24 março, 2008

Por que Atenas e não Esparta?

O cenário das Guerras Médicas e das disputas entre Atenas e Esparta.

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O declínio da civilização helênica esteve ligado às guerras fratricidas entre as cidades-estados gregas após a derrota que estas, unidas, impuseram aos persas em 480-479 a C. Para Toynbee, em sua História do Helenismo, a vitória dos helenos nas Guerras Médicas abriu uma oportunidade ímpar para os gregos buscarem, no mínimo, uma aliança confederada. Ainda segundo esse historiador, o desenvolvimento econômico dos séculos VII e VI a C, imporia, mais cedo ou mais tarde, algum tipo de unificação política às póleis; mas, para isso, a cidade que liderasse esse movimento deveria, com prudência, não descambar para o domínio agressivo de suas cidades irmãs. Foi tudo o que Atenas, no século V a C, não fez.

A Liga ou Confederação de Delos, criada em 478 a C para se precaver contra o um novo ataque persa, nasceu sobre um péssimo augúrio: a decisão de Esparta - até então, a líder militar da Hélade - de não tomar parte nela, abrindo espaço para a atuação única de Atenas. Considerada pelos estados helênicos do Egeu e da Ásia Menor como a grande responsável pela derrota dos persas, Atenas tornou-se a grande referência dessas cidades. Sem Esparta, pôde exercer sua liderança sem um rival à altura, e, talvez por isso, não tenha resistido ao canto da sereia do imperialismo.

Se hoje sabemos, que Esparta, com sua decisão de não participar da Liga, ajudou Atenas a construir seu imperialismo, é importante lembrar que esse perigo não foi estranho aos lacedemônios. Ora, cabe a pergunta: por quê, então, os espartanos não exerceram, eles mesmos, a liderança da Hélade? Ou por outra: por quê, ao menos, não dividiram com Atenas essa liderança? Quem nos oferece uma resposta é Rostovtzeff, em sua História da Grécia.

Para o historiador russo, Esparta tinha duas limitações que lhe impediam de exercer a liderança do mundo grego após as Guerras Médicas. A primeira era sua constituição e seus problemas internos. Com efeito, se Esparta estivesse disposta a liderar o mundo grego logo após às Guerras Médicas precisaria expandir seu exército e sua influência para além do Peloponeso. Todavia, essa saída era impossível. A força de Esparta, o seu poder, estavam na opressão a que submetia os habitantes da Messênia, transformados em hilotas, isto é, em servos dos espartanos. Deslocar sua força para fora do Peloponeso implicaria em desguarnecer a lacônia e a messênia, ameaçando seu domínio na península. A opressão de seu exército escravizava os hilotas, mas a postura sempre rebelde destes, condenava os espartanos a uma vida rigidamente controlada por um estado sufocante que exigia de seus cidadãos uma vida voltada para a guerra e uma obediência cega ao governo. Outro grave limite para a liderança de Esparta eram seus parcos recursos. Esparta era essencialmente agrícola; uma agricultura basicamente de subsistência. Sua indústria e seu comércio eram tão tímidos que não tinham importância econômica. Para exercer a liderança seria preciso mobilizar recursos que o estado espartano, por mais que quisesse, não dispunha. Entre o imperialismo sobre as cidades gregas e o autodeterminismo dessas cidades, Esparta optou pelo segundo porque não poderia exercer o primeiro.

Se Esparta, por mais que quisesse, não poderia liderar o mundo grego após as Guerras Médicas; Atenas, ainda que não quisesse, seria impelida pelas circunstâncias a exercer esse papel de liderança. Em verdade, a Liga de Delos foi o resultado de um temor real: uma nova investida persa sobre o mundo grego. Se, para Esparta, a tarefa de combater os persas foi concluída após as batalhas de Salamina, Platéia e Mícale quando os persas foram expulsos da Grécia européia e já não representavam uma ameaça ao Peloponeso; para Atenas, e, principalmente, para as ilhas do mar Egeu e para as cidades da Jônia (Ásia Menor), os persas tinham sido derrotados, mas não definitivamente vencidos. A Liga, portanto, foi uma aliança militar preventiva que, sob a liderança de Atenas, passou a ser cada vez mais agressiva contra os persas, expulsando-os do Egeu e do litoral da Ásia Menor, devolvendo às cidades gregas subjugadas pelos exércitos persas, a liberdade.

Após a expulsão dos persas, Atenas se viu diante de um dilema: dissolver a Confederação de Delos e voltar à situação de antes das Guerras Médicas, ou transformar as cidades da Liga de aliadas, à subordinadas. A opção escolhida foi a do imperialismo, como sabemos. Contudo, cabe a pergunta: Atenas poderia renunciar ao seu destino de líder da Liga, sem prejuízos para sua economia e sem a ameaça de convulsão social? Tanto Rostovtzeff quanto Toynbee respondem que não.

Na semana que vem, mais um capítulo dessa história.

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