04 novembro, 2007

Como essa revista faz falta.


Julho de 2001. Eu estava de passagem por Brasília, quando, no supermercado Extra, no final da Asa Norte, deparei-me com uma capa de revista que me chamou atenção. Nela, uma menina pobre, brincava com uma boneca. A Revista se chamava República. Depois de comprá-la, ainda que de início eu rejeitasse muitas de suas idéias - porque existia em meu cerébro o tumor maligno da esquerda - fui agrilhoado pelo estilo elegante, a narrativa lógica e o argumento consistente dos jornalistas que escreviam as matérias.

Alguns meses depois, a revista mudou de nome, passando a chamar-se Primeira Leitura. Seus editores eram os jornalistas Rui Nogueira e Reinaldo Azevedo. Por essa época eu já era assinante. Foi com muita tristeza que recebi de Primeira Leitura um comunicado explicando o fim da revista. Na correspondência, havia um lembrete para que os assinantes entrassem em contato com a área comercial para receber de volta o dinheiro das edições que deveriam chegar, mas que pelo fechamento da revista, não chegariam. Nunca liguei. Aquele dinheiro não me faria falta, Primeira Leitura, sim.

Tivesse eu dinheiro, muito mesmo, assumiria o controle da revista e diria para os jornalistas: vem cá! Continuem a fazer o trabalho de vocês. Há muito precisávamos de uma revista assim. Mas eu não tinha - nem tenho - dinheiro. A Revista acabou, e as pessoas lúcidas desse país, ficaram órfãs de um jornalismo que tinha lado, que não se pretendia imparcial, mas que fazia tudo com muita seriedade e impressionante poder de análise.

As Virtudes

As virtudes da revista não eram poucas. A maior delas, com certeza, era a capacidade de antecipar diagnósticos econômicos, políticos e sociais. Outra importante virtude era a maneira como a Língua Portuguesa era tratada. Foi lendo os artigos e as matérias que senti a premente necessidade de aperfeiçoar minha gramática e dar uma lapidada no meu estilo. Se hoje escrevo um blog, se batalho contra as forças das trevas que odeiam minha fixação na gramática, se procuro aperfeiçoar meu estilo, foi por causa dessa revista e do jornalista Reinaldo Azevedo.
Finalmente, outra virtude da revista, era as resenhas de livros. Hugo Estenssoro e outros, traziam luz à obras lançadas na Europa, Estados Unidos e Brasil; sempre nos enriquecendo com suas considerações .

Hoje, no blog do Reinaldo Azevedo, há uma capa da antiga Primeira Leitura. Essa capa - reproduzida no início do post - lembro bem, incomodou muito jornalista e muito esquerdista de miolo mole. Abaixo, leiam o que está escrito no blog do Reinaldo Azevedo e confiram por que, 3 anos depois, com o fim de Primeira Leitura, nosso mercado de revistas ficou mais pobre. Não fosse a Veja...

Abaixo, o post reproduzido na íntegra, do blog do Reinaldo Azevedo.



A Folha traz hoje reportagens sobre a diminuição da massa de manobra do MST. Assim resumo eu. O jornal é mais pudoroso do que isso. A razão principal que estaria na origem dessa desmobilização é o Bolsa Família. A síntese: com alguma graninha na mão, muitos desistem de invadir. Falarei mais dessas reportagens e debaterei o mérito no post logo abaixo deste. Mas, antes, quero fazer um pouco de história.

A história
Em agosto de 2003, a extinta revista Primeira Leitura publicou, conforme se vê acima, aquela que foi a sua capa mais polêmica: “Os sem-terra não existem”, rezava o título, ao lado de um João Pedro Stedile que discursava, inflamado. A acusação era óbvia, como podem imaginar: “São uns reacionários”. Nem diga... O nosso reacionarismo já ficava claro no subtítulo da capa — ou “olho”, conforme se diz no jargão jornalístico. Leiam: “Stedile é o líder de uma causa tão influente quanto inexistente. A agricultura brasileira é um sucesso, e o país tem de dar resposta aos sem-emprego e sem-renda. Isso, sim, define um governo progressista. O resto é desgoverno e leniência com o crime”.

O que a reportagem da revista demonstrava com números é o que vai explicitado na capa. O país crescia pouco e mal. E tratava como questão agrária o que era, na verdade, uma equação derivada do baixo crescimento. Pra quê!!! Os sites e veículos de esquerda babaram a sua fúria. Carta Capital não teve dúvida. Escreveu a revista quase clandestina, condição que preserva ainda hoje, naquele estilo cheio de pesto genovês:

“A novilíngua de George Orwell definiu a impessoa , declarada inexistente por contrariar a linha do partido, mas não a incausa e o improblema. Essas são criações da revista Primeira Leitura.
Dizer que o MST defende uma solução equivocada, ou que sua causa não justifica os métodos a que recorre, seria uma posição racional, ainda que conservadora. Mas o articulista defende algo muito mais radical: os sem-terra não existem.
(...)
Mas a forma do raciocínio se pretende lógica. Os sem-terra não existem porque sua motivação é inexistente, decreta-se. Inexistente porque impossível concretizá-la. Pois não há terras improdutivas a distribuir. Não as há, porque a agricultura brasileira é um sucesso. É um sucesso porque a produção e exportação de grãos cresceram. Em resumo: se o latifúndio vai bem, o sem-terra não existe. (...) Dá para ouvir Wittgenstein se debater no túmulo.”

A reportagem de Primeira Leitura não dizia que os “verdadeiros sem-terra” era os assentados por FHC. Isso e uma das invenções de Carta Capital. Ao contrário. Também não eram. Respondi, é claro. Pedi a Mino Carta que marcasse hora e local para um debate público sobre a obra de Wittgenstein. Ele não aceitou. Um estafeta seu respondeu que eu estava em “busca de um banquinho” para aparecer. Diante de argumentação tão consistente, restou-me treplicar o óbvio: a quem se oferece, por gentileza, um banquinho? A quem mede 1m85 ou a quem mede 1m50? É claro que altura não é argumento — desde que o oponente não ponha um banquinho na equação.

De volta
Faço essa pequena arqueologia para que vocês vejam a força que o velho e as idéias mortas ainda têm no Brasil. Qualquer alfabetizado que lesse a reportagem perceberia o óbvio: a revista não estava negando a existência dos acampados do MST. Ora, é claro que eles existiam e existem. A questão era e é saber se são mesmo sem-terra. Não são. A maioria dos “militantes políticos” de Stedile é formada por trabalhadores urbanos que exerciam alguma forma de subemprego ou trabalho informal. Não saberiam distinguir um pé de melancia de um de abóbora.

Nota: tão logo os "sem-terra" passem a integrar um acampamento, ficam impedidos de ter qualquer atividade remunerada. Sim, vocês leram certo: o sujeito fica obrigado a viver segundo as condições e as leis dos acampamentos, que passa a prover a gororoba para que ele seja um “sem-terra” de carteirinha.

As reportagens da Folha de hoje voltam a provar a capa de Primeira Leitura de agosto de 2003. Os sem-terra não existem. Estamos tratando como questão agrária gente que tem problema de emprego e de renda.

3 comentários:

João Batista disse...

Eu liguei uma vez, mas não insisti. PL era a melhor revista brasileira e uma grande revista mesmo para os padrões internacionais. Uma espécie de http://www.americanthinker.com/ com um tanto de www.frontpagemag.com.

Marcos disse...

Eu não sou um cara perseverante. depois de levar bordoada de gente de esquerda, de direita e de centro, cheguei à conclusão que ideologias emburrecem. Lógico que não sou anarquista, essa é outra ideologia, das mais idiotas, diga-se de passagem. Cheguei à posição de que quero que "seja feito" e bem feito. Não importa quem vai fazer, se Lula ou Rsputin, se Borrnhausen ou Heloisa Helena, poco se me dá. O que me dá nos nervos é ninguém fazendo absolutamente qualquer coisa de útil proveitosa, projetada para o crescimento e para o futuro.

Blogildo disse...

Era um revista e tanto. Infelizmente só a conheci em 2005. Adorava os textos do Hugo Estenssoro. Até hoje releio algumas resenhas de livros e entrevistas das poucas revistas que ainda tenho.

Estamos órfãos de uma revista de qualidade! A Veja não dá pro gasto!