08 janeiro, 2008

O começo é sempre difícil - 1a parte.

Eu iniciava minha carreira de professor de história em agosto de 2000. Por essa época ainda conciliava meu trabalho em sala de aula com as análises químicas e o acompanhamento da produção no que se chamava packaging (não sei se o termo está exato nem se está escrito corretamente) de refrigerante. No ano seguinte, sairia da Brahma em condições curiosas, que depois, talvez, eu conte, e passava apenas a dar aula. Sem querer desencorajar aqueles que pretendem se iniciar na carreira, mas relatando o meu caso particular, basta dizer que comoprofessor passei a ganhar 7 vezes menos do que eu ganhava como Técnico em Química.

A primeira escola que meu deu uma oportunidade foi o Colégio Avançar, em Candeias, no Grande Recife. Consegui esse emprego através de um importante “QI”: Maria de Lourdes - engenheira eletrônica e pianista nas horas vagas - sabia da minha intenção em dar aulas. Como a família dela era dona do supracitado colégio, ela me fez o convite e, claro, aceitei.

Professor Airton, pai de Maria de Lourdes, recebeu-me com uma certa desconfiança. Aliás, a maioria das pessoas quando me vêem têm uma impressão pouco lisonjeira de minhas capacidades. Lembro que em Brasília, duas escolas religiosas, dirigidas por irmãs, excluíram-me do processo seletivo por eu “ser muito novo”. Novo? Eu tenho 28 anos irmã! – à época, gente – “Pois não parece”, respondeu uma delas. Ainda bem que isso não se tornou uma regra geral. Tanto, que atualmente trabalho em duas escolas em Brasília, ambas católicas. Mas já tergiversei demais.

Professor Airton disse que faria uma experiência comigo: eu daria aulas aos sábados para um pré-vestibular e, se desse certo, fecharia um contrato comigo. Dessa forma, passei a dar aulas de 08 às 11 horas em Candeias e depois, aboletava-me em uma, duas, às vezes três Kombis, para chegar à fábrica que fica às margens da BR 101 sul, no município do Cabo de Santo Agostinho. O que mais me incomodava não era a jornada dupla – eu saía da fábrica às 22:00 horas - mas chegar antes da 14 horas, horário que iniciava o turno vespertino. Fiquei nessa brincadeira até dezembro. Em janeiro eu consegui meu desligamento da Brahma e pude, finalmente, descobrir o mistério de se trabalhar mais e se ganhar menos.

Em 2001 iniciei minhas atividades, digamos, regulares no Colégio Avançar. Essa escola tinha algumas qualidades, em se tratando de escolas privadas de Recife: estava rigorosamente dentro da lei, pagava aos professores sem atraso e depositava FGTS dos funcionários. No entanto, apresentava, não defeitos, mas algumas inconveniências: o valor da hora aula era baixíssimo. Algo entre 4 a 7 reais, no Ensino Médio! Era muito longe de minha casa, cerca de 1 hora de ônibus. Com o tempo percebi que o custo das passagens transformava o meu salário de irrisório em ilusório.

Passei apenas 1 ano nessa escola. Pedi demissão para trabalhar em outra, mais perto de casa. Porém, em tudo, do salário à decência nas relações trabalhistas, totalmente diferente - para pior - do que o Colégio Avançar. No tempo em que fiquei na escola em Candeias tive alguns sucessos, coisa rara para quem está iniciando a carreira, mas um estrondoso problema que depois de anos, enxergo como uma lição, que só foi aprendida há pouco tempo, confesso.

O caso

Estava dando aula numa turma da 8ª séria e havia uma menina que tinha a fama de ser a mais inteligente da turma. Atualmente, um aluno que estuda em casa, cumpre as tarefas e consegue boas notas nos exames, é logo tachado de inteligente. Eu prefiro chamá-lo de responsável. Essa menina não gostou de mim. Ou melhor: não gostou de perceber que para mim ela era apenas mais uma aluna. Acostumada aos paparicos dos outros professores, ela não entendia porque eu não a tratava como ela merecia. Devo dizer de minha imensa dificuldade em “chalerar” as pessoas. Fui criado num regime onde cada um faz sua parte, de preferência, da melhor maneira, sem necessidade de afagos ou lisonjas. Só mais tarde percebi que esses afagos e essas lisonjas ajudam, e muito, o nosso trabalho em sala. Mas eu era novo, inexperiente e me achava o máximo por ser professor. É claro, que em tudo, eu estava enganado. Numa correção de exercício, a referida aluna não respondeu a uma pergunta que passei como atividade. Perguntei a razão e ela me respondeu: “não tinha na apostila, professor. Se não tinha, não respondi.” Surpreso com a resposta - já disse que eu era inexperiente - admoestei, pensando que fazia um bem, a aluna dizendo que ela ou qualquer outro aluno, não pode ficar bitolado às apostilas da escola. Um gaiato escandiu as sílabas: “bi-to-la-do?” Expliquei que bitolado era uma pessoa de idéias curtas, incapaz de ver além do que está na frente de seu nariz. Como um cavalo que usa aquelas viseiras para evitar distrações durante a cavalgada. A menina chegou em casa em fúria. Disse para o pai que a chamei de égua, burra, incapaz, que a humilhei em sala de aula. Contou a estória do jeito dela e, o pai, claro, acreditou piamente na filha. Geralmente sempre ficamos do lado daqueles que nos são caros. Sempre enxergamos no "outro", as más intenções. Nos nossos, há, no máximo, enganos ou exageros. Erros, nunca! O pai, uma fera, foi me “pegar” na escola. A coordenação, a direção e a orientação, deixaram-me numa sala com o pai da aluna. Ele uma fera e eu tentando explicar o óbvio. A conversa foi tensa, mas acabou bem. Todavia, fiquei chateado com a escola que me deixou sozinho naquela hora. Sobretudo porque eu era um neófito na profissão. Não esperem solidariedade de ninguém. Ela dificilmente virá nessas horas.

Depois desse incidente, minha relação com a escola foi se deteriorando. Com exceção do diretor do colégio, o professor Airton, os demais membros do corpo da direção não queriam minha permanência. A mulher do professor Airton, uma espécie de vice-diretora, por exemplo, dizia a todos que eu era arrogante, grosseiro, presunçoso – eu ainda não havia conquistado o direito à outras qualidades, tais como: intolerante, crápula e covarde – Já o seu marido, no dia que acertei minha demissão, despediu-se com palavras encorajadoras. Exaltou minha responsabilidade profissional, minha seriedade e me exortou a continuar nesse caminho. Duas pessoas tão próximas com idéias tão diferentes. A julgar pelo que sou hoje ou pelo que me tomam algumas pessoas, tendo a crer que a mulher do professor Airton não parecia estar de toda errada...

4 comentários:

S disse...

Acabo de tirar minha licenciatura embora não tenha sonhado em ser professora.
O grande detalhe é que na minha família, embora todos tenham uma formação que não seja na área de educação, acabamos tirando a licenciatura mais tarde para poder dar aulas.
No começo era uma espécie de segunda opção profissional e acabou que, devido às circunstâncias e afinidades, se tornou o nosso "ganha pão".
Ainda não cheguei a esse ponto, mas estou sentindo que descobri um caminho que me dá prazer e grandes alegrias, apesar de aparecer casos assim como o que descreveu.
Certa vez eu assumi uma turma de terceiro ano como professora substituta e como li no diário que a professora anterior havia dado matéria tal, tal e tal, avancei nas aulas acreditando que conheciam as matérias.
Eles me odiavam enquanto eu fazia o meu melhor. Até que me disseram que a professora anterior não promovia debates, não se aprofundava na matéria e que os alunos estavam inseguros em relação a mim. Limitava-se a ler o livro em sala de aula e dar o pontos aos alunos que faziam os exercícios que passava para casa.
Enfim, aconteceu um caso parecido com o seu quando eu parei de dar aula e fiquei esperando um aluno parar de falar para que eu pudesse retornar.
O pior foi que tbm me senti sozinha quando fui falar com o diretor. Ele me cobrou respostas sem ao menos me perguntar o que realmente aconteceu. O menino e sua namorada promoveram uma lista com assinaturas para me tirar do colégio. Foi difícil lidar com isso embora eles não tenham tido sucesso com o tal abaixo assinado.
Hoje percebo que estava no lugar errado. Eles me odiavam justamente porque sabiam que comigo a aprovação não seria conquistada de uma forma que eles nem conseguiam perceber que na verdade reforçava aquilo que eu mais combato.
Ainda tentei explicar que apesar de as aulas terem um conteudo um pouco mais puxado que a professora anterior, minha avaliação não é difícil. Não foi.
Mas me senti desestimulada, injustiçada e parei de me preparar para as aulas e de dar tarefas mais elaboradas.
Quando terminou o semestre, não voltei nem para buscar meu salário de dezembro.
Fui para um colégio onde os alunos são super interessados e possui um alto índice de aprovação em vestibulares. Nunca me senti tão bem, segura e valorizada.
Pena que esse ano precisei deixar para poder me dedicar ao mestrado...

Bom, não espere aprovoção das pessoas. Você não precisa disso para sentir bem ou seguro em relação a si mesmo. Sei o quanto é chato passar por isso, quando as pessoas atribuem a vc e te julgam por fatos distorcidos. Mas a vida segue e se estas pessoas agiram assim como vc, apenas estão dando uma demonstração de que não te merecem. Okay?
Te linkei.

thenriques45 disse...

Eu tenho muita vontade de dar aulas. O fato é que ainda não tomei a decisão corajosa que vc tomou, muito embora eu tenha meus motivos para ainda não ter feito.

Uma coisa é fato, eu tenho planos que dependem de meu atual emprego e que devem se concretizar até agosto deste ano. Se não der certo, eu parto para a dura vida de professor.

Bom, vejamos o que vai ser.

Abraços e aguardo a próxima parte :)

PATRICIA M. disse...

Meu, eu tb trabalhei no turno da tarde, so que na fabrica de Lages comecava as 4 da tarde e terminava a meia noite. Nunca tive melhor horario de trabalho na vida, hehehe. Ah, eu era da Producao, nao do Engarrafamento. E cerveja, claro, nossa fabrica nao produzia refri.

Eu dei aula noturna quando estava fazendo o mestrado, para o pessoal da economia. Foi um semestre so, mas foi muito legal. Curti pacas. Professor universitario ganha beeeem melhor, mas ainda assim menos que em outras profissoes, logico. Acho que a hora-aula era em torno de R$ 35 (3 anos atras) se nao tivesse o mestrado, que era o meu caso. Sei que a experiencia nao valeu pelo dinheiro, porque eu tinha o emprego no banco, mas sim pela curticao. Se bem que nao sei se conseguiria ficar dando a mesma materia anos a fio. Deve encher o saco no final das contas. Enfim, quem sabe quando me aposentar volto para dar aulas na universidade...

Ricardo Rayol disse...

Não ser baba-ovo tem seus percalços. Ainda mais hoje em dia quando a grana do aluno é mais importante que educar.