01 março, 2008

As pontes, o rio, os poetas!

Ao fundo, o pedaço da ponte que atravessava na minha infância. Desde aquela época, temia-se assaltos, mas hoje, teme-se morrer no assalto! No primeiro plano, é o bairro de Casa Forte. O que eu morava fica do outro lado do rio.


Algumas pontes do centro do Recife. À noite, sempre são mais bonitas!


Na minha infância, no subúrbio do Recife, costumava atravessar a ponte que liga o meu bairro - Monsenhor Fabrício - ao bairo de Casa Forte. Uma outra maneira de chegar nesse bairro era atravessando o Capibaribe de bote. A travessia durava 10 minutos, mas quando se tem pouca idade e não se sabe nadar; quando a embarcação é frágil e os braços do remador inspiram pouca confiança, aquela travessia para ir vender bermuda na feira de casa amarela transformava-se na minha pequena odisséia.

Conta minha mãe e, em alguma medida, também meu meu pai, que na cheia de 1977, ela, grávida de meu irmão, atravessou o rio de bote e quase foi arrastada pela correnteza. Eu estava a salvo, na casa de minha avó, mas meu irmão, ao que tudo indica, escapou por pouco. Essa história era contada em tom de epopéia familiar!

Hoje, embaixo daquela ponte, há uma favela que torna a travessia de um bairro a outro tão perigosa quanto a Linha Amarela ou a Faixa de Gaza. Quanto ao passeio de bote... quase ninguém mais o faz.

Abaixo, versos de três poetas que trataram de pontes e do rio Capibaribe!

—— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabe me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?

—— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.

—— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.

—— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.

—— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?

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Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

Ali! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

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Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

(...)

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

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