25 maio, 2008

Autores e leitores.

Em julho de 2008 este blog fará 2 anos de existência. Nesse curto espaço de tempo não atingiu nenhuma de suas mais ambiciosas e secretas metas... Naquela época, pensei que minhas opiniões seriam lidas, minha forma de escrever aperfeiçoada, enfim, que minha página seria um sucesso.

O que consegui nesse quase 2 anos? Nada. Ou melhor: consegui, sim. Envolvi-me em polêmicas estúpidas, descobri que muita gente que eu respeitava não passava de criaturas torpes e desgraçadamente preconceituosas; que aqui, nesse ambiente virtual, somos - ainda que neguemos - personagens de nós mesmos.

A última coluna do Diogo Mainardi me abriu os olhos sobre o que eu sou: sou um mau leitor com idéias ruins e que lê maus autores com idéias ainda mais chinfrins. Se ao menos eu levantasse uma grana escrevendo...

O contador do blog marca menos de 2800 acessos em quase dois anos de existência. 60% desses acessos, aposto, foram meus. Só não consegui - por uma coisa tacanha chamada escrúpulos - inventar comentadores. Pesquisem. Nenhum dos meus quase 490 posts tiveram mais que 17 comentários. O post mais comentado até hoje foi um texto sobre um assassinato brutal ocorrido aqui em Brasília. O segundo mais comentado foi sobre uma polêmica com o Blogildo e que, por ironia, decidi não publicar a maioria dos comentários feitos no post. E por quê? Porque decidi que não publicaria, ora! Além do mais, nesse tal post, 7 pessoas, no máximo, alternavam-se comentando, replicando, treplicando. Uma chatice!

Diogo, sem saber, advertiu-me e me admoestou. "Zé Paulo, mané! Tu escreves para quem? Para quê?" Em outros tempos, eu responderia: "Escrevo para melhorar meus textos. Escrevo para me sentir melhor. Escrevo imaginando que talvez, quem sabe, alguém leia os posts e os achem importantes."

Não melhorei meu texto, nem me sinto melhor agora, depois desse post, do que me sentia antes dele. Aqueles que me lêem, quando dizem que gostam ou é porque são gentis ou é porque são maus leitores lendo um mau autor.

Abaixo, leiam a coluna do Diogo Mainardi em Veja desta semana.

Diogo Mainardi

Não sofro de diegomainardice

"Só opino porque é meu trabalho. Se desse, eu
desligaria o computador e passaria o resto do dia
estatelado na cama, na frente da TV, assistindo a um
programa de culinária, um seriado americano, um
torneio de golfe ou uma comédia antiga com Alberto Sordi"

O que eu sabia sobre Sabrina Sato: ela participa de um programa de TV. Agora sei também que ela tem uma pinta na testa. Mais ainda: sei que ela desistiu de tirar a pinta. Esse foi o fato que atraiu o maior número de leitores da Folha Online, alguns dias atrás. A nota era acompanhada por uma fotografia de Sabrina Sato sorridente, com sua pinta na testa. Pinta é um negócio nojento. Tire a pinta, Sabrina Sato.

A TV está sendo progressivamente esvaziada pela internet. Pela primeira vez, no Brasil e no resto do mundo, a TV perde público. Os espectadores desligam seus aparelhos e migram em massa para o computador, passando mais tempo na internet. E qual é o principal assunto na internet? A TV. No caso, a pinta na testa de Sabrina Sato. Ou, pouco antes, igualmente entre as notícias mais lidas da Folha Online, o choro de Deborah Secco num programa de auditório.

Além de ler sobre a TV, a platéia da internet faz comentários atarantados sobre a TV. Assim como faz comentários atarantados sobre todos os outros temas. A internet é como o teatro de José Celso, em que a platéia é chamada para o centro do palco e se torna protagonista do espetáculo. Amadoristicamente, cada um desempenha seu próprio papel, improvisando um comentariozinho desimportante aqui, outro ali. O mundo se transformou num gigantesco Teatro Oficina, onde se encena um espetáculo infinito de José Celso, do qual ninguém pode fugir. Trata-se de um pesadelo bem mais medonho do que qualquer distopia totalitária imaginada por George Orwell ou Aldous Huxley. Quero minha dose de "Soma"!

Umberto Eco criou a fantasia demagógica do "lector in fabula", em que o leitor é estimulado a participar do romance com suas idéias, transformando-se, ele mesmo, em autor. A internet é isso: um monte de maus leitores dotados de más idéias que cismam em interagir com maus autores. É o território dos opinionistas que opinam sobre a opinionice de outros opinionistas. É a água parada onde prolifera a diegomainardice hemorrágica.

Pode parecer um contra-senso, mas eu nunca sofri de diegomainardice. Só opino porque é meu trabalho. Se desse, eu desligaria imediatamente o computador e passaria o resto do dia estatelado na cama, na frente da TV, assistindo a um programa de culinária, um seriado americano, um torneio de golfe ou uma comédia antiga com Alberto Sordi. O que eu tenho a opinar sobre o programa de culinária ou o seriado americano? Alegremente, nada. A TV é minha droga da felicidade, meu sedativo, meu "Soma". Desde que eu fique distante de Sabrina Sato e de sua pinta na testa. Ela faz aflorar um monte de idéias em minha mente, todas elas rabiosas e incongruentes, transportando-me para o palco do Teatro Oficina, onde José Celso e sua platéia encenam eternamente a Guerra de Canudos. E agora? Como a gente sai daqui?



Esse é para lamentar!



Eterna Mágoa!

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que esta mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!


Augusto do Anjos. Eu e outras poesias

18 maio, 2008

Professores ignorantes 2

Recebi, por e-mail, alguns esclarecimentos sobre o concurso que reprovou 95 % dos candidatos a professores em Pernambuco. Segundo a pessoa que me mandou o e-mail, alguns professores entraram na Justiça contra a UPE, a organizadora da prova. Esses professores estão reclamando do tempo da prova - 3 horas para responder 80 questões - e do fato de pelo menos 14 questões terem sido copiadas de um concurso ocorrido no Rio Grande do Sul.

A prova foi dividida em três partes: conhecimentos específicos, língua portuguesa e pedagogia. O peso foi igual nas três partes. Outra exigência do edital foi que para ser considerado aprovado, o candidato deveria acertar, no mínimo, 60% em cada uma das três partes da prova. Segundo a remetente do e-mail, uma colega dela, mesmo com média geral 70, como não atingiu na parte pedagógica o mínimo de 60 %, foi eliminada. "O mais revoltante", diz a remetente, "é que houve candidatos aprovados com notas inferiores a 70, mas que atingiram o mínimo exigido nas três partes da prova."

O sindicato dos professores da rede pública em Pernambuco, aliás, teve uma reação típica: pôs a culpa no governo. Segundo alguns diretores, o concurso foi uma ação proposital para que o estado justifique os baixos salários da categoria.

Dando uma olhada na prova fico com a impressão de que quem deveria ser reprovado são aqueles que elaboraram as questões. Estão todas um pavor! Quando não pecam pela estupidez, pecam pela doutrinação ideológica. Na parte de História, por exemplo, 3 questões exigem do candidato que conheça com exatidão a produção historiográfica de Eric Hobsbawn. Na questão 51, por exemplo, a alternativa correta é uma transcrição da página 13 do livro A Era dos Extremos, podem conferir. Na questão 63, exigiu-se do candidato que lembrasse trechos exatos do capítulo 3 do livro A Era das Revoluções, precisamente nas páginas 71, 72, 73 e 76.

Professor bom, ao que parece, não só deve ler Hobsbawn, como memorizá-lo.


Professores ignorantes.

Eu nasci e cresci em Recife. Lá estudei, praticamente, só em escola pública. Formei-me pela UFPE em licenciatura em História. Dei aulas em colégios do Recife de 2000 a 2003. Em 2004 mudei-me para Brasília e continuo na profissão. Por isso, recebo - não com espanto, mas com desconforto - a notícia de que em concurso recente para o preenchimento de vagas para professor em Pernambuco, quase 95% dos candidatos não foram aprovados. Isto é, não acertaram sequer 60% da prova. O maior pecado dos candidatos foi o conhecimento em língua portuguesa. Se o conhecimento em língua portuguesa fosse o critério para se avaliar e selecionar professores (outros profissionais também!) muitos não conseguiriam emprego. Duvido que um profissional que ignore as letras seja um bom profissional.

Não é de hoje que a formação dos professores é deficiente. Não é exclusividade de Pernambuco essa realidade tão vexatória. Nosso futuro está mais ameaçado por professores mal preparados do que pelo aquecimento global.

Gilberto Dimenstein, jornalista e escritor, afirma em artigo recente na Folha On line: "Vemos, nessa catástrofe, uma das principais razões por que a educação brasileira vai tão mal - é o despreparo do professor. O ensino público, por sua baixa atratividade (salários ruins, salas lotadas, infra-estrutura ruim, carga horário pesada) não tem como atrair as pessoas mais talentosas e esforçadas. Cria-se, assim, um círculo vicioso, propagando-se na qualidade dos cursos de formação de professor.

"Esse concurso pernambucano mostrou que se houvesse para professor um teste semelhante ao feito pela OAB com os alunos de direito iriam ter de fechar escola por falta de quem dar aula."

Sou capaz de apostar que se tivesse uma prova semelhante para jornalista, engenheiro, médico, administrador, muitos não poderiam exercer a profissão.

A educação no Brasil é ruim porque ela é um engodo do começo ao fim. Vivemos a era do fingimento. Finge-se que ensina. Finge-se que aprende. Nossa escola básica, seja a pública ou a privada, já não formam como deveriam. Os pais, em sua maioria, querem boas notas e sequer se preocupam se aquele 10 significa mesmo aprendizado. O aluno que chega ao 3° ano do ensino médio e não sabe escrever, ler e interpretar um texto, será o mesmo que chegará a um curso superior e dificilmente terá essas deficiências corrigidas. Pior: essas deficiências não o impedirão de concluir o curso.

Tenho muito apreço, por exemplo, pela gramática. Morro de vergonha quando erro. A maldita vírgula é o meu maior crime. Sou um frasecida! Estudando o emprego correto da vírgula descobri que minha análise sintática é deficiente. Infelizmente, tenho que dizer de forma clara, poucos colegas se interessam por isso. Acham que escrever corretamente ou é coisa de elite ou de pedante. Não se incomodam em falar ou escrever errado. Ora, se um professor - que é modelo - não se importa com a forma de escrever ou falar, se acha que essas habilidades são dispensáveis, por que seus alunos darão importância a elas?

Os professores reprovados no concurso em Pernambuco foram co-responsáveis pelo resultado pífio. Poderiam ter, pelo esforço e pelo interesse, corrigido uma série de falhas que a escola básica e a universidade não corrigiram. Contudo, optaram por surfar na onda do sistema, fingindo aprender. Mas também foram vítimas de uma educação que não se importa ou não se preocupa com a qualidade do profissional que lança no mercado.

Alguns docentes, ainda mais nocivos, formam-se nas faculdades sabendo tudo sobre Paulo Freire, sobre a pedagogia do oprimido, da autonomia, enfim, sonhando em tornarem-se educadores que libertam; quando, na verdade, são apenas professores que reproduzem a ignorância. Acham que a sua missão é formar "alunos críticos" - entendam como "alunos críticos" aqueles que deploram o capitalismo e sonham com o socialismo ideal - e não se ocupam de ensinar geografia política ou análise sintática, mas em incentivar os alunos a militar em movimentos sociais organizados. Formam, não alunos para o mercado de trabalho, mas militantes de utopias que a história provou serem cerceadoras das liberdades individuais e assassinas!

A ignorância daqueles que deveriam ensinar, mas que por preguiça, comodismo e falta de iniciativa não o fazem; explica a ignorância daqueles que também por preguiça, comodismo e falta de iniciativa, deveriam aprender, mas não aprendem.

* Pessoal, Eliane Fontenelle, leitora, chamou minha atenção para um lapso ortográfico imperdoável: escrevi corrigidas com j, um horror! Obrigado Eliane. Já corrigi.

17 maio, 2008

Este quarto


Este Quarto...

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa esse quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

Mário Quintana

13 maio, 2008

Sumiram com os pardos

O título do post é uma cópia fiel do título de um dos capítulos do livro Não Somos Racistas, de Ali Kamel. Lembrei dele porque hoje mais um passo para a farsa do racialismo, foi dado. Dessa vez, números do IPEA e do IBGE procuram legitimar com dados estatísticos que a política de cotas não só deve ser mantida, como ampliada. Leiam esse trecho:

“A população negra deverá ser maior do que a branca no Brasil ainda neste ano, segundo projeção feitas pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) (...)De acordo com a pesquisa, feita com base nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil terá a maioria de sua população negra, ou seja, mais da metade dos brasileiros, em 2010. A pesquisa considera negros os brasileiros que se declaram pretos (termo utilizado pelo IBGE) e pardos.”

Para os pesquisadores, “população negra” é a soma daqueles que se declaram pretos e pardos. Com essa ginástica, é óbvio que a população negra será mesmo maior do que a branca. Pronto, o Brasil está na África! Minha pergunta é: por que os pardos são colocados no saco dos pretos e não no saco dos brancos? Afinal, quem é pardo? Deixemos Ali Kamel responder:

“ A funcionária do IBGE que me ajuda com os números se disse parda ao censo, ‘parda como a Glória Pires”. Mas, para muitos, a Glória Pires é branca. Digo isso com real preocupação: quem é pardo? O pardo é um branco meio negro ou um negro meio branco? Chamar um pardo de afro-descendente é mais do que inapropriado, é errado. (...)

Somar pardos e negros, portanto, seria apenas um erro metodológico se não estivesse na base de uma injustiça sem tamanho. Por que todas as políticas de cotas e ações afirmativas se baseiam na certeza estatística de que os negros são 65,8% dos pobres, quando, na verdade, eles são apenas 7,1%. Na hora de entrar na universidade ou no serviço público, os negros terão vantagens, os pardos não. (...) Na hora de justificar as cotas, os pardos são usados para engrossar ( e como!) os números. Na hora de participar do benefício, são barrados. Literalmente.

Pardos, usados para aumentar os números dos negros, são excluídos, totalmente, na hora de se beneficiar pelas cotas ou pelas ações afirmativas. A novidade agora é ampliar essa política para o mercado de trabalho. Querem garantir aos negros reservas de vagas, privilegiando-os na hora da busca por um emprego. Para sustentar esse absurdo afirmam que não basta garantir o ingresso dos negros no ensino superior, mas é preciso garantir a esses negros, vaga no mercado de trabalho. Aqui também, os pardos são usados para justificar a política de cotas, mas impedidos de se beneficiar dela.

Volto a perguntar: quem são os pardos? Será que com esse beiço gordo eu seria um pardo?

* Não somos Racistas, Ali Kamel, pág 51 e 52

A segunda farsa!

O IPEA afirma que “a renda da população negra só será igual à da branca em 32 anos. Atualmente, negros ganham, em média, 53% da renda do branco” e continua: “a igualdade [de renda] só será possível se, além das políticas de universalização, como o programa Bolsa Família, o governo investir em ações que facilitem o acesso dos negros ao mercado de trabalho e diminua a desigualdade de renda em relação aos brancos."

Mais uma vez os números são usados mais para confundir do que para esclarecer. Se pegarmos, por exemplo, todos os números, vamos encontrar algo interessante: os que se declararam amarelos, segundo o PNAD de 2004, ganham mais do que os que se declararam brancos, pardos ou negros. Acompanhem esse trecho do livro de Ali Kamel.

“No Brasil, os amarelos ganham o dobro dos que ganham os também autodenominados brancos: 7,4 salários mínimos contra 3,8 dos brancos ( os autodenominados negros e pardos ganham dois). Ora, se é verdade a tese de que é por racismo que os negros e pardos ganham menos, haverá de ser, em igual medida, também por racismo que os amarelos ganham o dobro do que os brancos.(...)

Não, o racismo não explica nem uma coisa nem outra. Porque não somos racistas, repito. A explicação se encontra no nível cultural e na condição econômica dos diversos segmentos da população. Vejamos: os amarelos estudam, em média, 10,7 anos; os brancos estudam menos, 8,4 anos; e os negros menos ainda, 6,4 anos. Os amarelos estudam mais e, por isso, ganham mais. Nada a ver com a cor.”*

Logo se vê que a diferença de renda está menos ligada à cor da pele do que à escolaridade. Os dados estatísticos que afirmam que o negro ganha 53% a menos que um branco é apenas um embuste. Quero saber se um negro exercendo a mesma função que um branco, numa mesma empresa, recebe menos por ser negro? Melhorem a escolaridade de todos e essas diferenças desaparecerão.

* Não somos Racistas, Ali Kamel, pág 59 e 60

As conseqüências

Em todos os lugares em que a política de cotas e ações afirmativas foram adotadas, um mesmo fenômeno aconteceu: Em busca de vantagens e/ou benefícios, o número de pessoas que se autodeclararam membros de uma minoria ou de um grupo discriminado, aumentou significativamente. Se isso aconteceu em outros países, por que não aconteceria aqui? Leiam essa notícia:

No dia em que o Brasil comemora 120 anos da abolição da escravatura, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentam o Mapa da Distribuição Espacial da População Negra. Segundo o estudo, nas regiões Norte e Nordeste, em praticamente todos os trechos - com exceção das áreas de reservas indígenas - as autodeclarações apontam para mais de 75% de negros.
Pelo mapa, é possível perceber que a população negra no Sudeste e Sul do País fica abaixo dos 40% - com destaque para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde ela fica abaixo dos 25%. Já em grandes trechos do Amazonas, do Pará, do Amapá e em pontos diversos da Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins o mapa aponta que os negros são mais de 85% da população.
O objetivo da pesquisa é orientar os gestores públicos, na hora da formulação de políticas voltadas para a igualdade racial, a observarem em que parte de seu Estado ou região está concentrada a população negra. O mapa foi montado com base no Censo de 2000, no qual a definição de cor é auto-declaratória.
Já em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e sul de Minas Gerais, as autodeclarações indicam que a população negra fica entre 40% e 75% do total. A pesquisa completa deverá será lançada na tarde desta terça no Palácio do Planalto.”

De repente, o Brasil se tornou um país majoritariamente negro (lembre-se, que aqui, esses percentuais somam os que se declaram pretos e pardos) Esses dados corroboram que se declarar negro hoje em dia é mais que “consciência racial” é uma saída para buscar alguma vantagem. Mais uma vez, Ali Kamel, na referida obra, já alertava para isso:

“ Quando, nos Estados Unidos, cotas foram adotadas para beneficiar descendentes de índios, houve um aumento exponencial de indivíduos, muitos deles louros e de olhos azuis, dizendo-se membro daquela minoria. O censo de 1960 mostrava que havia cinqüenta mil descendentes de índios entre 15 e 19 anos. Vinte anos depois, o número de descendentes de índios com idade entre 35 e 39 anos era mais de oitenta mil, uma impossibilidade biológica.*”

Se mais gente se declarou índio nos Estados Unidos para garantir benefícios, por que mais gente não se autodenominaria negra, no Brasil, para ter direito ao benefício da política de cotas? Os números do IBGE confirmam essa realidade.

* Não somos Racistas, Ali Kamel, 90 e 91.

11 maio, 2008

De versão em versão...onde se chegará?

Quem tem bom senso há muito não perde tempo ouvindo as desculpas esfarrapadas do governo a cada bandidagem urdida no Palácio do Planalto. Mas no que tange à existência ou não do dossiê, o governo passou dos limites! Até agora foram mais de 8 versões!


Antes o dossiê não existia, depois existia, mas não era dossiê; antes se dizia que havia sido a imprensa – golpista, é claro – que tinha fabricado o dossiê; depois aceitou-se que um espião de crachá havia cometido um crime divulgando dados sigilosos do ex-presidente FHC, sua mulher e seus ministros. Na última semana, o governo voltou a dizer que não houve dossiê, apenas um banco de dados com os gastos da presidência entre 1998 e 2002,mas mesmo assim, segundo o general Félix, chefe do Gabinete Institucinal da Presidência da República, gastos de ex-presidentes não são mais sigilosos, descaracterizando o crime. Numa hora, os dados são sigilosos, noutra, deixam de ser. Num momento, o dossiê era uma armação; noutro, um banco de dados que depois virou medida de controle de gastos. No início o governo "levantou dados" a pedido do TCU, depois a pedido da CPMI que sequer havia sido instalada. Uma confusão!


Agora, sabe-se que o dossiê, de fato, existiu. Que foi produzido na Casa Civil a mando de Erenice Guerra, braço direito e esquerdo da ministra Dilma Roussef. Que o funcionário responsável pelo vazamento, José Aparecido Nunes Pires, é acólito de longa data do ex-ministro José Dirceu e que uma das pessoas que recebeu o tal dossiê foi o assessor André Fernandes que trabalha no gabinete do senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná. Por enquanto, o governo ainda não se pronunciou. Está reunido, quem sabe, criando mais uma versão.

Como vota o brasileiro!

Qualquer um pode adjetivar um povo do jeito que melhor lhe aprouver. É um direito! Como é meu direito também, comentar essas adjetivações. Alguns chamam os brasileiros de botocudos, bovinos, subdesenvolvidos, terceiro-mundista. E por quê? Porque, vejam só, votaram ou apóiam um governo que tem tantos casos de indecência com a coisa pública. Outros, em plagas distantes, usufruindo das benesses do Primeiro Mundo, cantam e andam para os problemas do país, no máximo, revoltam-se e destilam os seus preconceitos mais pueris, como os judeus soviéticos que viviam na corte de Stalin e que para esconderem ou para camuflarem sua origem judia, eram mais anti-semitas que o prório Stálin! Assim são alguns democratas. Se o povo faz o que eles esperam estão à caminho da civilização. Se não, são botocudos, preguiçosos, burros, feios, bovinos, etc. Depois dessa pequena digressão, vamos ao motivo principal desse post.

Explicando a Política do Pão e Circo adotada na Era dos Imperadores em Roma, disse aos alunos que a tal política era o Bolsa Família dos imperadores romanos. Expliquei porquê: como o Bolsa família, a Política do Pão e Circo não tinha a finalidade de tirar o plebeu pobre da pobreza. Era antes uma ação compensatória que emancipatória, para usar dois jargões de cientistas sociais.

O apoio das massas plebéias ao governo, ou por outra, a letargia dos pobres de Roma causada por essa política, estava nos planos políticos do império. À massa apenas comida e diversão, talvez dissessem. Enquanto o império esteve forte e sem crises essa política funcionou a contento. Abrindo um parêntese político, adverti: todos sabem das falcatruas que marcaram o governo Lula no primeiro e também no segundo mandato. Por quê, então, o presidente continua com a popularidade alta? Porque o que interessa à maioria dos eleitores é se estão com dinheiro no bolso. Valores como decência, ética, respeito às leis e às instituições, isso não importa. Eis aí uma das principais causas de nossa desgraça como país e como nação.

Para meu gáudio e contentamento, em Veja desta semana há uma matéria sobre o livro Como vota o brasileiro, do sociólogo Alberto Carlos Almeida que ano passado lançou o livro Como pensa o brasileiro. Segundo o sociólogo, os eleitores do país têm cinco critérios de escolha na hora de votar(confiram os critérios no link acima). Votamos, segundo o estudo, quanto mais pobres e sem escolaridade somos, conforme nossas necessidades imediatas. O raciocínio é simples e nefasto: se todo político é corrupto, é ladrão, vou tratar de conseguir umas migalhas. Se esse administrador público desvia dinheiro, mente, mas me garante algum tipo de benefício, não há porque tirá-lo do poder.

Dizem que político não trabalha pensando na próxima geração, mas na próxima eleição. Entendo que não seja incorreto afirmar, conforme o estudo feito pelo sociólogo, que os eleitores não votam pensando no que é melhor para o país, mas no que é melhor para si. Um político de sucesso, portanto, descobre o que a patuléia quer e lhe concede, ainda que a médio ou longo prazo, a patuléia continue sendo... patuléia.



03 maio, 2008

O QI dos baianos ou dos nordestinos?


O famoso professor de História, Carlão, em mais uma de suas performances pouco ortodoxas, explicou assim o que é um fato histórico: “vocês sabem o que é um fato histórico? Fato histórico é um cocô bem pequenininho que um historiador põe fermento e transforma num cocozão”.

A ilustração, um tanto mal cheirosa, serve para explicar a importância que a mídia, na Internet pelo menos, deu à declaração do tal coordenador do curso de medicina da UFBA que justificou o resultado pífio dos alunos de medicina dessa universidade como conseqüência do baixo QI dos baianos.

A declaração é tão tosca e estúpida que a melhor resposta seria ignorá-la, ou por outra, respondê-la com bom humor, dando ao autor da declaração a dimensão de um patife. Mas não, a imprensa, os políticos, as “personalidades” encheram-se de altivez regional e como se tivessem sido atingidas na honra e no orgulho, levaram tão a sério o que dissera o tal professor que acabaram pondo fermento no excremento oral do coordenador do curso de medicina da Bahia.

Outros, porém, seguindo um velho adágio que diz: “onde caga um cagam vários”, resolveram, eles mesmos, contribuir com seus próprios excrementos. Chegaram a dizer que não só os baianos são burros e preguiçosos, mas todos os nordestinos também. Para esses, nascer, quem sabe, viver no nordeste é um atestado de burrice e preguiça. As provas que eles apresentam são muito convincentes: PIB pequeno, apoio acachapante ao presidente Lula, preguiça, falta de educação, etecétera e tal.

Eu poderia desmontar a tese diarréica exposta por alguns lembrando só um dado: quando FHC foi eleito presidente no primeiro turno em 1994 e 1998 recebeu no norte e nordeste uma votação igualmente consagradora. Será que quando os eleitores do norte/nordeste votaram em FHC também deram atestado de burrice? Eu poderia lembrar que PIB pequeno – e olhe que o da Bahia é o maior do Nordeste – tem outros fatores e está mais relacionado a baixos investimentos que à indolência ou insipiência de um povo.

Não se pode esperar daqueles que dobram a coluna, abanam o rabinho, dão a patinha e ainda exibem aquele ar bem comportadinho diante dos domesticadores que estão acima do equador - procurando assim, esconder uma origem da qual se envergonham - uma análise séria, instrutiva e construtiva, mas apenas um certo prazer pela ofensa gratuita e um escancarado preconceito regional.

02 maio, 2008

Os racistas são eles 3


O livro Não Somos Racistas do jornalista com formação em Ciências Sociais, Ali Kamel, foi publicado em 2006. A tese central do livro é afirmar que as desigualdades que tristemente caracterizam a sociedade brasileira são de natureza econômica e não racial.

" Ao longo do últimos anos, tenho me dedicado a debater todas essas questões. A minha ênfase tem sido refutar leituras apressadas de estatísticas oficiais, que distorcem a realidade em favor de um Brasil bicolor. Tenho procurado mostar que, mais que ao racismo, a má situação do negro no Brasil se deve à pobreza e que não existem atalhos fáceis para superá-la, como cotas ou políticas assistencialistas. O único caminho seguro para que o país se torne mais justo é a educação."

Para desmontar o argumento capcioso de que a política de cotas é temporária, Ali Kamel cita um estudo empírico realizado pelo professor norte-americano Thomas Sowell chamado Ação afirmativa ao redor do mundo. Diz Ali Kamel:

" O livro é uma pesquisa sobre o efeito das ações afirmativas e da adoção das cotas na Índia, na Malásia, no Sri Lanka, na Nigéria, nos Estados Unidos e em outros países. As conslusões, calcadas em fatos e números, são demolidoras. Quando as cotas surgiram na Índia, seus defensores diziam que elas durariam dez anos. Isso foi em 1949, e até hoje elas estão em vigor, ampliadas. O mesmo aconteceu em toda parte, em todos os países do mundo que adotaram a experiência. (...) O Brasil não será uma exceção no futuro: livrar-se das cotas será uma tarefa praticamente impossível numa democracia de massas como a nossa, em que a pressão de grupos organizados é decisiva na eleição de um parlamentar ou mesmo de um presidente."

O livro também faz um alerta. A se manter a política de cotas podemos ter no Brasil algo que nunca tivemos: o ódio racial. Mais uma vez deixemos Ali Kamel falar:

"Em todas as universidades que instituíram políticas assim, há discussões antes não conhecidas entre nós: negros acusando nem tão negros assim de se beneficiaremindevidamente das cotas; pardos tentando provar que o cabelo pode não ser pixaim, mas a pele é escura; e brancos se sentindo excluídos mesmo sendo tão pobres quanto os candidatos negros beneficiado pelas cotas. Dizendo claramente: corremos o sério risco de, em breve, ver no Brasil o que nunca houve, o ódio racial."

Em breve, o STF vai julgar se a política de cotas é ou não inconstitucional. Espero, sinceramente, que os ministros do Supremo corrijam essa distorção e evitem que o Brasil se tranforme naquilo que não é, uma nação bicolor, sujeita a um mal que não conhecíamos: o do ódio racial!

Para terminar esse post demasiadamente longo, reproduzo um pequeno poema de Manuel Bandeira, chamado Irene no Céu. Ei-lo:

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor


Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!

E São Pedro, bonachão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Irene no céu pelos próprios méritos!

01 maio, 2008

Os Racistas são eles 2!


Acima, foto do prédio que abriga o tal Centro de Convivência Negra da Unb. Abaixo, leiam as diretrizes desse centro:

Oferecer, a partir do 1º/2005, ambiente e serviços de apoio aos universitários negros, especialmente aos que ingressarem pelo Sistema de Cotas para Negros na UnB, tais como:

  1. Espaço para estudo e reuniões de trabalho;
  2. Biblioteca de referência para consulta sobre Ações Afirmativas (coleção de livros, legislação, revistas, artigos científicos, jornais, etc);
  3. Mural de divulgação de atividades ligadas a Ações Afirmativas (cartazes e folders de eventos científicos, governamentais e não-governamentais);
  4. Fonte de informações gerais sobre a Universidade de Brasília, com disponibilidade de acesso ao site da UnB na internet;
  5. Apoio aos programas de pesquisa, ensino, extensão e assistência estudantil que se vinculem diretamente ao Sistema de Cotas;
  6. Contratação de três estudantes bolsistas que secretariem a sala e orientem os visitantes e estudantes cotistas quanto aos serviços prestados pelo Centro de Convivência. Essa contratação envolve três bolsas de estágio com carga horária máxima de 20 horas semanais (um estudante para a manhã, outro para a tarde e um outro para a noite), com preferência para jovens negros com algum envolvimento em movimento social organizado;
  7. Outras atividades acadêmicas voltadas para a comunidade interna e/ou para a comunidade externa à UnB, desenvolvidas com o fim de apoiar o processo de implementação do Sistema de Cotas para Negros na Universidade de Brasília

Os objetivos são inequívocos. Querem, esses baluartes da igualdade, promover a segregação pela cor da pele. Há, nos objetivos acima, um que me chamou mais atenção: o de número 6. Os estudantes que podem ser contratados como estagiários para trabalharem no tal centro devem ser negros, mais: devem, de preferência, ter um atestado de militante!

Agora, imaginem um centro às avessas. Um espaço para ajudar estudantes brancos que tivesse como critério de escolha para aluno bolsista a cor da pele e a atuação em movimento social organizado. "Eles", os que lutam pela igualdade, logo denunciariam - com absoluta razão - o racismo de tal centro e de tal critério. Então, será porque "eles" são ou se querem negros, que podem adotar critérios racistas? Será que "eles" são e estão livres para serem racistas porque são ou se querem negros? Ou será porque eles são negros ou se querem negros que jamais poderão ser tachados de racistas?

É mais ou menos o pensamento daquela senhora que usava o cartão corporativo para alugar carros em feriados e fins de semana para passear e fazer compras em Free Shop, D. Matide Ribeiro, que quando ocupava a Secretaria de Igualdade Racial declarou à BBC Brasil achar normal, natural até, que um negro odiasse um branco. A então ministra perdeu o emprego não por causa da declaração racista e da incitação ao ódio racial, mas pelas práticas perdulárias com o cartão corporativo.



Os racistas são Eles!

Fui até à Unb à procura de um livro, deparei-me com um espaço assombroso. Não, não é à casa do estudante, muito menos à reitoria invadida, que me refiro. Esses espaços são assombrosos, mas estou me referindo a um outro; em tudo, pior, muito pior, em relação aos dois citados.

Ao lado do antigo posto BR existe um prédio que abriga o Centro de Convivência Negra! Querem exemplo maior do racismo dessa gente do que isso? Imaginem se existisse na Unb um Centro de Convivência Branca. O mundo viria abaixo! Tanto o primeiro - que existe - quanto o outro - se existisse - seriam, sob a ótica da igualdade, uma afronta à constituição.

Falando em Constituição, ontem, um manifesto assinado por 113 pessoas foi entregue ao presidente do STF, ministro Gilmar Mendes (a Suprema Corte brasileira está julgando duas ações diretas de inconstitucionalidade sobre o mecanismo das cotas raciais) em que se pede o fim das cotas raciais tanto na seleção para o Prouni quanto para o ingresso nas universidades.

Assista a um vídeo sobre o assunto clicando aqui. Abaixo, trechos do documento e um link para a íntegra do manifesto.

(...)

Nós, intelectuais da sociedade civil, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e outros movimentos sociais, dirigimo-nos respeitosamente aos Juízes da corte mais alta, que recebeu do povo constituinte a prerrogativa de guardiã da Constituição, para oferecer argumentos contrários à admissão de cotas raciais na ordem política e jurídica da República.

Na seara do que Vossas Excelências dominam, apontamos a Constituição Federal, no seu Artigo 19, que estabelece: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. O Artigo 208 dispõe que: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”. Alinhada com os princípios e garantias da Constituição Federal, a Constituição Estadual do Rio de Janeiro, no seu Artigo 9, § 1º, determina que: “Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição”.
(...)
Apresentadas como maneira de reduzir as desigualdades sociais, as cotas raciais não contribuem para isso, ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções dos desafios imensos e das urgências, sociais e educacionais, com os quais se defronta a nação. E, contudo, mesmo no universo menor dos jovens que têm a oportunidade de almejar o ensino superior de qualidade, as cotas raciais não promovem a igualdade, mas apenas acentuam desigualdades prévias ou produzem novas desigualdades:

- As cotas raciais exclusivas, como aplicadas, entre outras, na Universidade de Brasília (UnB), proporcionam a um candidato definido como “negro” a oportunidade de ingresso por menor número de pontos que um candidato definido como “branco”, mesmo se o primeiro provém de família de alta renda e cursou colégios particulares de excelência e o segundo provém de família de baixa renda e cursou escolas públicas arruinadas. No fim, o sistema concede um privilégio para candidatos de classe média arbitrariamente classificados como “negros”.

- As cotas raciais embutidas no interior de cotas para candidatos de escolas públicas, como aplicadas, entre outras, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), separam os alunos proveniente de famílias com faixas de renda semelhantes em dois grupos “raciais” polares, gerando uma desigualdade “natural” num meio caracterizado pela igualdade social. O seu resultado previsível é oferecer privilégios para candidatos definidos arbitrariamente como “negros” que cursaram escolas públicas de melhor qualidade, em detrimento de seus colegas definidos como “brancos” e de todos os alunos de escolas públicas de pior qualidade.
(...)
Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.” (“Receita para uma humanidade desracializada”, Ciência Hoje Online, setembro de 2006).

Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. O “racismo científico” do século XIX acompanhou a expansão imperial européia na África e na Ásia, erguendo um pilar “científico” de sustentação da ideologia da “missão civilizatória” dos europeus, que foi expressa celebremente como o “fardo do homem branco”.
(...)
A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade. Mas há iniciativas a serem adotadas, imediatamente, em favor de jovens de baixa renda de todas as cores que chegam aos umbrais do ensino superior, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos exames vestibulares das universidades públicas. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Programa de Cursinhos Pré-Vestibulares Gratuitos, destinado a alunos egressos de escolas públicas, atendeu em 2007 a 3.714 jovens, dos quais 1.050 foram aprovados em concursos vestibulares, sendo 707 em universidades públicas. Medidas como essa, que não distinguem os indivíduos segundo critérios raciais abomináveis, têm endereço social certo e contribuem efetivamente para a amenização das desigualdades.
(...)
A propaganda cerrada em favor das cotas raciais assegura-nos que os estudantes universitários cotistas exibem desempenho similar ao dos demais. Os dados concernentes ao tema são esparsos, contraditórios e pouco confiáveis. Mas isso é essencialmente irrelevante, pois a crítica informada dos sistemas de cotas nunca afirmou que estudantes cotistas seriam incapazes de acompanhar os cursos superiores ou que sua presença provocaria queda na qualidade das universidades. As cotas raciais não são um distúrbio no ensino superior, mas a face mais visível de uma racialização oficial das relações sociais que ameaça a coesão nacional.

A crença na raça é o artigo de fé do racismo. A fabricação de “raças oficiais” e a distribuição seletiva de privilégios segundo rótulos de raça inocula na circulação sanguínea da sociedade o veneno do racismo, com seu cortejo de rancores e ódios. No Brasil, representaria uma revisão radical de nossa identidade nacional e a renúncia à utopia possível da universalização da cidadania efetiva.

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo.

O link para a íntegra do manifesto aqui.