10 janeiro, 2008

Diálogos impertinentes.

O sr. C acabara de expor suas idéias na reunião de início de ano que traçava as metas e o planejamento para alcançá-las. Depois de 30 minutos de explanação - onde a ausência do s nos plurais, a concordância perturbada e os neologismos curiosos já são uma marca do sr. C - ele olhou para os presentes e como percebeu nas expressões destes uma mistura de dúvida e desconforto diante das idéias expostas; dirigiu-se ao sr. Z - famoso por sempre discordar de tudo e de todos, nos seguintes termos:

- Sr. Z, o senhor tem algo a dizer?
- Não. Respondeu como se fosse uma lacedemônio.

Aqui é importante interromper para esclarecer que sempre o sr. Z falava. Sua resposta seca e lacônica pegou a todos de surpresa. Muitos esperavam os petardos do sr Z para, com mais delicadeza, algo que o sr Z não tinha, contrapor-se às idéias do sr. C, que embora ruins e gramaticalmente vexatórias, ganhavam a relevância por serem proferidas por alguém da cúpula da empresa.

-Isso muito nos supreende sr Z. Nos últimos anos o sr sempre falava, até demais, é justo que se diga; e nem sempre de forma coerente. Disse o sr C com uma sutileza de estivador.

- Pois então, retrucou o sr Z, este ano decidi, para evitar aborrecimentos, ouvir mais do que falar.

- Além de evitar aborrecimentos - continuou o sr C, agora ainda mais ácido no tom - evitamos correr o risco, sempre constrangedor, de dizer bobagens.

O sr Z riu com o canto da boca e sem mostrar os dentes, rebateu:

-Infelizmente, só não se pode evitar o risco de ouvi-las!

O sr Z, mesmo disposto a falar menos, arranja um jeito de falar mais do que deve. Não sei como ele ainda permanece na companhia.

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