12 setembro, 2007

A vitória dos ímpios, mais uma vez.

Foi no Natal de 1823, que, na então província de Pernambuco, um frade carmelita criava o seu jornal para denunciar as práticas autoritárias e absolutistas de D Pedro I. O religioso se chamava Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, seu jornal, O Tiphis Pernambucano. Pois bem, nesse número de estréia, escrevia o famoso padre liberal:

"Quando a nau da pátria se acha combatida por ventos embravecidos; quando, pelo furor das ondas, ela ora se sobe as nuvens, ora se submerge nos abismos; quando, levada do furor dos euripos, feita o ludíbrio dos mares, ela ameaça naufrágio e morte, todo cidadão é marinheiro ..."

Frei Caneca é de um tempo que não volta mais. Nesse tempo, padre revolucionário era liberal. Nesse tempo, a clareza e a sofisticação dos discursos eram marcas de distinção. Nesse tempo, violência institucional era não respeitar os trâmites legais. No semanário, Frei Caneca era duro com o "grupo português", que na época, era bastante combatido pelos brasileros que assumiam uma postura claramente anti-lusitana. Criticava o governo não pela corrupção ou pusilanimidade, mas pelo absolutismo, e, segundo o padre, pela incompetência e ardilosidade do grupo português que o imperador deixava mais junto de si, nas questões de estado.

Em 12 de novembro de 1823, a Assembléia Constituinte, reunida no Rio de Janeiro, foi cercada pelas forças militares a mando de D Pedro I. Acuados, os deputados resistiram em sessão permanente, por uma noite - A Noite da Agonia - mas no fim, prevaleceu o argumento das armas e dos canhões. Desiludidos, os parlamentares foram saindo um a um. Consta-se que Antônio Carlos Andrada, irmão de José Bonifácio, fez um gesto simbólico ao deixar o prédio da Assembléia. Na frente dos canhões, curvou-se, retirou o chapéu, e disse: "respeito muito o vosso poder".

No passado remoto ou mesmo recente, falo especificamente de 1968 e do caso Márcio Moreira Alves, nosso Parlamento foi aviltado pela força. Hoje, em tempos de Lula e do PT, foi o próprio poder legislativo que se aviltou. A absolvição de Renan Calheiros foi mais um escárnio da classe política. Foi uma vergonha.

Os 6 covardes

O que mais me deixou indignado, foram as seis abstenções na votação. Pior que votar pela absolvição, foi ficar em cima do muro. Seis senadores ou senadoras acovardaram-se. Mesmo diante do sigilo do voto, optaram por não se comprometer. Foram mais canalhas que Renan. Sabem, esses seis covardes, que ao se absterem, ajudaram o senador a se safar. Se não votaram pela absolvição, ajudaram, pela covardia, a absolver. Quem foram esses seis? Quero muito saber.

Vou terminar esse post com outro gigante do século XIX, o poeta Castro Alves. Em A mãe do cativo, ele aconselha uma escrava que cuidava do filho, a ensinar outros valores ao pequeno. Talvez eu deva, para o bem do pequeno e bravo Estêvão, ensinar os mesmos conselhos do poeta baiano.

A mãe do cativo.

Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.


Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.


Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...


E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr'ança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...



II


Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.


Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.


Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.


Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.


Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.


Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.


Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...


São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.



III


Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.

5 comentários:

Saramar disse...

Meu amigo, você nos lembra bons tempos, em que a luta não se referia à miserável covardia dos homens e sim, às suas crenças políticas.
Voc~e nos faz lembrar do tempo em que o congresso brasileiro, em especial o senado, de acordo com sua destinação, afrontava a desídia e seus promotores.

O contraste é tão violento, que chega a desequilibrar, provocando os "instintos mais primitivos", como disse o tal Roberto Jefferson (que ironia este ser usado para falar de ética).

De que valeu a luta de nossos antepassados para criar os fundamentos de um país, se este hoje está imergindo no pântano vergonhoso da hipocrisia?

Perfeita a sua reflexão, pelo que tem de ensinamento e resgate dos HOMENS de antes, que hoje não mais são vistos.

Irei recomendar a leitura no meu próximo post.

beijos, também para o pequenino Estêvão.

Ricardo Rayol disse...

Realmente está perfeito. No caso agora vou aprender direitinho como se rouba e se faz conluio e ligar o foda-se.

Cejunior disse...

Concordo com a Saramar e infelizmente passo a achar que o Rayol está certo!
Agora no Brasil vai ser assim: salve-se quem puder!

Suzy disse...

Zé Paulo, você simplesmente detonou...he...não seria bem o termo mais apropriado porque na verdade, conseguiram detonar o senado, rasgando a Constituição, uma das etapas para a tomada do poder a la gramsci. E este sim é o perigo maior: Berzoine já propôs acabar com o senado no último congresso do PT. Já pensou somar a insatisfação popular (mais do que justa) com a vergonhosa absolvição do Renan à um plebiscito para acabar com aquela casa legislativa?
Estamos vivendo tempos sombrios onde os ímpios (como você muito bem os classifica) se safam e cravam uma faca no peito da Pátria...se é que ainda temos uma.
Gostei tanto do seu artigo que linkei lá no meu blog.
Um grande abraço

Anônimo disse...

Cézar Henrique, disse:

Zé Paulo, fantástico o teu artigo... definiu bem a covardia que impera em nossa PÁTRIA... o trecho os 6 COVARDES é insuperável.....tanto que tomei a liberdade de trasncreve-lo no Blog da União Democrática Republicana, com o devido crédito...

Cézar Henrique