06 setembro, 2007

Independência ou Morte, e muita sorte.

A imagem acima talvez seja da iconografia histórica brasileira, uma das mais conhecidas, ao lado do famoso quadro de Tiradentes esquartejado, ambos pintados por Pedro Américo. Boa parte dos brasileiros, mesmo sem muita instrução escolar, reconhece o quadro e, de pronto, são capazes de dizer que se trata do Grito do Ipiranga, da Independência do Brasil.

Todavia, o que pouca gente sabe, é que o quadro foi confecionado entre 1886 e 1888, na Europa, mais precisamente na Itália, e, ainda que pese a pesquisa histórica feita pelo artista, que chegou ao preciosismo de ouvir pessoas que participaram da cena, o pintor não se furtou de fazer a sua "leitura" pessoal do fato histórico.

A beleza altiva das montarias, as roupas de luxo, a topografia do lugar, a própria altivez do príncipe regente, D Pedro, tudo ficção; ou, se preferirem, uma glamourização do evento, que de resto, esteve longe de ser a cena plástica criada e imortalizada por Pedro Américo.

Seria pitoresco citar, por exemplo, que o príncipe acabara de sair do mato, como disse um aluno numa prova recente do 8° ano (antiga 7a série), levantando as calças, quando recebeu, em mãos, uma carta de José Bonifácio lhe pondo a par das últimas determinações das Cortes de Lisboa. Diante de um ultimato que as Cortes lhe impunha, D Pedro bradou o famoso independência ou morte.

Quero chamar atenção, contudo, para o personagem secundário da cena. Olhem lá, no canto inferior esquerdo, um tocador de bois, um popular, um excluído para utilizar uma expressão da moda, que pela cor da pele e pelas roupas, em tudo destoa da cena principal do quadro. Para mim, é neste personagem que está a genialidade de Pedro Américo. O "excluído" representa a forma como a população pobre recebeu a notícia da emancipação política do país: com espanto, sem entender direito o que estava acontecendo.

Pedro Américo fez uma espécie de "fotoshop" na cena do Grito, chegou a colocar a Guarda de Honra do imperador, regimento criado, é óbvio, após a emancipação; logo, não poderiam ter participado da cena. Porém, foi suficientemente didático, ali no canto inferior da tela, ao mostrar que a independência do Brasil foi conduzida pela elite brasileira.

Isso foi ruim? Para mim foi alvissareiro. Os grupos mais radicais, que defendiam entre outras coisas a participação popular de forma mais direta, inspiravam-se em modelos revolucionários que prometiam justiça e liberdade, mas que só produziram violência e morte. Não custa lembrar que um dos defensores mais ferrenhos de uma independência pela elite, foi José Bonifácio, que entre os seus projetos, constava a gradual abolição da escravidão no Brasil. Se o projeto vencedor foi mais conservador do que queria José Bonifácio, ao menos evitou os perigos da anarquia que os mais radicais, aqueles que queriam o povo no poder, procuravam.

Acreditem. Se no centro da cena estivesse o 'tocador de bois" e seus seguidores, manipulados pelos radicais, essa bagunça que chamamos de Brasil não existiria hoje, estaria repartido em diversas nações.

A unidade territorial do país não foi obra do acaso. Mantê-la foi sempre a principal preocupação da elite. Se, nas década de 1830, essa unidade não se rompeu, foi sobretudo pela ação enérgica de políticos conservadores, que enfrentando as rebeliões regenciais, evitaram a desintegração do território brasileiro.

Um comentário:

Ricardo Rayol disse...

nada como a análise sob o ponto de vista de um historiador.