21 dezembro, 2007

"Pelo tempo do Natal"

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Acima, o cenário. Abaixo, a história.

Deixo-vos em forma de versos, a triste história de uma menina que um dia, apaixonada, mirou os sobrados, as montanhas e as nuvens no céu de Vila Rica, pela última vez.

Como trilha sonora, o adágio do compositor italiano Benedetto Marcello, do século XVII.


ROMANCE IV OU DA DONZELA ASSASSINADA

“Sacudia o meu lencinho

para estendê-lo a secar.

Foi pelo mês de dezembro,

pelo tempo do Natal.

Tão Feliz que me sentia,

vendo as nuvenzinhas no ar,

vendo o sol e vendo as flores

nos arbustos do quintal,

tendo ao longe, na varanda,

um rosto para mirar.

“Ai de mim, que suspeitaram

que lhe estaria a acenar!

Sacudia o meu lencinho

para estendê-lo a secar.

Lencinho lavado em pranto,

Grosso de sonho e de sal,

De noites que não dormira,

Na minha alcova a pensar,

- porque o meu amor é pobre,

de condição desigual.

Era no mês de dezembro,

Pelo tempo do Natal.

Tinha o amor na minha frente,

Tinha a morte por detrás:

Desceu meu pai pela escada,

Feriu-me com seu punhal.

Prostrou-me a seus pés, de bruços,

Sem mais força para um ai!

Reclinei minha cabeça

Em bacia de coral.

Não vi mais as nuvenzinhas

Que pasciam pelo ar.

Ouvi minha mãe aos gritos

E meu pai a soluçar,

Entre escravos e vizinhos,

- e não soube nada mais.

Se voasse o meu lencinho,

Grosso de sonho e de sal,

E pousasse na varanda,

E começasse a contar

Que morri por culpa do ouro

- que era de ouro esse punhal

que me enterrou pelas costas

a dura mão de meu pai –

sabe Deus se choraria

quem o pudesse escutar,

- se voasse meu lencinho

e se pudesse falar,

como fala o periquito

e voa o pombo torcaz...

Reclinei minha cabeça

Em bacia de coral.

Já me esqueci do meu nome,

Por mais que o queira lembrar!

Foi pelo mês de dezembro,

Pelo tempo do Natal.

Tudo tão longe, tão longe,

Que não se pode encontrar.

Mas eu vagueio sozinha,

Pela sombra do quintal,

E penso no meu triste corpo,

Que não posso levantar,

E procuro meu lencinho,

Que não sei por onde está,

E relembro uma varanda

Que havia neste lugar...

Ai, minas de Vila Rica,

Santa Virgem do Pilar!

Dizem que eram minas de ouro...

- para mim, de rosalgar,

para mim, donzela morta

pelo orgulho de meu pai.

(Ai, pobre mão de loucura,

que mataste por amar!)

Reparai nesta ferida

Que me fez o seu punhal:

Gume de ouro, punho de ouro,

Ninguém o pode arrancar!

Há quanto tempo estou morta!

E continuo a penar.

Cecília Meireles, O Romanceiro da Inconfidência, página 50; 19ª impressão

2 comentários:

Carlos Emerson Jr. disse...

E depois de Cecília Meirelles, aproveito para desejar um Feliz Natal para você e todos os seus.
Um abraço.

andre wernner disse...

Caro CostaJr.
Desejo a você e seus familiares um Feliz Natal de muita confraternização, amor e paz e que o próximo ano seja de muitas realizações e prosperidade.
Abs