15 janeiro, 2008

Comentando o artigo abaixo


O articulista inicia seu texto com uma experiência pessoal. Ele conta que na turma onde concluiu o ensino secundário, atual ensino médio, havia uma variação extrema de postura, entre os alunos. Quando a professora sabia “enfeitiçar”, todos ficavam atentos e aprendiam. Quando o professor não tinha essa habilidade, o caos se estabelecia. Não tenho porque duvidar desse relato, mas não o considero uma regra geral.

Que uma aula atraente prende mais a atenção do aluno, não há dúvida. Agora, imaginar, que numa turma, em sua totalidade, o comportamento dos alunos varie de tal forma, a depender da qualidade da aula, é forçar um pouco a barra. O Sr. Ioschpe usa um verbo muito caro aos pedagogos progressistas: o verbo enfeitiçar. Não gosto desse verbo. Explico porquê: quando se diz que um professor precisa seduzir ou mesmo enfeitiçar o aluno, mesmo sendo poético, comete-se um equívoco que considero importante. Ora, se o aluno não é seduzido ou enfeitiçado, justifica-se o fato dele não se interessar pela matéria? Nesse raciocínio, a responsabilidade do aprendizado é tarefa exclusiva do professor, quando sabemos que, se é verdade que o professor é o ator mais importante nesse processo, sem a contribuição do aluno, a tarefa de ensinar e o objetivo de fazer o aluno aprender tornam-se inócuos. Esse discurso traz embutido o equívoco de que só se aprende pelo prazer. Discordo. Pode-se até aprender melhor ou mais rápido, quando o professor ”enfeitiça” os alunos com aulas criativas, mas é possível aprender também sem esses sortilégios.

Lembro que na escola de química, o professor Oscarino Lins, de físico-química, era o mais temido pelos alunos. Seu índice de aprovação era baixo. Sabíamos que gostando ou não de suas aulas, ser aprovado exigiria esforço extra, dedicação intensa, enfim, um comprometimento maior. Poucos sentiam prazer, muitos sentiam medo. Seria melhor ter sentido alegria nessas aulas? Sim, claro. Mas aprendemos mesmo assim. Em suma, o aluno responsável pode identificar o professor picareta ou o monocórdio. Pode, inclusive, criticá-lo, às claras ou às escuras, mas isso não o impedirá de estudar a matéria com seriedade. Ao contrário, o aluno picareta, sabemos que existe, dificilmente mudará de postura por causa da qualidade da aula. Ele pode é não encontrar espaço para suas traquinagens e, por isso, terá sua ação funesta, anulada.

Para terminar esse tópico, digo que a primeira tarefa do professor não é enfeitiçar seu aluno, mas cativá-lo. Não falo aqui que se deva chalerar o rapaz e a moça, mas conquistá-los. Essa conquista é um processo contínuo que deve sempre ser buscado. Terá avanços e recuos, mas precisar ser perseguido. É claro que muitos alunos, nesse processo de conquista, podem ser enganados por professores que sabem mais fazer rir que ensinar. Todavia, buscar a empatia e a simpatia dos pupilos não é perda de tempo. Agora, afirmar, que só assim o aluno aprende, é justificar o fracasso escolar apenas na baixa qualidade das aulas ou dos professores.

Disciplina.

Muitos acreditam que os salários dos professores é a principal causa da frustração da categoria. Aposto que não é. A principal frustração é a indisciplina em sala de aula. Há vários tipos de indisciplina: desde aquela em que os alunos não respeitam a autoridade do professor, essa mais ruidosa; até aquela em que os alunos têm uma postura indiferente nas aulas, essa mais dolorosa. Em qualquer um dos casos, o professor sério deve reavaliar uma série de posturas, inclusive sua didática, mas não apenas ela.

A falta de planejamento das aulas, a mesmice na exposição, a falta de objetividade e de objetivos a alcançar durante aula, a exposição confusa, podem e geralmente provocam indisciplina. Concordo. Mas imaginar que planejando as aulas ou sendo criativo na abordagem do conteúdo, a postura atenta dos alunos virá naturalmente, é ser ingênuo ou utópico.

Quando um aluno sabe que uma atitude inadequada, que gere indisciplina, será exemplarmente coibida pela escola e não terá respaldo na sua família, dificilmente repetirá a indisciplina ou, pelo menos, terá mais pudores em fazer as suas traquinagens. Se, por um lado, é um grave erro responsabilizar apenas o aluno, a família ou a sociedade pelos exemplos abundantes de indisciplina na escola, é cair no outro extremo do erro, culpar apenas o professor e sua aula ruim, por ela. Nesse caso, como em muitos outros, a responsabilidade deve ser compartilhada por todos os agentes da aprendizagem e do aprendizado envolvidos no processo.

A raiz de toda a indisciplina, seja onde for, estou convencido, está na quebra do princípio da autoridade. Ora, se o professor não passa a ser encarado como a autoridade da sala de aula, toda indisciplina passa a ser justificada.

É verdade que muitos professores exercem ou pensam exercer essa autoridade sendo autoritários. Eis outro problema que provoca tensão em sala de aula. O aluno detesta – com razão – o professor autoritário, sobretudo quando esse autoritarismo esconde uma ou várias deficiências do professor. Nesse caso, a relação se desgasta e a aprendizagem fica comprometida, mas não impedida de ocorrer. Também é verdade que muitos professores, para fugirem desse estigma de autoritário, caem no outro extremo, o da permissividade. No primeiro caso o aluno não pode nada. No segundo, o aluno pode tudo. Em ambos, os efeitos são nefastos para a educação. Todos perdem.

O professor que exerce a autoridade em sala não a conquista nas primeiras aulas.Todavia, deve ficar claro para a turma desde a primeira aula quem é o condutor, o líder, o responsável pelo controle. Se o aluno não perceber isso nas primeiras aulas, nunca o professor exercerá a autoridade em sala; pode, inclusive, por falta de melhores recursos, descambar para o autoritarismo.

Concordo com o articulista quando ele diz: “descobre-se que o número de alunos em sala não tem impacto significativo no aprendizado, nem o salário dos professores, nem a presença de infra-estrtura rebuscada nas escolas”. Salas com multimídia, alunos com laptop, salas que mais lembram um teatro que uma escola, tudo isso será inútil se o professor e/ou o aluno não tiverem compromisso com o ato de ensinar e com o ato de aprender. Não inventaram ainda um recurso áudio-visual que faça o milagre de transformar o professor medíocre num grande professor. Aliás, sou tentado a escrever que os recursos de multimídia podem é esconder a picaretagem do professor. Ponham esses recursos ao alcance de alunos picaretas e eles darão aos mesmos uma finalidade bem distinta do ambiente pedagógico.

Se uma aula criativa não é garantia de aprendizado, a utilização de recursos tecnológicos nas aulas também não dá essa garantia. Por outro lado, se uma aula criativa tem mais chance de obter o aprendizado da maioria, a utilização desses recursos pode ser muito útil nesse objetivo. Porém, não são métodos infalíveis, como se pode supor do artigo em discussão.

Um dos pontos mais importantes do artigo é quando o autor cita alguns procedimentos que melhoram o desempenho do aluno e, digo, concordo com todos eles. Resumindo esses procedimentos temos:

  • Exercícios freqüentes melhoram o desempenho. Sobretudo se são comentados e corrigidos no devido tempo, pelo professor.

  • Provas que avaliam com mais freqüência o aluno ajudam ou, pelo menos, obrigam o aluno a estudar com regularidade e não apenas nas vésperas dos principais exames de avaliação.

  • Professores que saibam a matéria com profundidade ensinam melhor

  • Professores assíduos obtêm mais sucesso com os alunos.

Claro que numa turma de 15 a 20 alunos os procedimentos acima ficam mais fáceis de serem realizados. Mas em turmas maiores, mesmo com mais dificuldades, também é possível pô-los em prática.

O alvo

O alvo principal da crítica do articulista é a “corporação dos profissionais do ensino”, sobretudo os sindicatos da categoria. O autor deixa claro que as propostas dos sindicalistas, longe de buscarem a excelência na educação, buscam vantagens para os profissionais de ensino. O Sr Ioschpe acerta quando diz que melhores salários e condições de trabalho mais dignas não significam qualidade nas aulas, mas não vejo pecado nos sindicatos em buscar esses objetivos. O pecado está na idéia – defendida pelos sindicatos - de que essas melhoras – salários maiores, aposentadoria especial, condições dignas de trabalho - trarão como conseqüência uma educação de qualidade. Melhores salários, condições mais dignas de trabalho devem ser buscados não para melhorar a qualidade do ensino ou das aulas, porque serão inutéis se o professor não for bem formado, mas para dar ao aluno e ao professor condições mínimas de trabalho. A tarefa de cobrar qualidade na educação – no caso da escola pública – é das políticas de educação. O professor, o aluno, a escola, todos devem ser exigidos. Acho até que as remunerações deveriam prever premiações baseadas em resultados alcançados. Um professor picareta que recebe a mesma coisa que um professor responsável é um desestímulo para inovações.

Na escola pública, como no serviço público em geral, há muitas regalias. Regalias essas que mais emperram que avançam o serviço prestado à população. O papel do sindicato é defender os interesses dos profissionais do ensino, não os da educação. Esse papel cabe ao Estado através de políticas públicas para o setor.

Finalmente, o artigo termina com algumas considerações relevantes: diz o autor: “Precisamos de um reordenamento da nossa leitura da educação nacional. Cada vez que um aluno não aprende – e estão aí todos os testes, nacionais e internacionais, mostrando que o nosso aprendizado é catastrófico -, precisamos primeiro imaginar o que está errado na educação que ele recebe. Se ele não se interessa pela aula, é necessário ver se a aula não é desinteressante. Se ele não estuda, precisamos checar se ele recebe material suficiente e se tem avaliações necessárias para saber que precisa estudar. Se o aluno não faz os deveres quando chega em casa, temos de verificar se eles estão sendo prescritos pelos professores, se estão sendo corrigidos e se o fato de o aluno não os fazer tem alguma conseqüência. (...) Somente depois de esgotados esses questionamentos é que deveríamos partir para a culpabilização de pais e alunos.”

Eu sou professor e tenho que dizer: esses questionamentos são válidos. É preciso se cercar de todos os cuidados para decretarmos que um aluno não aprendeu porque não quis. A triste realidade, porém, é que mesmo se cercando desses cuidados, mesmo fazendo de tudo para a aprendizagem, em muitos casos ela não ocorre por fatores alheios ao controle da escola e do professor.

4 comentários:

Anderson Stolf disse...

Gostei bastante desse texto sobre o papel do professor e ensino. Abraço.

Gigi disse...

Acabei de ler o artigo do Ioschpe na revista veja e seu texto traduz o que penso de forma clara e coerente. Parabêns, sou professora de História em Salvador-Ba e estarei sempre por aqui, lemdo o que escreve.

Gigi

Regi@ne disse...
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Regi@ne disse...
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