25 maio, 2008

Autores e leitores.

Em julho de 2008 este blog fará 2 anos de existência. Nesse curto espaço de tempo não atingiu nenhuma de suas mais ambiciosas e secretas metas... Naquela época, pensei que minhas opiniões seriam lidas, minha forma de escrever aperfeiçoada, enfim, que minha página seria um sucesso.

O que consegui nesse quase 2 anos? Nada. Ou melhor: consegui, sim. Envolvi-me em polêmicas estúpidas, descobri que muita gente que eu respeitava não passava de criaturas torpes e desgraçadamente preconceituosas; que aqui, nesse ambiente virtual, somos - ainda que neguemos - personagens de nós mesmos.

A última coluna do Diogo Mainardi me abriu os olhos sobre o que eu sou: sou um mau leitor com idéias ruins e que lê maus autores com idéias ainda mais chinfrins. Se ao menos eu levantasse uma grana escrevendo...

O contador do blog marca menos de 2800 acessos em quase dois anos de existência. 60% desses acessos, aposto, foram meus. Só não consegui - por uma coisa tacanha chamada escrúpulos - inventar comentadores. Pesquisem. Nenhum dos meus quase 490 posts tiveram mais que 17 comentários. O post mais comentado até hoje foi um texto sobre um assassinato brutal ocorrido aqui em Brasília. O segundo mais comentado foi sobre uma polêmica com o Blogildo e que, por ironia, decidi não publicar a maioria dos comentários feitos no post. E por quê? Porque decidi que não publicaria, ora! Além do mais, nesse tal post, 7 pessoas, no máximo, alternavam-se comentando, replicando, treplicando. Uma chatice!

Diogo, sem saber, advertiu-me e me admoestou. "Zé Paulo, mané! Tu escreves para quem? Para quê?" Em outros tempos, eu responderia: "Escrevo para melhorar meus textos. Escrevo para me sentir melhor. Escrevo imaginando que talvez, quem sabe, alguém leia os posts e os achem importantes."

Não melhorei meu texto, nem me sinto melhor agora, depois desse post, do que me sentia antes dele. Aqueles que me lêem, quando dizem que gostam ou é porque são gentis ou é porque são maus leitores lendo um mau autor.

Abaixo, leiam a coluna do Diogo Mainardi em Veja desta semana.

Diogo Mainardi

Não sofro de diegomainardice

"Só opino porque é meu trabalho. Se desse, eu
desligaria o computador e passaria o resto do dia
estatelado na cama, na frente da TV, assistindo a um
programa de culinária, um seriado americano, um
torneio de golfe ou uma comédia antiga com Alberto Sordi"

O que eu sabia sobre Sabrina Sato: ela participa de um programa de TV. Agora sei também que ela tem uma pinta na testa. Mais ainda: sei que ela desistiu de tirar a pinta. Esse foi o fato que atraiu o maior número de leitores da Folha Online, alguns dias atrás. A nota era acompanhada por uma fotografia de Sabrina Sato sorridente, com sua pinta na testa. Pinta é um negócio nojento. Tire a pinta, Sabrina Sato.

A TV está sendo progressivamente esvaziada pela internet. Pela primeira vez, no Brasil e no resto do mundo, a TV perde público. Os espectadores desligam seus aparelhos e migram em massa para o computador, passando mais tempo na internet. E qual é o principal assunto na internet? A TV. No caso, a pinta na testa de Sabrina Sato. Ou, pouco antes, igualmente entre as notícias mais lidas da Folha Online, o choro de Deborah Secco num programa de auditório.

Além de ler sobre a TV, a platéia da internet faz comentários atarantados sobre a TV. Assim como faz comentários atarantados sobre todos os outros temas. A internet é como o teatro de José Celso, em que a platéia é chamada para o centro do palco e se torna protagonista do espetáculo. Amadoristicamente, cada um desempenha seu próprio papel, improvisando um comentariozinho desimportante aqui, outro ali. O mundo se transformou num gigantesco Teatro Oficina, onde se encena um espetáculo infinito de José Celso, do qual ninguém pode fugir. Trata-se de um pesadelo bem mais medonho do que qualquer distopia totalitária imaginada por George Orwell ou Aldous Huxley. Quero minha dose de "Soma"!

Umberto Eco criou a fantasia demagógica do "lector in fabula", em que o leitor é estimulado a participar do romance com suas idéias, transformando-se, ele mesmo, em autor. A internet é isso: um monte de maus leitores dotados de más idéias que cismam em interagir com maus autores. É o território dos opinionistas que opinam sobre a opinionice de outros opinionistas. É a água parada onde prolifera a diegomainardice hemorrágica.

Pode parecer um contra-senso, mas eu nunca sofri de diegomainardice. Só opino porque é meu trabalho. Se desse, eu desligaria imediatamente o computador e passaria o resto do dia estatelado na cama, na frente da TV, assistindo a um programa de culinária, um seriado americano, um torneio de golfe ou uma comédia antiga com Alberto Sordi. O que eu tenho a opinar sobre o programa de culinária ou o seriado americano? Alegremente, nada. A TV é minha droga da felicidade, meu sedativo, meu "Soma". Desde que eu fique distante de Sabrina Sato e de sua pinta na testa. Ela faz aflorar um monte de idéias em minha mente, todas elas rabiosas e incongruentes, transportando-me para o palco do Teatro Oficina, onde José Celso e sua platéia encenam eternamente a Guerra de Canudos. E agora? Como a gente sai daqui?



5 comentários:

Lelec disse...

Ora, ora, caro Zé Costa,

Vida longa ao seu blog! Parabéns!

Também adorei a coluna do Mainardi, a qual já tinha lido.

Olha, você pode não ser um novo Proust ou um novo Graciliano Ramos. Eu também não sou. O problema de todos nós que gostamos de escrever, e que o fazemos por diletantismo, é que temos referenciais muito elevados. Todos queremos ser um novo Rosa, um novo Machado, etc.

O fato de não termos um estilo acachapante como, sei lá,um Saramago, não invalida os textos que escrevemos, nem esconde suas qualidades.

Você por exemplo, tem duas virtudes raríssimas na blogosfera: tem idéias dignas, corretas e, além do mais, escreve em bom português. Seu blog, asseguro-lhe, está muitíssimo acima da indigência mental que se vê por aí e a que se refere Mainardi.

Você pode não ter zilhões de leitores. Mas, desde que conheci seu blog, há pouco menos de um mês, não deixo de lê-lo; estou sempre passando por aqui.

Parabéns e um abraço de um mau leitor (e mau autor também) para um bom autor.

Lelec

Ricardo Rayol disse...

Meu caro, é muito fácil para o |Mainardi propalar suas opiniões, refestelado em berço esplêndido amém. Ganhar dinheiro com blogs é coisa para putas ou seus filhos, não precisamos nos prostituir. Se pelo menos conseguiu afinar sua forma de concatenar as idéias se veja um vitorioso, muita gente escreve durante anos e continua um bosta. Mas valeu sua auto-crítica, vejo-me ali também. Mas pelo menos eu me sinto a vontade me mandar meia dúzia tomar no cu, e isso não tem preço ahahahahaha

Anônimo disse...

Acha que seu blog é perda de tempo?
Depende de para quê escreve... Se quer glamour e confete, talvez não tenha atingido seu objetivo. Porém, se puder pensar um pouquinho, verá que nenhuma palavra é emvão. Nenhuma palavra é neutra, por mais que não seja a finalidade do autor, ela sempre mexe com as pessoas, transforma ainda que uma ínfima parte. Se tem vontade de escrever, escreva, ora! Não aguarde muitos leitores. O que quer de nós? Quantidade ou qualidade?
Suas palavras, embora autodepreciativas, acabaram depreciando também nós leitores.
Que presente de aniversário!

rosa disse...

Nem vou escrever "quase"nada. Eu particularmente tenho um blog que funciona como uma privada gigante, jogo tudo pra fora e me sinto bem.
Abraços Rosa

deborah disse...

Sorri aqui lendo este teu post.

Talvez os meninos tenham mais estes desejos e anseios de reconhecimento que as meninas, não sei. Particularmente, o meu modesto blog tem o único ojetivo de ser um espaço onde seja possível, mais e mais, eu exorcizar o meu medo das palavras e dos sentidos que elas carregam, para que eu possa, pelo menos ali, expor, mesmo que lutando contra todas as resistências morais, aquilo que me faz, tantas vezes, um ser caótico, confuso, paradoxal e esquisto. E talvez por isso, minha escrita seja, lá, um tanto quanto relapsa. ;o))

Pouquíssima gente lê o que escrevo, mas isso não me incomoda. Escrevo para mim mesma. E sei que se alguém lá no meu espaço chega, o faz por pura afinidade. E só isso me interessa: poder contar com a afinidade/cumplicidade nem que seja de apenas mais um ser sobre Terra, já me faz feliz.
;o)

beijo,
d.