09 fevereiro, 2008

A Mentira nos livros didáticos 1

Leiam esse trecho abaixo.

"Nas eleições de 1950, Vargas derrotou o candidato apoiado por Dutra, voltando pela segunda vez à presidência da república e mostrando que seu prestígio político ainda era muito forte.

O novo presidente assumiu o poder e conseguiu contornar alguns graves problemas econômicos do país. Em 1951, a inflação caiu, houve superávit comercial (mais exportações que importações), e o crescimento econômico atingiu 7%. Porém, nos anos seguintes, esses avanços econômicos sofreram certa redução em virtude de os Estados Unidos diminuírem os recursos para investimentos no Brasil Apesar das dificuldades, Vargas propôs uma modernização econômica, com crescimento industrial de caráter nacionalista."

O trecho acima está na página 209 do livro de história do 9° Ano – antiga 8ª série – do Projeto Araribá, editora Moderna. Esse projeto me foi apresentado no final do ano passado, numa palestra patrocinada pela editora que aconteceu na LBV, aqui em Brasília.

A palestra foi de uma perda de tempo atroz. O palestrante, irrequieto, caminhava sem parar pelo auditório, passando no meio dos presentes. Segundo ele, era uma técnica para prender a atenção. Para mim, era uma maneira de aumentar a irritação. O charme do Projeto, na visão do palestrante, são as imagens que, no livro, tem uma finalidade didática. Aliás, o projeto consiste em usar menos textos e mais imagens. Não concordo, mas isso é uma questão de gosto. O que não é questão de gosto é a mentira ou a deturpação da verdade no trecho que selecionei acima. Vamos analisá-lo.

"Nas eleições de 1950, Vargas derrotou o candidato apoiado por Dutra, voltando pela segunda vez à presidência da república e mostrando que seu prestígio político ainda era muito forte.

Aqui não há erro, mas uma omissão importante. Essa omissão poderia ser justificada pelos autores como uma forma de resumir o texto ao máximo. Já disse que o projeto valoriza a imagem, não o texto. Mas, penso eu, que a omissão tem outra finalidade: a de exaltar a figura de Vargas, como se o tal "prestígio político" dele viesse apenas de sua atuação anterior, quando fora ditador.

Vargas assumiu o poder no Brasil em 1930 através de um golpe de estado. Deixou a presidência em 1945, forçado pela nova conjuntura internacional. Entre 1937 e 1945, implantou a ditadura do Estado Novo e procurou, nos moldes fascistas, difundir o culto à personalidade. Assim, para a massa, Vargas não era só o presidente do Brasil, mas o "pai do pobres". Com mão de ferro, impediu que novas lideranças surgissem. O seu prestígio, com o povo, decorria mais do fato dele ter impedido o surgimento de novas lideranças do que de suas realizações como presidente ditador. Sua vitória nas urnas – 48 % dos votos – também pode ser explicada pelo apoio velado de lideranças importantes do PSD que apesar de terem um candidato nas eleições de 1950, Cristiano Machado, apoiaram a candidatura de Getúlio Vargas, abandonando seu candidato à própria sorte. A Vitória de Vargas, portanto, não foi difícil.

O novo presidente assumiu o poder e conseguiu contornar alguns graves problemas econômicos do país. Em 1951, a inflação caiu, houve superávit comercial (mais exportações que importações), e o crescimento econômico atingiu 7%.

Aqui começam os problemas mais sérios. Aqui, a deturpação da verdade começa a se mostrar. Com qual objetivo? Vocês logo perceberão.

Getúlio assumiu a presidência em 31 de janeiro de 1951. Os dados sobre a inflação no período precisam ser bem avaliados. Analisando os números do país, percebe-se que, de fato, houve uma ligeira queda de 0,5 ponto. Em 1950 a inflação foi de 12,4 % ao ano e em 1951 foi de 11,9 %. Essa redução, irrisória, indicava mais estabilidade inflacionária do que queda. O problema é que analisar a inflação do país como um todo, na década de 50, confunde mais do que esclarece. Na época, o centro econômico do país eram o Rio de Janeiro, a capital; São Paulo e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, por exemplo, centro nevrálgico do poder, os índices de inflação só fizeram aumentar no período. A tendência de alta da inflação vinha desde 1948 e continuou nos anos seguintes.

O superávit não aumentou, até diminuiu e, em 1952, deu lugar a um poderoso déficit no balanço de pagamentos. O crescimento de 7% do PIB em 1951 – foi um pouco menor – foi resultado da alta do preço do café – mantido alto artificialmente por manobras do governo, o que irritou o governo dos Estados Unidos – do que de um vigoroso e sustentado modelo de desenvolvimento econômico. Prestem atenção a esse trecho que revela a intenção dos autores:


Porém, nos anos seguintes, esses avanços econômicos sofreram certa redução em virtude de os Estados Unidos diminuírem os recursos para investimentos no Brasil.

Avanços econômicos? Uma inflação anual alta e estável é exemplo de avanço econômico? A redução do superávit é exemplo de avanço econômico? Um crescimento provocado mais pelo setor primário da economia é exemplo de avanço? Certa redução? Então, estávamos bem, a inflação controlada, o país crescendo e exportando, aí os Estados Unidos, invejosos de nosso poder econômico, pararam de mandar dinheiro e tudo desandou, é isso? O objetivo de trechos como esses é semear nos jovens corações o antiamericanismo bocó. O aluno, indefeso, passa a ser vítima do professor ignorante ou preguiçoso.

Houve ou não houve redução dos investimentos americanos no Brasil? Sim, houve. Mas não explicar o por quê, é fazer o jogo cretino dos idiotas que querem mais confundir do que esclarecer.

Em primeiro lugar, Getúlio Vargas sempre olhou com desconfiança o capital privado de outros países. Ele preferia o investimento, via empréstimo governamental, ao invetimento direto, de empresas privadas. Ora, como atrair capital, mesmo governamental, se a estrutura macroeconômica do Brasil era uma piada. Que país ou investidor privado se sentiria seguro para investir num país à beira de uma bancarrota e politicamente instável? Acrescente-se a isso o discurso de Vargas em 31 de dezembro de 1951 em que ele demonizou o capital estrangeiro, chamando-o de espoliador. Então, Vargas condena o capital estrangeiro, mas quer que ele entre no Brasil, é isso? E se ele não entra é porque queriam nos boicotar?

A conjuntura internacional também foi desfavorável. A Guerra da Coréia iniciada em 1949/50 dominou os interesses americanos, relegando os investimentos para a América Latina a um plano secundário. Mesmo assim, no final do Governo Dutra, foi criada a CMBEU ( Comissão Mista Brasil Estados Unidos) responsável por desenvolver e avaliar projetos com vistas ao desenvolvimento econômico do país. Os recursos seriam divididos entre um fundo criado no Brasil e dinheiro americano. Aliás, o BNDE e a Petrobrás foram frutos das discussões da CMBEU.

Em 1953 subiu ao poder o republicano Eisenhower. Os americanos viviam uma paranóia anticomunista com a cruzada movida pelo senador Joseph MacCarthy contra simpatizantes do comunismo soviético. Os discursos nacionalistas de auxiliares de Vargas ou mesmo do próprio presidente, eram vistos pelo governo republicano com desconfiança. Além do mais, no novo governo americano, os empréstimos governamentais foram interrompidos. Quem quisesse dinheiro americano teria que apelar para bancos privados ou para o Bird. O problema é que para esses bancos emprestarem dinheiro, exigia-se do governo reformas fiscais e cambiais, além de austeridade. O Brasil de Vargas e depois de Juscelino estava longe desse receituário. Não esqueçam do emblemático aumento de 100% do salário mínimo prometido pelo ministro do Trabalho de Vargas, João Goulart.

A explicação é longa, eu sei, mas acredito que indispensável para colocar os pingos nos is. Sem essa explicação, parece que as dificuldades econômicas do Brasil na década de 50 foram causadas por inimigos externos e não por nossa incapacidade de fazer a coisa certa.

Apesar das dificuldades, Vargas propôs uma modernização econômica, com crescimento industrial de caráter nacionalista."

Mais uma informação pela metade. Vargas, no debate econômico, seguiu a orientação da CMBEU e de economistas da recém-criada CEPAL. Embora os economistas da CEPAL vissem com desconfiança o capital estrangeiro, não eram, em absoluto, contrários a ele. A principal divergência entre os cepalinos e os economistas da escola liberal, estava no papel do Estado no desenvolvimento econômico, que, segundo os cepalinos, deveria ser preponderante.

É claro que o livro é para a 8ª série e, por isso, não cabe muitas das explicações aqui dadas. Contudo, é possível ser didático sem ser mentiroso. É possível ensinar história sem apelar para teorias conspiratórias. Pode-se até dizer que Vargas, no conjunto, apoiou o projeto de desenvolvimento nacionalista, mas não pode dizer que nosso insucesso econômico decorreu do boicote do capital internacional, tirando de nós a responsabilidade que nesse caso, como em muitos outros, foi exclusivamente nossa.

4 comentários:

Thiago disse...

Muito bom, muito esclarecedor. Parabéns.

Fica muito claro a situação dos livros didáticos no Brasil. Os de biologia e ciências não vão muito melhor das pernas...

Abraços.

Ricardo Rayol disse...

diz o ditado que a história é escrita pelos vitoriosos e aproveitadores. No caso a LBV está se dando é bem. A educação devia er como o Banco Central, independente.

Lucas Albé Veppo disse...

Prezado "Zé",

Apesar de respeitar a sua liberdade de expressão a respeito do ex-presidente GV, e de tentar por meio do seu blog difamar seus feitos, gostaria que apresentasse da próxima vez alguma fonte sobre os dados que você relata, já que essas suas informações não tem nenhuma fonte confiável. Outra pergunta que gostaria de fazer é: Por quê, apesar de ter sido tão mau político, GV venceu em 2007 um concurso feito pela Folha de São Paulo com mais de 200 intelectuais brasileiros como o "maior brasileiro de todos os tempos?".

Caro Zé, o choro é livre contra o gaúcho que é também o maior brasileiro de todos os tempos, contente-se com isso.

Zé Costa disse...

Lucas,

Não sei qual o texto que você leu. O que sei é que o post não faz nenhum juízo de valor sobre a figura do presidente Vargas. Analisa, isso sim, como um livro específico de história relata o Segundo Governo.

Agora, se quer saber o que penso sobre Getúlio, embora isso não esteja no post que o motivou a comentar, é que ele foi um ditador implacável.

O Brasil mudou com ele, não há dúvida. Mas isso não torna os crimes que ele cometeu perdoáveis.

Você supõe que eu esteja chorando, Lucas? Ora, meu caro, o gaúcho aqui, suponho, é você.