14 julho, 2008

O post 501 ou Sobre Thomas Malthus


Um dos efeitos mais visíveis da Revolução Industrial foi o crescimento demográfico. A partir de 1760, a população européia cresce num ritmo acelerado e traz à tona todos os problemas decorrentes desse crescimento. Nesse contexto, a obra Ensaio sobre a População, de 1798, tranformou o pastor anglicano, Thomas Malthus, num teórico de sucesso. A Teoria malthusiana sobre o crescimento demográfico pode ser resumida da seguinte maneira: A população mundial cresce em progressão geométrica enquanto a produção de alimentos em progressão aritmética.” A conclusão de Malthus era óbvia: se o ritmo do crescimento demográfico continuasse o mesmo, em breve, haveria fome na terra.

Malthus era um ferrenho crítico das políticas públicas do parlamento inglês que tinham como finalidade ajudar os mais pobres, contribuindo, segundo ele, para a degradação da sociedade, sem resolver o problema da miséria, uma vez que para Malthus esse problema não tinha solução. Num primeiro olhar, é claro, consideramos que a oposição de Malthus à ajuda do governo aos mais pobres comprova que os liberais, de forma geral, eram insensíveis aos sofrimentos dos mais pobres. Todavia, conhecendo de perto a questão, é possível, no mínimo, considerar que as críticas de Malthus tinham sua importância.

O que mais incomodava Thomas Malthus em relação aos pobres era o grande número de filhos que estes tinham. O governo, ao invés de inibir esse crescimento, seguia no caminho oposto ao aprovar a famosa Poor’s Law de 1834, que estimulava os mais pobres a continuarem tendo filhos mesmo sem condições econômicas para sustentá-los. Malthus entendia que os recursos destinados pelo governo aos mais pobres, além de manterem os pobres na pobreza, desencorajava-os a sair dela, pois assim perderiam o benefício concedido pelo Estado. O pensador inglês também afirmava que a transferência desses recursos dos mais ricos para os mais pobres, impedia o crescimento da economia e conseqüentemente, a redução da pobreza.

Malthus não foi o único que criticou a ajuda do governo britânico aos mais pobres e particularmente a Lei dos Pobres. Em 1835, Aléxis de Tocqueville, pensador francês, em viagem pela Inglaterra e pela Irlanda, relata alguns inconvenientes provocados por essa lei. Vejam esse caso:

“Lorde Radnor me disse: “ Acabais de ver, num quadro estreito, uma parte dos inumeráveis abusos que a lei dos pobres produz.

Aquele velho que se apresentou em primeiro lugar provavelmente tem do que viver. Mas acredita que tem direito a exigir que seja sustentado com conforto, e não cora de reclamar a caridade pública, que aos olhos do povo perdeu seu caráter degradante.

Aquela jovem mulher, que parece honesta e infeliz, seria certamente ajudada por seu sogro se não existisse a lei dos pobres. Mas o interesse retira desse último toda a vergonha, e ele descarrega sobre a esfera pública um ônus que ele deveria carregar

Finalmente, aqueles jovens que se apresentaram por último, eu os conheço. São da minha vizinhança. São indivíduos detestáveis. Dissipam nos cabarés o dinheiro que ganham, porque sabem que, em seguida, o Estado virá em seu socorro.”
Aléxis de Tocqueville. Viagens à Inglaterra e à Irlanda; pág 54.


As estatísticas de Malthus provaram-se equivocadas. O desenvolvimento tecnológico na agricultura e a redução no crescimento demográfico mostraram que os temores de Malthus, embora verossímeis, não se confirmariam. Todavia, o ponto central desse post é mostrar que a crítica que Malthus fez à política do governo inglês em relação aos pobres, é, no meu entender, pertinente ao Programa Bolsa-Família. Como no passado aconteceu à lei dos pobres, o programa assistencial do governo Lula não resolve o problema da pobreza; tira recursos que poderiam ser investidos no desenvolvimento econômico; vicia o cidadão a sempre depender do governo, e o que é pior: reproduz o círculo da pobreza.

Finalizo com as últimas palavras de Ali Kamel, sobre o assunto:

“Essa política condenará as crianças de hoje a continuar, como os seus pais, a depender do Bolsa-Família para ter um microondas, enquanto um investimento maciço em educação faria delas seres independentes, produtivos, indispensáveis para chegarmos ao bom futuro.”



5 comentários:

Thiago disse...

Os temores de Malthus não se confirmaram com o alimento, no entanto, aparentemente irão se confirmar com os recursos naturais rs.

O fato é que planeta algum esta apto a receber uma população de seres vivos que cresce indefinidamente. O colapso acaba chegando, mais cedo ou mais tarde.

A crítica de Malthus é absurdamente pertinente e concordo com o tema do post. O impressionante é que após tantos séculos, os erros são sempre os mesmos. Será que "a gente" nunca aprender?

Malthus ainda tem o crédito de ser o responsável pelo "insight" final de Darwin, que culminaria com o desenvolvimento da seleção natural.

O cara errou suas previsões, mirou no alvo errado, mas deu um baita empurrão na biologia...

Lelec disse...

Olá Zé,

De Malthus, só conhecia a famosa previsão de que faltariam alimentos no mundo. Não conhecia sua crítica aos sistemas de "ajuda" social. Realmente, sua atualidade é flagrante no Brasil do Bolsa Família.

Abraço,

Lelec

Zé Costa disse...

Leitores como Thiago e Lelec, mas também outros, que de vez em quando passam por aqui, dão-me a certeza de como estou aquém da capacidade deles.

Thiago e Lelec, cada um em suas respectivas áreas, são cientistas com uma grande formação humanista - coisa rara, hoje em dia- quando comentam aqui, abrilhantam, com suas luzes naturais, os apagados argumentos do meu post.

Com efeito, Darwin reconheceu a importância do trabalho de Malthus na sua teoria da seleção natural. E sua produção intelectual também englobou princípios da economia política, onde faz uma crítica inteligente, embora sujeita à objeções, a Adam Smith.

Sugiro a leitura da obra mais famosa de Malthus: Ensaio Sobre a Ppopulação. A obra é bem escrita e objetiva. Vale a pena, garanto.

Se eu tivesse tido uma formação liberal na escola, quantos erros eu teria evitado? Quantos progressos, no campo intelectual, eu teria feito?

Lelec disse...

Puxa, Zé, muito obrigado pelas generosas palavras a meu respeito. Não sou cientista, não... Estou engatinhando na área, mas acho que não é minha vocação... Na verdade, eu gosto mesmo é de escrever e de ler gente como você, sensato e justo na argumentação, sempre cheio de boas referências.

Forte abraço,

Lelec

Anônimo disse...

Não sei se vomito pelo que foi dito ao final do post (a matéria sobre o a teoria de Malthus está perfeita)ou pela quantidade e péssima qualidade dos comentários.
Difícil tarefa...
Acho que estão necessitando exercitar seu lado humano e não se esquecerem de que o mercado é inflexível com TODOS, inclusive vocês.
Ah! Muito me admira um professor de História ter um pensamento tão mercadológico assim.

Escola liberal é a melhor? Mas nós só temos escolas liberais, meu caro. Veja o exemplo do autor do post. Por isso mesmo a burrice impera no mundo.
Fui!