26 janeiro, 2008

Livros nas férias

No fim do ano comprei três livros para diminuir minha proverbial estupidez e corrigir, em parte, meu espírito obtuso. Foram os livros: Lanterna na Popa, de Roberto Campos, os dois volumes, ainda estou no primeiro; Viagens à Inglaterra e à Irlanda de Aléxis de Tocqueville e Lula é minha Anta de Diogo Mainardi.

Além de ajudar a diminuir minha estupidez e de melhorar meu caráter, as citadas obras acima ainda me dão a vantagem de aprender a escrever direito. Se eu não conseguir, não culpem os autores, mas a mim e à minha inteligência embotada.

O livro de Mainardi li no Avião, na ida e na volta. Duvido que Mainardi publique aquele texto de primeira. Como ele tem 1 semana para escrever, aposto que ele faz um esboço, depois corta as gorduras e, enxuto, manda para a coluna. Prefiro pensar assim a acreditar que um texto tão primoroso saia logo de cara. Não estou desmerecendo o talento de Diogo. Dêem-me 40 dias, 400 dias, e meu texto nunca será como o dele. Quem não leu o livro, não sabe o que está perdendo. “Ah, eu acho Lula o melhor presidente do mundo, porque eu vou ler esse livro?”, diria uma alma ingênua. Para rir um pouco e aprender muito, ora!

O primeiro livro lido por mim foi o de Tocqueville. Estava procurando um outro, chamado Ensaio sobre a pobreza. No origal francês o título é Memoire de Tocqueville, mas eu não leio francês e nem inglês. Vivesse eu no século V, seria uma espécie de huno das estepes, mas como vivo nos tempos atuais, sou apenas um latino ignorante. Desculpem o pleonasmo. O livro parece não ter sido um sucesso editorial. Sua primeira e única edição é de 2003. Nas livrarias que procurei e mesmo na editora a resposta foi a mesma: está esgotado! Minha ignorância, aliada a um otimismo estúpido, insistiu: não tem jeito de adquirir o livro? Não! Descobri que no Rio de Janeiro, na biblioteca do Instituto Liberal há um exemplar, mas eu não moro no Rio. Nem na Estante Virtual o livro existe. Uma pena! Restou-me ficar com Viagens à Inglaterra e à Irlanda. O livro é excelente e respondeu a uma pergunta que eu sempre me fizera quando estudante: por que, se a Inglaterra e a França no século XIX tinham problemas sociais semelhantes, tomaram caminhos tão diferentes na condução desses problemas? Tocqueville dá uma resposta satisfatória nesse livro.

Na parte da Irlanda, aprendi muita coisa. A Irlanda, no século XIX, era de uma pobreza extrema. A situação, em muitos casos, fez-me lembrar de muitas cidades do Brasil, no século XXI. O ódio entre protestantes e católicos iam além das divergências religiosas. Talvez eu escreva sobre isso, mas agora uma certa incapacidade para escrever e uma certa saudade dos blocos do Recife, enchem-me de preguiça.

O livro de Roberto Campos está dividido em dois volumes. Por que eu paguei mais de 130 reais nesse livro? Por que a Livraria Cultura provoca em mim um consumismo desenfreado. Preciso me curar dessa compulsão. Não posso passar na frente de uma livraria, menos ainda da Cultura. Quando penso que estou curado, vou lá e gasto mais do que posso. Assim não fico rico.

O livro tem estórias muito engraçadas, mas é também uma fonte importante para entender a história do Brasil. Uma das coisas que aprendi foi que na década de 50, nos primeiros debates sobre a criação da Petrobrás, havia a proposta, derrotada, de se criar a empresa, mas sem adotar o monopólio. Nossa vocação para o atraso, definida de forma magistral por Roberto Campos com o seguinte aforismo: “no Brasil a burrice tem um passado glorioso e um futuro brilhante!”, fez com que aprovássemos o monopólio estatal na exploração do petróleo. 40 anos depois, o congresso aprovou o fim do monopólio. Resultado prático: o Brasil tornou-se auto-suficiente em petróleo. Agora imaginem essa decisão aprovada 40 anos antes?

O livro tem muitas peripécias diplomáticas, muitas situações engraçadas, mas alguns assuntos espinhosos. Os acordos de Breton Woods, a disputa entre o Bird e a EXImbank e as teorias econômicas, embaralharam meu cérebro mais acostumado com as novelas da Globo. Ainda o estou lendo, e assumo o compromisso de concluir os dois volumes até o fim do ano.

Três livros por ano é pouco. Mas é melhor que três livros na vida.

6 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Vou anotar as dicas, tenho que sair do circuito de livros de ficção.

Cfe disse...

"O ódio entre protestantes e católicos iam além das divergências religiosas"

E continuaram até pouco tempo. O problema irlandês é simples: uma disputa entre os descendentes dos autóctenes católicos independentistas e os descendentes dos invasores ingleses leais à coroa.

A característica religiosa de cada facção é um aditivo apenas. E bastante ressaltado porque séculos depois das invasões seria impossível, ridículo e pouco sério não atribuir aos descendentes dos invasores britânicos a condição de irlandês.

Thiago Henrique Santos disse...

Eu não sei se vc já teve o prazer de visitar a Livraria Cultura aqui de São Paulo.

Mas eu te digo, é o mais próximo da representação real da palavra "arem" que eu conheço rsrs.

rosa disse...

Minhas amigas dizem que não me entendem, levo meses para sair de casa e quando o faço me enfio em um sebo, e volta feliz da vida com meus livrinhos.


Abraços e muito frevo a vc.

S disse...

Li Esse livro do Tocqueville para História Moderna na Faculdade. Confesso que não foi a melhor leitura, ainda mais quando já tinha me deparado com outro livro dele para História da América que foi de amargar. Mas é uma ótima referência, néh.
Para quem gosta de História moderna, eu sempre recomendo os livros do Robert Darnton, que além de ser uma leitura mais agradável, os assuntos são interessantíssimos. Certamente vc deve ter esbarrado com "O grande massacre de gatos" durante a faculdade, que está na minha lista dos 10 mais. "O lado oculto da revolução" tbm é ótimo e precisei ler no mestrado. Vale a pena!
O livro do Mainardi eu comprei assim que saiu. Ele escreve bem e tem uma stiradas muito interessantes apesar de nem sempre concordar com ele. Os livros nada mais são do que coletâneas de artigos publicados em sua coluna com alguns cortes ou melhoramentos.
Fácil de ler, apesar de eu continuar achando que ele merece uma surra! =D

Regi@ne disse...

Ao ler o artigo me dei conta do quanto sinto saudades de História, comecei até a pesquisar sobre os livros, rsss, grande poder de convencimento!