21 setembro, 2007

A primavera

Asher Durand, Early Morning at Cold Spring, pormenor, 1850


Hoje é dia da árvore e no fim de semana mudará a estação. Aqui, no centro-oeste, o que temos é um tempo seco que faz os olhos arderem, o lábios racharem e a garganta doer. Não tenho a menor idéia sobre o que escrever, e sem idéia, recorro a um clássico de Vivaldi. Para não ficar só na música, posto também um dos mais belos poemas de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro.




Quando vier a primavera


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

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