18 maio, 2008

Professores ignorantes.

Eu nasci e cresci em Recife. Lá estudei, praticamente, só em escola pública. Formei-me pela UFPE em licenciatura em História. Dei aulas em colégios do Recife de 2000 a 2003. Em 2004 mudei-me para Brasília e continuo na profissão. Por isso, recebo - não com espanto, mas com desconforto - a notícia de que em concurso recente para o preenchimento de vagas para professor em Pernambuco, quase 95% dos candidatos não foram aprovados. Isto é, não acertaram sequer 60% da prova. O maior pecado dos candidatos foi o conhecimento em língua portuguesa. Se o conhecimento em língua portuguesa fosse o critério para se avaliar e selecionar professores (outros profissionais também!) muitos não conseguiriam emprego. Duvido que um profissional que ignore as letras seja um bom profissional.

Não é de hoje que a formação dos professores é deficiente. Não é exclusividade de Pernambuco essa realidade tão vexatória. Nosso futuro está mais ameaçado por professores mal preparados do que pelo aquecimento global.

Gilberto Dimenstein, jornalista e escritor, afirma em artigo recente na Folha On line: "Vemos, nessa catástrofe, uma das principais razões por que a educação brasileira vai tão mal - é o despreparo do professor. O ensino público, por sua baixa atratividade (salários ruins, salas lotadas, infra-estrutura ruim, carga horário pesada) não tem como atrair as pessoas mais talentosas e esforçadas. Cria-se, assim, um círculo vicioso, propagando-se na qualidade dos cursos de formação de professor.

"Esse concurso pernambucano mostrou que se houvesse para professor um teste semelhante ao feito pela OAB com os alunos de direito iriam ter de fechar escola por falta de quem dar aula."

Sou capaz de apostar que se tivesse uma prova semelhante para jornalista, engenheiro, médico, administrador, muitos não poderiam exercer a profissão.

A educação no Brasil é ruim porque ela é um engodo do começo ao fim. Vivemos a era do fingimento. Finge-se que ensina. Finge-se que aprende. Nossa escola básica, seja a pública ou a privada, já não formam como deveriam. Os pais, em sua maioria, querem boas notas e sequer se preocupam se aquele 10 significa mesmo aprendizado. O aluno que chega ao 3° ano do ensino médio e não sabe escrever, ler e interpretar um texto, será o mesmo que chegará a um curso superior e dificilmente terá essas deficiências corrigidas. Pior: essas deficiências não o impedirão de concluir o curso.

Tenho muito apreço, por exemplo, pela gramática. Morro de vergonha quando erro. A maldita vírgula é o meu maior crime. Sou um frasecida! Estudando o emprego correto da vírgula descobri que minha análise sintática é deficiente. Infelizmente, tenho que dizer de forma clara, poucos colegas se interessam por isso. Acham que escrever corretamente ou é coisa de elite ou de pedante. Não se incomodam em falar ou escrever errado. Ora, se um professor - que é modelo - não se importa com a forma de escrever ou falar, se acha que essas habilidades são dispensáveis, por que seus alunos darão importância a elas?

Os professores reprovados no concurso em Pernambuco foram co-responsáveis pelo resultado pífio. Poderiam ter, pelo esforço e pelo interesse, corrigido uma série de falhas que a escola básica e a universidade não corrigiram. Contudo, optaram por surfar na onda do sistema, fingindo aprender. Mas também foram vítimas de uma educação que não se importa ou não se preocupa com a qualidade do profissional que lança no mercado.

Alguns docentes, ainda mais nocivos, formam-se nas faculdades sabendo tudo sobre Paulo Freire, sobre a pedagogia do oprimido, da autonomia, enfim, sonhando em tornarem-se educadores que libertam; quando, na verdade, são apenas professores que reproduzem a ignorância. Acham que a sua missão é formar "alunos críticos" - entendam como "alunos críticos" aqueles que deploram o capitalismo e sonham com o socialismo ideal - e não se ocupam de ensinar geografia política ou análise sintática, mas em incentivar os alunos a militar em movimentos sociais organizados. Formam, não alunos para o mercado de trabalho, mas militantes de utopias que a história provou serem cerceadoras das liberdades individuais e assassinas!

A ignorância daqueles que deveriam ensinar, mas que por preguiça, comodismo e falta de iniciativa não o fazem; explica a ignorância daqueles que também por preguiça, comodismo e falta de iniciativa, deveriam aprender, mas não aprendem.

* Pessoal, Eliane Fontenelle, leitora, chamou minha atenção para um lapso ortográfico imperdoável: escrevi corrigidas com j, um horror! Obrigado Eliane. Já corrigi.

2 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Isso é absurdamente preocupante mas uma medida simples e singela poderá amenizar a idiotia, que o pai ou mãe leia junto e obrigue ao filho a dizer o que entendeu.

Lelec disse...

Olá Zé Costa,

Compartilho com você a impressão de que se submetessem advogados, médicos e outros profissionais de todo Brasil a exames de português, teríamos um retrato tão terrível quanto o dos professores pernambucanos.

Sou médico. Você não sabe a depressão existencial que é me confrontar com o português da categoria. É um tal de dizer "o Beltrano pediu pra mim interná ele"...

Outro exemplo que me chocou, em um prontuário. O nobre colega colocou:

"Paciente à 15 dias com perca de força nas pernas."

E depois bate o carimbão lá embaixo: "Doutor fulano".

E, quando os corrijo, dizem que não é importante escrever ou falar com correção. Falam que a farmacologia importa mais ao médico do que a gramática.

É dose.

AbraSSão (credo, a praga pega!)

Lelec