08 julho, 2008

O presidente Negro 2

(ler primeiro o post abaixo)


A atenção que esta obra de Monteiro Lobato vem ganhado deve-se, sobretudo, a que alguns apressados estão chamando de profecia. Na obra, há um aparelho, o porviroscópio, que permite ver o futuro. O autor do engenho é um velho professor, chamado de Benson que desenvolve seus estudos num castelo na cidade de Friburgo. Tem a ajuda de sua linda filha, Miss Jane e aí, como por acaso, entra na história o narrador-personagem, o limitado, mas esforçado, Ayrton, funcionário medíocre de uma empresa.

O porviroscópio permitiu à jovem Miss Jane saber como seria os Estados Unidos em 2228. Segundo a moça, nesse ano, três candidatos concorriam à presidência dos Estados Unidos: uma feminista, Evelyn Astor; o candidato à reeleição, o presidente Keerlog e o famoso Jim Roy, o candidato negro. Pronto. Isso bastou para que algumas pessoas enxergassem em Monteiro Lobato um profeta. Lendo o livro, percebe-se que o futuro imaginado por Lobato é aterrador!

No dia 26 de março de 2008, Roberto Pompeu de Toledo escreveu em Veja um artigo muito bom sobre o livro e que recomendo com entusiasmo. Nesse artigo você tem um bom resumo da obra. Minha intenção inicial era transcrever trechos do livro. Talvez faça isso, mas não prometo. De qualquer forma, acima, há um link para a Livraria Cultura onde você pode adquiri-lo.

A futurologia

O livro imagina um jornal onde as pessoas liam num aparelho, em casa, as informações em letras luminosas e coloridas. Imagina que nos EUA, em 2228, ninguém precisaria sair de casa para votar, e o resultado seria publicado em poucas horas. O livro também indica que o número de divórcios diminuiria bastante com a adoção das chamadas “férias conjugais.”

Há, todavia, aspectos horripilantes no livro. A Eugenia havia alcançado um estágio tão avançado que a “Lei Espartana” havia sido reeditada na América e, em muitos casos, levada às últimas conseqüências. Só um exemplo: nesse futuro, os casais só poderiam ter filhos depois de um rigoroso teste de pureza racial e de superioridade genética. Se um dos cônjuges não passassem no teste, o casal estaria impedido de gerar filhos.

15 anos antes de Hitler propor a Solução Final para os judeus, Monteiro Lobato imaginou como os americanos extirpariam o elemento negro do país. De forma ardilosa, o famoso inventor Dudley cria os raios ômega que têm a função de alisar o cabelo dos negros, capaz de transformar o mais ferrenho pixaim num cabelo liso e sedoso. O sucesso dos raios ômega entre os negros, foi imediato. Até o Jim Roy, o presidente negro, aderiu ao alisamento à base dos raios ômega. O ardil diabólico é que o efeito colateral desses raios era tornar os machos estéreis. Assim, numa questão de tempo, sem violência, os negros sumiriam dos Estados Unidos. Hitler foi menos engenhoso, convenhamos.

Ah, sim! Paralela a essa estória, há a paixão que o pobre-diabo do Ayton nutre pela distante, estóica, inteligente, e ainda por cima bela, Miss Jane. Na última página do livro, ele vence a timidez e dá um beijo de cinema na bela loira. E é correspondido, diga-se!

O livro não se resume a isso. Tem a crítica, acertada ao meu ver, ao feminismo. Tem uma certa crítica ao movimento modernista. E, claro, exalta-se os Estados Unidos como exemplo de Grande Nação. Lobato tinha interesses pessoais com esse livro. Queria desbravar o mercado editorial dos Estados Unidos, fracassou de forma redundante.

2 comentários:

Lelec disse...

Puxa, Zé, muito obrigado mesmo por comentar o livro e por me apresentar um outro lado ficcionista de Monteiro Lobato.

Dele, só tinha lido as Reinações de Narizinho, as Aventuras de Pedrinho e alguns contos maduros. Realmente, não conhecia sua produção "futurológica", digamos assim. Em platéias ávidas por um profeta, logo, logo, ele será incensado como um novo Nostradamus.

Quanto às considerações racistas do livro, fiquei realmente surpreso. Não gosto de relativizar essas ideologias. Depois que a gente considera o contexto histórico, a pseudo-ciência da época, etc e tal, a ofensa racial continua lá, escrita para quem quiser ler. Nenhum malabarismo interpretativo esconderá, então, um certo desprezo de Lobato pelo negro...

Aliás, Louis Ferdinand Céline, um genial escritor, tinha idéias anti-semitas, como evidenciado em seus escritos finais. Felizmente, sua obra-prima, "Voyage au but de la nuit", está livre de racismo e, assim, podemos desfrutá-lo em paz de espírito.

Abraço e, mais uma vez, obrigado. Outra vez mais, aprendi algo aqui. A visita ao seu blog sempre vale a pena.

Lelec

rosa disse...

Quando vou ler um livro, dificilmente falo com alguém ou procuro referencias da critica ou coisa do gênero. Há livros que levei anos para ler somente por medo, era um estardalhaço, o cara era um gênio, as personagens são magníficos, teses sobre o psicológico, sempre pensava comigo não tenho como ler um livro assim. Por isto qdo li o primeiro e literalmente não era nada daquilo, perdi o medo.
Abraços.