31 janeiro, 2008

D Matilde, já vai tarde!

O Brasil é mesmo um país machista. A imprensa burguesa e reacionária não dá trégua para a pobre ministra Matilde Ribeiro. Primeiro, invocaram porque a pobre ministra gastou num Free Shop quase 500 reais em presentes, usando para isso o cartão corporativo, cujo limite, a fundo perdido, é garantido pelo nossos impostos. Ora, quem já viu mulher se preocupar com valores diante de uma loja? Se a fatura, ainda por cima, for paga pelos outros, aí é tentação demais! Perdôo a ministra. Gaste ministra, aproveite a chance. Não se incomode com essa burguesia podre, que não admite o pobre, o negro, a mulher, usufruírem de alguma benesse.

O Brasil é mesmo um país racista. José Genoíno, Delúbio Soares, José Dirceu, Roberto Jefferson, José Janene, estes e muitos outros, lesaram muito mais os cofres públicos. A imprensa não pegou no pé deles, tanto quanto pega no pé da ministra. A ministra, negra, mulher, com ideais nobres de humanismo, como aceitar que um negro sinta ódio de um branco, será demitida porque foi perdulária com o dinheiro público. Se esse for o critério, quem sobra na Esplanada?

O que mais me incomoda nessa demissão é que para o governo, a sociedade e mesmo para a ministra, é muito pior ser perdulário que racista. Quando, no fim de março do ano passado, essa mesma senhora em entrevista à BBC Brasil declarou, para surpresa de muitos, que achava normal que um negro odiasse um branco, permaneceu no cargo, sem constrangimento.

Quando, uma ministra de Estado, cuja pasta deveria trabalhar pela igualdade racial, incita o racismo e nada acontece, nem uma advertência, evidencia-se que, em tempos de PT no poder, caminhamos para a desgraça moral das instituições.

Há mais ironias nesse caso. D Matilde não é a mais racista do covil do PT, nem a mais perdulária. Há gente ali, muito pior. D Matilde é um símbolo: mulher, negra, infância pobre - aspectos que muita gente de miolo mole acredita que formam uma pessoa de bem - D Matilde comprova que há mulheres perdulárias, sim. Há negros, também racistas. A pobreza, o gênero, a cor da pele não são garantias de hombridade, muito menos de seriedade na vida pública.

D Matilde já vai tarde. Muito tarde.

26 janeiro, 2008

Livros nas férias

No fim do ano comprei três livros para diminuir minha proverbial estupidez e corrigir, em parte, meu espírito obtuso. Foram os livros: Lanterna na Popa, de Roberto Campos, os dois volumes, ainda estou no primeiro; Viagens à Inglaterra e à Irlanda de Aléxis de Tocqueville e Lula é minha Anta de Diogo Mainardi.

Além de ajudar a diminuir minha estupidez e de melhorar meu caráter, as citadas obras acima ainda me dão a vantagem de aprender a escrever direito. Se eu não conseguir, não culpem os autores, mas a mim e à minha inteligência embotada.

O livro de Mainardi li no Avião, na ida e na volta. Duvido que Mainardi publique aquele texto de primeira. Como ele tem 1 semana para escrever, aposto que ele faz um esboço, depois corta as gorduras e, enxuto, manda para a coluna. Prefiro pensar assim a acreditar que um texto tão primoroso saia logo de cara. Não estou desmerecendo o talento de Diogo. Dêem-me 40 dias, 400 dias, e meu texto nunca será como o dele. Quem não leu o livro, não sabe o que está perdendo. “Ah, eu acho Lula o melhor presidente do mundo, porque eu vou ler esse livro?”, diria uma alma ingênua. Para rir um pouco e aprender muito, ora!

O primeiro livro lido por mim foi o de Tocqueville. Estava procurando um outro, chamado Ensaio sobre a pobreza. No origal francês o título é Memoire de Tocqueville, mas eu não leio francês e nem inglês. Vivesse eu no século V, seria uma espécie de huno das estepes, mas como vivo nos tempos atuais, sou apenas um latino ignorante. Desculpem o pleonasmo. O livro parece não ter sido um sucesso editorial. Sua primeira e única edição é de 2003. Nas livrarias que procurei e mesmo na editora a resposta foi a mesma: está esgotado! Minha ignorância, aliada a um otimismo estúpido, insistiu: não tem jeito de adquirir o livro? Não! Descobri que no Rio de Janeiro, na biblioteca do Instituto Liberal há um exemplar, mas eu não moro no Rio. Nem na Estante Virtual o livro existe. Uma pena! Restou-me ficar com Viagens à Inglaterra e à Irlanda. O livro é excelente e respondeu a uma pergunta que eu sempre me fizera quando estudante: por que, se a Inglaterra e a França no século XIX tinham problemas sociais semelhantes, tomaram caminhos tão diferentes na condução desses problemas? Tocqueville dá uma resposta satisfatória nesse livro.

Na parte da Irlanda, aprendi muita coisa. A Irlanda, no século XIX, era de uma pobreza extrema. A situação, em muitos casos, fez-me lembrar de muitas cidades do Brasil, no século XXI. O ódio entre protestantes e católicos iam além das divergências religiosas. Talvez eu escreva sobre isso, mas agora uma certa incapacidade para escrever e uma certa saudade dos blocos do Recife, enchem-me de preguiça.

O livro de Roberto Campos está dividido em dois volumes. Por que eu paguei mais de 130 reais nesse livro? Por que a Livraria Cultura provoca em mim um consumismo desenfreado. Preciso me curar dessa compulsão. Não posso passar na frente de uma livraria, menos ainda da Cultura. Quando penso que estou curado, vou lá e gasto mais do que posso. Assim não fico rico.

O livro tem estórias muito engraçadas, mas é também uma fonte importante para entender a história do Brasil. Uma das coisas que aprendi foi que na década de 50, nos primeiros debates sobre a criação da Petrobrás, havia a proposta, derrotada, de se criar a empresa, mas sem adotar o monopólio. Nossa vocação para o atraso, definida de forma magistral por Roberto Campos com o seguinte aforismo: “no Brasil a burrice tem um passado glorioso e um futuro brilhante!”, fez com que aprovássemos o monopólio estatal na exploração do petróleo. 40 anos depois, o congresso aprovou o fim do monopólio. Resultado prático: o Brasil tornou-se auto-suficiente em petróleo. Agora imaginem essa decisão aprovada 40 anos antes?

O livro tem muitas peripécias diplomáticas, muitas situações engraçadas, mas alguns assuntos espinhosos. Os acordos de Breton Woods, a disputa entre o Bird e a EXImbank e as teorias econômicas, embaralharam meu cérebro mais acostumado com as novelas da Globo. Ainda o estou lendo, e assumo o compromisso de concluir os dois volumes até o fim do ano.

Três livros por ano é pouco. Mas é melhor que três livros na vida.

23 janeiro, 2008

Os pregões

Ainda estou em Recife cumprindo a enfadonha e árdua tarefa de acompanhar os blocos líricos pela rua da Aurora, na praça do Arsenal e no Recife Antigo. O pequeno Estêvão, corroborando sua herança pernambucana, joga os braços, as pernas, o tronco e a cabeça, quando ouve os primeiros acordes do frevo.

O motivo desse post é apenas para registrar alguns pregões da praia de Boa Viagem, aquela dos tubarões.

Manuel Bandeira em seu Evocação ao Recife, escreve os seguintes versos:

Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

Enquanto eu vigiava o pequeno Estêvão nas suas peripécias com a areia da praia, mantinha a orelha cauta para pregões curiosos, como este:

"Ei, pense... pense numa vitamina C
é o picolé da Nestlé,
que faz o cabelo crescer".

Este outro, com a gramática lulista, soube tirar do coloquialismo uma interessante musicalidade:

"Olha o camarão!
3 porção por 5"

Um outro, vendedor de óculos escuros, apela para a medicina e diz:

" Tá precisando de óculos?
O oculista tá passando.
Consulta grátis!"

O mais famoso vendedor da praia é o gordo da salada. É impossível reproduzir seu pregão, pois ele dá uma tonalidade a voz que torna seu pregão um achado, mas vou tentar.

"Sa-la-da. Ei, Salada, po-de!"

Para terminar, um recado ecológico bem humorado. Espalhada pela cidade, a propaganda do Motel Senzala lembra aos transeuntes que preservar o verde tá na moda. Diz a peça:

"Não trepe nas árvores! Recado ecológico do Motel Senzala"




15 janeiro, 2008

Recife mandou me chamar...


Pois é, meu caros. A partir de hoje, o blogueiro dá uma parada de pelo menos 10 dias. Vou a um lugar muito feio e chato: Recife. Passar uns dias numas das praias mais feias desse país: Porto de Galinhas. Até lá, minha única preocupação será com a sombra e a água fresca. Fiquem com uma série de frevos que exprimem minha paixão telúrica e minha saudade que não tem tamanho. Na imagem acima, vejam meu QG, minha base de operações. Reparem no prédio mais alto e de vidros escuros. É lá!Oh vida difícil! Como diz o compositor: "vou me embora prá lá!"

PS: abaixo tem um post tão grande que talvez em 10 dias não dê tempo de vocês o lerem na íntegra. hehehehe.


Comentando o artigo abaixo


O articulista inicia seu texto com uma experiência pessoal. Ele conta que na turma onde concluiu o ensino secundário, atual ensino médio, havia uma variação extrema de postura, entre os alunos. Quando a professora sabia “enfeitiçar”, todos ficavam atentos e aprendiam. Quando o professor não tinha essa habilidade, o caos se estabelecia. Não tenho porque duvidar desse relato, mas não o considero uma regra geral.

Que uma aula atraente prende mais a atenção do aluno, não há dúvida. Agora, imaginar, que numa turma, em sua totalidade, o comportamento dos alunos varie de tal forma, a depender da qualidade da aula, é forçar um pouco a barra. O Sr. Ioschpe usa um verbo muito caro aos pedagogos progressistas: o verbo enfeitiçar. Não gosto desse verbo. Explico porquê: quando se diz que um professor precisa seduzir ou mesmo enfeitiçar o aluno, mesmo sendo poético, comete-se um equívoco que considero importante. Ora, se o aluno não é seduzido ou enfeitiçado, justifica-se o fato dele não se interessar pela matéria? Nesse raciocínio, a responsabilidade do aprendizado é tarefa exclusiva do professor, quando sabemos que, se é verdade que o professor é o ator mais importante nesse processo, sem a contribuição do aluno, a tarefa de ensinar e o objetivo de fazer o aluno aprender tornam-se inócuos. Esse discurso traz embutido o equívoco de que só se aprende pelo prazer. Discordo. Pode-se até aprender melhor ou mais rápido, quando o professor ”enfeitiça” os alunos com aulas criativas, mas é possível aprender também sem esses sortilégios.

Lembro que na escola de química, o professor Oscarino Lins, de físico-química, era o mais temido pelos alunos. Seu índice de aprovação era baixo. Sabíamos que gostando ou não de suas aulas, ser aprovado exigiria esforço extra, dedicação intensa, enfim, um comprometimento maior. Poucos sentiam prazer, muitos sentiam medo. Seria melhor ter sentido alegria nessas aulas? Sim, claro. Mas aprendemos mesmo assim. Em suma, o aluno responsável pode identificar o professor picareta ou o monocórdio. Pode, inclusive, criticá-lo, às claras ou às escuras, mas isso não o impedirá de estudar a matéria com seriedade. Ao contrário, o aluno picareta, sabemos que existe, dificilmente mudará de postura por causa da qualidade da aula. Ele pode é não encontrar espaço para suas traquinagens e, por isso, terá sua ação funesta, anulada.

Para terminar esse tópico, digo que a primeira tarefa do professor não é enfeitiçar seu aluno, mas cativá-lo. Não falo aqui que se deva chalerar o rapaz e a moça, mas conquistá-los. Essa conquista é um processo contínuo que deve sempre ser buscado. Terá avanços e recuos, mas precisar ser perseguido. É claro que muitos alunos, nesse processo de conquista, podem ser enganados por professores que sabem mais fazer rir que ensinar. Todavia, buscar a empatia e a simpatia dos pupilos não é perda de tempo. Agora, afirmar, que só assim o aluno aprende, é justificar o fracasso escolar apenas na baixa qualidade das aulas ou dos professores.

Disciplina.

Muitos acreditam que os salários dos professores é a principal causa da frustração da categoria. Aposto que não é. A principal frustração é a indisciplina em sala de aula. Há vários tipos de indisciplina: desde aquela em que os alunos não respeitam a autoridade do professor, essa mais ruidosa; até aquela em que os alunos têm uma postura indiferente nas aulas, essa mais dolorosa. Em qualquer um dos casos, o professor sério deve reavaliar uma série de posturas, inclusive sua didática, mas não apenas ela.

A falta de planejamento das aulas, a mesmice na exposição, a falta de objetividade e de objetivos a alcançar durante aula, a exposição confusa, podem e geralmente provocam indisciplina. Concordo. Mas imaginar que planejando as aulas ou sendo criativo na abordagem do conteúdo, a postura atenta dos alunos virá naturalmente, é ser ingênuo ou utópico.

Quando um aluno sabe que uma atitude inadequada, que gere indisciplina, será exemplarmente coibida pela escola e não terá respaldo na sua família, dificilmente repetirá a indisciplina ou, pelo menos, terá mais pudores em fazer as suas traquinagens. Se, por um lado, é um grave erro responsabilizar apenas o aluno, a família ou a sociedade pelos exemplos abundantes de indisciplina na escola, é cair no outro extremo do erro, culpar apenas o professor e sua aula ruim, por ela. Nesse caso, como em muitos outros, a responsabilidade deve ser compartilhada por todos os agentes da aprendizagem e do aprendizado envolvidos no processo.

A raiz de toda a indisciplina, seja onde for, estou convencido, está na quebra do princípio da autoridade. Ora, se o professor não passa a ser encarado como a autoridade da sala de aula, toda indisciplina passa a ser justificada.

É verdade que muitos professores exercem ou pensam exercer essa autoridade sendo autoritários. Eis outro problema que provoca tensão em sala de aula. O aluno detesta – com razão – o professor autoritário, sobretudo quando esse autoritarismo esconde uma ou várias deficiências do professor. Nesse caso, a relação se desgasta e a aprendizagem fica comprometida, mas não impedida de ocorrer. Também é verdade que muitos professores, para fugirem desse estigma de autoritário, caem no outro extremo, o da permissividade. No primeiro caso o aluno não pode nada. No segundo, o aluno pode tudo. Em ambos, os efeitos são nefastos para a educação. Todos perdem.

O professor que exerce a autoridade em sala não a conquista nas primeiras aulas.Todavia, deve ficar claro para a turma desde a primeira aula quem é o condutor, o líder, o responsável pelo controle. Se o aluno não perceber isso nas primeiras aulas, nunca o professor exercerá a autoridade em sala; pode, inclusive, por falta de melhores recursos, descambar para o autoritarismo.

Concordo com o articulista quando ele diz: “descobre-se que o número de alunos em sala não tem impacto significativo no aprendizado, nem o salário dos professores, nem a presença de infra-estrtura rebuscada nas escolas”. Salas com multimídia, alunos com laptop, salas que mais lembram um teatro que uma escola, tudo isso será inútil se o professor e/ou o aluno não tiverem compromisso com o ato de ensinar e com o ato de aprender. Não inventaram ainda um recurso áudio-visual que faça o milagre de transformar o professor medíocre num grande professor. Aliás, sou tentado a escrever que os recursos de multimídia podem é esconder a picaretagem do professor. Ponham esses recursos ao alcance de alunos picaretas e eles darão aos mesmos uma finalidade bem distinta do ambiente pedagógico.

Se uma aula criativa não é garantia de aprendizado, a utilização de recursos tecnológicos nas aulas também não dá essa garantia. Por outro lado, se uma aula criativa tem mais chance de obter o aprendizado da maioria, a utilização desses recursos pode ser muito útil nesse objetivo. Porém, não são métodos infalíveis, como se pode supor do artigo em discussão.

Um dos pontos mais importantes do artigo é quando o autor cita alguns procedimentos que melhoram o desempenho do aluno e, digo, concordo com todos eles. Resumindo esses procedimentos temos:

  • Exercícios freqüentes melhoram o desempenho. Sobretudo se são comentados e corrigidos no devido tempo, pelo professor.

  • Provas que avaliam com mais freqüência o aluno ajudam ou, pelo menos, obrigam o aluno a estudar com regularidade e não apenas nas vésperas dos principais exames de avaliação.

  • Professores que saibam a matéria com profundidade ensinam melhor

  • Professores assíduos obtêm mais sucesso com os alunos.

Claro que numa turma de 15 a 20 alunos os procedimentos acima ficam mais fáceis de serem realizados. Mas em turmas maiores, mesmo com mais dificuldades, também é possível pô-los em prática.

O alvo

O alvo principal da crítica do articulista é a “corporação dos profissionais do ensino”, sobretudo os sindicatos da categoria. O autor deixa claro que as propostas dos sindicalistas, longe de buscarem a excelência na educação, buscam vantagens para os profissionais de ensino. O Sr Ioschpe acerta quando diz que melhores salários e condições de trabalho mais dignas não significam qualidade nas aulas, mas não vejo pecado nos sindicatos em buscar esses objetivos. O pecado está na idéia – defendida pelos sindicatos - de que essas melhoras – salários maiores, aposentadoria especial, condições dignas de trabalho - trarão como conseqüência uma educação de qualidade. Melhores salários, condições mais dignas de trabalho devem ser buscados não para melhorar a qualidade do ensino ou das aulas, porque serão inutéis se o professor não for bem formado, mas para dar ao aluno e ao professor condições mínimas de trabalho. A tarefa de cobrar qualidade na educação – no caso da escola pública – é das políticas de educação. O professor, o aluno, a escola, todos devem ser exigidos. Acho até que as remunerações deveriam prever premiações baseadas em resultados alcançados. Um professor picareta que recebe a mesma coisa que um professor responsável é um desestímulo para inovações.

Na escola pública, como no serviço público em geral, há muitas regalias. Regalias essas que mais emperram que avançam o serviço prestado à população. O papel do sindicato é defender os interesses dos profissionais do ensino, não os da educação. Esse papel cabe ao Estado através de políticas públicas para o setor.

Finalmente, o artigo termina com algumas considerações relevantes: diz o autor: “Precisamos de um reordenamento da nossa leitura da educação nacional. Cada vez que um aluno não aprende – e estão aí todos os testes, nacionais e internacionais, mostrando que o nosso aprendizado é catastrófico -, precisamos primeiro imaginar o que está errado na educação que ele recebe. Se ele não se interessa pela aula, é necessário ver se a aula não é desinteressante. Se ele não estuda, precisamos checar se ele recebe material suficiente e se tem avaliações necessárias para saber que precisa estudar. Se o aluno não faz os deveres quando chega em casa, temos de verificar se eles estão sendo prescritos pelos professores, se estão sendo corrigidos e se o fato de o aluno não os fazer tem alguma conseqüência. (...) Somente depois de esgotados esses questionamentos é que deveríamos partir para a culpabilização de pais e alunos.”

Eu sou professor e tenho que dizer: esses questionamentos são válidos. É preciso se cercar de todos os cuidados para decretarmos que um aluno não aprendeu porque não quis. A triste realidade, porém, é que mesmo se cercando desses cuidados, mesmo fazendo de tudo para a aprendizagem, em muitos casos ela não ocorre por fatores alheios ao controle da escola e do professor.

14 janeiro, 2008

Ele está certo?

Eu sou assinante de Veja - os petistas , os filo-petistas e aqueles que, mesmo sem saber, no fundo no fundo, são um pouco PT; podem rasgar suas vestes diante dessa minha revelação. - Antes recebia a revista como cortesia da escola em que trabalho, mas os defensores do jornalismo "isento e imparcial" trocaram-na pela Carta Capital. Então, assinei Veja. Não estou com tempo agora para comentar o artigo que segue abaixo, mas como professor preciso comentá-lo. Talvez o faça amanhã. Para quem não assina Veja e, por enquanto, lê o meu blog, deixo a matéria que só pode ser acessada por assinantes.

Educação de quem?
Para quem?

"As questões relativas à escola foram seqüestradas
pela agenda da corporação dos funcionários do ensino. Defender o professor não é o mesmo que defender
os alunos? Esse discurso é o dos profissionais do ensino"

Gustavo Ioschpe


Falemos de duas salas de aula. Na primeira delas, a professora Bety ensina matemática. O assunto pode parecer árido – geometria espacial –, mas, com suas esferas invisíveis dentro de cubos e pirâmides, Bety enfeitiça os seus alunos, que assistem à exposição da professora em silêncio compenetrado, interrompido apenas por perguntas prenhes de curiosidade. A segunda aula é de biologia. O professor, cujo anonimato preservo, é chamado, à boca pequena, de "ET" pelos alunos. Sua dicção é monocórdia e a pronúncia catequética de termos estranhos – "o ta-las-so-ci-clôôôô" – choca-se com a balbúrdia que impera entre os alunos. Pedaços de giz são atirados ao quadro-negro, bolinhas de argila vão parar nas paredes. A algazarra é tamanha que, no dia em que as provas corrigidas do bimestre seriam entregues, um aluno resolve trazer uma arma de brinquedo para intimidar o professor.

Essas duas classes, na verdade, são uma só. O mesmo colégio, os mesmos alunos, o mesmo espaço físico, os dois retratos ocorridos no mesmo ano. Conheço-a bem: é a classe na qual me formei no ensino secundário.

Não conheço estudos empíricos sobre o assunto, mas durante a minha vivência de estudante casos como esses descritos acima formaram a convicção de que o problema da indisciplina na escola está fortemente associado à qualidade da aula que está sendo ministrada. Eis uma idéia que deve soar no mínimo estranha, possivelmente sacrílega, a qualquer pessoa bem informada que acompanha o debate educacional brasileiro. Pois, na questão da indisciplina, certamente predomina a leitura de que esse é um fenômeno de responsabilidade exclusiva do aluno – desajustado, vagabundo, porra-louca etc. –, de sua família – os pais que não ensinam mais valores aos filhos e só se lembram de ir à escola para reclamar quando o filho leva bomba – e da sociedade em geral, cada vez mais violenta e desrespeitosa.

Em realidade, não é apenas na questão da indisciplina escolar que a responsabilidade pelos nossos fracassos é atribuída à sociedade ou aos alunos e que os agentes do sistema educacional, especialmente os professores, aparecem apenas como as vítimas, que lutam sem jamais desistir apesar da enorme maré contra. Todas as questões relativas à escola foram seqüestradas pela agenda da corporação dos funcionários do ensino. Pense naquilo que você, leitor, acredita ser a solução para o problema da nossa educação. Provavelmente será algo que englobe alguns ou todos os seguintes fatores: aumento do investimento em educação, aumento do salário dos professores, diminuição do número de alunos nas salas de aula, aumento do número de horas letivas. Agora pense nesses fatores e pergunte-se: a quem eles beneficiam? Aos alunos ou aos profissionais do ensino?

Você provavelmente deve estar pensando: não é a mesma coisa? Professores mais satisfeitos e motivados não darão aulas melhores? Defender o professor não é o mesmo que defender os alunos? Você sucumbiu à propaganda da corporação, mas não se assuste: assim como os alemães da época hitlerista acreditavam que os não-arianos eram raças inferiores e os cubanos sob Fidel crêem que podem creditar todos os seus males à perseguição dos Estados Unidos, é difícil para qualquer um ter uma idéia diferente da propagada pelo discurso único. No caso da nossa educação, esse discurso é o dos profissionais do ensino.

É uma cantilena que tem lógica, claro. Faz sentido imaginar que professores e funcionários de ensino mais bem pagos serão mais motivados e, portanto, darão aulas melhores, ou que conseguirão dedicar mais atenção a cada aluno em salas menores, ou que a presença de equipamentos multimídia ou de uma quadra poliesportiva tenha efeitos positivos – assim como é bastante lógico imaginar que o Sol orbita ao redor da Terra, que o planeta é quadrado, que uma garrafa cheia de água chegará antes ao solo do que uma garrafa vazia ou que a melhor forma de combater uma doença que se espalha pela corrente sanguínea é retirando sangue do corpo por meio de sanguessugas. Muito do que é lógico é falso, e muito do que é verdadeiro é contra-intuitivo. A única maneira de estabelecer a verdade é testando, empiricamente.

No campo educacional, essa medição vem sendo feita de forma sistemática e metódica há mais de dez anos, e revela alguns achados talvez surpreendentes. Quando se analisa o desempenho de alunos em testes e se cotejam as características de suas escolas e professores, descobre-se que o número de alunos em sala de aula não tem impacto significativo sobre o aprendizado, nem o salário dos professores, nem a presença de infra-estrutura rebuscada nas escolas. Esses mesmos estudos empíricos revelam outros dados interessantes. Alguns dos fatores associados ao melhor desempenho do alunado não apenas não trazem benefícios aos professores como fazem com que tenham de trabalhar mais: alunos que fazem o dever de casa com mais freqüência, por exemplo, têm desempenho melhor – e esse desempenho é ainda melhor se o professor comenta a sua avaliação, em vez de apenas marcar "certo" ou "errado". Também têm desempenho superior alunos que são avaliados constantemente por meio de provas, alunos de professores com um conhecimento mais aprofundado da matéria que ensinam e alunos de professores que faltam menos ao trabalho. Não é curioso que nenhum desses fatores conste da agenda dos sindicatos de professores quando eles fazem manifestos pela melhoria da qualidade da educação? Não, claro que não. Sindicatos devem defender a sua categoria. O problema não é que a corporação dos profissionais do ensino puxe a brasa para a sua sardinha; o problema é que eles tenham conseguido fazer com que o país aceite como sendo um programa para o bem comum aquilo que é, na verdade, a defesa dos interesses da sua categoria profissional.

Esse deslocamento de prioridades só é possível porque há um vácuo na nossa sociedade, que parece ter se esquecido de quem é a nossa educação e para quem ela é feita. É bom lembrar, portanto, que a educação pública é de, digamos, "propriedade" do povo brasileiro, e não apenas dos profissionais que nela trabalham. Esses profissionais são servidores públicos e, portanto, não cabe a eles formular política pública, mas sim acatar o programa decidido pela sociedade por meio dos seus representantes eleitos. E isso em todos os níveis: assim como o professor de 1ª série de uma escola pública não pode decidir quando o aluno deve ser alfabetizado, os doutores da pedagogia da USP não podem formar, com dinheiro público, professores que eles desejam que sejam vanguardistas da revolução socialista. Finalmente, precisamos lembrar para quem é nossa educação. Um sistema educacional é criado para educar os alunos. É isso – só isso – que importa. Se as salas de aula são agradáveis ou não para o professor e se a escola é suficientemente convidativa para os seus funcionários são questões que deveriam ser relevantes apenas na medida em que comprovadamente afetam o desempenho dos alunos. A idéia de que nosso aluno não aprende porque não se interessa ou porque os pais não se importam com a escola é ridícula, para não dizer maliciosa. Seria algo na composição do nosso ar, ou algum vírus na água que os brasileiros bebem, que aniquila a curiosidade das nossas crianças e o desejo dos pais de ver os filhos progredindo na vida?

Precisamos de um reordenamento da nossa leitura da educação nacional. Cada vez que um aluno não aprende – e estão aí todos os testes, nacionais e internacionais, mostrando que o nosso aprendizado é catastrófico –, precisamos primeiro imaginar o que está errado na educação que ele recebe. Se ele não se interessa pela aula, é necessário ver se a aula não é desinteressante. Se ele não estuda, precisamos checar se ele recebe material suficiente e se tem as avaliações necessárias para saber que precisa estudar. Se o aluno não faz os deveres quando chega em casa, temos de verificar se eles estão sendo prescritos pelos professores, se estão sendo corrigidos e se o fato de o aluno não os fazer tem alguma conseqüência. Se os pais não participam da escola, devemos questionar se a escola se organiza de maneira a realmente permitir a participação dos pais, se eles se sentem convidados ou ignorados pelos diretores e professores de seus filhos, se percebem a escola como um espaço no qual podem e devem atuar ou como um ente distante, alheio, fechado. Somente depois de esgotados esses questionamentos é que deveríamos partir para a culpabilização de pais e alunos.

Parece radical, mas na verdade é óbvio. Se parece estranho, é bom sinal: do jeito que anda nossa educação, é bastante provável que o senso comum esteja errado.


13 janeiro, 2008

Uma mão lava a outra.

O que mais me irrita nos petistas ou nos filo-petistas ou em outros imbecis da espécie, é o discurso cínico que produzem para justificar as tramóias, a ilegalidade ou o roubo puro e simples. Quando a CPMF foi derrubada, muitos desses citados acima tiveram a desfaçatez de culpar a oposição que com seus votos, impediu que os recursos da CPMF, em sua totalidade, fossem para a saúde. O presidente havia garantido, diziam. A palavra de Lula vale tanto quanto um bago de jaca mole mastigado. Não custa lembrar que o presidente prometera não aumentar a carga tributária. O que aconteceu?

Atuando sempre como militantes e não como pensadores, muitos acadêmicos e jornalistas que têm seu almoço direta ou indiretamente, pago pelo governo, dão entrevistas, escrevem artigos, têm colunas, blogs e neles procuram legitimar a desfaçatez, a canalhice, a mentira, que tomaram conta desse país nos últimos 5 anos.

Hoje, quando um petista ou animais da mesma espécie, vem me dizer que não houve mensalão, que foi tudo invenção da mídia golpista, mostro a entrevista do capitão da quadrilha na Revista Piauí. Pela primeira vez um crápula - este verdadeiro- da cúpula, confessa sem pejo, como funcionava o esquema ilegal. José Dirceu declara que o PT, através de Delúbio, procurava empresários para conseguir a grana que deveria ajudar candidatos do partido. José Dirceu não diz, mas ele sabe que Lula ao invés de formar uma coalizão com o PMDB, lá em 2003, decidiu comprar os deputados do PP, PTB, PL - hoje PR - e outros nanicos. Não que a aliança com o PMDB fosse uma garantia de honestidade, longe disso. Mas ao menos seria uma aliança baseada na legalidade institucional. Distribuir cargos em troca de apoio no congresso é imoral, mas a lei permite e faz parte do jogo. Distribuir dinheiro a partidos e a deputados para ter apoio no congresso , é um acinte! É o assassínio da democracia.

O novo escândalo é a compra da Brasil Telecom pela Telemar/oi. Essa operação bilionária, para se concretizar, precisa de um decreto presidencial mudando a lei que proíbe que uma operadora fixa compre outra, do mesmo ramo. É o caso em questão. Os canalhas já começaram a divulgar por aí que esta operação vai produzir uma mega empresa nacional para concorrer com as multinacionais. Logo, têm justificado a ilegalidade com o discurso do patriotismo, quando as verdadeiras razões para essa alteração da lei, são outras, bem mais privadas. A escumalha que está sempre pronta a justificar os crimes do PT, do governo e das esquerdas, já encontrou seu discurso cínico para defender tamanha ilegalidade. Estamos defendendo o capital nacional!

Esses estúpidos pensam que todos os brasileiros sofrem do mesmo mal. Só um dado para marcar essa operação como um pagamento de contas. Leiam abaixo:

Por Leonardo Souza e Fábio Zanini, na Folha. Volto depois:
Um dos principais acionistas privados da Oi e maior interessado na compra da Brasil Telecom, o grupo Andrade Gutierrez foi também o maior financiador do PT em 2006, ano com o último dado disponível.A construtora mineira doou R$ 6,4 milhões para o partido -dinheiro usado sobretudo para financiar a além de outras campanhas petistas. Em um distante segundo lugar, de acordo com a prestação de contas feita ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), veio o Santander, com contribuição de R$ 3,23 milhões.Além da doação ao partido, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,Andrade Gutierrez doou R$ 1,52 milhão diretamente para a campanha de Lula em 2006.Para que a Oi possa comprar a BrT, é preciso um decreto presidencial mudando a legislação. O governo apóia a venda da BrT (...) Leia mais aqui.

Querem um exemplo de um jornalista que come na mão do governo? Leiam sua coluna e vejam que inocente é o sacripanta. Em todo momento ele justifica a mudança de um decreto, não estou falando de uma mudança de canal de TV, mas de um decreto que regulamenta as outorgas, com a promessa de se fazer uma grande empresa nacional - o que é verdade - capaz de fazer frente às gigantes internacionais do setor - o que não é uma garantia. A cereja desse bolo solado é que a possível mudança desse decreto beneficia o "Ronaldinho" de Lula, seu filho Lulinha, um dos donos da Gamecorp que recebe recursos da Telemar/oi que vem a ser a empresa que quer comprar a Brasil Telecom, operação que depende apenas, para ser concretizada, de uma mudança de decreto que só pode ser feita pelo pai do Lulinha.

Eis a ética do homem que disse que ninguém no Brasil tem mais ética do que ele.




12 janeiro, 2008

Aconteceu num domingo...

Estêvão está, pela primeira vez, sob os meu exclusivos cuidados. Temo que ao fim, quem precise de cuidados seja eu. Já dei a papinha dele e nessa operação consegui sujar a cadeirinha, a roupa - minha e dele - o chão, até as cortinas! O que sobrou, ele comeu.

De reprente ele começou a querer braço e a choramingar de uma maneira irritante. Sem alternativa, aquiesci ao seu choramingado, e para minha surpresa, em pouco tempo ele desmaiava... de sono.

Dormiu 1 hora. Essa é a média dele, seja de dia, à tarde ou de madrugada.

Acordou meio chato, acho que todos acordam um tanto mal humorados. Passeei com ele, ele ficou sério. Parecia não querer papo, e olhe que me esforcei: fiz besourinho, voz de imbecil, ajoelhei-me, mostrei gato, cachorro, passarinho... Nada o demovia da atitude solene de observar ao redor sem qualquer demonstração de satisfação.

Ao final do passeio ele começou a esboçar um protesto. Voltei para casa. Tentei dar maçã - sempre acho que quando ele chora ou fica chato só pode ser duas coisas: bumbum sujo ou fome. A primeira hipótese eu tinha descartado, pois acabara de trocar a fralda dele. A segunda, pensei resolver com a maçã RED, mas ela estava intragável e, claro, ele não comeu. Apelei para a ameixa vermelha, deu certo. Ele comeu duas.

Parou de chorar e começou a mexer nos meus livros. A prateleira mais baixa já foi dessarumada, todos os livros e revistas no chão.... "Não Estêvão! Não pode ras..."

preciso ir.


Notas escolares

Certa vez, uma orientadora educacional entrou em minha sala de aula, pediu licença, coisa rara hoje em dia, e dirigiu-se à turma nos seguintes termos:

- Pessoal, estou muito triste com vocês. Vocês estão na 7a série e já não são mais bebezinhos. É muito feio a maneira como vocês têm se tratado mutuamente. Palavras agressivas, palavrões, um mandando o outro calar a boca. Vocês já me viram mandar algum de vocês calar a boca? Professor Zé Paulo, o senhor manda seus alunos calarem a boca?

Fiquei constrangido porque minutos antes da orientadora entrar eu tinha dito a uma aluna: "M, vamos brincar de calar a boca?" A turma, diante da pergunta, não teve outra reação que não uma sonora gargalhada. Tive que responder: "Sim, eu mandei há pouco." A própria aluna M veio em minha defesa. Disse a tagarela:

- O Zé Paulo quando manda a gente calar a boca, diz com educação e carinho.

Na Italia, algumas professoras tomam medidas mais radicais.

10 janeiro, 2008

Diálogos impertinentes 2

D. T era engenheira química e responsável pelos índices de qualidade de um dos produtos da empresa. Insegura, com muitos problemas pessoais e pressionada pelos "chefes", inicia a reunião com a equipe técnica, nos seguintes termos:

- Essa é a sexta reunião só este mês e nada mudou nos nossos índices de qualidade. Estão todos uma merda! - Talvez o leitor e ainda mais a leitora estranhem o linguajar usado acima, principalmente porque se tratava de uma dama, mas numa fábrica, a expressão vulgar acima é uma das mais inocentes. Continuou D. T ainda mais nervosa:

- Saibam que todos são responsáveis pela qualidade do produto. Olhe isso aqui: CO2 abaixo da especificação, brix acima, perda de açúcar, até o torque está fora da faixa! Um absurdo! Essa já é a sexta reunião gente, o que temos que fazer agora?

- Menos reuniões! Disse o senhor Ferreira com uma tranquilidade aterradora.

O sr Z, que nessa época era apenas um estagiário, riu à socapa e gostou da resposta do sr. Ferreira.

Diálogos impertinentes.

O sr. C acabara de expor suas idéias na reunião de início de ano que traçava as metas e o planejamento para alcançá-las. Depois de 30 minutos de explanação - onde a ausência do s nos plurais, a concordância perturbada e os neologismos curiosos já são uma marca do sr. C - ele olhou para os presentes e como percebeu nas expressões destes uma mistura de dúvida e desconforto diante das idéias expostas; dirigiu-se ao sr. Z - famoso por sempre discordar de tudo e de todos, nos seguintes termos:

- Sr. Z, o senhor tem algo a dizer?
- Não. Respondeu como se fosse uma lacedemônio.

Aqui é importante interromper para esclarecer que sempre o sr. Z falava. Sua resposta seca e lacônica pegou a todos de surpresa. Muitos esperavam os petardos do sr Z para, com mais delicadeza, algo que o sr Z não tinha, contrapor-se às idéias do sr. C, que embora ruins e gramaticalmente vexatórias, ganhavam a relevância por serem proferidas por alguém da cúpula da empresa.

-Isso muito nos supreende sr Z. Nos últimos anos o sr sempre falava, até demais, é justo que se diga; e nem sempre de forma coerente. Disse o sr C com uma sutileza de estivador.

- Pois então, retrucou o sr Z, este ano decidi, para evitar aborrecimentos, ouvir mais do que falar.

- Além de evitar aborrecimentos - continuou o sr C, agora ainda mais ácido no tom - evitamos correr o risco, sempre constrangedor, de dizer bobagens.

O sr Z riu com o canto da boca e sem mostrar os dentes, rebateu:

-Infelizmente, só não se pode evitar o risco de ouvi-las!

O sr Z, mesmo disposto a falar menos, arranja um jeito de falar mais do que deve. Não sei como ele ainda permanece na companhia.

08 janeiro, 2008

O começo é sempre difícil - 1a parte.

Eu iniciava minha carreira de professor de história em agosto de 2000. Por essa época ainda conciliava meu trabalho em sala de aula com as análises químicas e o acompanhamento da produção no que se chamava packaging (não sei se o termo está exato nem se está escrito corretamente) de refrigerante. No ano seguinte, sairia da Brahma em condições curiosas, que depois, talvez, eu conte, e passava apenas a dar aula. Sem querer desencorajar aqueles que pretendem se iniciar na carreira, mas relatando o meu caso particular, basta dizer que comoprofessor passei a ganhar 7 vezes menos do que eu ganhava como Técnico em Química.

A primeira escola que meu deu uma oportunidade foi o Colégio Avançar, em Candeias, no Grande Recife. Consegui esse emprego através de um importante “QI”: Maria de Lourdes - engenheira eletrônica e pianista nas horas vagas - sabia da minha intenção em dar aulas. Como a família dela era dona do supracitado colégio, ela me fez o convite e, claro, aceitei.

Professor Airton, pai de Maria de Lourdes, recebeu-me com uma certa desconfiança. Aliás, a maioria das pessoas quando me vêem têm uma impressão pouco lisonjeira de minhas capacidades. Lembro que em Brasília, duas escolas religiosas, dirigidas por irmãs, excluíram-me do processo seletivo por eu “ser muito novo”. Novo? Eu tenho 28 anos irmã! – à época, gente – “Pois não parece”, respondeu uma delas. Ainda bem que isso não se tornou uma regra geral. Tanto, que atualmente trabalho em duas escolas em Brasília, ambas católicas. Mas já tergiversei demais.

Professor Airton disse que faria uma experiência comigo: eu daria aulas aos sábados para um pré-vestibular e, se desse certo, fecharia um contrato comigo. Dessa forma, passei a dar aulas de 08 às 11 horas em Candeias e depois, aboletava-me em uma, duas, às vezes três Kombis, para chegar à fábrica que fica às margens da BR 101 sul, no município do Cabo de Santo Agostinho. O que mais me incomodava não era a jornada dupla – eu saía da fábrica às 22:00 horas - mas chegar antes da 14 horas, horário que iniciava o turno vespertino. Fiquei nessa brincadeira até dezembro. Em janeiro eu consegui meu desligamento da Brahma e pude, finalmente, descobrir o mistério de se trabalhar mais e se ganhar menos.

Em 2001 iniciei minhas atividades, digamos, regulares no Colégio Avançar. Essa escola tinha algumas qualidades, em se tratando de escolas privadas de Recife: estava rigorosamente dentro da lei, pagava aos professores sem atraso e depositava FGTS dos funcionários. No entanto, apresentava, não defeitos, mas algumas inconveniências: o valor da hora aula era baixíssimo. Algo entre 4 a 7 reais, no Ensino Médio! Era muito longe de minha casa, cerca de 1 hora de ônibus. Com o tempo percebi que o custo das passagens transformava o meu salário de irrisório em ilusório.

Passei apenas 1 ano nessa escola. Pedi demissão para trabalhar em outra, mais perto de casa. Porém, em tudo, do salário à decência nas relações trabalhistas, totalmente diferente - para pior - do que o Colégio Avançar. No tempo em que fiquei na escola em Candeias tive alguns sucessos, coisa rara para quem está iniciando a carreira, mas um estrondoso problema que depois de anos, enxergo como uma lição, que só foi aprendida há pouco tempo, confesso.

O caso

Estava dando aula numa turma da 8ª séria e havia uma menina que tinha a fama de ser a mais inteligente da turma. Atualmente, um aluno que estuda em casa, cumpre as tarefas e consegue boas notas nos exames, é logo tachado de inteligente. Eu prefiro chamá-lo de responsável. Essa menina não gostou de mim. Ou melhor: não gostou de perceber que para mim ela era apenas mais uma aluna. Acostumada aos paparicos dos outros professores, ela não entendia porque eu não a tratava como ela merecia. Devo dizer de minha imensa dificuldade em “chalerar” as pessoas. Fui criado num regime onde cada um faz sua parte, de preferência, da melhor maneira, sem necessidade de afagos ou lisonjas. Só mais tarde percebi que esses afagos e essas lisonjas ajudam, e muito, o nosso trabalho em sala. Mas eu era novo, inexperiente e me achava o máximo por ser professor. É claro, que em tudo, eu estava enganado. Numa correção de exercício, a referida aluna não respondeu a uma pergunta que passei como atividade. Perguntei a razão e ela me respondeu: “não tinha na apostila, professor. Se não tinha, não respondi.” Surpreso com a resposta - já disse que eu era inexperiente - admoestei, pensando que fazia um bem, a aluna dizendo que ela ou qualquer outro aluno, não pode ficar bitolado às apostilas da escola. Um gaiato escandiu as sílabas: “bi-to-la-do?” Expliquei que bitolado era uma pessoa de idéias curtas, incapaz de ver além do que está na frente de seu nariz. Como um cavalo que usa aquelas viseiras para evitar distrações durante a cavalgada. A menina chegou em casa em fúria. Disse para o pai que a chamei de égua, burra, incapaz, que a humilhei em sala de aula. Contou a estória do jeito dela e, o pai, claro, acreditou piamente na filha. Geralmente sempre ficamos do lado daqueles que nos são caros. Sempre enxergamos no "outro", as más intenções. Nos nossos, há, no máximo, enganos ou exageros. Erros, nunca! O pai, uma fera, foi me “pegar” na escola. A coordenação, a direção e a orientação, deixaram-me numa sala com o pai da aluna. Ele uma fera e eu tentando explicar o óbvio. A conversa foi tensa, mas acabou bem. Todavia, fiquei chateado com a escola que me deixou sozinho naquela hora. Sobretudo porque eu era um neófito na profissão. Não esperem solidariedade de ninguém. Ela dificilmente virá nessas horas.

Depois desse incidente, minha relação com a escola foi se deteriorando. Com exceção do diretor do colégio, o professor Airton, os demais membros do corpo da direção não queriam minha permanência. A mulher do professor Airton, uma espécie de vice-diretora, por exemplo, dizia a todos que eu era arrogante, grosseiro, presunçoso – eu ainda não havia conquistado o direito à outras qualidades, tais como: intolerante, crápula e covarde – Já o seu marido, no dia que acertei minha demissão, despediu-se com palavras encorajadoras. Exaltou minha responsabilidade profissional, minha seriedade e me exortou a continuar nesse caminho. Duas pessoas tão próximas com idéias tão diferentes. A julgar pelo que sou hoje ou pelo que me tomam algumas pessoas, tendo a crer que a mulher do professor Airton não parecia estar de toda errada...

04 janeiro, 2008

Da polêmica

Bem... Blogildo foi mais generoso do que eu quanto aos elogios que trocamos. Eu disse que esconder sua crença de seus leitores quando ele tratava dos temas cristãos, não me parecia uma atitude honesta. Ele me provou que falou sim, num post de outubro de 2006, onde ele republicava um post da AOL de outubro de 2005, que era uma Testemeunha de Jeová. Naquele post havia apenas um comentário, o do João Batista. Todavia, como ele provou que falou que era uma TJ, retiro a “atitude desonesta por esconder a crença” e me desculpo por tê-la usado.

Eu disse que ele foi mais generoso do que eu nos elogios. Blogildo me chamou de mentiroso, crápula, covarde, intolerante, mandou-me um e-mail me convidando para a peleja e até um de seus leitores disse que minha busca por rótulos era uma atitude petralha. Claro que chamar alguém de petralha, como muitas vezes chamo aqui, é também criar um rótulo e nessa lógica, quando chamamos alguém de petralha, estamos, quer se goste ou não, criando um rótulo para essas pessoas. Enfim, criar um rótulo não é privilégio ou defeito dos petralhas.

Penso que cometi dois erros básicos:

1 - chamei Blogildo de jeovita, o que é um insulto para as TJ

2 - Disse que esconder a sua fé quando escreve sobre temas cristãos se configurava uma atitude desonesta, o que fez Blogildo concluir que o tenha chamado de desonesto. Como fiquei convencido de que ele não escondeu sua crença, apenas não a divulgava sempre - e talvez por isso boa parte dos seus leitores não soubessem de sua fé religiosa- retrato-me por isso.

Os amigos do Blogildo, alguns cristãos, outros nem tanto ou nada cristãos, decidiram me rotular de intolerante e violento. Como o papel de vítima sempre cai bem, virei o perseguidor das minorias, o preconceituoso, o que rotula e o aproveitador que tentou usar o preconceito do “leitor médio” contra os jeovitas para combater os argumentos de Blogildo.

Desde o começo, e o João Batista entendeu assim que leu, quis partilhar uma descoberta pessoal que me revelou e me fez entender as opiniões religiosas do Blogildo. Isso sempre esteve claro. Depois que descobri que ele era um Jeovita, fiquei tranqüilo, pois seus posts condenando a celebração do Natal, a divindade de Cristo, a imortalidade da alma etc. passavam a fazer sentido e agora era apenas a opinião de alguém - que para mim, repito, para mim- em matéria de fé cristã, não tem relevância.

Disse e repito que não me importa que ele seja uma Testemunha de Jeová. O que importou para mim foi descobrir isso e passar a entender os seus textos sob outra ótica. Pensei então que além de mim, outros leitores talvez não soubessem de sua religião e como aconteceu comigo, poderiam entender melhor suas opiniões. Por isso, publiquei o post Agora eu entendo o Blogildo.

Logo depois, em seu post sobre o Natal, Blogildo me respondeu na seção de comentários e, de pronto, respondi, lá mesmo; mas ele não publicou minha resposta. Por isso, chateado com essa atitude, decidi publicar outro post: Respondendo ao Blogildo. À diferença dele, publiquei sua resposta sem reservas e fiz mais: a transformei num post. Para que de repente, ficando apenas nos "coments", alguém não soubesse da sua resposta. A partir daí, fui transformado no covarde, no intolerante, no perseguidor.

O que desconfio é que muitos de seus leitores não conhecem a base doutrinária da fé dos jeovitas. Talvez para outros tantos isso não importe. Mas penso que é importante. Seria de bom alvitre que Blogildo os esclarecesse nesse ponto. Mas é apenas uma sugestão.

Não tive a intenção de ofender Blogildo. Pensei que, ao dizer que ele não teve uma postura honesta ao omitir sua crença religiosa quando tratava de temas religiosos, não fosse uma ofensa pessoal. Blogildo, sim, teve, não só a intenção de me ofender, mas a baixeza de me chamar de crápula e covarde e me mandar um e-mail me incitando à polêmica. Ele talvez seja mesmo mais cristão do que eu.

Recebi alguns comentários que eram ofensivos ao Blogildo, à sua fé, à sua família e a alguns de seus leitores, que não publiquei. Isso é uma prova de que nunca foi minha intenção desmascará-lo, ateá-lo fogo ou não me incomodar com a beleza do defunto no velório.

De toda essa polêmica aprendi que na blogosfera tenho poucos amigos. Gente que não leu o meu texto como foi escrito, preferindo entendê-lo de forma deturpada, em solidariedade ao Blogildo. Gente que veio ao meu blog comentar minha “intolerância”, a polêmica, mas que silenciaram, quando Blogildo disse que eu era um crápula e um covarde.

Não irei mais voltar a esse tema!



02 janeiro, 2008

Da educação.

Quem disse que educar é um ato de amor? Educar é um ato de dor. Há pouco, eu e minha mulher - mais ela do que eu - enfrentamos a mais séria birra do pequeno e bravo Estêvão. Ele chorava, soluçava, engasgava, corria o berço, levantava os bracinhos para sair de lá, e nós, com uma tremenda dor no coração, com uma vontade imensa de acudir, suportamos os minutos de protesto veemente dele e não jogamos por terra a intenção de fazê-lo mostrar que não é agindo assim que ele conseguirá as coisas.

Dizem que ao se ter filhos, perdoam-se os pais. Acho que esse adágio não está muito longe da exatidão.

Blogildo responde e ataca.

Vejam só! Blogildo, o sempre polido e educado, parece, perdeu a compostura. Não me importo. Prefiro assim. Ele fez um comentário no post Respondendo ao Blogildo (vejam abaixo) que - à diferença dele - publiquei sem reservas. Porém, farei mais: vou publicar como um post, para que todos leiam sua resposta e tirem suas próprias conclusões.

Ele já começa me chamando de mentiroso, uma grosseria sem sentido, sobretudo, porque vou provar que não menti. Segue, esforçando-se para ser polido, mas com os dentes e as garras à mostra - tal como T-rex que ilustra seu personagem - a propor desafios, a duvidar da religiosidade dos outros, enfim, parece que ele ficou bravo.

A resposta dele é meio extensa, por isso, só vou comentá-la em outro post.

Fui aos arquivos de 2006, e, até junho, não vi um só post em que você se declarou Testemunha de Jeová. No máximo, havia referências indiretas, como você escrever que pertence a uma minoria religiosa. Mas declarar de forma clara que é um jeovita, não li. Sou capaz de apostar que poucos – dos que lêem o seu blog - saberiam dizer qual sua religião. Isso para mim é omiti-la. Com qual propósito? Não sei, apenas desconfio. Talvez em algum outro post você tenha declarado sua fé, mas essa confissão, se existiu, foi quase clandestina no conjunto de seus posts sobre temas cristãos.

O que você diz é mentira, CostaJr. Simples assim. Deixei claro minha religião no Blog. Se você não procurou, lamento a sua indisposição de procurar a verdade.

Meus pais possuíam a Bíblia e fui criado como Testemunha de Jeová (e sou até hoje), religião que apesar dos preconceitos contra suas doutrinas, respeita a Bíblia acima de tudo.
http://blogildoblogger.blogspot.com/2006/10/ba-do-blogildo-aol-30102005como-e-por.html

Mais explícito que isso impossível!

O Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho DEFENDEM o catolicismo. O que é bem diferente de se afirmar católico. Duvido que eles freqüentem às missas aos domingos! Que raio de católico é esse? Eu me afirmo cristão. Me afirmo como Testemunha de Jeová (não como o pejorativo e errôneo “jeovita”).
Honestidade não tem nada a ver com isso. Eu desafio os leitores do meu blog a lerem suas Bíblias e confrontarem o que você chama de “dogmas e símbolos sagrados” com o que está escrito no texto sacro. Geralmente a Bíblia diz algo diferente do que o dogma ou o símbolo afirma. E desafio sempre a me mostrarem na Bíblia.

Eu havia esquecido desse post do Miguel de Servet. Foi um esquecimento. Não foi DESONESTIDADE. Eu deveria ter dito que GERALMENTE, não cito as publicações das TJ. Cito o que qualquer um pode aferir em publicações disponíveis em livrarias. Acho bastante prático.

A Tradução do Novo Mundo não é uma Bíblia particular das TJ. É uma tradução entre tantas outras que existem. Por sinal, uma tradução muito respeitada e coerente. Mas não utilizo apenas ela para expor o que considero relevante.

Quem sobreviverá ao fim do mundo é decisão e julgamento divino. A Bíblia indica que haverá sobreviventes ao julgamento divino. Quem sobreviverá, só Deus sabe, CostaJr. Seria no mínimo tolo afirmar o contrário.

Pergunto: No dogma católico, todo mundo é salvo? Ou só a ICAR é "coluna e amparo da verdade"?

A questão do sangue é polêmica gratuita. Se você pesquisar direito verá que TODAS as igrejas cristãs -católicas e protestantes - eram contra as transfusões de sangue quando a medicina começou a desenvolvê-las. Pergunto: Por que será que elas mudaram de idéia em relação ao uso do sangue?

Eu faço proselitismo, sim. De casa em casa. Como TODOS os cristãos deveriam fazer e não fazem.

Não vivo repetindo que sou Testemunha de Jeová pelas duas razões que já dei. Parecem que elas são insuficientes para você. Você diz que não há problema em ser Testemunha de Jeová, mas, se você fosse tão honesto quanto pretende diria que, ao menos pra você, há problema sim!

E outro ponto: Eu NÃO respondo pelas testemunhas de Jeová. É bom que isso fique bem claro. Da mesma forma que Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho NÃO respondem pelas doutrinas da ICAR. Estou falando alguma bobagem?

A questão é: O que eu disse sobre a Bíblia e as doutrinas cristãs mudam só por que sou TJ?
Ou será que você pretende usar o preconceito que já existe entre o leitor mediano contra as testemunhas de Jeová para melhor combater meus argumentos?

Ps.: Caso você não tenha notado, minha produção no blog caiu um pouco no final do ano. Isso me impediu de ter responder no tempo que você julgava importante. O problema foi timing. Só isso.