14 janeiro, 2008

Ele está certo?

Eu sou assinante de Veja - os petistas , os filo-petistas e aqueles que, mesmo sem saber, no fundo no fundo, são um pouco PT; podem rasgar suas vestes diante dessa minha revelação. - Antes recebia a revista como cortesia da escola em que trabalho, mas os defensores do jornalismo "isento e imparcial" trocaram-na pela Carta Capital. Então, assinei Veja. Não estou com tempo agora para comentar o artigo que segue abaixo, mas como professor preciso comentá-lo. Talvez o faça amanhã. Para quem não assina Veja e, por enquanto, lê o meu blog, deixo a matéria que só pode ser acessada por assinantes.

Educação de quem?
Para quem?

"As questões relativas à escola foram seqüestradas
pela agenda da corporação dos funcionários do ensino. Defender o professor não é o mesmo que defender
os alunos? Esse discurso é o dos profissionais do ensino"

Gustavo Ioschpe


Falemos de duas salas de aula. Na primeira delas, a professora Bety ensina matemática. O assunto pode parecer árido – geometria espacial –, mas, com suas esferas invisíveis dentro de cubos e pirâmides, Bety enfeitiça os seus alunos, que assistem à exposição da professora em silêncio compenetrado, interrompido apenas por perguntas prenhes de curiosidade. A segunda aula é de biologia. O professor, cujo anonimato preservo, é chamado, à boca pequena, de "ET" pelos alunos. Sua dicção é monocórdia e a pronúncia catequética de termos estranhos – "o ta-las-so-ci-clôôôô" – choca-se com a balbúrdia que impera entre os alunos. Pedaços de giz são atirados ao quadro-negro, bolinhas de argila vão parar nas paredes. A algazarra é tamanha que, no dia em que as provas corrigidas do bimestre seriam entregues, um aluno resolve trazer uma arma de brinquedo para intimidar o professor.

Essas duas classes, na verdade, são uma só. O mesmo colégio, os mesmos alunos, o mesmo espaço físico, os dois retratos ocorridos no mesmo ano. Conheço-a bem: é a classe na qual me formei no ensino secundário.

Não conheço estudos empíricos sobre o assunto, mas durante a minha vivência de estudante casos como esses descritos acima formaram a convicção de que o problema da indisciplina na escola está fortemente associado à qualidade da aula que está sendo ministrada. Eis uma idéia que deve soar no mínimo estranha, possivelmente sacrílega, a qualquer pessoa bem informada que acompanha o debate educacional brasileiro. Pois, na questão da indisciplina, certamente predomina a leitura de que esse é um fenômeno de responsabilidade exclusiva do aluno – desajustado, vagabundo, porra-louca etc. –, de sua família – os pais que não ensinam mais valores aos filhos e só se lembram de ir à escola para reclamar quando o filho leva bomba – e da sociedade em geral, cada vez mais violenta e desrespeitosa.

Em realidade, não é apenas na questão da indisciplina escolar que a responsabilidade pelos nossos fracassos é atribuída à sociedade ou aos alunos e que os agentes do sistema educacional, especialmente os professores, aparecem apenas como as vítimas, que lutam sem jamais desistir apesar da enorme maré contra. Todas as questões relativas à escola foram seqüestradas pela agenda da corporação dos funcionários do ensino. Pense naquilo que você, leitor, acredita ser a solução para o problema da nossa educação. Provavelmente será algo que englobe alguns ou todos os seguintes fatores: aumento do investimento em educação, aumento do salário dos professores, diminuição do número de alunos nas salas de aula, aumento do número de horas letivas. Agora pense nesses fatores e pergunte-se: a quem eles beneficiam? Aos alunos ou aos profissionais do ensino?

Você provavelmente deve estar pensando: não é a mesma coisa? Professores mais satisfeitos e motivados não darão aulas melhores? Defender o professor não é o mesmo que defender os alunos? Você sucumbiu à propaganda da corporação, mas não se assuste: assim como os alemães da época hitlerista acreditavam que os não-arianos eram raças inferiores e os cubanos sob Fidel crêem que podem creditar todos os seus males à perseguição dos Estados Unidos, é difícil para qualquer um ter uma idéia diferente da propagada pelo discurso único. No caso da nossa educação, esse discurso é o dos profissionais do ensino.

É uma cantilena que tem lógica, claro. Faz sentido imaginar que professores e funcionários de ensino mais bem pagos serão mais motivados e, portanto, darão aulas melhores, ou que conseguirão dedicar mais atenção a cada aluno em salas menores, ou que a presença de equipamentos multimídia ou de uma quadra poliesportiva tenha efeitos positivos – assim como é bastante lógico imaginar que o Sol orbita ao redor da Terra, que o planeta é quadrado, que uma garrafa cheia de água chegará antes ao solo do que uma garrafa vazia ou que a melhor forma de combater uma doença que se espalha pela corrente sanguínea é retirando sangue do corpo por meio de sanguessugas. Muito do que é lógico é falso, e muito do que é verdadeiro é contra-intuitivo. A única maneira de estabelecer a verdade é testando, empiricamente.

No campo educacional, essa medição vem sendo feita de forma sistemática e metódica há mais de dez anos, e revela alguns achados talvez surpreendentes. Quando se analisa o desempenho de alunos em testes e se cotejam as características de suas escolas e professores, descobre-se que o número de alunos em sala de aula não tem impacto significativo sobre o aprendizado, nem o salário dos professores, nem a presença de infra-estrutura rebuscada nas escolas. Esses mesmos estudos empíricos revelam outros dados interessantes. Alguns dos fatores associados ao melhor desempenho do alunado não apenas não trazem benefícios aos professores como fazem com que tenham de trabalhar mais: alunos que fazem o dever de casa com mais freqüência, por exemplo, têm desempenho melhor – e esse desempenho é ainda melhor se o professor comenta a sua avaliação, em vez de apenas marcar "certo" ou "errado". Também têm desempenho superior alunos que são avaliados constantemente por meio de provas, alunos de professores com um conhecimento mais aprofundado da matéria que ensinam e alunos de professores que faltam menos ao trabalho. Não é curioso que nenhum desses fatores conste da agenda dos sindicatos de professores quando eles fazem manifestos pela melhoria da qualidade da educação? Não, claro que não. Sindicatos devem defender a sua categoria. O problema não é que a corporação dos profissionais do ensino puxe a brasa para a sua sardinha; o problema é que eles tenham conseguido fazer com que o país aceite como sendo um programa para o bem comum aquilo que é, na verdade, a defesa dos interesses da sua categoria profissional.

Esse deslocamento de prioridades só é possível porque há um vácuo na nossa sociedade, que parece ter se esquecido de quem é a nossa educação e para quem ela é feita. É bom lembrar, portanto, que a educação pública é de, digamos, "propriedade" do povo brasileiro, e não apenas dos profissionais que nela trabalham. Esses profissionais são servidores públicos e, portanto, não cabe a eles formular política pública, mas sim acatar o programa decidido pela sociedade por meio dos seus representantes eleitos. E isso em todos os níveis: assim como o professor de 1ª série de uma escola pública não pode decidir quando o aluno deve ser alfabetizado, os doutores da pedagogia da USP não podem formar, com dinheiro público, professores que eles desejam que sejam vanguardistas da revolução socialista. Finalmente, precisamos lembrar para quem é nossa educação. Um sistema educacional é criado para educar os alunos. É isso – só isso – que importa. Se as salas de aula são agradáveis ou não para o professor e se a escola é suficientemente convidativa para os seus funcionários são questões que deveriam ser relevantes apenas na medida em que comprovadamente afetam o desempenho dos alunos. A idéia de que nosso aluno não aprende porque não se interessa ou porque os pais não se importam com a escola é ridícula, para não dizer maliciosa. Seria algo na composição do nosso ar, ou algum vírus na água que os brasileiros bebem, que aniquila a curiosidade das nossas crianças e o desejo dos pais de ver os filhos progredindo na vida?

Precisamos de um reordenamento da nossa leitura da educação nacional. Cada vez que um aluno não aprende – e estão aí todos os testes, nacionais e internacionais, mostrando que o nosso aprendizado é catastrófico –, precisamos primeiro imaginar o que está errado na educação que ele recebe. Se ele não se interessa pela aula, é necessário ver se a aula não é desinteressante. Se ele não estuda, precisamos checar se ele recebe material suficiente e se tem as avaliações necessárias para saber que precisa estudar. Se o aluno não faz os deveres quando chega em casa, temos de verificar se eles estão sendo prescritos pelos professores, se estão sendo corrigidos e se o fato de o aluno não os fazer tem alguma conseqüência. Se os pais não participam da escola, devemos questionar se a escola se organiza de maneira a realmente permitir a participação dos pais, se eles se sentem convidados ou ignorados pelos diretores e professores de seus filhos, se percebem a escola como um espaço no qual podem e devem atuar ou como um ente distante, alheio, fechado. Somente depois de esgotados esses questionamentos é que deveríamos partir para a culpabilização de pais e alunos.

Parece radical, mas na verdade é óbvio. Se parece estranho, é bom sinal: do jeito que anda nossa educação, é bastante provável que o senso comum esteja errado.


10 comentários:

S disse...

Eu leio a Veja sempre, principalmente as colunas. Ainda não estive com as desse ano em mãos, pq a única coisa que não faço é gastar dinheiro com ela, até pq dinheiro é algo que tem feito falta no meu bolso. Então tenho que contar com a generosidade daqueles que sabem dessa minha velha mania que é ler a Veja de trás pra frente (para ler a coluna do maluco do Diogo Mainardi antes de qualquer outra coisa).
Mas vc escreveu uma coisa com a qual eu me identifico muito. Minha dedicação à aula ou matéria é diretamente proporcional à dedicação e qualidade da aula ministrada pelo professor. Eu poderia citar vários exemplos da minha época do ensino médio, mas ainda na faculdade isso existe. Professores que são verdadeiros falcatruas, dão aulas horríveis, não tem boa dicção e o pior, faltam numa clara demonstração de falta de compromisso. Esses não merecem o meu respeito e nem a minha atenção. Professores considerados "missão impossível" obtiveram melhores notas do que aqueles que a gente já se inscreve sabendo que vai passar com um pé nas costas.
Mas tbm temos que considerar a realidade social de que está se referindo. Não sei da reportagem. Mas em um ciep do complexo da maré aqui no rj, a mesma professora, que dá a mesma aula, atenção e carinho aos alunos que é homenageada em outra escola da Ilha do Governador teve que pedir remoção por ter sido ameaçada de morte pelos alunos. Isso pq ela já convivia com agressões e xingamentos. E a realidade dela é do ensino primário. O aluno mais velho tem 12 anos.
E falta de educação muito influi na disciplina escolar. Já o aluno, não foi expulso, nem ao menos punido. O motivo é simples, todos tem medo!
Então, eu acho que solução tem que levar muito em conta cada caso. Não dá para aplicar um modelão de solução para a educação que não vai funcionar em alguns lugares.
Concordo plenamente que o desempenho dos aluno em sala de aula depende muito tambem da qualidade da aula que está sendo ministrada. Mas quando professor é bom e mesmo assim os alunos mandam o professor se foder, ou tomar no fiofó, entre outras coisas, não posso culpar o professor e mandá-lo dar aulas melhores.

Um dos alunos do estágio que fiz simularam tiros na aula de uma professora e se jogaram no chão. O grande detalhe é que a escola politécnica da Fiocruz é considerada a melhor escola pública do Brasil. Quando perguntei pq fizeram isso, eles alegaram que é porque ela é chata. Sobre a qualidade da aula, é boa, mas como a turma não se identificou com a postura da professora em relação aos alunos, resolveram sacanear a aula dela.
Simples assim.

Agora, o que mesmo sem saber são no fundo no fundo PT, ficou engraçado. É que nem aqueles caras que são gays e ainda não descobriram isso. A pessoa ainda não se identifica como tal, alguns afirmam que não, mas o outro lhe atribui a pecha só porque lhe convém. Essa mania de rotular lembra o livro "Isto não é um cachimbo" do Foucault.

Costajr disse...

Pouco a pouco, nossas diferenças se acentuam, minha cara Sonja. Acho Diogo Mainardi um exímio colunista. Tenho inveja, confesso, do estilo dele. De sua capacidade de escrever de forma objetiva e agradável. Por exemplo: se eu escrevesse tão bem quanto o Mainardi ou o Reinaldo Azevedo você entenderia que o artigo que eu publiquei no post não é meu, mas do articulista Gustavo Ioschpe.

Na faculdade fui obrigado a ler Foucault, mas não esse livro que você citou. Li Microfísica do Poder. Uma perda de tempo!

No próximo post que devo publicar amanhã, no final da manhã ou da tarde, vai depender de Estêvão, vou comentar alguns pontos desse artigo. Minhas discordâncias estarão mais na forma que no conteúdo, mas elas existem e vou explicar as minhas razões.

S disse...

Eu só percebi que o texto era dele e não seu após ter publicado meu comentário. Aí, já era!
Logo o começo vc comenta que deixará a matéria para que os que não são assinantes possam ler.
Foi falta de atenção mesmo. Pode falar logo!

Foucault não é uma perda de tempo. Eu nem concordo com ele, mas me serviu em muita pesquisa. Só demorou um tempo até eu começar a decodificar as palavras dele. A "microfísica do poder" é só uma coletãnea de artigos, debates e entrevistas. Eu tenho. É bom conhecer.

Eu não disse que Mainardi escreve mal. Eu só o chamei de maluco. tenho 2 livros dele. Leio sempre as colunas dele. E apesar de não concordar com quase nada que ele escreve, eu gosto de ler o que ele escreve.
Só que ele cita coisas que provavelmente jamais leu para provar erudição, sei lá, mostrar alguma autoridade, u então leu e entendeu tudo errado, ou faz questão de distorcer mesmo....
Mas eu sempre leio as colunas do Mainardi. Não é a toa que começo a resvista de trás pra frente.

Uma coisa que nunca entendi e pq no blog do Onildo às vezes vc respondia meus comentários anonimamente. Pode até negar, mas eu sempre soube que era vc!
Se eu estiver errada, vou parecer injusta. Mas o estilo da escrita e como constrói a argumentação é só sua. Depois que disse que sabe História, tive certeza. Ninguém mais alí sabe... Só quem conhece poderia ter feito alguns comentários. hehe

S disse...

No mais, eu não espero conhecer alguém que seja igual a mim. Nem acredito que exista alguém que nem eu.
Fico imaginando o tédio que deve ser conviver com alguém que gosta das mesmas coisas, manias, tem as mesmas opiniões, o mesmo gosto...
Seria um marasmo danado!
O que enriquece as relações são as diferenças.

S disse...
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S disse...
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Saramar disse...

Como professora que fui, não posso concordar que a falta de disciplina na sala de aula se deva somente à monotonia da exposição ou à aridez do assunto.
É claro que professores retrógrados, sem nenhuma didática ou arrogantes jamais conseguirão "dominar as feras atuais", porém creio que há vários fatores envolvidos, principalmente se os alunos são adolescentes.
Para mim, os currículos ultrapassados também interferem na qualidade da aula.
Ademais, o mundo fora da escola (principalmente a pública) utiliza estratégias ultra modernas de convencimento a que os alunos estão mais que acostumados. Será difícil manter seu interesse em uma aula meramente expositiva, por mais competente que seja o professor e interessante que seja o assunto.
Obviamente, a importância que o aluno e seus pais dão à educação também é fator importante na manutenção da qualidade e da disciplina nas aulas.
O professor moderno, pressionado de todos os lados, pelo governo e suas extravagantes teorias, pelos pais e suas exigências, pelos alunos e sua rebeldia, não pode ser crucificado.
Por outro lado, há professores que, como os políticos, estão mais interessados no seu poder, na sua remuneração, no seu sindicato. Estes nem devem ser chamados de professores, segundo o que penso e sim de ocupantes de cargos, coisa comum nestes tempos de aproveitadores.

beijos, feliz semana para você
P.S. Aguardo, ansiosa, suas considerações sobre o artigo.

Ricardo Rayol disse...

os tempos são outrois e blábláblá mas vejo que hoje em dia se faz um esforço enorme para manter o aluno pagante satisfeito e feliz ao invés de impor disciplina. malabarismos na sala de aula são criativos mas de pouca aplicabilidade pedagógica. É o mesmo que manter a platéia acesa tirando coelhos da cartola.

Costajr disse...

Vou responder pessoal, se bem que Rayol e Saramar já anteviram a linha de meu raciocínio.

Cara S, desconfio que você esteja enganada quanto às suas suspeitas ou certezas a respeito de eu ser o anônimo que respondia a você nos comentários do Bogildo. Quando publico algum comentário como anônimo, geralmente ponho meu nome no final do comentário. A prova dos nove é você encontrar os tais comentários e me mostrar. Só assim poderei confirmar ou não suas suspitas ou certezas.

Discordo quando você diz que no blog do Blogildo s pessoas passam por lá não sabem de nada. Tive meus problemas com o Blogildo, ele até chamou minha argumentação de burra, mas não é por isso que vou desmerecer as pessoas ou mesmo o Blogildo. Quando vós dissestes que a tal pessoa que vos respondia, "sabe história"; fiquei ainda com mais certeza de que não se trata desse blogueiro que vos escreve.

S disse...

Oi, eu não disse nada sobre as coisas. Nada de História. Tinha alguém ali que postava anonimamente em assuntos quando se tratava de História.
Uma vez quando eu postei falando sobre Revoluções burguesas algum anônimo postou lá argumentando sobre a participação popular na Rev Francesa. É inegável que houve participação popular, tem a tomada da Bastilha e talz, fatos que não foram previstos, mas que aconteceram. Mas isso não quer dizer que a Rev. Francesa não tenha sido uma revolução buguesa.
Quando a pessoa postou o comentário, eu fiquei até grilada e fui perguntar ao João Fragoso, porque considero ele o maior historiador deste país (opinião minha) ele é o cara!.
Quando escrevi alguma coisa sobre etnocentrismo, um anônimo tbm postou algo que não lembro agora.
São assuntos que não são cotidianos para a maioria das pessoas. Então eu comecei a achar que fosse alguém que estuda ou tem algum interesse por história, sociologia, antropologia ou afins. Não fiquei procurando a pessoa, mas desde que vc postou no meu antigo blog eu vinha aqui dar uma lidinha para ver o que vc andava postando...
Não respondi pq não tenho o hábito de dar atenção a anônimos. Mas não era uma argumentação impertinente.
Só isso.
Lá tem gente que sabe sobre coisas sobre filosofia, que eu com 5 períodos de filosofia não aprendi.
Acho que ficou mais claro.