do indígena, resumida nas três palavrinhas mágicas escrita pelo magistrado Fausto de Sanctis: "pureza, honestidade e amor."

Aqui em Brasília, índios de três etnias que ocupam uma área pública que será destinada à criação de um novo bairro, o noroeste, mostraram toda a sua pureza, honestidade e amor. Algumas famílias arrancaram das autoridades públicas o direito de permanecerem numa área do Parque Burle Marx com casas novas, escolas, posto de saúde, infra-estrura de primeira. Todavia, os puros, os honestos e amorosos índios Fulni-ô, recusaram a proposta e pedem a módica quantia de 74 milhões de reais para deixarem a área que invadiram há mais de 30 anos. Como vêem, a pureza, a honestidade e o amor dessas famílias indígenas é de fazer chorar. Talvez o índios Fulni-ô queiram a grana para proteger a mata, os rios, a sua cultura, não é?




Um comentário:

Lelec disse...

É, Zé,

Creio que os índios só devem ser tratados como diferentes quando pertencem a tribos que efetivamente não têm contato com a civilização (uma ínfima minoria).

Esses aí, que negociam, trambicam e tudo mais, têm que ser tratados como nós. Se querem ser do mundo dos "brancos", que assumam nossas leis, nossa ética e as responsabilidades de exercer a cidadania.

Abraço,

Lelec