09 março, 2008

Cronos devorando seus filhos


As Farc, como ensinou a história tantas vezes, está devorando seus próprios filhos. Abaixo, um artigo do jornalista Reinaldo Azevedo, que, no mínimo, é uma excelente aula de história. Leiam com atenção:

Vocês todos já sabem a esta altura, não? Iván Ríos, um dos sete do secretariado da Farc, foi morto, sim. Mas não pelas forças colombianas. Foi assassinado pelo chefe de sua segurança pessoal, um tal “Rojas”, famoso por seu gosto pela violência. O assassino do “companheiro” disse que eliminou o chefe porque se encontrava sob forte pressão. Acuados pelas forças colombianas, o grupo queria se entregar, mas Ríos determinou que continuassem a resistir, proibindo que falassem ou acendessem fogueira no esconderijo para não atrair a atenção de seus perseguidores. O grupo que fazia a segurança de Ríos, liderado por Rojas chamou então o chefinho para uma conversa atrás na moita. E... O que vai agora é o relato que está no jornal colombiano El Tiempo:

Às 18h de quinta-feira, por meio de um telefone celular, Rojas se comunicou com o posto da polícia de Aguardas e pediu um contato com o comandante das operações militares. Um novo telefonema, minutos depois, determinou a rendição de três guerrilheiros a um grupo militar que já os tinha cercado. Rojas chegou com seu uniforme ensopado e visivelmente fatigado. Tinha uma pistola e um fuzil. Seus dois companheiros traziam os AK-47 e munição, que entregaram aos militares.

Não comemos desde segunda-feira”, foi a primeira coisa que disseram. O guerrilheiro pediu para falar com o oficial a cargo da unidade e contou uma história provocou calafrios nos militares. “Eu sou o chefe da segurança de Iván Ríos. Nós o matamos e trago aqui as provas”. Para assombro da tropa, Rojas entregou um laptop, a cédula de identidade e o passaporte do membro do secretariado. Trazia além disso um pacote macabro: uma mão direita que, assegurou, era de seu chefe

Reproduzindo um texto de 2004, o jornalista dá mais uma vez uma prova de sensatez, conerência e elegância.

O Termidor do PT

Revoluções engolem os seus, e, mais de uma vez, já usamos neste site esta mesma imagem apavorante que se vê ao lado, de Goya. É Saturno engolindo os próprios filhos, uma visão, sem dúvida, macabra. Quando mandou massacrar os marinheiros anarquistas de Kronstadt, Trotsky, o mais brilhante da geração que fez a Revolução Russa de 1917, comentou com Lênin: “É o nosso Termidor”. Aquele que viria a ser o “profeta traído da revolução”, no dizer do biógrafo Isaac Deutscher, experimentaria ele próprio a mão pesada da história que ajudou a escrever, assassinado que foi a mando de Stálin em 1940. Bem, voltemos: ao falar no “nosso Termidor”. Trotsky reconhece que os marinheiros estão à esquerda de um novo poder que não tem como se consolidar se eles não forem eliminados. Ou seja, o decreto de morte daqueles que antes foram úteis é condição para a sobrevivência do novo modelo.

A referência histórica é o golpe contra Robespierre — o jacobino que liderou a fase do Terror da Revolução Francesa —, desfechado no dia 27 de julho de 1794, ou 9 Termidor do ano 2, segundo o calendário novo que se tentou implementar. A esquerda tem dessas paixões inaugurais, como se sabe, tentada sempre a crer que a história é um processo que tem de ser passado a limpo. E dessa vocação não escapam estatísticas do IBGE ou o calendário. Vá lá, no caso de Robespierre, o que o levou a perder o pescoço foi a anunciada intenção de combater os que considerava traidores da revolução e corruptos. Ameaçou a Convenção com uma lista. Assinava, assim, a sua sentença de morte. Já havia eliminado os que estavam à sua direita e à sua esquerda. Foi derrubado por um golpe, preso e executado. Experimentou a guilhotina de que tanto fez uso para consolidar o seu poder.

Mas vamos com calma. Aqui já se adianta um pouco a história e se complicam os paralelos. Afinal, quem é o Robespierre de nossa farsa cabocla? É Heloísa Helena a reproduzir os últimos dias do líder radical ou será Lula a mimetizar as ações do líder no auge de sua potência? Nem uma coisa nem outra. A força do paralelo e sua virtude para o entendimento estão apenas em reconhecer que a consolidação de um poder, por mais mudanças que proponha, passa por fases de acomodação com os conservadores — o que foi verdade mesmo para a mãe de todas as revoluções, segundo os parâmetros de esquerda, que foi a Russa. A exceção a essa regra da acomodação talvez tenha sido o delírio de Pol Pot. Deu no que deu.

Assim, ainda que, numa hipótese remota, os quatro parlamentares petistas não sejam guilhotinados, a guinada foi feita, o retrocesso (segundo o ponto de vista do mudancismo petista, é claro) está decidido, e os antigos “revolucionários” (e ponham-se aspas aqui...) se oferecem para governar agora um PT bem mais conservador do que aquele que ganhou a eleição — com ou sem Carta ao Povo Brasileiro, este verdadeiro work in progress, que, a cada dia, autoriza uma mudança ou uma lambança nova. Lula, a Articulação, Zé Dirceu e o núcleo duro já botaram antes a “direita” do partido para fora; agora, silenciam um pedaço da esquerda. O flerte inclui, sem pudor, João Pedro Stedile e Abílio Dinis. Todos vão se unindo, felizes, em seus dons carismáticos, cada um na sua área, cada um na sua praia.

O Termidor da Revolução Francesa, assim como o da Russa (na expressão de Trotsky ao menos), se fez com muito sangue. O do PT se faz com tentativas (provavelmente bem-sucedidas) de banimentos e enquadramentos obsequiosos, que obrigam os discordantes ao silêncio. Enquanto isso, a idéia de uma pax lulista, que inclui tanto os mercados como os sem-terra, tanto os bancos como os sindicatos, vai sendo vendida como a solução.

Aí, sim, se nos permitem, cabe uma lembrança a título de advertência. Há uma boa possibilidade de que entremos em algo parecido com a era do Diretório, com, vamos dizer, banqueiros pressionando em favor da Restauração, e os sans-culottes a cobrar a prometida justiça. Aquela brincadeira terminou no golpe do 18 Brumário (novembro de 1798), o original, não a farsa relatada por Marx. Em 1804, a França revolucionária, aquela que ousara sonhar com a pátria dos iguais, tinha um imperador, Napoleão Bonaparte. Um sinal de que mesmo processos termidorianos podem fugir do controle. A sorte está lançada.

Do blog do Reinaldo Azevedo

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