30 novembro, 2007

Brasil, modelo para a África do Sul

Amanhã é 1 de dezembro, dia das pessoas lembrarem que devem combater a Aids. Por aqui, criou-se um falso consenso, mais um, de que o Brasil é referência e modelo no combate à doença. Aí a Folha de São Paulo foi entrevistar um dos descobridores do vírus HIV, o norte-americano Robert Gallo. O cientista, bastante virulento, foi logo mostrando para o repórter da Folha que seu método, que mesclava ufanismo chinfrim com embuste puro e simples, não ia funcionar com ele. Alguém pode dizer que o cientista foi mal educado. Pode ser... mas ninguém pode negar que, com ou sem grosseria, ele está certo. Não vou publicar toda a entrevista, está na Folha On Line. Teço alguns comentários, em azul.

Folha Online - O programa brasileiro de combate à Aids é visto como um modelo nessa área...

Robert Gallo - Não fique tão orgulhoso. Vocês não são um modelo.

Confesso que ri. Difícil ser mais preciso e objetivo.

Folha Online - Por quê?

Gallo - O que vocês estão liderando, que caminho estão apontando? O Brasil trata seu povo, assim como os Estados Unidos. Qual é o modelo? Modelo para quem? Eu não entendo...

O espaço está aberto para quem quiser refutar o cientista.

Folha Online - Talvez porque o tratamento é gratuito e atinge um grande número de pessoas, além de a epidemia estar razoavelmente controlada aqui.

Gallo - Todos são tratados na Suíça, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra, no Canadá. Por que vocês seriam um modelo?

O repórter ignora que nos países acima, o tratamento também é gratuito. O repórter esconde números recentes que indicam que a AIDS tem crescido entre os jovens, sobretudo, as meninas.

Só um lembrete para o caso de algum bocó dá uma patriotada idiota. Em novembro de 2006 - portanto, há um ano - o Governo Federal recomendou à secretaria de Saúde de Pernambuco que escolhesse qual criança portadora do HIV iria receber a imunoglobulina, medicação indispensável para elas, uma vez que a doença enfraquece o sistema imunológico. Eis o nosso modelo, na Era Lula, de combate e no tratamento da AIDS.

Folha Online - Então o senhor não concorda com isso?

Gallo - A realidade é o seguinte: quando você diz que é um modelo, está implícito que todo mundo deve seguir você. Mas a maioria dos países já faz isso [tratar gratuitamente os pacientes com Aids]. Apenas países que são muito, muito pobres não fazem isso. Vocês são modelos para quem? Se você quer saber se o Brasil está fazendo um bom trabalho com respeito ao tratamento contra a Aids, eu digo que sim. E isso é ótimo, maravilhoso. Mas se você diz que o Brasil é um modelo, isso significa que vocês são uma lição para mim. Por que vocês seriam uma referência para mim? Talvez sejam um modelo para a África do Sul, para alguns países, mas não para o mundo inteiro, já que a maioria dos países realmente trata seus pacientes com Aids.

Aqui, o cientista explica ao repórter porque o termo modelo, referência, é inadequado. Nossos jornalistas precisam mesmo dessas aulas.

Folha Online - Quando esteve no Brasil há dois anos, o senhor criticou o programa brasileiro de combate à Aids, principalmente a questão da quebra das patentes dos remédios do coquetel. O senhor ainda é contra a produção de genéricos?

Aqui, o entrevistado desmente o repórter. Só faltou dizer: “você mente, rapaz!”

Gallo - Isso é um exagero. Eu não critiquei o programa brasileiro contra Aids. Não foi o que eu disse. Eu não sou contra os genéricos. Coloque a coisa dessa forma: se o governo achar que eles [a indústria farmacêutica] estão cobrando muito dinheiro [pelos remédios], o Brasil deve brigar. Lutar até onde puder, se tiver certeza que os preços estão muito altos. Eu concordo com isso. Mas aí surge uma questão: se eles baixarem os preços demais, e você continuar brigando, isso pode gerar mais problemas. Os laboratórios se desinteressariam pela Aids, ou pelo Brasil, e iriam embora. Eu falei --e falo-- nisso como uma possibilidade.

No país do PT e de outras doenças da estirpe, um laboratório que gasta bilhões de dólares em pesquisa para produzir uma medicação, não pode ganhar dinheiro. Tem que fazer caridade. O que eles podem, no máximo, talvez seja doar para as campanhas do PT.

Folha Online - Então o senhor concorda com o modelo dos genéricos?

Gallo - As empresas farmacêuticas concordam com esse modelo e nem reclamam muito do uso dos genéricos. Tem funcionado bem. Eu alerto apenas para duas coisas: se você usa os genéricos por muito tempo, alguns podem ficar não tão bons quanto à droga original, porque quem os produz pode não fazê-lo com a mesma qualidade. Além disso, se você não trabalhar com os genéricos de um modo com que as indústrias de remédios concordem, elas podem ir embora [do país]. Aí o governo pode dizer: "Está tudo certo porque eu tenho o genérico". Mas, e quando você precisar de uma nova droga? Isso não é a minha posição. É apenas uma possibilidade que eu levanto.

Ninguém fala isso, não é? Ninguém se dá conta de que o uso do genérico implica riscos, principalmente na qualidade. A grande função dos genéricos com seu baixo custo, é puxar os preços para baixo, não necessariamente substituir a droga original.

6 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Eu li e ia escrever sobre isso mas vou linkar o teu post.

http://adaobraga.wordpress.com disse...

Se um dia eu contrair AIDS, fico sem tomar qualquer remédio do tipo. Não creio nestas informações, principalmente do Bob Gallo!!!

Thiago disse...

O jornalista pode ter sido uma anta, e as observações de Gallo são pertinentes. No entanto, eu não acredito que ele tenha lá muita propriedade.

De fato o Gallo é acusado de roubar o trabalho do colega e certamente esta amarrado com indústrias farmacêuticas.

Basta observar as duas últimas respostas, na penúltima ele diz que não tem vínculo com nenhuma indústria farmacêutica. mas na última escorrega e solta que uma delas patrocina suas pesquisas.

Em todo caso, segundo a maioria dos meus amigos médicos, o tratamento contra a AIDS no Brasil é um dos melhores no mundo (mas eu concordo, nada de ser exemplar).

Thiago
www.polegaropositor.com.br

Costajr disse...

Adão, seu comentário é esquisito. Você so contrairá a doença se tiver o comportamento um de risco. Caso isso aconteça, embora não sejamos um modelo, você será bem orientadoe tratado, isto é, caso o PT saida do poder, porque com essa corja, meu amigo...

A voz sempre ponderada do Tiago. Robett Gallo reconhece o bom trabalho do Brasil na área, podia ser melhor, eu sei, mas não é ruim. Ele rejeita é essa cretinice de modelo,referência. Além do mais, que mal há em ser financiado por um laboratório? Não vejo isso como um problema. Você como profissional da área, pode me ajudar numa dúvida. A crítica que ele fz aos genéricos, procede? É científica?

Voltem sempre.

Cássia Valéria disse...

Esse post deixa claro o que brasileiros que tenham o minímo de raciocínio já sabem.
O Brasil modelo de algo, em especial se tratando de saúde é um conto para amenizar e desviar a atenção do povo para o que realmente ocorre.
Creio que temos um bom tratamento nesse caso, mas longe de ser modelo.
Mas confesso que me assustei aqui lendo um comentário, no dia de luta contra a AIDS e depois de tantos anos ler alguém dizer "Se um dia eu contrair AIDS..."... Meu Deus mas está claro que há como evitar, não que isso não ocorra em alguma situação ímpar mas todos sabemos como evitar, se contrarir será conscientemente e isso é um absurdo.
Enfim, muito bom seu post!
Abraços,
Val

andre wernner disse...

O Gallo não é fraco, hein?
Desmontou os argumentos do repórter e colocou tudo em pratos limpos, sem muita ternura com os governantes da bazófia, não?
Abs