16 setembro, 2007

Ligações indiscretas.

A aposta de Renan, à primeira vista, parecia segura. Contava com o esmorecimento das denúncias e com o corporativismo da casa. O corporativismo se confirmou, mas o esmorecimento das denúncias, não. A situação de Renan só está no nível atual, por causa da imprensa, e vale dizer de forma clara: por causa do jornalismo de Veja e da TV Globo.

O trecho acima foi escrito no dia 09 de agosto, e já o citei no post Confesso que errei. Retomo-o agora para algumas observações adicionais.

Segundo a matéria de Veja desta semana e reportagem do Estadão deste domingo, não foram os temores - ou apenas eles - que explicaram porque alguns senadores, a despeito das provas cabais de quebra de decoro por parte de Renan, decidiram afrontar a opinião pública e protagonizar o mais vergonhoso espetáculo do legislativo em todos os tempos. Os senadores deviam favores a Renan. De um bom apartamento funcional, passando pela indicação política de algum parente - filho, sobrinho, mulher, - até a liberação de viagens ao exterior com tudo pago pelos nossos impostos, com "alguém muito especial", muitos senadores eram por assim dizer, agradecidos ao presidente do senado. Esses pequenos favores, que Renan soube cobrar com estilo, ajudaram o presidente do senado na absolvição. Além disso, a oferta de um tal Gilberto Miranda, literalmente, comprou a consciência de outros tantos senadores, que nem cobrariam, mas já que ofereceram, pegaram.

O corporativismo falou mais alto que o clamor da opinião pública por mais decência. Mais influente que o corporativismo, foram as revelações que Renan poderia fazer, caso perdesse o mandato e os direitos políticos; e para fechar o pacote, o incentivo de Gilberto Miranda amoleceu senadores de corações duros e bolsos sensíveis.

A razão para esse post vem agora: por que quem mais se felicitou com a absolvição de Renan foram a petralhada e um certo grupo de jornatralhas que, na arena dos próprios ressentimentos, estão mais preocupados em combater a Veja e a Globo, do que defender o decoro dos homens públicos?

Quando escrevi que o jornalismo de Veja e da TV Globo não deixaram as denúncias contra Renan caírem no esquecimento, essa percepção também foi da militância petista e dos jornalistas alinhados com o PT. Para mim, a gênese da tese de que a absolvição de Renan foi uma derrota da "Mídia", está no fato de os seus defensores serem gente que sempre nutriram um ódio mortal, quase espiritual, contra Veja e a TV Globo. Espíritos de porcos que são, para eles o que interessa é a desqualificação dos concorrentes ou dos adversários, mesmo a custo da defesa da absolvição de uma pessoa como Renan Calheiros. O tempo vai dizer quem é quem nesse imbróglio.

Renan diz que não se afastará da presidência. Viajou com a família. Lula diz que se Renan ligar, irá recebê-lo, como sempre fez. Os petistas que se abstiveram ou que votaram contra a cassação, cobram nos bastidores que Renan se afaste, pelo menos até a aprovação da CPMF. O novo capítulo dessa novela abjeta é saber se Renan some por uns tempos ou se permance no centro do furacão.

Uma última pergunta: será que se José Dirceu ligar para Lula, ele o recebe? Afinal, o chefe da quadrilha do Mensalão não declarou à revista Playboy que um telefone seu para o Planalto, modéstia à parte, era um telefonema?

Um comentário:

Blogildo disse...

Era "um telefonema", ou "O telefonema"?