08 julho, 2008

O Presidente Negro 1

Sabe quando se começa a leitura de um livro de maneira despretensiosa e o autor, seja pelo estilo, seja pelas idéias, seja pelos dois, cativa a atenção de uma forma que não há como não concluir o livro o mais depressa possível? Pois é.

O que eu sabia de Monteiro Lobato é o que sabe qualquer pessoa porcamente instruída. Era autor de livros infanto-juvenis, sendo o mais famoso o Sítio do PicaPau Amarelo. Até sabia, por causa do curso de história em que me graduei, que Lobato era um "reacionariozinho", um "vendido", um "nacionalista" exacerbado, um "racista", e outros "ismos" e "istas" que meus professores esquerdopatas viviam incutindo na cabeça dos alunos que se julgavam intelectualizado porque haviam lido um capítulo de Eric Hobsbawn.

Há duas semanas, quase sem querer, encontrei na casa de meu sogro um livro verde, capa dura, um tanto gasta e que havia sido editado em 1953. Por essa época, veja só, a ortografia e a acentuação gráfica eram bem diferentes. Escrevia-se “peor”, “outróra”, “veiu”, e por aí vai... O dito livro, na verdade, reunia duas obras: A Onda Verde e o Presidente Negro ou O Choque das Raças. Como eu já havia lido algo sobre o segundo livro em Veja e no blog do Reinaldo Azevedo, e como nada de melhor eu tinha para fazer, decidi ler o meu primeiro livro de Monteiro Lobato: O Presidente Negro.

O que me cativou nos 8 primeiros capítulos do livro foi o estilo da narrativa. Em seguida, um certo mistério foi espicaçando minha curiosidade e, para terminar, o quê de ficção de científica me prendeu de forma definitiva.

A partir do capítulo IX, contudo, o livro começou a me incomodar. Não, leitor apressado. O livro não ficou chato. Pelo contrário, o livro ficou cada vez mais instigante. O que me incomodou foi ler, a partir do capítulo IX, parágrafos, diálogos que hoje seriam – COM TODA JUSTIÇA DO MUNDO – chamados de racistas! Sem fazer o corte temporal, ignorando as idéias em voga na época em que o livro foi escrito – 1926 – o leitor desatento ou ignorante acredita que tem nas mãos um livro neofascista!

Chamar Monteiro Lobato de fascista seria ignorar que este autor foi um ferrenho adversário dessas ideologias totalitárias. Foi, inclusive, um feroz crítico do Estado Novo na Era Vargas. Todavia, em 1926, a pseudo-ciência da época - a eugenia – conquistava mentes de intelectuais, cientistas, gente de saber. E foi na crença de que a eugenia seria a salvação da humanidade, de que a “raça branca” era geneticamente superior às demais raças, sobretudo aos mestiços, que Monteiro Lobato constrói sua narrativa e expõe seus argumentos e sua utopia.

Vale a pena ler esse livro hoje? Não sei. Eu gostei. Aprendi um monte de coisas. Se você que porventura estiver lendo esse post se interessar, leia. Se não, sua vida não ficará diferente por isso.

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