23 setembro, 2007

Como nasceu Ideli ou pequena crônica de fim de noite.

Há certas narrativas que quando passam para a oralidade, perdem lá sua graça ou sua carga dramática, capazes de cativar o ouvinte. Por isso, para essas estórias, existe sempre a possibilidade de deixá-la registrada no papel ou num blogue.

Ideli sempre fora uma menina sem graça e chata. Ela era tão chata que - confessava quase sempre - nem ela mesma se agüentava. O leitor deve entender como essa criatura, apesar de muitos duvidarem de pertencer ao gênero Homo e a espécie sapiens sapiens, conseguia aterrorizar espíritos sensíveis e provocar em pessoas pouco pacientes os mais primitivos instintos humanos.

Ideli não era alta, embora estivesse longe de ser anã. Tinha, assim, uns 1,52 de altura, pesava 350 newtons , e trazia na pele umas calosidades típicas de baleia franca. Seus cabelos, ora lembravam palhas de aço, quando acordava de manhã cedo, ora lembrava uma cerca bem organizada, de arame farpado, quando saia para ir trabalhar. Ela, ciente da escassez de atributos físicos, não se pintava, o batom lhe causava bolhas nos lábios. Certa vez, quando amanheceu com a auto-estima estranhamente elevada, decidiu pintar os lábios, e por que estava feliz, não percebeu que seus lábios grossos, ficaram ainda mais horrendos, pintados de vermelho. Mal entrou no ônibus. O cobrador, por excesso de misticismo, deu um grito aterrador, imaginou está vendo um ectoplasma de um animal, todos se assustaram, inclusive Ideli. Quando ela se olhou no espelho, viu que seus lábios estavam pipocados, dir-se-ia que iriam cair a qualquer momento. Foi horrendo. Nesse dia, ela não foi trabalhar.

Apesar de sua proverbial feiúra, Ideli incomodava mais quando falava. Suportava-se, com prova de caridade cristã, aquele quadro de Dali, na mesa pequena da repartição; mas aquela voz esganiçada, que sempre estava brigando ao telefone, era tortura demais. Ideli sempre sofrera preconceito. Se você leitor, estiver aí, julgando-me mau por escrever essas coisas, é porque nunca viu, mas principalmente, nunca ouviu Ideli.

Nossa heroína entrou para o sindicato, no que foi estimulada por seus colegas de sala, era uma chance de vê-la longe dali. Além do mais, se patrão não tem medo de cara feia, era porque nunca antes tinha visto Ideli. Disciplinada, leu todos os livros da esquerda inteligente e honesta. Ou seja, nenhum. Seu grande exemplo, era um operário que morava em São Bernardo, que fazia o maior sucesso na mídia, e jactava-se de nunca ter lido um livro na vida. Esse era o herói de Ideli.

Sua carreira no sindicato foi meteórica. Muitos acreditam que o segredo de seu sucesso esteve no carisma e na voz, e para livrarem-se dela, fizeram ela chegar à CUT. Ideli podia ser feia, chata, de voz esganiçada, mas estava podendo e logo se lançaria na política. Mas isso, fica para uma outra vez.

4 comentários:

Ricardo Rayol disse...

ahahahahahaha genial

Fátima Abreu disse...

Muito bom! tem um link lá no meu O pensar, ok?

Alexandre Core disse...

Crueeeeel!
Dei boas risadas agora.
abrs,

Cejunior disse...

Gostei! E como será o fim dessa história ????