09 outubro, 2007

As características de um esquerdista.

O que torna um esquerdista peculiar? A ignorância? A arrogância? A estupidez? Não. Embora a maioria dos esquerdistas sejam mesmo estúpidos, arrogantes e ignorantes. O que caracteriza, de fato, um esquerdista, é a sua disciplina partidária e ideológica. Peguemos um exemplo: a maioria dos brasileiros, segundo várias pesquisas, é contrária ao aborto. É bem possível que um militante de esquerda até possa, pessoalmente, no campo individual, também ser contra a interrupção provocada da gravidez, mas se o partido, se as direções partidárias, impuserem, que descriminalizar o aborto é ser progressista, é não compactuar com a sociedade burguesa e reacionária, nosso pobre militante sufoca suas convicções pessoais e passa a defender o aborto, ou então, a silenciar sobre ele. Portanto, classifico um esquerdista como aquele que considera que tudo é permitido, a saber, matar, roubar, mentir, enganar, locupletar e distorcer a verdade, desde que se alcance um fim que eles considerem nobre, como de uma sociedade justa, sem classes, e claro, sem capitalismo. Todos os governos de esquerda que buscaram esse projeto, transformaram-se em ditaduras ferozes, eliminando o indíviduo que passou a ser um - mais um - na coletividade. Em todos esses países, a economia foi um fiasco, e a China e o Vietnã, que ainda são ditaduras comunistas, só não ajoelharam, porque se renderam aos encantos da economia de mercado. Tivessem mantido a ideologia no campo da economia, hoje estariam como Cuba e Coréia do Norte.

Todo esse intróito tem uma razão. Muitos que hoje defendem as cotas nas universidades, não o fazem por convicção pessoal, mas por disciplina partidária. Muito colegas que defendem essa medida, alguns de pele preta, outros de pele branca e outros que são classificados como pardos, reconhecem que as cotas não são a melhor saída, que as cotas só irão beneficiar, entre os que se consideram negros, os mais afortunados, enfim, que o negro pobre continuará na mesma situação de antes. Muitos afirmam que embora o racismo exista no Brasil, e existe mesmo, o brasileiro repudia esse sentimento, isto é, ser racista não é traço de nossa identidade, tanto que muitos escondem o racismo porque sabem que será censurado pela maioria. Ora, se a média dos brasileiros não é racista, se as cotas não resolvem o problema do negro pobre, por que essa gente ainda defende as cotas? Por disciplina partidária e cegueira ideológica.

As cotas, onde quer que elas tenham sido introduzidas, não resolveram o problema, pior, agravaram. As cotas não promoveram em lugar nenhum uma aproximação entre grupos, antes, distanciaram-nos ainda mais. No Brasil, onde não existe guetos que levem em conta a cor da pele, as cotas podem produzir algo que não temos: a divisão da sociedade por cor da pele. Um absurdo! Perderemos esse ativo, deixaremos de nos orgulhar de nossa miscigenação, caso único no mundo, para aderir, segundo a expressão de Demétrio Magnoli, a uma engrenagem racista que quer fabricar raças no Brasil. Você leitor, consulte uma daquelas fotos de família, que tem pai, mãe, avô, primo, tio, tia, enfim, todo mundo e constate que na foto haverá diversos matizes de cor da pele. Este é o Brasil miscigenado, que os fabricantes de raça na UNB e em outras universidades, querem criar.

O artigo que reproduzo abaixo, publicado no jornal O Globo em 4 de outubro de 2007, escrito por Demétrio Magnoli, é importantíssimo para aqueles que combatem essa parvoíce do sistema de cotas. Também serviria para aqueles que defendem as cotas, revissem suas posições, caso não fossem tão disciplinados e ideologicamente fanáticos.


A nação é um plebiscito cotidiano. (Ernest Renan, 1823-1892)

Rita de Cássia Camisolão, coordenadora do Programa de Educação Anti-racista da UFRGS, que utilizará pela primeira vez um sistema de cotas no seu vestibular, reuniu-se com estudantes de escolas públicas para prestar esclarecimentos sobre as regras do sistema. Confrontada com a questão de saber como devem proceder os jovens com "fenótipo pardo" mas certidões de nascimento que os identificam como "brancos", fulminou: "O documento comprobatório da opção do cotista é a autodeclaração, não a certidão. O que importa é a aparência."

Está claro? Mais ou menos, pois nada é o que parece quando se trata de atribuir rótulos raciais às pessoas. Na UnB, também é a "aparência" que importa ? mas uma aparência interpretada por acadêmicos e militantes de movimentos negros, congregados em tribunais raciais que até há pouco se dedicavam à análise de fotografias dos candidatos mas agora preferem apenas submetê-los a "entrevistas identitárias". Na UFRGS, ao contrário, a aparência do candidato é definida pelo próprio candidato, o que implica uma "fluidez racial" muito maior: "negros" da UFRGS podem bem ser "brancos" da UnB.

Na UFRGS, separaram-se 30% das vagas para egressos de escolas públicas, sendo metade delas reservadas para "negros". Segundo o IBGE, 7% dos habitantes do Rio Grande do Sul são "pardos" e 4% são "pretos" - ou seja, na novilíngua da moda, os "afrodescendentes" representam 11% da população do estado. Eis o motivo pelo qual a UFRGS optou pela "fluidez racial": os fanáticos da raça pretendem "retificar" o perfil demográfico rio-grandense, fabricando "afrodescendentes". Pode-se apostar sem risco na expansão da parcela de "pardos" e "pretos" nos próximos censos, especialmente entre jovens em idade pré-universitária.

Raças humanas não existem, a não ser como "uma das formas de identificar as pessoas em nossa própria mente" (Thomas Sowell). Sem a intervenção do Estado, os brasileiros tendem a borrar o conceito de raça, tanto na prática da mestiçagem quanto no imaginário da identidade, o que se verifica pela expansão estatística dos "pardos" (de 21% em 1940 para 43% em 2006) e pela retração dos "brancos" (63% para 49%) e dos "pretos" (15% para 7%). Os nossos fanáticos da raça projetam reverter essa tendência e fabricar um país polarizado entre "brancos" e "afrodescendentes".

Produzir a bipartição racial da nação - essa é a função das cotas raciais. Seus promotores a ocultam sob o pretexto de promoção da inclusão social, mas não têm interesse em políticas de qualificação do ensino público e repudiam os estímulos ao ingresso de alunos de escolas públicas, sem distinção de cor, oferecidos em algumas universidades.

Na UnB, dínamo principal da fábrica das raças, o sentido das coisas é cada vez mais evidente. Diante da desmoralização do método fotográfico de certificação racial, a reitoria decidiu investir todas as fichas nas entrevistas. O método equivale a um tribunal racial político e psicológico. A comissão de entrevistadores se compõe de professores e representantes de movimentos negros. As perguntas abrangem temas como a percepção de discriminação do candidato e suas relações com o movimento negro. A "negritude" passa a ser definida pelo potencial de alinhamento ideológico do jovem estudante com o programa racialista dos donos das chaves de entrada na universidade.

No limiar das universidades, a mestiçagem dos brasileiros pode ser abolida pelas regras dos fabricantes de raças. Mas como fazê-lo na escala da nação? O IBGE anuncia um experimento de campo para a introdução de uma "nova classificação de cor" nos censos. Aventa-se incluir uma variável de "origem étnica" nos questionários - algo estranho quando os geneticistas já mapearam a ancestralidade genética da população. A finalidade é fazer surgir, magicamente, uma nação repartida em "brancos" e "afrodescendentes". O mágico é José Luís Petruccelli, responsável pelo experimento, que abriu o jogo: "Nós não vamos direto ao assunto, como era feito: vai ter uma introdução." Petruccelli é um intelectual engajado na fabricação de raças. Seus pesquisadores saberão persuadir os entrevistados a formular respostas adaptadas ao dogma oficial.

Todos os dias a nação se refaz pela decisão tácita de cada indivíduo de continuar a viver sob o princípio da igualdade política e jurídica inscrito no pacto republicano. A fábrica das raças e do racismo oferece a proposta de se responder "não" a esse "plebiscito cotidiano". Seus gerentes estão dizendo que há duas nações no Brasil - e que, no lugar do princípio da igualdade, podemos, no máximo, conviver sob um frágil arranjo diplomático de distribuição de benesses e privilégios entre "nações étnicas" separadas pelo abismo da cultura.

(O Globo, 04 de outubro de 2007)



2 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Definiu muito bem.

PATRICIA M. disse...

Ja disse, o Brasil gosta de repetir experiencias fracassadas em outros paises. Adoram copiar tudo de ruim, o que eh bom nao se copia. A gente tem a ideia ridicula de que "conosco sera diferente, dara certo".

Da proxima vez eu for ao Brasil ja desembarcarei com uma camiseta com os dizeres "100% branca", so para provocar. Vamos ver a reacao da populacao...